A
“Segurança” dos Bolsonaro exposta no Rio
O Rio
de Janeiro está doente há décadas. E não apenas no sentido metafórico. Para a
nossa concepção, saúde é muito mais do que ausência de doença. Ela compreende
as condições necessárias a uma vida digna — moradia, educação, trabalho, renda,
alimentação, serviços públicos e segurança — e a possibilidade de viver sem
medo: medo da violência, do abandono, do futuro e, talvez o mais perturbador,
medo daqueles que deveriam proteger a cidadania, os direitos e a lei. Saúde
física, mental e institucional são inseparáveis.
No Rio,
todas elas estão comprometidas. Cerca de 4 milhões de pessoas, 34,9% da
população da Região Metropolitana, viviam em 2024 sob controle ou influência de
grupos armados. Milícias e facções não se limitam ao tráfico: exploram gás,
internet, televisão, transporte, imóveis, segurança e outros negócios. Cobram,
autorizam, proíbem e impõem regras. Em extensas áreas, organizações criminosas
disputam com o poder público uma prerrogativa elementar do Estado: determinar
como as pessoas vivem.
A
degradação alcançou também as instituições. A história recente produziu uma
sequência extraordinária de governadores e ex-governadores presos, condenados,
investigados ou afastados. Benedita da Silva, que governou o estado em 2002,
destaca-se como honrosa exceção nessa história recente. Mais do que uma
sucessão de escândalos, o que aparece é a profundidade de uma crise
institucional que atravessou governos, partidos e diferentes grupos políticos.
Na
segurança pública, responsabilidade central do governo estadual, a contradição
é brutal. Há décadas, operações de enorme letalidade e chacinas são
apresentadas como resposta à criminalidade, enquanto facções e milícias ampliam
seu poder territorial e econômico. Para parte da população, tornou-se plausível
até suspeitar de que determinados confrontos possam envolver disputas entre
grupos criminosos capazes de estabelecer relações com agentes do próprio
Estado. Quando uma suspeita dessa gravidade encontra acolhida social, o
problema já não é apenas policial: é também a perda de confiança nas
instituições.
O
espetáculo dantesco se repete: mortos, famílias desesperadas, escolas fechadas,
comunidades paralisadas. Quando há execuções, pratica-se algo equivalente a uma
pena de morte sem processo, defesa ou sentença. Um Estado que mata muito
não é necessariamente forte. Forte é o Estado capaz de investigar, prender,
julgar, proteger seus cidadãos e impedir que criminosos governem territórios.
Depois de décadas de sangue, o crime continua organizado, armado, rico e poderoso.
E o Rio continua a se degradar.
Essa
violência adoece mesmo quando não atinge diretamente o corpo. Milhões de
pessoas organizam a vida pelo medo: quando sair, por onde passar, se haverá
aula, se o ônibus circulará, se será possível trabalhar ou chegar a um
hospital. A criminalidade deixa de ser apenas problema policial e transforma-se
em determinante permanente da saúde física e mental.
Talvez
a face mais inquietante dessa crise apareça quando o crime atravessa a
fronteira entre território e instituição. Episódios distintos, vistos em
conjunto, expõem a porosidade das instituições fluminenses. TH Joias tornou-se
réu acusado de integrar organização criminosa ligada ao Comando Vermelho e de
participar de esquema que envolvia corrupção e vazamento de informações
policiais. Rodrigo Bacellar, então presidente da Alerj e personagem importante
das articulações políticas de Flávio Bolsonaro no estado, também foi alcançado
pelas investigações relacionadas a TH.
O
quadro se amplia. Chiquinho e Domingos Brazão foram condenados pelo STF pelo
planejamento dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes e por
organização criminosa armada. No mesmo processo, o ex-chefe da Polícia Civil
Rivaldo Barbosa foi condenado por corrupção passiva e obstrução da Justiça.
Adriano da Nóbrega, posteriormente apontado pelas autoridades como liderança
miliciana e associado ao Escritório do Crime, recebeu de Flávio Bolsonaro a
Medalha Tiradentes quando este era deputado estadual; a mãe e a ex-mulher de
Adriano trabalharam em seu gabinete.
Há
outros fios nessa trama. Gutemberg Fonseca, amigo e aliado de Flávio, apareceu
numa planilha apreendida pela Polícia Federal e atribuída ao contraventor
Adilsinho, com registros associados a R$ 727 mil; Gutemberg nega relação com o
contraventor. Márcio Canella, outro aliado importante de Flávio, foi alvo da
Operação Unha e Carne, que investiga lavagem de dinheiro e possíveis conexões
entre organizações criminosas e agentes públicos, e permanece investigado.
Os
episódios têm pesos e situações processuais diferentes. O que interessa é o
padrão institucional que emerge do conjunto: políticos, agentes públicos,
investigados, condenados e organizações criminosas aparecem em relações que
atravessam as fronteiras entre poder político, administração pública e
criminalidade. Num estado onde grupos armados já controlam territórios e
mercados, essa porosidade é especialmente grave. A trajetória de quem disputa a
Presidência apresentando o combate ao crime organizado como credencial merece
ser examinada também por suas alianças e escolhas políticas.
A saúde
oferece outro retrato dessa degradação. No episódio do “Fala com a Márcia”,
durante a prefeitura de Marcelo Crivella, político ligado aos círculos
bolsonaristas, o próprio prefeito orientou lideranças evangélicas a procurar
sua assessora Márcia Nunes para encaminhar pessoas que necessitassem de
cirurgias de catarata e tratamentos de varizes. Márcia afirmou posteriormente
que não marcava cirurgias nem possuía senha do Sisreg. Diante de um direito
universal, surgia a intermediação pessoal e política como caminho para chegar
ao serviço público.
As
acusações mais recentes sobre os hospitais federais são ainda mais graves. Em
2026, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou na Câmara dos Deputados
que Flávio Bolsonaro indicara diretores e controlara a gestão dessas unidades
durante o governo de Jair Bolsonaro. A suspeita de influência política sobre
hospitais federais já havia aparecido anteriormente em declarações de Wilson
Witzel. Diante disso, as perguntas são inevitáveis: quem indicava os
dirigentes, quem decidia os contratos, como funcionavam as licitações e quem se
beneficiava dessas decisões?
A
experiência do bolsonarismo na saúde também é conhecida. Jair Bolsonaro teve
quatro ministros da Saúde durante a maior emergência sanitária em um século.
Mais de 700 mil brasileiros morreram de Covid-19 enquanto seu governo acumulava
conflitos sobre distanciamento social, medicamentos sem eficácia comprovada,
aquisição de vacinas e condução da pandemia. Investigações parlamentares e
estudos científicos apontaram decisões, omissões e mortes potencialmente
evitáveis, e a CPI da Pandemia recomendou o indiciamento de autoridades e
outros envolvidos. A responsabilização política e jurídica apontada ao final
daquele processo, entretanto, ficou muito aquém da gravidade das acusações
formuladas. O que essa experiência colocou em evidência vai além da gestão temerária
de uma emergência sanitária: alcança a própria concepção de Estado, ciência,
responsabilidade pública e saúde que orientou aquelas escolhas e produziu
consequências igualmente graves.
Essa
concepção encontrou convergências com uma perspectiva neoliberal de redução das
responsabilidades estatais e ampliação do espaço do mercado. Ricardo Barros,
ministro da Saúde no governo Temer e posteriormente aliado parlamentar de
Bolsonaro, defendeu maior participação privada na saúde e entrou em
controvérsia com a Fiocruz em torno da produção pública de medicamentos. Poucos
anos depois, a pandemia demonstraria o valor estratégico da capacidade
acumulada por instituições como Fiocruz, Bio-Manguinhos e Instituto Butantan.
Capacidade pública não se improvisa durante uma emergência.
O
domínio sobre o público não ocorre apenas pela arma; pode ocorrer também pela
captura de decisões, contratos e recursos. O fuzil e a captura das estruturas
públicas operam de formas distintas. O ponto de encontro está naquilo que ambos
corroem: a capacidade do Estado de proteger o que pertence à coletividade.
Essa
constatação torna particularmente incômoda uma contradição do Rio. O estado é
um dos berços do bolsonarismo, e segurança e combate ao crime estão entre as
bandeiras mais insistentes desse campo político. A decadência fluminense
começou muito antes de sua ascensão. O que importa aqui é observar o que
ocorreu no lugar onde o bolsonarismo construiu raízes profundas, acumulou poder
e produziu algumas de suas principais lideranças. Facções e milícias continuam
controlando territórios, diversificaram negócios e alcançaram estruturas
políticas.
O Banco
Master acrescenta outra dimensão. Durante a gestão de Cláudio Castro, aliado
político dos Bolsonaro, a RioPrevidência aplicou R$ 3,6 bilhões em letras financeiras
e fundos ligados ao banco de Daniel Vorcaro. A Polícia Federal investiga a
regularidade dessas operações e, segundo decisão judicial que autorizou buscas
contra Castro, os indícios reunidos apontavam que o então governador exerceu
“papel politicamente relevante” na viabilização dos aportes. Estamos falando de
patrimônio previdenciário destinado a garantir aposentadorias e pensões dos
servidores do Rio.
É nesse
contexto que a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro ganha outra
dimensão. Flávio tornou-se investigado por suspeitas relacionadas às transações
envolvendo o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.
Documentos e mensagens analisados pela Polícia Federal apontam sua participação
direta nas negociações com Vorcaro. Segundo a PF, Flávio pediu R$ 131 milhões
ao banqueiro para a produção do filme, dos quais R$ 60 milhões teriam sido
pagos. Flávio e Eduardo Bolsonaro negam irregularidades relacionadas ao
financiamento.
Mas
dinheiro privado não é sinônimo de dinheiro lícito. A investigação procura
esclarecer de onde vieram os valores, por onde circularam e quem deles se
beneficiou. Não há demonstração de que o dinheiro destinado ao filme tenha
saído da RioPrevidência. Há, entretanto, uma questão incontornável: o banqueiro
que negociava milhões para um projeto ligado à família Bolsonaro controlava uma
instituição que captou volumes bilionários de recursos administrados por
entidades públicas e posteriormente foi colocada no centro de investigações
sobre fraudes financeiras.
Há
ainda um problema de credibilidade. Por que Flávio negou uma relação que depois
precisou admitir? De onde vieram efetivamente os milhões negociados? Por quais
caminhos circularam e quem foram seus beneficiários finais? São perguntas de
interesse público quando dirigidas a alguém que disputa a Presidência sob as
bandeiras da ordem, da segurança e do combate à corrupção.
O Rio
oferece, afinal, uma experiência concreta. Milhões de pessoas organizam a vida
pelo medo; grupos armados controlam territórios e mercados; sucessivos
escândalos corroeram a confiança nas instituições. Uma sociedade submetida a
essas condições não pode ser considerada saudável. Saúde física, mental e
institucional dependem de dignidade, segurança, direitos e confiança no futuro.
A longa
decadência do Rio não começou com o bolsonarismo e não cabe numa única
explicação. Mas o passado de quem pretende governar o país importa: suas
alianças, suas declarações, suas propostas e, sobretudo, aquilo que ocorreu
quando seu grupo político exerceu o poder. Prometer ordem é fácil. O exercício
do poder deixa um registro. É esse registro que precisa ser examinado.
Depois
de décadas de chacinas, corrupção, expansão do crime organizado e deterioração
institucional, já não estamos falando apenas de segurança pública. Estamos
falando da saúde de uma sociedade, da qualidade de suas instituições e da
capacidade do Estado de continuar sendo verdadeiramente público.
Queremos
isso para o Brasil?
Fonte: Por
Carlos Fidelis Ponte, em Outras Palavras

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