Pagamentos
de Vorcaro a empresa do filho de Nunes Marques coincidem com votos do ministro
favoráveis ao Master
Novas
mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco
Master, associam transferências feitas pela instituição à Consult Inteligência
Tributária, empresa que repassou R$ 282 mil ao advogado Kevin Marques, filho do
ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF). As conversas
foram reveladas pela revista piauí, que teve acesso ao conteúdo apreendido pela
Polícia Federal.
Os
diálogos indicam que Luiz Rennó, advogado de confiança de Vorcaro e assessor
jurídico do Master, relacionava diretamente os pagamentos à Consult ao filho do
ministro.
Em 8 de
agosto de 2025, Rennó enviou a Vorcaro uma mensagem sobre pagamentos que
considerava essenciais. “Dos pagamentos essenciais está faltando a consult”,
escreveu, referindo-se à Consult. Em seguida, encaminhou o cartão de contato de
Kevin Marques e acrescentou: “Aqui.”
Vorcaro
respondeu apenas “Oi”. Rennó então reforçou: “Esse aí.” E completou: “Único
‘meu’ que faltou.” Cerca de meia hora depois, o advogado avisou: “Foi pago.”
A
conversa ocorreu no período em que a Consult recebia milhões de reais do Banco
Master. Segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras
(Coaf), entre agosto de 2024 e julho de 2025 foram identificadas 14
transferências do Master para a empresa, totalizando R$ 6,632 milhões.
No
sentido inverso, a Consult realizou 11 transferências para Kevin Marques, que
somaram R$ 282 mil.
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Menção a R$ 500 mil por mês
Outro
diálogo, de 4 de julho de 2025, também relaciona Kevin aos pagamentos. Rennó
enviou a Vorcaro o cartão de contato do advogado e perguntou: “Esse aqui – 500
mil mês – mantém?”. Em seguida, escreveu: “Então esse aqui já era né”,
acompanhado de risadas. Vorcaro respondeu: “Kkkk”.
As 14
transferências do Master para a Consult identificadas pelo Coaf totalizam R$
6,6 milhões. Dividido pelo número de operações, o valor médio é de
aproximadamente R$ 474 mil por transferência, próximo dos R$ 500 mil
mencionados na conversa. A reportagem da piauí, contudo, ressalta que não há
elementos para afirmar que os valores estejam necessariamente relacionados ou
que os pagamentos tenham seguido esse padrão mensal.
As
mensagens foram compartilhadas com gabinetes de ministros do STF depois de o
conteúdo do celular de Vorcaro ser analisado pela Polícia Federal.
A piauí
já havia publicado reportagens, em março e abril, sobre a relação financeira
entre Kevin Marques e a Consult.
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Pagamentos coincidiram com processo de interesse do Master
As
novas mensagens também lançam luz sobre o período em que ocorreram os repasses.
As transferências do Banco Master para a Consult coincidiram com a tramitação,
no STF, de um processo de interesse do setor sucroalcooleiro e que poderia
afetar a carteira de precatórios do banco.
O caso
envolvia a Destilaria Alcídia, que buscava indenização da União por prejuízos
atribuídos a políticas de controle de preços adotadas na década de 1980.
Segundo reportagem anterior da piauí, a decisão poderia produzir efeitos sobre
uma carteira de precatórios do setor que, conforme estimativas da PF, superava
R$ 10 bilhões no balanço do Master.
Nunes
Marques acabou tendo papel decisivo no julgamento.
Inicialmente,
o ministro havia sido considerado impedido de participar da análise. Na sessão
virtual realizada entre 9 e 20 de fevereiro de 2024, ele não votou. A
justificativa era que, quando ainda era desembargador do Tribunal Regional
Federal da 1ª Região (TRF-1), havia participado de julgamento relacionado ao
processo.
Em
março daquele ano, porém, Nunes Marques reviu a posição e afirmou que o
impedimento havia sido registrado “por equívoco da assessoria do gabinete”.
Para o ministro, o julgamento realizado no TRF-1 não o impedia de atuar no STF.
“Afasto o impedimento lançado no sistema, declarando-me habilitado a votar”,
escreveu.
O
processo estava empatado em dois votos a dois. De um lado, Dias Toffoli e Edson
Fachin haviam votado favoravelmente à Destilaria Alcídia. Do outro, Gilmar
Mendes e André Mendonça haviam se manifestado contra.
Após
pedir vista, Nunes Marques apresentou seu voto e acompanhou o relator. O placar
terminou em 3 a 2 a favor da Alcídia.
As
mensagens de Vorcaro mostram que o resultado foi comemorado dentro do círculo
do banqueiro. Luiz Rennó escreveu: “Ganhamos alcidia”. Em seguida, enviou o
placar: “3 (Fachin/Tofoli/Cassio) x 2 (Gilmar e André)”. Vorcaro respondeu com
um sinal de positivo.
Poucos
minutos depois, Rennó voltou a encaminhar o contato de Kevin Marques e
escreveu: “Dominado aqui.”
Questionada
pela piauí, a assessoria de Nunes Marques afirmou que o ministro considerou não
estar impedido porque se tratava de uma tese ampla e que ele já havia votado no
mesmo sentido quando atuava no TRF-1.
Sobre
as mensagens, a assessoria afirmou: “Embora na mensagem eles estivessem
comemorando o resultado, não se tratava de ação sobre o Master, era uma tese
que se aplicaria a diversas empresas. O ministro nunca votou a favor do Banco
Master, e o filho nunca recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro.”
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Consult recebeu milhões de Master e JBS
A
Consult Inteligência Tributária foi criada em 2022 pelo contador Francisco
Craveiro, amigo de longa data de Nunes Marques. Kevin Marques não aparece
formalmente como sócio da empresa, mas recebeu os R$ 282 mil identificados pelo
Coaf.
A
empresa também recebeu valores expressivos de outras companhias. Ao longo de um
ano, foram cerca de R$ 11,38 milhões provenientes da JBS e R$ 6,62 milhões do
Banco Master.
Os
valores chamaram atenção porque contrastavam com o faturamento mensal declarado
pela Consult, de aproximadamente R$ 25,5 mil.
Antes
do período em que começaram as grandes transferências, a empresa passou por
mudanças societárias. Em maio de 2024, seu capital social aumentou de R$ 10 mil
para R$ 500 mil. Na mesma ocasião, Francisco Craveiro ampliou sua participação
de 5% para 95% das cotas. Em julho, Gabriel Campelo deixou formalmente a
empresa, e Craveiro tornou-se seu único proprietário.
Kevin
afirma que os R$ 282 mil recebidos foram pagamentos por “serviços jurídicos
especializados na área tributária administrativa”. Em nota à piauí, disse que
“não prestou serviço ao banco Master nem recebeu dinheiro do banqueiro Daniel
Vorcaro” e que sua atuação junto à Consult “não tem qualquer relação com o
Supremo Tribunal Federal”.
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Outros contatos envolvendo o ministro
As
mensagens analisadas pela PF também identificaram outros episódios envolvendo
Nunes Marques e pessoas próximas a Vorcaro.
Em
dezembro de 2024, o empresário e agente de viagens Leo Serrano Giunchetti
enviou ao banqueiro um pedido relacionado a uma viagem atribuída ao ministro. A
mensagem encaminhada trazia um pedido de cotação para uma viagem de cerca de
dez dias, para cinco pessoas, com possibilidade de roteiro por Viena ou Peru.
Giunchetti
perguntou a Vorcaro se deveria tratar a solicitação como algo a ser atendido
por ele ou diretamente pelo ministro. O banqueiro não respondeu nos trechos
divulgados.
Nunes
Marques afirmou que apenas cotou preços e nunca utilizou os serviços da
agência. Giunchetti, por meio de seu advogado, também disse à piauí que a
viagem não ocorreu.
Outro
diálogo, de março de 2025, mostra uma mulher identificada como Rayanna cobrando
Vorcaro em nome de uma amiga. “Ela disse que ficou com o Kassio. Ela tá me
cobrando aqui”, escreveu. O banqueiro pediu os dados e o valor. Ela respondeu:
“10 né!”.
As
mensagens, porém, não esclarecem quem seria o “Kassio” citado nem se houve
pagamento. A assessoria de Nunes Marques afirmou que o ministro não conhece o
contexto da conversa.
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Jatinho e festa em Maceió
Outro
episódio envolve uma viagem realizada em novembro de 2025, poucos dias antes da
prisão de Vorcaro.
Em uma
conversa com uma advogada que trabalhava para o Master, o banqueiro encaminhou
o contato de uma profissional de aviação executiva. Naquela noite, ela informou
a Vorcaro que uma viagem em um jato Legacy havia sido confirmada para a
advogada e perguntou sobre detalhes do serviço de bordo.
Vorcaro
respondeu indicando que fossem disponibilizados champanhe Dom Pérignon, uísque
Macallan e uma bebida japonesa.
Dois
dias depois, Nunes Marques e sua mulher embarcaram em um Legacy 650 de Brasília
para Maceió, onde participaram da festa de aniversário da advogada. O avião era
operado pela Prime Aviation, empresa da qual Vorcaro foi sócio até setembro de
2025.
O
gabinete do ministro afirmou que a advogada foi responsável pela contratação da
aeronave e pelos detalhes da viagem. Ela também declarou ter contratado o jato
pessoalmente.
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Processo sobre CPI do Banco Master
Além
das relações reveladas pelas mensagens, Nunes Marques é relator, desde março,
de um mandado de segurança que pede ao STF que determine ao presidente do
Senado, Davi Alcolumbre, a instalação de uma CPI para investigar o Banco
Master.
O
requerimento recebeu 53 assinaturas, número superior às 27 necessárias para a
criação da comissão. Até o momento, o ministro não havia proferido despacho no
processo.
Nunes
Marques, porém, votou pela manutenção da prisão preventiva de Vorcaro e de
outros investigados no caso Master.
Em 15
de setembro, durante uma sessão extraordinária do STF, o ministro se pronunciou
sobre as mensagens que haviam vindo a público. Disse que nunca havia utilizado
a tribuna da Corte para prestar esclarecimentos, mas considerou que “a
gravidade das circunstâncias merece”.
“Eu
nunca julguei nenhum processo relacionado ao Master”, afirmou.
Nunes
Marques também negou ter recebido qualquer benefício do banqueiro e defendeu a
atuação de seu filho. Segundo o ministro, Kevin nunca prestou serviços nem
recebeu remuneração do Banco Master. Ele afirmou ainda ter “absoluta isenção”
nos processos que julgou.
Ao
final, declarou-se impedido de participar daquele julgamento por entender que
sua condição de presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) poderia gerar
conflito com sua atuação nas eleições. Na manifestação, não relacionou o
impedimento às conexões reveladas entre sua família e pessoas ligadas ao Banco
Master.
• Vorcaro tem acesso de fúria e ameaça
entregar ministros do STF caso não soltem seu pai
Daniel
Vorcaro teria enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) um recado sobre a
possibilidade de revelar informações relacionadas a autoridades e outros nomes
influentes caso seu pai, o empresário Henrique Vorcaro, não consiga deixar a
prisão para realizar tratamento médico. As informações são da revista Veja.
Henrique
está preso há mais de 90 dias e sofre de diverticulite. Na quarta-feira, a
defesa recorreu ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, para que seja dada
tramitação ao caso e o ministro André Mendonça possa analisar o pedido de
prisão domiciliar por razões humanitárias.
Segundo
um interlocutor da defesa ouvido pela Veja, Daniel acredita que foi “abandonado
para morrer na prisão” e estaria disposto a expor informações que mantém sob
sua guarda. A mesma fonte afirma que o banqueiro considera haver
comprometimento de integrantes da Procuradoria-Geral da República (PGR), da
Polícia Federal e de parte do STF, o que, em sua avaliação, dificultaria uma
eventual colaboração premiada conduzida por um sistema que considere
independente.
Ainda
de acordo com o relato, Vorcaro teria documentos, comprovantes de pagamentos,
fotografias e outros registros que poderiam contradizer declarações sobre seu
suposto afastamento de integrantes do STF, da PGR e da PF. O material, segundo
a fonte, também poderia detalhar relações e fatos que já vieram a público.
“Daniel
não tem nada a perder”, afirmou o interlocutor à revista.
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Medida domiciliar de caráter humanitário
O caso
ganhou um novo capítulo com a movimentação da defesa de Henrique Vorcaro. O
pedido apresentado a Fachin busca fazer com que o processo avance para que
Mendonça avalie especificamente a possibilidade de substituir a prisão por uma
medida domiciliar de caráter humanitário, diante dos problemas de saúde
alegados pela defesa.
Além da
questão envolvendo a prisão, Henrique deverá prestar depoimento à Polícia
Federal. O interrogatório foi marcado para 30 de setembro. Entre os assuntos
previstos estão as referências a grupos que, segundo as investigações, eram
conhecidos como “A Turma” e “Os Meninos”.
Esses
grupos são apontados como estruturas utilizadas para monitorar, intimidar e
espionar pessoas consideradas adversárias da família Vorcaro. O depoimento
deverá abordar o funcionamento dessas redes e a eventual participação de
integrantes ligados ao círculo do empresário.
Fonte:
Fórum

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