Cunhado
de Mendonça trabalha para deputado suspeito de vender influência sobre
tribunais
Cunhado
do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, José Nagliatti
trabalha no gabinete do deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) e também
atua no Instituto Iter, instituição de ensino dedicada a ministrar cursos de
formação e aperfeiçoamento profissional, fundado pelo magistrado em 2023.
Cezinha,
que mantém uma relação próxima com Mendonça, foi alvo, nesta segunda-feira (dia
14), de uma operação da Polícia Federal (PF) que investiga suspeitas de tráfico
de influência em tribunais superiores.
Nagliatti
está lotado no gabinete do parlamentar desde março de 2023, segundo registros
da Câmara dos Deputados. Paralelamente ao cargo de secretário parlamentar, ele
organiza e recepciona visitas de potenciais parceiros do Instituto Iter,
conforme revelam publicações nas redes sociais.
Em uma
postagem no Linkedin no dia 28 de julho de 2025, o Banco de Olhos de Sorocaba
(BOS) atribui ao cunhado de André Mendonça a organização de um encontro entre
os representantes da instituição de saúde com dirigentes do instituto. Na
publicação, o BOS identifica José Nagliatti como “executivo de vendas”. André
Mendonça também participou do encontro.
Outro
registro mostra Nagliatti recebendo visitantes no Iter. O advogado Marcus Reis,
um dos organizadores do VII Congresso Nacional de Direito Agrário, afirmou ter
sido recebido no local por Nagliatti. “Recebido com gentileza e entusiasmo pelo
amigo José Nagliatti”, escreveu no dia 6 de junho de 2025. “Agradeço o
Instituto Iter, o convite do Ministro André Mendonça e todo carinho recebido
pelo meu amigo José Nagliatti”, escreveu em outro post o vereador de Peruíbe
(SP), Fábio Mariano.
A
explicação sobre os serviços ao gabinete de Cezinho de Madureira ficou a cargo
do deputado, que por meio de nota, informou que José Nagliatti “exerce cargo de
secretário parlamentar, com atuação pública e regularmente registrada pela
Câmara dos Deputados, desempenhando funções técnicas de apoio à agenda e aos
deslocamentos do parlamentar”.
“Participações
pontuais em outras atividades ocorrem sem prejuízo das atribuições funcionais e
sem sobreposição de jornadas”, acrescentou. Ainda segundo a nota, a nomeação do
cunhado de Mendonça “seguiu o rito próprio dos cargos de livre provimento no âmbito
da Câmara dos Deputados”. “Não há circunstância que tenha interferido no
regular exercício das funções no gabinete”, diz a nota.
Procurado,
o ministro André Mendonça informou que não irá se manifestar, e o Instituto
Inter não respondeu até a publicação.
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Cunhado de Mendonça tem jornada de 40 horas na Câmara
De
acordo com a Câmara dos Deputados, o secretário parlamentar está sujeito a uma
jornada semanal de 40 horas poderá
realizar atividade privada, desde que fora do período de trabalho.
José
Nagliatti está lotado no gabinete de Cezinha de Madureira como secretário
parlamentar, nível SPO2, com salário bruto de R$ 1,9 mil e R$ 1,8 mil de
auxílios. Ele é irmão de Janey Nagliatti
de Mendonça, esposa de André Mendonça, que constava nos registros do Iter como
administradora.
No dia
3 de setembro, porém, Janey e o ministro anunciaram que deixariam a sociedade,
sem qualquer contrapartida financeira. A decisão foi divulgada após o ICL
Notícias, em parceria com a newsletter Noites Húngaras, do repórter Paulo
Motoryn, revelar que Mendonça havia se reunido com Daniel Vorcaro no instituto.
A
reportagem revelou mensagens e áudios extraídos do celular do banqueiro que
mostram Cezinha de Madureira atuando, ao lado do advogado Ciro Rocha Soares, na
aproximação do então dono do Banco Master com Mendonça. Em março de 2025, o
deputado marcou uma reunião entre os dois no Instituto Iter, em São Paulo,
enviou o endereço a Vorcaro e, pouco antes do encontro, avisou: “Ministro já
está te esperando”.
Mendonça
confirmou ter recebido o banqueiro e afirmou que se limitou a ouvi-lo sobre um
processo no STF envolvendo créditos de precatórios de interesse do Master. O
ministro afirmou ainda que votou contra os interesses de Daniel Vorcaro.
“Registre-se,
aliás, que a atuação jurisdicional do ministro foi contrária à posição
defendida pelo empresário, em linha com sua posição historicamente defendida em
casos semelhantes, conforme se pode verificar nos autos.”
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Aliado de Mendonça é investigado por tráfico de influência
A
relação de Cezinha com Mendonça voltou ao centro das atenções nesta semana. Na
segunda-feira (14/9), o deputado foi alvo da terceira fase da Operação
Transparência, autorizada pelo ministro Flávio Dino, do STF. A PF investiga
suspeitas de que o parlamentar usava sua posição e o acesso a integrantes de
tribunais superiores para oferecer influência sobre decisões judiciais em troca
de pagamentos.
“As
investigações apontam que integrantes do grupo teriam negociado com terceiros o
pagamento de valores expressivos, condicionados ao resultado de processos em
curso, a pretexto de influir em decisões judiciais. ”, informou a PF. Para os
investigadores, as mensagens indicam que cabia
ao deputado “o suposto contato pessoal e direto com ministros de
tribunais superiores”.
A
Polícia Federal ressalta que os ministros citados não são investigados. Em
trecho da representação reproduzido por Flávio Dino na decisão, a PF afirma que
os magistrados aparecem “exclusivamente como destinatários cogitados da
influência anunciada pelos investigados […] e jamais como suspeitos”. Segundo a
corporação, “não há, nos elementos reunidos, notícia de solicitação, de
aceitação ou de recebimento de vantagem indevida por integrante do Poder
Judiciário”, nem de decisão judicial contrária ao direito.
A
investigação chegou ao deputado a partir de outra apuração, aberta para
investigar irregularidades na destinação de emendas parlamentares. Em dezembro
de 2025, a PF apreendeu o celular de Mariângela Fialek, Tuca, advogada e
ex-assessora do deputado Arthur Lira (PP-AL). A análise das mensagens
encontradas no aparelho levou os investigadores aos contatos de Cezinha e da
advogada Valéria Rodrigues Linhares, apontada pela como esposa do deputado.
Segundo
os investigadores, “o padrão de conduta é constante e se repete em todos os
episódios” analisados: “(i) Fialek encaminha ao parlamentar a peça, o memorial
ou o andamento processual; (ii) o parlamentar confirma que “falou”,
“despachou”, “pediu” ou que será atendido pelo Ministro; (iii) a advogada cobra
o resultado (“Manda notícias”, “Me de boas notícias!”, “Qual o próximo passo”;
e (iv) paralelamente, formaliza-se o instrumento de honorários de êxito, em
valores incompatíveis com a simples atuação técnica e vinculados exclusivamente
ao resultado do julgamento”.
A
investigação também tenta esclarecer a origem dos R$ 510 mil em espécie
apreendidos pela PF, em agosto, na bagagem de mão de Valéria no Aeroporto de
Congonhas, em São Paulo. A polícia suspeita que o dinheiro possa estar
relacionado aos fatos investigados.
Durante
as buscas na casa de Cezinha, os policiais encontraram um porta-retrato com uma
fotografia do deputado e de Valéria ao lado de André Mendonça e da esposa do
ministro.
Em nota
enviada à reportagem, o deputado foi questionado sobre as investigações, mas
não respondeu. Ao portal G1, a defesa do deputado informou que os fatos serão
devidamente esclarecidos no devido processo legal, com a demonstração de que
nenhuma irregularidade foi cometida. Importante ressaltar que, conforme a
jurisprudência do STF estabelece, medidas de tamanha repercussão deveriam ter
sido conduzidas com a devida distância de qualquer circunstância política ou
eleitoral”, acrescentam.
O ICL
Notícias também procurou a defedera de Valéria e de Mariangela Fialek, que não
retornaram.
• Dino manda investigar Master ligado a
cemitérios de SP e mantém Mendonça sob suspeita
O
ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou a Polícia
Federal investigar as relações do Banco Master com empresas responsáveis pela
concessão de cemitérios da Prefeitura de São Paulo após identificar o que
chamou de “adensamento de indícios de crimes” nessas operações. Ao mesmo tempo,
Dino determinou que a PF não pratique, nesse inquérito, nenhum ato que possa
atingir André Mendonça e manteve nas mãos do próprio Supremo qualquer
providência relacionada às suspeitas envolvendo o ministro.
A
decisão, assinada nesta quinta-feira (17), abre uma nova frente de investigação
sobre as conexões do conglomerado de Daniel Vorcaro com concessionárias
diretamente alcançadas pela ação que tramita no STF sobre os serviços
funerários da capital paulista.
Dino
delimitou o inquérito às relações entre o Banco Master e as empresas
concessionárias, mas deixou aberta a possibilidade de a investigação alcançar
“eventualmente, agentes dos Poderes Executivo e Legislativo”.
Mendonça
recebeu tratamento separado.
“Desde
logo, esclareço ser vedado qualquer ato investigativo, que possa atingir o
Exmo. Ministro André Mendonça”, escreveu Dino. Segundo ele, qualquer
encaminhamento envolvendo o colega “compete exclusivamente ao Presidente do STF
junto ao Colegiado”.
Na
prática, Dino abriu a investigação criminal sobre os negócios do Master com as
concessionárias, mas deixou eventuais providências sobre a atuação de Mendonça
dentro do próprio Supremo.
O
relator ainda voltou a chamar formalmente a atenção da Presidência da Corte
para o caso. Segundo Dino, tanto a decisão desta quinta quanto a anterior fazem
“expressa alusão à atuação funcional de um Ministro desta Corte”, envolvendo
pedido de vista e abertura de divergência.
Por
isso, determinou nova ciência ao presidente do STF “para o que ele considerar
cabível”.
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Master tinha poder sobre decisões de concessionária
A nova
decisão foi provocada pelo aparecimento de outra conexão entre o conglomerado
de Vorcaro e uma concessionária atingida diretamente pelo julgamento do
Supremo.
Segundo
os documentos citados por Dino, dois financiamentos concedidos pelo Banco
Master à Cemitérios e Crematórios SP, ligada ao Grupo Maya, somavam R$ 78
milhões.
Como
garantia dos empréstimos, as três acionistas formais da concessionária — Conata
Engenharia, Infracon Engenharia e RMG Construções e Empreendimentos — alienaram
fiduciariamente ao Master a totalidade das ações da empresa.
Mas o
ponto destacado por Dino é que o banco não tinha apenas uma garantia
financeira.
Os
contratos davam ao credor influência sobre decisões da própria concessionária.
As acionistas deveriam encaminhar as convocações das assembleias e, diante de
uma deliberação capaz de afetar os interesses do credor, este poderia
determinar como deveriam votar.
Dino
registra que os instrumentos davam ao Master “poderes de ingerência sobre
deliberações societárias” e a prerrogativa de orientar, com exclusividade, o
exercício do direito de voto das acionistas.
O
contrato citado na decisão é ainda mais explícito: as acionistas deveriam
exercer ou deixar de exercer o voto segundo a “orientação exclusiva” do
proprietário fiduciário. Também não poderiam aprovar determinadas vendas ou
aquisições de ativos sem autorização.
Para
Dino, portanto, os elementos indicam uma relação do conglomerado de Vorcaro com
uma empresa diretamente afetada pelo processo que estava sob julgamento do STF.
O
ministro afirma que os “aparentes vínculos do Master com interesses diretos nos
presentes autos” não se restringiam à Cortel, concessionária na qual Fabiano
Zettel, cunhado de Vorcaro, exerceu função de conselheiro. Eles alcançariam
também o Grupo Maya.
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Créditos passaram por estrutura nas Ilhas Cayman
Há
ainda outro ponto destacado na decisão.
Antes
do encontro entre Vorcaro e Mendonça, os créditos garantidos pelas ações da
concessionária passaram por uma sequência de operações dentro de estruturas
ligadas ao conglomerado.
Segundo
o documento, os créditos chegaram à Master Holding, nas Ilhas Cayman, empresa
ligada ao grupo de Vorcaro, e posteriormente foram usados em negociação com o
BRB.
Dino
registra que as informações disponíveis apontam que os créditos “teriam
transitado por estruturas ligadas à Master Holding constituídas nas Ilhas
Cayman”.
A
ligação financeira ganhou relevância no STF porque Vorcaro se reuniu com
Mendonça quando a ação sobre os cemitérios estava em julgamento. Mendonça
posteriormente pediu vista e abriu divergência no processo — circunstâncias que
Dino volta a registrar ao comunicar a Presidência do Supremo.
Mendonça
afirmou anteriormente que o encontro com Vorcaro tratou de outro processo no
STF e sustenta que sua atuação foi pautada pela legalidade e pela
impessoalidade.
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CVM terá 15 dias para aprofundar rastreamento
Além da
investigação da PF, Dino ampliou as diligências que já havia determinado à
Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
A
autarquia terá de incluir a Cemitérios e Crematórios SP, o Grupo Maya e as
sociedades relacionadas no levantamento prioritário sobre fundos de
investimento e “todas as empresas privadas concessionárias de cemitérios de São
Paulo”. O prazo é de 15 dias.
Dino
também registrou que recaem sobre o Grupo Maya “reiteradas alegações de
descumprimento das obrigações” assumidas na concessão.
Entre
os episódios mencionados estão cobranças incompatíveis com a tabela tarifária e
a comercialização de produtos e serviços funerários sem respaldo contratual ou
regulatório.
O
ministro destaca um episódio que classifica como emblemático: a cobrança de R$
12 mil pelo sepultamento de um recém-nascido no Cemitério da Saudade,
associada, segundo os autos, à falta de disponibilização da tabela oficial de
preços ao usuário.
A
decisão desta quinta transforma os novos elementos em duas frentes distintas.
De um lado, a PF deverá investigar as relações entre o Master e as
concessionárias de cemitérios de São Paulo, podendo alcançar eventuais agentes
do Executivo e do Legislativo. De outro, Dino mantém dentro do STF qualquer
providência relacionada a Mendonça e volta a colocar o caso formalmente nas
mãos da Presidência da Corte.
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Contraponto
Em
nota, a Prefeitura de São Paulo, por meio da SP Regula, afirmou que:
A SP
Regula informa que relações financeiras mantidas pelas concessionárias de
serviços funerários na cidade de São Paulo com bancos ou fundos privados não
configuram, por si, qualquer irregularidade contratual. A capacidade
econômico-financeira das empresas é acompanhada permanentemente, e os contratos
são fiscalizados de forma contínua e regular. Sobre a intimação, a Procuradoria
Geral do Município (PGM) informa que o Município foi notificado e está
analisando a situação.
Fonte:
Por Alice Maciel, em ICL Notícias

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