Lula
está usando reajuste do Bolsa Família como arma eleitoral?
Com sua
campanha eleitoral pressionada pela grave crise do Supremo Tribunal Federal
(STF) e a recuperação de Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas, o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva (PT) anunciou na quinta-feira (17/9) o primeiro reajuste
do Bolsa Família em quatro anos.
Com o
aumento de 15%, o piso do benefício subirá de R$ 600 para R$ 691, e o valor
médio pago pelo programa deve aumentar de R$ 675 para R$ 777.
Os
novos valores começam a ser pagos em outubro, a partir do dia 19, ou seja,
pouco antes da data prevista de um possível segundo turno, marcado para o
domingo (25/10).
A
iniciativa, anunciada a 17 dias do primeiro turno das eleições, se soma a uma
série de outras medidas já adotadas com impacto direto no bolso dos eleitores.
No caso
da população de menor renda, por exemplo, o Gás do Povo mais que triplicou as
famílias atendidas em 2026, de 4,5 milhões para 15 milhões. A classe média, por
sua vez, foi beneficiada com a ampliação da isenção do Imposto de Renda para
quem ganha até R$ 5 mil. Também foi lançado o Novo Desenrola, para renegociação
de dívidas.
Para o
cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, o reajuste do
Bolsa Família é mais uma iniciativa econômica lançada de olho no possível
impacto eleitoral.
Cortez
ressalta que a estratégia não é novidade. Na sua avaliação, o ex-presidente
Jair Bolsonaro (PL) foi ainda mais agressivo quando aprovou no Congresso uma
alteração constitucional para ampliar benefícios sociais em julho de 2022,
poucos meses antes das eleições presidenciais daquele ano, quando tentava um
segundo mandato.
A
mudança ficou conhecida como PEC Kamikaze e permitiu ampliar o Auxílio-Gás e o
Auxílio Brasil (substituto do Bolsa Família em seu governo) e criar benefícios
temporários para caminhoneiros e taxistas. Mais tarde, em 2024, o STF
considerou essa PEC (proposta de emenda à Constituição) inconstitucional.
O
benefício do Auxílio Brasil, por exemplo, teve um aumento de 50% naquele
momento, passando de R$ 400 para R$ 600. Na época, ficou estabelecido que o
valor de R$ 600 valeria até dezembro de 2022, portanto até o fim de seu
governo. Para o Orçamento de 2023 enviado pelo governo Bolsonaro ao Congresso,
estava previsto um valor médio de R$ 405 para o auxílio.
Mas,
após ser eleito, Lula manteve o valor de R$ 600, e programa voltou a ser
chamado de Bolsa Família. Justamente pelo reajuste expressivo de 2022, a gestão
petista dizia não ver necessidade de ampliar o benefício nos últimos anos.
No
entanto, a menos de três semanas do primeiro turno, o aumento foi anunciado
agora com a justificativa de repor a inflação acumulada desde 2023.
"Quando
a gente olhava o discurso da equipe econômica, não aparecia a recomposição dos
ganhos do valor do Bolsa Família. O governo não deu [reajustes] uma vez que ele
assumiu o valor do Auxílio Brasil, que também foi um movimento eleitoreiro, até
numa magnitude maior do que o governo faz agora", avalia Cortez.
"O
governo Lula é mais modesto nesse voluntarismo eleitoral, mas não deixa de ser
um movimento voluntarista", diz o cientista político.
Outra
diferença, ressalta Cortez, é que o aumento anunciado agora é permitido pela
lei que rege o Bolsa Família e autoriza o governo a reajustar o benefício pela
inflação.
Enquanto
Bolsonaro, lembra, alterou a Constituição para contornar limitações a aumentos
de benefícios sociais em ano eleitoral. A justificativa apresentada na época
era a necessidade de mitigar os impactos econômicos da guerra entre Rússia e
Ucrânia.
"Bolsonaro
fez um novo arcabouço institucional, criando uma excepcionalidade artificial,
no fundo, para driblar a restrição constitucional", avalia.
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Qual será o impacto eleitoral?
Segundo
as pesquisas BTG Nexus, o eleitor do Bolsa Família já tem uma forte preferência
por Lula. O último levantamento, divulgado em 14 de setembro, indicou que, em
eventual segundo turno, 73% dizem votar no petista contra 23% que responderam
votar no Flávio Bolsonaro.
Para os
entrevistados, o reajuste pode sim ter impactos eleitorais, embora sem
potencial para mudar o atual cenário de disputa apertada, em que a oposição
aparece com chances reais de vitória.
O
analista político Creomar de Souza explica que medidas econômicas que afetam
diretamente o bolso do eleitor podem demorar 90 dias, às vezes seis meses, para
serem refletidas positivamente no voto.
Por
isso, esse não seria o efeito buscado agora, uma vez que os valores reajustados
só começarão a ser pagos em 19 de outubro — muito próximo do segundo turno.
Um
impacto mais importante seria tirar um pouco o foco da agenda eleitoral que
recaiu sobre a crise do STF.
"O
que importa, efetivamente, é trazer uma agenda positiva para estancar a crise.
O governo está muito carente de boas notícias, principalmente nos últimos 20
dias", avalia Souza.
O
Supremo está profundamente rachado, após o ministro André Mendonça encaminhar
para análise do plenário suspeitas envolvendo Alexandre de Moraes e o banqueiro
Daniel Vorcaro, acusado de fraudes bilionárias no Banco Master.
Ministros
aliados de Moraes, como Gilmar Mendes e Flávio Dino, acusam Mendonça de ter
atuado politicamente para beneficiar o campo bolsonarista ao expor as suspeitas
contra Moraes, mantendo sob sigilo possíveis ligações de outros integrantes da
Corte com Vorcaro.
Flávio
Bolsonaro tem explorado a crise para reforçar os ataques a Moraes e enfatizar
uma suposta ligação do ministro com o governo Lula, embora ele tenha entrado na
Corte por indicação do então presidente Michel Temer (MDB), como o petista
passou a reforçar em resposta ao discurso de seu principal adversário na
eleição.
Rafael
Cortez aponta outro possível impacto do reajuste do Bolsa Família: atrair para
o petista mais votos dos beneficiários do Sudeste, que são 28% do público
atendido pelo programa.
A
vitória de Lula em 2022 se deu, sobretudo, por causa da recuperação de
eleitores da região Sudeste que haviam votado em Bolsonaro em 2018 e migraram
para o petista em 2022. Pesquisas eleitorais apontam que esse eleitorado
estaria agora retornando para Flávio, o que explica sua melhora nas pesquisas
nos últimos meses.
Para
que Lula conquiste a reeleição, nota Cortez, é fundamental manter esses
eleitores que o apoiaram em 2022.
"O
governo está mirando, com essa medida, um eleitor de renda mais baixa e,
obviamente, concentrado na região Sudeste, que padece com o custo de vida mais
alto dos grandes centros urbanos", diz o analista.
"Mas
não vejo um cenário de revolução na disputa. A disputa deve chegar ao primeiro
turno como hoje, ou seja, uma eleição aberta, com chances reais de vitória da
oposição. E esse aumento do Bolsa Família não coloca Lula na condição de que
não há risco de perder a eleição".
Cortez
lista outras medidas que poderiam se somar ao reajuste do benefício, ampliando
o potencial de impacto eleitoral.
Uma
delas é a possível edição de uma medida provisória (MP) nos próximos dias
restringindo a atuação das empresas de apostas, conhecidas como bets. Segundo
reportagem do portal UOL de quarta-feira (16), a MP ainda está em estudo, e o
governo cogita proibir jogos online e restringir apostas esportivas.
Outra
seria a aprovação no Congresso do fim da escala de trabalho 6x1. O governo
pressiona o presidente do Senado a colocar a proposta em votação antes do
segundo turno. A PEC já recebeu o aval da Câmara e precisa ser aprovada com
texto idêntico no Senado para entrar em vigor.
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Impacto da crise do Supremo
Na
atual disputa, a notícia desta quinta-feira vem como uma estratégia de Lula
para estancar dias difíceis para sua campanha, afetada pela crise no STF,
segundo Creomar de Souza.
"Depois
de um período em que o governo ficou muito na defensiva e, por consequência, a
campanha do Lula ficou muito na defensiva, há o aumento do Bolsa Família e a
possibilidade de colocar a campanha do Flávio na defensiva", diz o
analista, fundador da consultoria de análise de risco político Dharma e autor
do livro Gestão de Risco Político.
Segundo
o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) tem 39% de intenção de votos, seguido por Flávio Bolsonaro (PL), que
aparece com 35% da preferência do eleitorado. Em um eventual segundo turno,
Lula e Flávio aparecem empatados, ambos com 44%.
Na
avaliação de Creomar, Flávio deve ficar nesta posição mais recuada devido aos
riscos de se colocar contra uma medida popular.
"A
Flávio e aos seus apoiadores, não cabe muito mais do que fazer alguma
reclamação", aponta Souza, indicando que reações mais duras, como críticas
incisivas e frequentes, ou mesmo a judicialização contra o reajuste, poderiam
acabar prejudicando a campanha do candidato do PL.
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Flávio diz que manteria reajuste e Renan Santos aciona o TSE
Horas
depois do anúncio de reajuste feito pelo governo, Flávio Bolsonaro afirmou que,
se eleito, vai manter o reajuste de 15% anunciado por Lula.
Mais
cedo, em evento de campanha na Bahia, o candidato do PL focou suas críticas na
atuação de Lula, não entrando no mérito do auxílio em si.
Flávio
disse que o aumento do Bolsa Família é "desespero" de Lula porque o
petista "sabe que já perdeu".
"Lula
acabou de fazer um decreto, mesmo sabendo que é ilegal e proibido durante as
eleições. Fez uma coisa que não fez em quatro anos de governo. Faltando 17 dias
para a eleição, ele acha que vai enganar alguém dando reajuste no Bolsa
Família", afirmou.
Já o
candidato à presidência Renan Santos (Missão) acionou nesta quinta-feira o
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo que o aumento seja suspenso até que o
candidato vencedor da eleição presidencial tome posse, argumentando que isso
garantiria o equilíbrio na corrida eleitoral.
O
ministro André Mendonça será o relator da ação.
Em um
vídeo, Renan Santos chamou de "criminoso" e "absurdo" o
reajuste anunciado por Lula nesta quinta-feira.
"É
tudo que se espera de um presidente que tentou comprar voto, agora utilizando o
vale gás, há alguns meses atrás com energia elétrica. O que que é isso? O que
eles vão fazer com o brasileiro que está trabalhando e pagando essa
conta?", indagou.
Mais
cedo na quinta, um aliado de Flávio, o deputado federal Zé Trovão (PL-SC), já
havia acionado o TSE solicitando a suspensão do aumento. Mendonça logo rejeitou
a ação, argumentando que um deputado federal não pode apresentar uma ação
contra um candidato à presidência.
Horas
depois, Flávio Bolsonaro afirmou não concordar com o pedido feito por Zé Trovão
ao TSE.
Ronaldo
Caiado (PSD), por sua vez, classificou o anúncio do aumento como uma
"medida eleitoreira" e destacou os custos da medida para as contas
públicas.
"Ninguém
é contra apoiar quem mais precisa, e o valor do Bolsa Família deve proteger
quem vive em vulnerabilidade. Mas aprovar R$ 5,8 bi de reajuste a 17 dias da
eleição escancara o uso eleitoreiro do programa. A dívida do país está no
vermelho. É um desgoverno que rifa o futuro do país sem o menor pudor",
escreveu o candidato à presidência na rede social X.
Romeu
Zema (Novo) fez críticas parecidas. Em sabatina no SBT, o candidato disse
defender o reajuste do Bolsa Família do "jeito certo" — indicando que
priorizaria "pessoas que tomam conta de crianças", idosos e pessoas
portadoras de deficiências.
A
reportagem não encontrou, até o fechamento desse texto, manifestações do
candidato Augusto Cury (Avante), que aparece em terceiro lugar no Agregador de
Pesquisas da BBC News Brasil.
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O que diz o governo
A
Advocacia-Geral da União (AGU) rebateu as acusações de que o aumento seja
ilegal e fira regras eleitorais. Segundo o órgão, o aumento aplicado se refere
à inflação de março de 2023 até agosto de 2026.
"A
correção do benefício pautada no INPC [índice que mede a inflação dos mais
pobres], sem ampliação do público atendido, está fora, portanto, do alcance de
qualquer vedação eleitoral, conforme apreciação realizada pela Câmara Nacional
de Direito Eleitoral da Consultoria-Geral da União da AGU", afirmou a AGU
em nota à imprensa.
Em post
na rede social X, Lula defendeu a medida.
"É
nosso dever preservar o poder de compra de quem mais precisa. E estamos fazendo
isso com responsabilidade: a atualização cabe no Orçamento, sem aumentar o
limite total de despesas do governo", disse.
"Bolsa
Família é para garantir comida na mesa, dignidade e oportunidade para as
famílias seguirem em frente", continuou.
A
projeção do Ministério do Planejamento é de que o reajuste significará um
aumento de R$ 5,8 bilhões nos gastos do Bolsa Família deste ano, que estavam
previstos em cerca de R$ 160 bilhões originalmente.
Para
2027, o orçamento previsto para o programa deve ser elevado em R$ 22 bilhões,
passando de R$ 157,1 bilhões para R$ 179,1 bilhões.
O
governo, porém, minimiza o impacto fiscal. Segundo o Ministério do
Planejamento, esse aumento de gastos será acomodado dentro do orçamento total,
a partir da redução de outras despesas e do próprio encolhimento do Bolsa
Família, devido à redução do número de famílias beneficiadas ao longo do atual
governo.
O
número de beneficiários do programa caiu de 21,2 milhões no início de 2023 para
18,6 milhões em novembro de 2025. Depois, voltou a subir e está em 19,28
milhões atualmente.
Com
isso, o montante total transferido caiu de R$ 170 bilhões em 2024 para R$ 160
bilhões em 2025 — valor que seria mantido em 2026, segundo o Orçamento da
União, e que agora sofrerá um aumento.
As
previsões do governo sobre o impacto fiscal da medida, porém, geram
desconfianças.
A
Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão do Senado Federal, calcula que as
contas públicas tenham um déficit primário de R$ 86,1 bilhões em 2027, projeção
que ainda não inclui o reajuste anunciado para o Bolsa Família.
"Independentemente
do mérito e do objetivo, o reajuste do Bolsa Família implica num gasto
adicional de R$ 24 bilhões em 2027. De onde sai isso? Desse jeito, não vai ter
investimento nem taxa de juros baixa", disse ao jornal Estado de S.Paulo o
diretor executivo da IFI, Marcus Pestana.
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Por que o Bolsa Família encolheu no atual governo?
O Bolsa
Família foi criado em 2003, no primeiro governo Lula, e é reconhecido
internacionalmente como um programa eficiente na redução da fome e da pobreza,
por instituições como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.
O
programa teve uma grande expansão durante o governo de Jair Bolsonaro, com o
objetivo de minimizar o crescimento da pobreza durante a pandemia de covid-19,
momento em que mudou de nome para Auxílio Brasil.
Após
sua eleição, Lula resgatou o nome original, mas manteve o novo valor do
benefício, de ao menos R$ 600 por família. Depois disso, o benefício não teve
qualquer reajuste, nem mesmo correção inflacionária, até o anúncio desta
quinta-feira (17/9).
O atual
governo critica a gestão Bolsonaro por ter ampliado os benefícios unipessoais,
ou seja, concedidos a famílias formadas por apenas uma pessoa, algo visto como
uma distorção do programa.
Segundo
a gestão Lula, esse problema foi combatido, assim como possíveis fraudes, o que
levou à redução do número de famílias atendidas no atual governo.
Fonte:
BBC News Brasil

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