quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Ana Prestes: A máquina da extrema direita - o que o caso Cerimedo revela sobre as eleições na América Latina

Desde o último dia 8 de setembro, após transferências entre presídios desde que foi capturado como suspeito de mandar executar Nádia Beller, o consultor político argentino Fernando Cerimedo está sob custódia na prisão de segurança máxima de Chonchocoro, na Bolívia. Sua captura e a consequente descoberta de uma teia da extrema direita latino-americana financiada por EUA e Israel chamaram pouca atenção da mídia comercial brasileira. No entanto, é preciso reforçar que o ‘Cerimedo Gate’ revela muito mais do que a trajetória controversa de um marqueteiro eleitoral feminicida. Seu percurso por diferentes países ajuda a revelar uma infraestrutura política, empresarial, midiática e digital que atravessa fronteiras e atua para fazer avançar a extrema direita na América Latina.

Cerimedo ficou conhecido inicialmente no Brasil por sua participação no golpe bolsonarista de 2022/2023 contra o resultado das eleições presidenciais que deram um novo mandato a Lula. Ele participou diretamente, como um um suposto consultor especialista em urnas eletrônicas, da produção de conteúdos e disseminação de alegações falsas sobre fraude no sistema de sufrágio brasileiro, contribuindo para alimentar o ambiente político que teria seu ápice na frustrada tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023.

O Brasil é apenas mais um país de atuação a constar em seu currículo. Cerimedo, cujos registros iniciais de trabalho apontam que foi motorista de táxi em Mar del Plata, na Argentina, e posteriormente empregado em seguradoras e empresas de informática, passando por um histórico de golpes imobiliários, dá um inexplicável salto para uma carreira que combina consultoria política, expertise em redes sociais, comando de veículos próprios de comunicação, como o La Derecha Diário, e coordenador de campanhas digitais altamente agressivas com a montagem das famosas fazendas de bots.

Quando observamos sua atuação na Argentina, Bolívia, Chile, Honduras e outros países da região, percebemos que não estamos diante de experiências nacionais isoladas. Há uma circulação organizada de consultores, empresas, dinheiro, tecnologias, métodos de comunicação e estratégias eleitorais. Há também um ponto geográfico e político que aparece repetidamente nessa trama: os Estados Unidos, particularmente a partir de operadores de Miami e Washington. Em maio de 2023, por exemplo, foi registrada na Flórida a Numen Advisors LLC, empresa vinculada ao argentino. Poucos meses depois, documentos relacionados à campanha presidencial de Javier Milei registrariam a colaboração entre a Numen e a Latin America Advisory Group, empresa do consultor argentino-americano Damián Merlo.

Assim como Cerimedo e Merlo, outros personagens são importantes para que se entenda a trama que está sendo revelada. Não temos espaço para aprofundar neste artigo, mas acrescentemos Brad Parscale e Javier Negre como atores complementares neste ecossistema transnacional de comunicação e articulação política da extrema direita que conecta EUA e América Latina. Parscale representa o know-how tecnológico e de marketing eleitoral desenvolvido nas campanhas de Donald Trump. Negre, sócio de Cerimedo no La Derecha Diário, é um elo importante na produção e amplificação de narrativas por meio de veículos digitais de direita. As conexões entre esses quatro personagens revelam uma espécie de divisão transnacional do trabalho político, na qual tecnologia, comunicação, articulação institucional e campanhas eleitorais atravessam fronteiras e ajudam a estruturar a expansão da extrema direita na América Latina.

No método utilizado por eles, de guerra cultural permanente, a política deixa de ser apresentada como confronto entre projetos de sociedade e passa a ser organizada como uma sucessão de choques emocionais provocados por notícias semi ou totalmente inverídicas. Indignação, medo, ressentimento e ódio são trabalhados como matéria prima para a formação da opinião pública. Memes, vídeos curtos, influenciadores, notícias falsas ou enganosas e conteúdos produzidos especificamente para determinados segmentos do eleitorado são utilizados para ocupar a agenda pública. Não é necessário convencer toda a sociedade de uma mesma narrativa. É possível identificar grupos distintos e oferecer a cada um deles o conteúdo mais capaz de mobilizar seus medos e preconceitos.
Ocorre, que na América Latina, nossas legislações eleitorais foram construídas fundamentalmente para controlar campanhas realizadas dentro das fronteiras nacionais: partidos nacionais, empresas nacionais, doações nacionais, propaganda eleitoral nacional. Mas como fiscalizar uma campanha quando parte de sua infraestrutura está instalada em outro país? Como identificar quem financia milhares ou milhões de perfis automatizados? Como calcular o valor econômico de uma operação de influência realizada por empresas estrangeiras? Como distinguir manifestação espontânea de opinião pública de uma campanha artificialmente amplificada por fazendas de bots? E, sobretudo, como proteger a soberania eleitoral quando empresas capazes de interferir na formação da opinião pública operam simultaneamente em diversos países? São perguntas que o caso Cerimedo deveria provocar também no Brasil.

Investigar Fernando Cerimedo não significa apenas descobrir o que fez um consultor argentino, mas entender quem financia, organiza e conecta a nova extrema direita latino-americana. Compreender por onde circulam seus recursos, quem fornece suas tecnologias, quais empresas sustentam suas operações e que relações existem entre campanhas eleitorais latino-americanas e centros políticos localizados nos Estados Unidos. Cerimedo pode ser apenas uma peça. Mas, quando seguimos seus movimentos pelo continente, começamos a enxergar a máquina.

¨      Avanço da extrema direita na América Latina é influência direta da pressão e ingerências de Trump

Com as  vitórias dos candidato de extrema direita na Colômbia, Abelardo de la Espriella, e de Keiko Fujimori no Peru, o mapa latino-americano voltou a ser pintado novamente de azul, ainda mais quando também consideramos os atuais governos na Bolívia, Equador, Honduras, Chile, Panamá, Paraguai, República Dominicana, Argentina e El Salvador: todos governados pela extrema direita.

O avanço da extrema direita pelo continente vem sendo articulado com especial atenção pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vem promovendo ingerências em processos eleitorais e tomando medidas de pressão contra quem ainda ousa enfrentá-lo.

O cenário colocado impõe desafios para o campo progressista em toda a América Latina, mas oferece caminhos para a resistência desse campo da esquerda. Em participação no podcast Dilemas do Sul, Joana Salém, historiadora e professora da Universidade Federal do ABC (UFABC), avalia que, no contexto da Colômbia, apesar da derrota de Iván Cepeda, a esquerda saiu fortalecida do processo, ainda mais considerando o histórico colombiano de sucessivos governos de direita nas últimas décadas.

“Havia algumas variações dentro do campo conservador, mais neoliberais, mais agressivas na política antidrogas, uma direita mais moderada, mas eram variações da direita, e a esquerda colombiana sempre teve muita dificuldade de emplacar eleitoralmente. O [atual presidente, Gustavo] Petro, por si só, já é um fato novo da conjuntura, que foi um presidente organizador e mobilizador da esquerda colombiana”, aponta.

A historiadora destacou alguns pontos importantes da gestão de Petro, citando a reforma no comando militar do país, ao retirar todos os militares ligados ao uribismo, a melhoria nas políticas sociais, como redução da idade de aposentadoria de mulheres, e a reforma trabalhista.

Salém destaca que, com a derrota, o projeto de país de esquerda acaba interrompido. Contudo, a campanha mostrou a capacidade de mobilização do campo progressista. “Essa campanha eleitoral foi bastante mobilizadora. A esquerda colombiana é muito diversa, com enraizamento popular, com movimentos organizados e que representaram uma confiança nas reformas feitas pelo Gustavo Petro”, pontua.

O historiador e pesquisador do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, Miguel Stedile, acrescenta à fala de Joana Salém que o período de Petro na presidência será encarado, daqui a algum tempo, como “um momento histórico”.

Segundo ele, para compreender o atual momento político colombiano, é preciso compreender que a história do país foi atravessada por muita violência, que acabou criando um narco-estado no período de Pablo Escobar, com mortes e o aumento considerável da violência urbana. Esse contexto levou o país a entrar nos anos 1990 com uma forte militarização dos Estados Unidos. “A simples vitória do Petro, mesmo se ele tivesse feito um governo moderado, que ele não fez, já seria completamente uma exceção nesse contexto da própria história colombiana”, defende.

Stedile atribui a derrota de Petro ao contexto latino-americano, que teve até invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro pelo governo Donald Trump. “Há dois anos atrás, o Petro não tinha um governo Donald Trump assediando a América Latina como a gente tem hoje. Não tinha uma doutrina Monroe e não tinha um 3 de janeiro em que os Estados Unidos disseram: ‘Isso aqui são protetorados dos Estados Unidos, a China não deve comercializar e nós vamos importar a nossa hegemonia e, se preciso, violar a soberania territorial de um país e sequestrar o presidente’. Tudo baseado numa acusação que depois eles abandonaram”, ressalta.

“É um aviso para as eleições brasileiras. Que ninguém imagine que teve uma química entre o Trump e o Lula. Não tem química, não vai ter química com ninguém que se oponha aos interesses dos Estados Unidos. A outra questão é o próprio contexto de avanço da extrema-direita, que é consequência e é retroalimentado por esse trumpismo. Eu diria que o mapa não está pintado de azul. É azul, vermelho e branco”, afirma, em referência as cores da bandeira estadunidense”, complementa Stedile.

¨      O mapa que mostra como a direita expandiu seu poder na América Latina — e o que explica essa tendência

Alguns venceram com folga, em países como o Equador e o Chile. Outros se impuseram com vantagem mínima, como no Peru e na Colômbia.

De uma forma ou de outra, os políticos de direita da América Latina vivem uma onda de vitórias eleitorais que alterou o mapa de poder do continente.

Na terça-feira (28/7), a peruana Keiko Fujimori se tornou o caso mais recente de uma figura de direita latino-americana a assumir a presidência do seu país pelo voto. Ela venceu as eleições na sua quarta tentativa.

Já o presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, tomará posse no dia 7 de agosto. Com isso, a América Latina somará 12 chefes de Estado com posicionamento à direita no espectro político.

Este número contrasta com o verificado no continente no início de 2023, quando havia 11 países administrados por governos de esquerda de diferentes tipos.

É verdade que as duas maiores democracias latino-americanas em número de eleitores — o Brasil e o México — mantêm governos de esquerda.

Mas o Brasil irá às urnas em outubro e tudo indica que a eleição será um duelo entre o presidente Lula e o senador de direita Flávio Bolsonaro.

Também é verdade que existem diferenças entre os diversos presidentes latino-americanos de direita. Alguns são mais radicais do que outros, com tendências populistas ou autoritárias.

Mas, de forma geral, eles próprios costumam se mostrar como parte de uma mesma família ideológica, expressando seu apoio eleitoral mútuo ou copiando símbolos polêmicos, como a megaprisão de Nayib Bukele, em El Salvador.

Mas o que há por trás deste fenômeno? E do que depende a sua continuidade?

<><> 'Problema estrutural'

Um dos motivos da ascensão da direita latino-americana é a ampla reivindicação popular por uma luta mais eficaz contra a criminalidade. A segurança pública, atualmente, é uma das maiores preocupações dos cidadãos do continente.

Esta questão se seguiu, em alguns casos, a consideráveis aumentos dos casos de violência e extorsão, verificados em países como o Equador e o Peru.

Mas o medo da criminalidade também disparou no Chile.

Pesquisas realizadas no ano passado demonstraram que a população chilena está mais preocupada com o crime e a violência que a do México e da Colômbia, que têm índices de homicídios muito mais altos.

De qualquer forma, os candidatos de direita parecem personificar melhor essa demanda por segurança, quando não a impulsionam.

Keiko Fujimori, no Peru; Abelardo de la Espriella, na Colômbia; Daniel Noboa, no Equador; José Antonio Kast, no Chile; e Nasry Asfura, em Honduras, chegaram à presidência com promessas de "ordem" e "braço forte" contra o crime.

Nayib Bukele é um dos líderes latino-americanos mais valorizados do continente.

O presidente de El Salvador se tornou um expoente da direita regional, ao reduzir a violência das gangues do país com um estado de exceção que concentrou o poder e suspendeu garantias constitucionais, gerando denúncias de graves abusos.

Atualmente, a América Latina tem "governos majoritariamente de direita, que estão pegando muito pesado com a questão da segurança pública", segundo a professora de relações internacionais Regiane Bressan, da Universidade Federal de São Paulo, especializada na região.

"Isso porque a violência está grande, mas ela também é fruto de um problema estrutural da região, que é a pobreza e a desigualdade. E os governos de esquerda não deram conta de resolver essa problemática totalmente", declarou Bressan à BBC News Brasil.

<><> O fator Trump

Além da maior ênfase em políticas duras em relação à segurança, existem outros aspectos que diferenciam esta nova direita que ganhou terreno na América Latina, em relação aos conservadores tradicionais.

Um deles é o uso mais eficaz das redes sociais como instrumento de proselitismo, segundo especialistas.

Outro é a maior agressividade verbal contra seus adversários, particularmente contra a esquerda e a chamada cultura woke — em alguns casos, sem respeitar as normas básicas de convivência democrática liberal.

Este estilo combativo coincide com o do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Seu governo procurou se alinhar a líderes latino-americanos de direita para recuperar a influência regional e neutralizar a China.

"Eu acredito que os Estados Unidos continuarão tensionando a nossa região e acho que vão tensionar as eleições no Brasil. Vão continuar tensionando a situação do México. E, é claro, a gente tem que estar muito atento a esses governos extremistas, porque são governos extremistas que rompem com a democracia", segundo Bressan.

A pesquisa regional Latinobarómetro destacou que as mudanças políticas começaram a ocorrer no continente a partir de 2020, quando os latino-americanos passaram a se classificar levemente mais à direita, ano após ano.

A diretora da Latinobarómetro, Marta Lagos, vincula o fenômeno à pandemia de coronavírus, que "acaba convencendo as pessoas vulneráveis de que não irão sair do buraco em que se encontram".

"Esta queda de expectativas para o futuro gera esta demanda populista e de extrema direita", explica Lagos à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

"É como se as pessoas dissessem: 'Chega, é preciso vir algo muito duro e drástico para que as coisas mudem'", segundo ela.

A mesma pesquisa também indicou que o apoio à economia de mercado na América Latina aumentou de 58%, em 2020, para 66%, em 2024.

Isso também pode explicar por que a ideia de reduzir o Estado, simbolizada pela motosserra na campanha que levou Javier Milei à presidência da Argentina em 2023, também foi apresentada por outros candidatos de sucesso no continente.

<><> Fenômeno duradouro?

Mas os latino-americanos parecem votar há anos para punir seus governos no poder, mais do que por ideologia.

Na última década, os candidatos de oposição do continente venceram cerca do dobro das eleições, em relação aos de situação.

Atualmente, os presidentes de direita que governam a América Latina enfrentam diversos desafios de gestão.

Milei ainda tenta fazer com que a economia argentina melhore de forma perceptível para as pessoas, embora tenha reduzido a inflação e aplicado um ajuste drástico no país.

O Equador, em 2025, registrou um dos maiores índices de homicídios do mundo. Foram mais de 9,2 mil assassinatos, segundo dados oficiais, mesmo com as políticas de "braço forte" e a mobilização militar ordenada por Noboa nos últimos dois anos.

E, no Chile, os índices de aprovação de José Antonio Kast caíram desde que o presidente tomou posse em março. Isso se deve à estagnação econômica, ao desemprego que aumentou para 9,4% entre março e maio e à criminalidade, que permanece uma das maiores preocupações da população do país.

"É um erro pensar que a direita veio para ficar", alerta Lagos.

Mas ele destaca que, antes do retorno da esquerda ao continente, poderão surgir "novos tipos de populismo".

"Se a direita não conseguir controlar a segurança, será o equivalente funcional à incapacidade da esquerda de eliminar a pobreza", explica Lagos.

"São promessas não cumpridas, com sinais ideológicos distintos. Quem será eleito depois?"

 

Fonte: Opera Mundi/Brasil de Fato/BBC News Mundo

 

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