Ana Prestes: A máquina da extrema direita - o
que o caso Cerimedo revela sobre as eleições na América Latina
Desde o
último dia 8 de setembro, após transferências entre presídios desde que foi
capturado como suspeito de mandar executar Nádia Beller, o consultor político
argentino Fernando Cerimedo está sob custódia na prisão de segurança
máxima de Chonchocoro,
na Bolívia. Sua captura e a consequente descoberta de uma teia da extrema
direita latino-americana financiada por EUA e Israel chamaram pouca atenção da
mídia comercial brasileira. No entanto, é preciso reforçar que o ‘Cerimedo
Gate’ revela muito mais do que a trajetória controversa de um marqueteiro
eleitoral feminicida. Seu percurso por diferentes países ajuda a revelar uma
infraestrutura política, empresarial, midiática e digital que atravessa
fronteiras e atua para fazer avançar a extrema direita na América Latina.
Cerimedo
ficou conhecido inicialmente no Brasil por sua participação no golpe
bolsonarista de 2022/2023 contra o resultado das eleições presidenciais que
deram um novo mandato a Lula. Ele participou diretamente, como um um suposto
consultor especialista em urnas eletrônicas, da produção de conteúdos e
disseminação de alegações falsas sobre fraude no sistema de sufrágio
brasileiro, contribuindo para alimentar o ambiente político que teria seu ápice
na frustrada tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023.
O
Brasil é apenas mais um país de atuação a constar em seu currículo. Cerimedo,
cujos registros iniciais de trabalho apontam que foi motorista de táxi em Mar
del Plata, na Argentina, e posteriormente empregado em seguradoras e empresas
de informática, passando por um histórico de golpes imobiliários, dá um
inexplicável salto para uma carreira que combina consultoria política, expertise em
redes sociais, comando de veículos próprios de comunicação, como o La
Derecha Diário, e coordenador de campanhas digitais altamente agressivas
com a montagem das famosas fazendas de bots.
Quando
observamos sua atuação na Argentina, Bolívia, Chile, Honduras e outros países
da região, percebemos que não estamos diante de experiências nacionais
isoladas. Há uma circulação organizada de consultores, empresas, dinheiro,
tecnologias, métodos de comunicação e estratégias eleitorais. Há também um
ponto geográfico e político que aparece repetidamente nessa trama: os Estados
Unidos, particularmente a partir de operadores de Miami e Washington. Em maio
de 2023, por exemplo, foi registrada na Flórida a Numen Advisors LLC, empresa
vinculada ao argentino. Poucos meses depois, documentos relacionados à campanha
presidencial de Javier Milei registrariam a colaboração entre a Numen e a Latin
America Advisory Group, empresa do consultor argentino-americano Damián Merlo.
Assim
como Cerimedo e Merlo, outros personagens são importantes para que se entenda a
trama que está sendo revelada. Não temos espaço para aprofundar neste artigo,
mas acrescentemos Brad Parscale e Javier Negre como atores complementares neste
ecossistema transnacional de comunicação e articulação política da extrema
direita que conecta EUA e América Latina. Parscale representa o know-how tecnológico
e de marketing eleitoral desenvolvido nas campanhas de Donald Trump. Negre,
sócio de Cerimedo no La Derecha Diário, é um elo importante na
produção e amplificação de narrativas por meio de veículos digitais de direita.
As conexões entre esses quatro personagens revelam uma espécie de divisão
transnacional do trabalho político, na qual tecnologia, comunicação, articulação
institucional e campanhas eleitorais atravessam fronteiras e ajudam a
estruturar a expansão da extrema direita na América Latina.
No
método utilizado por eles, de guerra cultural permanente, a política deixa de
ser apresentada como confronto entre projetos de sociedade e passa a ser
organizada como uma sucessão de choques emocionais provocados por notícias semi
ou totalmente inverídicas. Indignação, medo, ressentimento e ódio são
trabalhados como matéria prima para a formação da opinião pública. Memes,
vídeos curtos, influenciadores, notícias falsas ou enganosas e conteúdos
produzidos especificamente para determinados segmentos do eleitorado são
utilizados para ocupar a agenda pública. Não é necessário convencer toda a
sociedade de uma mesma narrativa. É possível identificar grupos distintos e
oferecer a cada um deles o conteúdo mais capaz de mobilizar seus medos e
preconceitos.
Ocorre, que na América Latina, nossas legislações eleitorais foram construídas
fundamentalmente para controlar campanhas realizadas dentro das fronteiras
nacionais: partidos nacionais, empresas nacionais, doações nacionais,
propaganda eleitoral nacional. Mas como fiscalizar uma campanha quando parte de
sua infraestrutura está instalada em outro país? Como identificar quem financia
milhares ou milhões de perfis automatizados? Como calcular o valor econômico de
uma operação de influência realizada por empresas estrangeiras? Como distinguir
manifestação espontânea de opinião pública de uma campanha artificialmente
amplificada por fazendas de bots? E, sobretudo, como proteger a soberania
eleitoral quando empresas capazes de interferir na formação da opinião pública
operam simultaneamente em diversos países? São perguntas que o caso Cerimedo
deveria provocar também no Brasil.
Investigar
Fernando Cerimedo não significa apenas descobrir o que fez um consultor
argentino, mas entender quem financia, organiza e conecta a nova extrema
direita latino-americana. Compreender por onde circulam seus recursos, quem
fornece suas tecnologias, quais empresas sustentam suas operações e que
relações existem entre campanhas eleitorais latino-americanas e centros
políticos localizados nos Estados Unidos. Cerimedo pode ser apenas uma peça.
Mas, quando seguimos seus movimentos pelo continente, começamos a enxergar a
máquina.
¨
Avanço da extrema direita na América Latina é influência
direta da pressão e ingerências de Trump
Com
as vitórias dos candidato de extrema
direita na Colômbia, Abelardo de la Espriella, e de Keiko Fujimori
no Peru, o mapa latino-americano voltou a ser pintado novamente de azul, ainda
mais quando também consideramos os atuais governos na Bolívia, Equador,
Honduras, Chile, Panamá, Paraguai, República Dominicana, Argentina e El
Salvador: todos governados pela extrema direita.
O
avanço da extrema direita pelo continente vem sendo articulado com especial
atenção pelo presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump,
que vem promovendo ingerências em processos eleitorais e tomando medidas de
pressão contra quem ainda ousa enfrentá-lo.
O
cenário colocado impõe desafios para o campo progressista em toda a América
Latina, mas oferece caminhos para a resistência desse campo da esquerda. Em
participação no podcast Dilemas do Sul, Joana Salém,
historiadora e professora da Universidade Federal do ABC (UFABC), avalia que,
no contexto da Colômbia, apesar da derrota de Iván Cepeda, a esquerda saiu
fortalecida do processo, ainda mais considerando o histórico colombiano de
sucessivos governos de direita nas últimas décadas.
“Havia
algumas variações dentro do campo conservador, mais neoliberais, mais
agressivas na política antidrogas, uma direita mais moderada, mas eram
variações da direita, e a esquerda colombiana sempre teve muita dificuldade de
emplacar eleitoralmente. O [atual presidente, Gustavo] Petro, por si só, já é
um fato novo da conjuntura, que foi um presidente organizador e mobilizador da
esquerda colombiana”, aponta.
A
historiadora destacou alguns pontos importantes da gestão de Petro, citando a
reforma no comando militar do país, ao retirar todos os militares ligados ao
uribismo, a melhoria nas políticas sociais, como redução da idade de
aposentadoria de mulheres, e a reforma trabalhista.
Salém
destaca que, com a derrota, o projeto de país de esquerda acaba interrompido.
Contudo, a campanha mostrou a capacidade de mobilização do campo progressista.
“Essa campanha eleitoral foi bastante mobilizadora. A esquerda colombiana é
muito diversa, com enraizamento popular, com movimentos organizados e que
representaram uma confiança nas reformas feitas pelo Gustavo Petro”, pontua.
O
historiador e pesquisador do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social,
Miguel Stedile, acrescenta à fala de Joana Salém que o período de Petro na
presidência será encarado, daqui a algum tempo, como “um momento histórico”.
Segundo
ele, para compreender o atual momento político colombiano, é preciso
compreender que a história do país foi atravessada por muita violência, que
acabou criando um narco-estado no período de Pablo Escobar, com mortes e o
aumento considerável da violência urbana. Esse contexto levou o país a entrar
nos anos 1990 com uma forte militarização dos Estados Unidos. “A simples
vitória do Petro, mesmo se ele tivesse feito um governo moderado, que ele não
fez, já seria completamente uma exceção nesse contexto da própria história
colombiana”, defende.
Stedile
atribui a derrota de Petro ao contexto latino-americano, que teve até invasão
da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro pelo governo Donald
Trump. “Há dois anos atrás, o Petro não tinha um governo Donald Trump
assediando a América Latina como a gente tem hoje. Não tinha uma doutrina
Monroe e não tinha um 3 de janeiro em que os Estados Unidos disseram: ‘Isso
aqui são protetorados dos Estados Unidos, a China não deve comercializar e nós
vamos importar a nossa hegemonia e, se preciso, violar a soberania territorial
de um país e sequestrar o presidente’. Tudo baseado numa acusação que depois
eles abandonaram”, ressalta.
“É um
aviso para as eleições brasileiras. Que ninguém imagine que teve uma química
entre o Trump e o Lula. Não tem química, não vai ter química com ninguém que se
oponha aos interesses dos Estados Unidos. A outra questão é o próprio contexto
de avanço da extrema-direita, que é consequência e é retroalimentado por esse
trumpismo. Eu diria que o mapa não está pintado de azul. É azul, vermelho e
branco”, afirma, em referência as cores da bandeira estadunidense”, complementa
Stedile.
¨
O mapa que mostra como a direita expandiu seu poder na
América Latina — e o que explica essa tendência
Alguns
venceram com folga, em países como o Equador e o Chile. Outros se impuseram com
vantagem mínima, como no Peru e na Colômbia.
De uma
forma ou de outra, os políticos de direita da América Latina vivem uma onda
de vitórias eleitorais que alterou o mapa de poder do continente.
Na
terça-feira (28/7), a peruana Keiko Fujimori se tornou o
caso mais recente de uma figura de direita latino-americana a assumir a
presidência do seu país pelo voto. Ela venceu as eleições na sua quarta
tentativa.
Já o
presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, tomará posse no dia
7 de agosto. Com isso, a América Latina somará 12 chefes de Estado com
posicionamento à direita no espectro político.
Este
número contrasta com o verificado no continente no início de 2023, quando havia
11 países administrados por governos de esquerda de diferentes tipos.
É
verdade que as duas maiores democracias latino-americanas em número de
eleitores — o Brasil e o México — mantêm governos de esquerda.
Mas o Brasil irá às urnas em outubro e tudo indica
que a eleição será um duelo entre o presidente Lula e o senador de direita
Flávio Bolsonaro.
Também
é verdade que existem diferenças entre os diversos presidentes
latino-americanos de direita. Alguns são mais radicais do que outros, com
tendências populistas ou autoritárias.
Mas, de
forma geral, eles próprios costumam se mostrar como parte de uma mesma família
ideológica, expressando seu apoio eleitoral mútuo ou copiando símbolos
polêmicos, como a megaprisão de
Nayib Bukele, em El Salvador.
Mas o
que há por trás deste fenômeno? E do que depende a sua continuidade?
<><>
'Problema estrutural'
Um dos
motivos da ascensão da direita latino-americana é a ampla reivindicação popular
por uma luta mais eficaz contra a criminalidade. A segurança pública,
atualmente, é uma das maiores preocupações dos cidadãos do continente.
Esta
questão se seguiu, em alguns casos, a consideráveis aumentos dos casos de
violência e extorsão, verificados em países como o Equador e o Peru.
Mas o
medo da criminalidade também disparou no Chile.
Pesquisas
realizadas no ano passado demonstraram que a população chilena está mais
preocupada com o crime e a violência que a do México e da Colômbia, que têm
índices de homicídios muito mais altos.
De
qualquer forma, os candidatos de direita parecem personificar melhor essa
demanda por segurança, quando não a impulsionam.
Keiko
Fujimori, no Peru; Abelardo de la Espriella, na Colômbia; Daniel Noboa, no Equador; José Antonio Kast, no Chile; e Nasry Asfura,
em Honduras, chegaram à presidência com promessas de "ordem" e
"braço forte" contra o crime.
Já Nayib Bukele é um dos
líderes latino-americanos mais valorizados do continente.
O
presidente de El Salvador se tornou um expoente da direita regional, ao reduzir a
violência das gangues do país com um estado de exceção que concentrou o poder e
suspendeu garantias constitucionais, gerando denúncias de graves abusos.
Atualmente,
a América Latina tem "governos majoritariamente de direita, que estão
pegando muito pesado com a questão da segurança pública", segundo a
professora de relações internacionais Regiane Bressan, da Universidade Federal
de São Paulo, especializada na região.
"Isso
porque a violência está grande, mas ela também é fruto de um problema
estrutural da região, que é a pobreza e a desigualdade. E os governos de
esquerda não deram conta de resolver essa problemática totalmente", declarou Bressan à BBC News Brasil.
<><>
O fator Trump
Além da
maior ênfase em políticas duras em relação à segurança, existem outros aspectos
que diferenciam esta nova direita que ganhou terreno na América Latina, em
relação aos conservadores tradicionais.
Um
deles é o uso mais eficaz das redes sociais como
instrumento de proselitismo, segundo especialistas.
Outro é
a maior agressividade verbal contra seus adversários, particularmente contra a
esquerda e a chamada cultura woke — em alguns
casos, sem respeitar as normas básicas de convivência democrática liberal.
Este
estilo combativo coincide com o do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Seu governo
procurou se alinhar a líderes latino-americanos de direita para recuperar a
influência regional e neutralizar a China.
"Eu
acredito que os Estados Unidos continuarão tensionando a nossa região e acho
que vão tensionar as eleições no Brasil. Vão continuar tensionando a situação
do México. E, é claro, a gente tem que estar muito atento a esses governos
extremistas, porque são governos extremistas que rompem com a democracia",
segundo Bressan.
A
pesquisa regional Latinobarómetro destacou que as mudanças políticas começaram
a ocorrer no continente a partir de 2020, quando os latino-americanos passaram
a se classificar levemente mais à direita, ano após ano.
A
diretora da Latinobarómetro, Marta Lagos, vincula o fenômeno à pandemia de
coronavírus, que "acaba convencendo as pessoas vulneráveis de que não irão
sair do buraco em que se encontram".
"Esta
queda de expectativas para o futuro gera esta demanda populista e de extrema
direita", explica Lagos à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
"É
como se as pessoas dissessem: 'Chega, é preciso vir algo muito duro e drástico
para que as coisas mudem'", segundo ela.
A mesma
pesquisa também indicou que o apoio à economia de mercado na América Latina
aumentou de 58%, em 2020, para 66%, em 2024.
Isso
também pode explicar por que a ideia de reduzir o Estado, simbolizada pela
motosserra na campanha que levou Javier Milei à presidência
da Argentina em 2023, também foi apresentada por outros candidatos de sucesso
no continente.
<><>
Fenômeno duradouro?
Mas os
latino-americanos parecem votar há anos para punir seus governos no poder, mais
do que por ideologia.
Na
última década, os candidatos de oposição do continente venceram cerca do dobro
das eleições, em relação aos de situação.
Atualmente,
os presidentes de direita que governam a América Latina enfrentam diversos
desafios de gestão.
Milei
ainda tenta fazer com que a economia argentina melhore de forma perceptível
para as pessoas, embora tenha reduzido a inflação e aplicado um ajuste drástico
no país.
O
Equador, em 2025, registrou um dos maiores índices de homicídios do mundo.
Foram mais de 9,2 mil assassinatos, segundo dados oficiais, mesmo com as
políticas de "braço forte" e a mobilização militar ordenada por Noboa
nos últimos dois anos.
E, no
Chile, os índices de aprovação de José Antonio Kast caíram desde que o
presidente tomou posse em março. Isso se deve à estagnação econômica, ao
desemprego que aumentou para 9,4% entre março e maio e à criminalidade, que
permanece uma das maiores preocupações da população do país.
"É
um erro pensar que a direita veio para ficar", alerta Lagos.
Mas ele
destaca que, antes do retorno da esquerda ao continente, poderão surgir
"novos tipos de populismo".
"Se
a direita não conseguir controlar a segurança, será o equivalente funcional à
incapacidade da esquerda de eliminar a pobreza", explica Lagos.
"São
promessas não cumpridas, com sinais ideológicos distintos. Quem será eleito
depois?"
Fonte: Opera Mundi/Brasil de Fato/BBC News
Mundo

Nenhum comentário:
Postar um comentário