A eleição silenciosa que pode redefinir a
democracia brasileira
A campanha presidencial ocupa os debates, as
pesquisas e o noticiário, enquanto isso, outra eleição, menos visível, pode
produzir efeitos mais duradouros sobre a democracia brasileira. Em 4 de
outubro, cada eleitor poderá escolher dois senadores. Estarão em disputa 54 das
81 cadeiras do Senado Federal, o equivalente a dois terços da Casa. Os dois
candidatos mais votados em cada estado e no Distrito Federal serão eleitos para
mandatos de oito anos, sem segundo turno.
Essa renovação ocorre em um ambiente
institucional particularmente tenso. O Brasil chega à reta final da eleição
atravessado por uma crise entre integrantes do Supremo Tribunal Federal, pelas
repercussões das investigações relacionadas ao Banco Master e por uma campanha
permanente da direita e da extrema direita contra ministros da Corte, sobretudo
Alexandre de Moraes.
Moraes tornou-se o principal antagonista do
bolsonarismo desde que assumiu investigações sobre redes de desinformação,
ataques às instituições e a articulação que tentou impedir a alternância de
poder após as eleições de 2022. Jair Bolsonaro foi condenado, em 2025, a 27
anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros quatro
crimes. Sua condenação decorreu da trama montada para mantê-lo no poder, dentro
da qual os ataques de 8 de janeiro de 2023 ocuparam lugar importante, mas não
exclusivo.
O caso Banco Master acrescentou novos
elementos a essa crise. Informações reveladas durante as investigações
levantaram suspeitas sobre contatos entre o banqueiro Daniel Vorcaro e
Alexandre de Moraes. O episódio provocou pedidos de apuração, reações dentro do
próprio Supremo e uma disputa aberta entre Moraes e André Mendonça.As suspeitas
ainda precisam ser investigadas e submetidas ao contraditório. Não podem ser
apresentadas como prova antecipada de culpa. Politicamente, no entanto, seus
efeitos já são perceptíveis. As revelações deram novo impulso aos grupos que
procuram apresentar os problemas envolvendo integrantes do STF como
demonstração de que toda a Corte estaria corrompida ou teria ultrapassado os
limites de suas atribuições.
É nesse contexto que a disputa pelo Senado
deixa de ser uma eleição legislativa secundária. A composição da Casa poderá
definir tanto a capacidade de fiscalização sobre o Judiciário quanto os limites
entre controle institucional e perseguição política.
<><> A construção de uma maioria
de direita
A projeção
elaborada para este artigo parte das estimativas estaduais divulgadas pela
Genial/Quaest, em agosto de 2026. O levantamento nacional foi realizado entre
31 de julho e 3 de agosto, com 2.004 entrevistas presenciais e margem de erro
geral estimada em dois pontos percentuais, para um nível de confiança de 95%. A
amostragem envolveu 120 municípios, selecionados por conglomerados em três
estágios, com posterior calibração dos dados e utilização de modelo de
regressão multinível e pós-estratificação, conhecido pela sigla MRP, para
produzir estimativas de subgrupos da população1.
Os resultados estaduais devem ser
interpretados como estimativas derivadas da modelagem estatística nacional, e
não como 27 pesquisas estaduais independentes. A própria Genial/Quaest informa
margens maiores para os recortes regionais e sociodemográficos, que podem
chegar a seis pontos percentuais em determinados grupos. Isso recomenda cautela
nas disputas empatadas ou separadas por poucos pontos.
Se o retrato de agosto se confirmar nas
urnas, a direita poderá eleger entre 22 e 24 dos 54 novos senadores. O centro
conquistaria entre 14 e 15 cadeiras, enquanto a esquerda ficaria entre 16 e
17.
Observados isoladamente, esses números não
indicam domínio completo da direita. O quadro muda quando se consideram os 27
senadores eleitos em 2022, cujos mandatos seguem até 2031. Pela classificação
partidária adotada nesta análise, 19 desses parlamentares pertencem ao PL, PP,
Republicanos ou União Brasil. Quatro estão em partidos de centro e somente
quatro pertencem a legendas de esquerda.
A variação não decorre de uma tendência
nacional uniforme, mas de disputas estaduais muito próximas. Em Minas Gerais,
Carlos Viana, do PSD, e Domingos Sávio, do PL, aparecem com 8% das intenções de
voto combinadas, disputando a segunda vaga. Caso o candidato do PL avance, a
direita ganha uma cadeira atualmente contabilizada para o centro.
No Rio Grande do Sul, Pimenta, do PT, e
Marcel Van Hattem, do Novo, aparecem com 9%. Uma vitória de Van Hattem
acrescentaria uma cadeira à direita e retiraria uma da esquerda. Em Rondônia,
Sílvia Cristina, do PP, e Bruno Bolsonaro Scheid, do PL, estão empatados com
11%, mas o resultado não altera a distribuição ideológica, pois ambos foram
classificados à direita.
Esses empates explicam a faixa de variação
apresentada no quadro. A projeção principal aponta 41 senadores de direita, 19
de centro e 21 de esquerda. No cenário mais favorável à direita, com vitórias
do PL em Minas Gerais e do Novo no Rio Grande do Sul, esse campo poderia
alcançar 43 cadeiras, enquanto o centro recuaria para 18 e a esquerda para
20.
A direita teria, portanto, entre 41 e 43
cadeiras. Alcançaria a maioria absoluta do Senado, embora permanecesse abaixo
dos 54 votos correspondentes a dois terços da Casa.
Essa diferença é importante. A direita não
teria, sozinha, os votos necessários para condenar e afastar um ministro do
Supremo. Teria, contudo, força para controlar a agenda, comandar comissões,
influenciar a eleição da Mesa Diretora e manter pedidos de impeachment como
fonte permanente de constrangimento sobre a Corte.
As fronteiras entre direita e centro também
não são rígidas. MDB, PSD e Podemos reúnem parlamentares que se movimentam de
acordo com o governo, o tema em discussão, os interesses estaduais e as
negociações por espaços institucionais. Para alcançar 54 votos, um bloco de
direita com 41 a 43 senadores precisaria atrair entre 11 e 13 integrantes de
outras legendas. Em um ambiente de crise, como o que se formou em torno do STF,
essa possibilidade não é remota.
O poder de uma maioria desse tipo não se mede
somente pela capacidade de aprovar um impeachment. O controle da pauta, a
escolha do presidente do Senado, a condução das comissões e a ameaça de
abertura de processos também interferem na relação entre os poderes. Um
tribunal cujos ministros passam a decidir sob ameaça política constante pode
continuar formalmente independente, mas atuar dentro de um espaço cada vez mais
estreito.
A projeção partidária exige cautela. União
Brasil, PP e Republicanos não funcionam como blocos ideológicos inteiramente
homogêneos. Neles convivem lideranças regionais, setores governistas,
parlamentares pragmáticos e grupos claramente identificados com o
bolsonarismo.
Também não é correto considerar todo senador
de direita uma ameaça automática à democracia. A existência de maiorias
conservadoras faz parte da disputa democrática. O problema surge quando a
vitória eleitoral passa a ser interpretada como autorização para subordinar
instituições, criminalizar adversários e afastar autoridades por causa do
conteúdo de suas decisões.
<><> Uma eleição que o eleitor
ainda conhece pouco
A pesquisa Genial/Quaest expõe uma
contradição importante. Enquanto as elites políticas tratam a disputa pelo
Senado como estratégica, grande parte da população desconhece as próprias
regras da votação.
Somente 34% dos entrevistados sabiam que
poderiam escolher dois senadores. Outros 22% acreditavam ter direito a apenas
um voto, 10% respondiam que poderiam escolher três candidatos e 34% não sabiam
ou não responderam. Dois terços do eleitorado, portanto, desconheciam ou não
conseguiam indicar corretamente quantos votos poderão dar para o Senado2.
O desconhecimento não se distribui de maneira
uniforme. Entre os homens, 39% sabiam que poderiam votar em dois candidatos,
enquanto entre as mulheres esse percentual era de 28%. A informação também
variava segundo renda, escolaridade, região e posicionamento político. Os dados
sugerem que o segundo voto tende a ser ainda mais aberto entre os grupos com
menor acesso às informações sobre o funcionamento da eleição3.
Essa desinformação ajuda a compreender os
percentuais elevados de indecisão, votos brancos e nulos encontrados nas
estimativas estaduais. Também abre espaço para candidaturas apoiadas por
estruturas partidárias, máquinas estaduais, lideranças religiosas, famílias
políticas e personagens com alto reconhecimento público.
A experiência de 2018 reforça a preocupação.
Na última eleição em que cada cidadão teve dois votos para senador,
aproximadamente 63 milhões de votos foram deixados em branco, anulados ou não
utilizados na segunda escolha. O fenômeno ficou conhecido como “voto
incompleto”.
A escolha de dois nomes produz uma dinâmica
eleitoral própria. O primeiro voto pode expressar uma preferência ideológica
consolidada. O segundo, muitas vezes definido mais tarde, tende a ser entregue
a uma candidatura conhecida, indicada por uma liderança ou associada à
capacidade de levar recursos ao estado.
O eleitor pode escolher candidatos situados
em campos políticos diferentes. Não há contradição formal nisso. Há, porém, uma
oportunidade para que organizações com maior capacidade de mobilização
conquistem a segunda vaga mesmo sem liderar a preferência política mais geral
da população.
A Genial/Quaest mostra que a escolha para o
Senado continua fortemente relacionada à intermediação de recursos. Para 31%
dos entrevistados, o atributo mais importante de um candidato é ter foco em
trazer emendas e obras para o estado. A indicação de Lula aparece com 15%. O
compromisso com o fim da escala de trabalho 6×1 alcança 13%. A independência em
relação à polarização registra 12%. O apoio ao impeachment de ministros do STF
chega a 11%, enquanto a indicação de Bolsonaro aparece com 8%4.
O Senado permanece associado à figura do
representante capaz de abrir portas em Brasília, garantir recursos e destravar
obras. Suas funções institucionais mais amplas recebem menos atenção. Entre
elas estão o julgamento de autoridades, a aprovação de ministros dos tribunais
superiores, a sabatina de dirigentes de órgãos públicos, a autorização de
operações financeiras e a revisão das decisões da Câmara.
As médias nacionais escondem diferenças
ideológicas consideráveis. Entre os bolsonaristas, 31% valorizam
prioritariamente a indicação de Bolsonaro e 24% destacam o apoio ao impeachment
de ministros do STF. Entre aqueles que se definem como direita não bolsonarista,
o impeachment é mencionado por 22%. Entre os lulistas, 50% preferem um
candidato indicado por Lula5.
Há, portanto, duas formas de personalização
da escolha. A primeira passa pela fidelidade ao líder político. A segunda
transforma o confronto com o Supremo em identidade eleitoral.
Embora apenas 11% do conjunto dos
entrevistados aponte o impeachment de ministros como principal atributo, essa
preferência alcança quase um quarto do eleitorado bolsonarista. Trata-se de um
grupo politicamente mobilizado, para o qual a eleição do Senado já está ligada
à possibilidade de punir o STF.
<><> Entre a fiscalização e a
revanche
A Constituição atribui ao Senado a
competência para processar e julgar ministros do Supremo por crimes de
responsabilidade. Esses crimes são definidos pela Lei nº 1.079, de 1950, e
abrangem, entre outras hipóteses, condutas incompatíveis com a honra, a dignidade
e o decoro da função.
Qualquer cidadão pode apresentar uma
denúncia. A tramitação, porém, depende de decisões internas do Senado e começa
pela Presidência da Casa. Até hoje, nenhum pedido de afastamento de ministro do
STF foi aprovado.
Esse mecanismo faz parte do sistema
constitucional de controle. A independência judicial não coloca os ministros
acima da lei. Contratos, relações privadas, conflitos de interesse e possíveis
interferências em investigações precisam ser apurados com transparência.
O risco aparece quando a responsabilização
deixa de se apoiar em fatos individualizados e passa a funcionar como punição
pelo conteúdo de decisões judiciais. Nesse caso, o impeachment perde seu
caráter excepcional e se converte em instrumento para disciplinar o
Judiciário.
Nem sequer seria necessário afastar vários
ministros para modificar o funcionamento da Corte. A existência de uma maioria
disposta a abrir processos ou manter ameaças recorrentes poderia influenciar
votos, prioridades e decisões.
A erosão democrática nem sempre ocorre por
meio do fechamento do Congresso, do cancelamento das eleições ou de uma ruptura
militar. Ela também avança quando instrumentos previstos na Constituição passam
a ser utilizados para perseguir adversários, constranger órgãos de controle e
enfraquecer a autonomia entre os poderes.
A eleição de uma maioria conservadora, por si
só, não caracteriza esse processo. A ameaça está na transformação dessa maioria
em uma força que deixe de reconhecer a legitimidade dos adversários e considere
qualquer limite institucional uma forma de conspiração.
Uma direita comprometida com a democracia
pode fiscalizar o STF, exigir transparência, investigar suspeitas e propor
reformas. Outra coisa é pretender submeter a Corte, remover ministros por
divergência política ou reescrever retroativamente os limites da legalidade
para absolver os responsáveis por uma tentativa de ruptura institucional.
As estimativas utilizadas nesta projeção
também não devem ser tomadas como antecipação do resultado. A Genial/Quaest
ressalta que os dados refletem um retrato válido no momento da coleta e estão
sujeitos a alterações provocadas pelo cenário político, econômico e eleitoral.
A presença de grandes contingentes de indecisos nas disputas estaduais torna a
projeção ainda mais instável6.
Mesmo assim, a tendência merece atenção.
Apenas 18 dos 54 senadores que encerram seus mandatos aparecem atualmente nas
duas primeiras posições das estimativas. Caso o quadro se mantenha, cerca de
dois terços das vagas serão ocupadas por novos nomes. Muitos chegarão ao Senado
sem histórico que permita antecipar seu comportamento diante de uma crise
institucional.
A direita começa a disputa em posição
privilegiada. Dos 27 senadores que permanecerão no cargo, 19 pertencem aos
quatro partidos classificados nesta análise como de direita. Antes da abertura
das urnas, esse campo já reúne quase um quarto de todas as cadeiras do
Senado.
A Casa que tomará posse em 2027 poderá ser
mais conservadora e mais hostil ao Supremo. Também encontrará uma sociedade que
cobra esclarecimentos sobre suspeitas envolvendo integrantes do Judiciário.
Ignorar essa cobrança seria tão prejudicial quanto aceitar condenações
políticas sem investigação e sem provas.
Defender a democracia não significa proteger
ministros de qualquer escrutínio. Significa impedir que a fiscalização
institucional seja capturada pela lógica da vingança.
A eleição para o Senado não pode continuar
sendo vista como complemento da disputa presidencial. O eleitor escolherá quem
controlará a pauta da Casa, sabatinará autoridades, decidirá sobre crimes de
responsabilidade e participará da definição dos limites entre os poderes da
República.
O segundo voto para senador talvez seja o
mais esquecido da urna em 2026. Justamente por isso, poderá ser um dos mais
decisivos para o futuro da democracia brasileira.
Fonte: Por Marcio Ferreira, no Le Monde

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