Gaza: Sob os escombros, a vida que um dia
pulsou
Em 6 de setembro, famílias em Gaza ficaram
diante de quase cem mortalhas.
Mesmo para os padrões de Gaza, era uma cena
difícil de assimilar.
Algumas das pessoas dentro daquelas mortalhas
haviam morrido quase três anos antes. Elas não chegaram a uma sepultura quando
morreram. Seus corpos e restos permaneceram sob as casas que desabaram sobre
elas, enquanto suas famílias permaneciam acima do solo, esperando.
Dezenas eram crianças.
Não sei se é possível imaginar plenamente o
que significa para uma mãe esperar anos para recuperar os restos mortais de seu
filho. Saber aproximadamente onde ele está. Talvez ficar perto das próprias
ruínas.
E ainda assim ser incapaz de chegar até ele.
Então, um dia, os escombros finalmente são
removidos.
A criança não volta como era. O que retorna
podem ser ossos, restos fragmentados ou roupas que ajudam uma família a
identificar quem foi encontrado.
Mas, finalmente, pode haver uma sepultura.
Algumas semanas atrás, quando escrevi sobre
uma Gaza que ainda esperava para enterrar seus mortos, a recuperação de 112
pessoas dos escombros do bairro de Sabra, na Cidade de Gaza, estava no centro
da história. Isso levantou uma pergunta que jamais deveria ter precisado ser
feita: como um ser humano pode permanecer sob as ruínas de sua própria casa
durante anos porque o equipamento necessário para alcançá-lo não está
disponível?
Hoje, a história já não é sobre 112 pessoas.
Até 8 de setembro de 2026, 827 corpos e
restos mortais humanos haviam sido recuperados debaixo dos escombros de Gaza
desde o anúncio do acordo de cessar-fogo, em outubro de 2025, segundo as
autoridades de saúde de Gaza.
Uso a palavra “anúncio” deliberadamente.
Os assassinatos não pararam.
Palestinos continuaram sendo mortos desde que
o acordo foi anunciado. Ataques aéreos, bombardeios e disparos continuaram. No
mesmo dia em que algumas famílias se preparavam para enterrar os restos de
pessoas mortas anos antes, outras famílias descobriam que seus próprios filhos
acabavam de ser mortos.
Essa talvez seja uma das imagens mais cruéis
de Gaza hoje:
enterrar os mortos de ontem enquanto recebem
novos mortos.
No entanto, nem mesmo 827 conta toda a
história.
Autoridades palestinas estimam que mais de
8.000 pessoas permanecem sob os escombros.
Depois do que veio à tona nas últimas
semanas, esse número já não pode ser descartado como uma abstração.
Quando equipes de resgate chegaram a um local
em Sabra, 112 pessoas foram retiradas.
Em outro edifício, mais restos mortais foram
encontrados.
No início de setembro, os restos mortais de
55 membros da família Malaka foram recuperados.
Então veio a visão de quase cem mortalhas.
Cada recuperação agora carrega um significado
que vai além da pessoa que foi encontrada.
Cada corpo retirado dos escombros também nos
diz que outros ainda não foram alcançados.
Por trás do número 827 havia pessoas com
nomes, casas e pertences comuns que suas famílias reconheceriam
instantaneamente: uma cama, uma bolsa, uma fotografia, uma peça de roupa, um
canto de um cômodo.
Por trás dos milhares que se acredita ainda
estarem lá estão milhares de famílias cujas histórias ainda não chegaram a um
desfecho.
O que torna isso ainda mais difícil de
compreender é que muitas famílias não estão procurando às cegas.
Uma mãe pode saber onde estava a casa de seu
filho.
Um pai pode saber o quarto.
Um vizinho pode saber exatamente quem estava
dentro quando o edifício desabou.
Mas entre saber e alcançar alguém pode haver
apenas alguns metros de concreto e aço retorcido.
Esses poucos metros podem exigir uma
escavadeira.
A ausência de uma escavadeira pode significar
mais um ano de espera.
É por isso que não consigo enxergar a falta
de equipamentos em Gaza apenas como uma questão logística.
Para uma família que espera por um filho ou
uma filha, maquinaria pesada não é simplesmente maquinaria.
É um caminho até uma sepultura.
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha
afirmou que milhares de famílias em Gaza ainda esperam notícias de parentes
desaparecidos, algumas há quase três anos. Algumas não sabem se a pessoa que
procuram está viva, detida ou morta sob os escombros.
E outra provação pode começar mesmo quando os
restos mortais são encontrados.
Anos sob concreto desabado alteram o que pode
ser recuperado. Às vezes, não há um corpo completo. Uma peça de roupa, um
objeto pessoal ou restos fragmentados podem se tornar o último meio pelo qual
uma família consegue devolver um nome a alguém que desapareceu.
Por essa razão, a remoção dos escombros de
Gaza não pode ser tratada simplesmente como a primeira fase da reconstrução.
Há mortos sob eles.
Há identidades sob eles.
Também pode haver evidências que não devem
desaparecer junto com os destroços.
Quando a campanha The Witness Stone – Let
Gaza Bury Its Dead foi lançada após a recuperação dos 112, pessoas de todo o
mundo foram convidadas a segurar uma pedra por 112 segundos.
À distância, uma pedra pode parecer um
símbolo simples.
Para mim, seu significado se tornou mais
claro a cada nova operação de recuperação.
Uma pedra é o que separa uma mãe de seu
filho.
Depois, outra pedra.
Então, um teto.
Depois, toneladas de concreto e aço.
E, entre eles, anos.
O apelo nunca teve a intenção de criar mais
um slogan sobre Gaza. A exigência era prática: maquinaria pesada, equipamentos
de busca e recuperação, proteção para as equipes de resgate e acesso aos locais
onde as vítimas permanecem enterradas, para que possam ser recuperadas e
devolvidas às suas famílias.
O que aconteceu desde então não tornou esse
apelo menos necessário.
Mostrou por que ele era necessário desde o
início.
Parte dos escombros já foi removida.
E os mortos saíram.
Essa é a evidência.
O mundo não pode devolver nenhum deles à
vida. Não pode devolver às suas famílias os anos que elas já passaram
esperando.
Mas pode impedir que três anos se transformem
em quatro ou cinco.
Pode ajudar a garantir que a maquinaria e os
equipamentos especializados necessários para a recuperação cheguem a Gaza. Pode
apoiar o trabalho meticuloso de localizar, documentar e identificar os restos
mortais. E pode insistir que a recuperação dos mortos não é algo a ser adiado
até depois da política ou da reconstrução.
Como uma cidade pode ser reconstruída
enquanto seu povo permanece enterrado sob suas fundações?
Há uma frase que repito desde o início desta
campanha, porque ainda acredito que ela contém todo o argumento:
A dignidade humana não termina com a morte.
827 corpos e restos mortais foram alcançados.
Acredita-se que milhares mais permaneçam sob
os escombros.
O mundo já não precisa imaginar o que há lá.
Nós vimos.
A pergunta agora é mais simples e mais
pesada:
Quantos anos mais uma mãe deveria ter de
esperar para recuperar seu filho?
Que Gaza encontre seus mortos.
Que as famílias possam se despedir.
Que Gaza enterre seus mortos.
¨
Israel ataca
sistematicamente palestinos e destrói condições de vida na Cisjordânia, diz
organização
Um
relatório apresentado pela organização israelense de direitos humanos B’Tselem
acusa Israel de promover “ataques sistemáticos e generalizados contra as
condições necessárias para a existência
coletiva dos palestinos na Cisjordânia”.
O
documento, intitulado “Projeto Eliminação” e divulgado em reportagem do diário
britânico The Guardian, afirma que as medidas adotadas nos últimos
meses pelo governo sionista encabeçado pelo premiê Benjamin Netanyahu “está
intensificando drasticamente seus ataques a todos os aspectos da vida dos
palestinos em seu território”.
O
relatório também descreve que as ações impulsionadas por Israel seguem “uma
lógica organizadora coerente”, envolvendo: medidas de intimidação à população
local, restrições de movimento de civis, estrangulamento econômico de negócios
locais, destruição das entidades de organização social e política, e,
finalmente, de ocupação dos territórios.
De
acordo com o documento, desde outubro de 2023 – ou seja, em paralelo ao
massacre também realizado por Israel contra o território palestino da Faixa de
Gaza –, 1.107 palestinos foram mortos pelas forças de Israel na Cisjordânia.
Ademais, as políticas implementadas por Tel Aviv estariam “criando uma
realidade na qual milhões de palestinos vivem em constante temor pela violência
militar e civil israelense”.
“As
comunidades palestinas estão sendo expulsas e eliminadas, em um processo
acelerado de limpeza étnica, enquanto uma presença israelense cada vez maior se
estabelece em seu lugar, na forma de assentamentos, postos avançados, fazendas
e infraestrutura civil exclusiva para judeus”, diz um trecho do documento
produzido pela B’Tselem.
A
organização também descreve as medidas como “o avanço mais abrangente das
políticas de opressão às populações palestinas residentes na Cisjordânia desde
1989”. O período mencionado inclui os últimos meses da Primeira Intifada,
revolta popular e massiva dos palestinos contra a ocupação israelense, que
durou entre dezembro de 1987 e julho de 1989, no qual 263 palestinos foram
mortos e 4.650 ficaram feridos apenas na Cisjordânia, segundo estatísticas de
organizações locais.
<><> Sanções do Reino Unido
A
denúncia da organização ocorre dias depois de uma declaração
do chanceler do Reino Unido, Ed Miliband, acusando grupos de colonos
israelenses de cometerem “atos de terrorismo” contra palestinos na Cisjordânia.
Na
ocasião, Miliband anunciou sanções contra empresas que apoiam esses
assentamentos, assim como a proibição da exportação de armas para Israel e
classificou o que está acontecendo na Cisjordânia como “limpeza étnica”.
Durante
discurso na última terça-feira (08/09), na Câmara dos Comuns, o chanceler
britânico explicou que o país adotará um novo regime de sanções contra empresas
e indivíduos que prestem serviços como construção, financiamento de
infraestrutura ou imobiliário para a expansão de assentamentos, e afirmou que a
legislação levará de seis a nove meses para entrar em vigor.
“Portanto,
aqueles que financiam ou facilitam assentamentos ilegais enfrentarão toda a
força das sanções. Os assentamentos são ilegais e não devem ser promovidos em
nosso país”, alegou Miliband.
<><> Visita a Singapura sobre
sistema de pena capital
Em
simultâneo à difusão do relatório da B’Tselem, o jornal israelense Haaretz revelou
em reportagem que
uma delegação de Tel Aviv fez uma visita secreta a Singapura nos últimos dias.
Segundo
o diário, o objetivo do grupo israelense seria estudar o sistema de pena de
morte de Singapura, que possui entre suas práticas a modalidade da pena de morte por enforcamento.
A
reportagem mostra que a delegação israelense estaria ligada ao Ministério de
Segurança Nacional do país, comandado pelo ministro Itamar Ben-Gvir, o mesmo
que impulsionou um projeto aprovado em março pelo
Parlamento de Israel que
estabelece pena de morte para palestinos condenados em tribunais militares por
ataques que resultaram em mortes – mas que não prevê a mesma sentença para
cidadãos israelenses condenados pelo mesmo tipo penal.
Na
época da tramitação do projeto, Ben-Gvir visitou o Parlamento para defender a
proposta, e o fez usando, em seu paletó, um chamativo broche em forma de forca.
¨
Governo israelense
aumenta bloqueios na Cisjordânia e sufoca economia palestina
A
expansão de uma rede de bloqueios militares estabelecidos por
Israel na Cisjordânia tem
inviabilizado o desenvolvimento de pequenos negócios promovidos pelas famílias
palestinas que vivem na região e se transformando em uma forma de
estrangulamento da economia local.
O
cenário foi revelado em reportagem do canal catari Al
Jazeera,
que mostra como os 925 postos de controle israelenses distribuídos pelo
território palestino tem afetado a vida dos palestinos também no aspecto
económico.
A
matéria mostra que a província de Nablus, no norte da Cisjordânia, é uma das
mais afetadas por essa política, já que conta com 147 bloqueios.
De
acordo com a Comissão de Resistência à Colonização e ao Muro (CWRC, por sua
sigla em inglês), os postos militares inviabilizam as atividades comerciais
entre pequenos negócios como agrícolas, mercados locais e até prestadores de
serviços.
A
organização afirma que houve uma queda de mais de 50% na movimentação de
transportes na Cisjordânia ocupada desde 2023 – o que coincide com o início do
massacre cometido por Israel contra a Faixa de Gaza, outro território
palestino, apesar de não conectado por via terrestre à Cisjordânia.
A
reportagem mostra como exemplo o caso da fábrica de laticínios Al-Kamel, cuja
sede fica na aldeia de Rujeib, em Nablus.
Fundada
em 2022, a empresa possui dois caminhões de distribuição que permanecem
estacionados no pátio devido a impossibilidade de levar seus produtos para
outras regiões por conta dos bloqueios levou a uma queda acentuada na demanda.
Tal situação significou uma queda de entre 30% e 40% nas vendas, e na demissão
de 12 funcionários.
“Desde
o início da criação da empresa, tivemos que enfrentar vários obstáculos, e os
maiores deles são esses postos de controle espalhados pela Cisjordânia,
especialmente em Nablus, que está sob cerco severo”, afirmou um dos
representantes da empresa à Al Jazeera.
O
funcionário da Al-Kamel também disse que “é quase impossível encontrar uma
entrada de uma localidade (na Cisjordânia) sem um posto de controle permanente
ou semipermanente”.
“Eles
(os postos de controle) não só obstruem a circulação, também aumentam os custos
de transporte e isso se reflete no preço do produto, nos custos de produção,
prejudica muito”, completa o empregado da empresa.
Fonte: Por Mohammed Altaj, no ZNetwork |
Tradução: Lucas Scatolini, em Outras Palavras/Opera Mundi

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