Elisabeth
Lopes: Golpe continuado, agora, por dentro da Suprema Corte
A crise
que hoje mantém o STF na UTI, respirando por aparelhos, atinge em cheio o
coração do processo eleitoral. A tentativa de desgastar a Corte com foco em
Alexandre de Moraes, perseguido pelo campo bolsonarista, encontra forte eco em
uma ofensiva política que ultrapassa as fronteiras do país. É incontestável a
forte interferência dos EUA no processo eleitoral brasileiro. Este fato ganha
veracidade diante de uma revelação que veio a público nesta quinta-feira,
17/09. Reportagens do Estadão e do Correio Braziliense, posteriormente
repercutidas por outros veículos, mostram que o governo Trump apresentou ao
Brasil, em outubro de 2025, um documento que exigia ingerências diretas na
política e na economia do Brasil incluindo a garantia de participação de políticos
específicos nas eleições, a compra forçada de aviões da Boeing por empresas
nacionais, a intervenção no controle do Banco Central e repasse antecipado de
informações estratégicas sobre mineração e preferência para licitações a
empresas dos EUA. Considerada pelo Itamaraty uma tentativa de “bullying
diplomático”, a proposta foi descartada antes mesmo de virar negociação
oficial.
É
difícil, portanto, tratar como fatos isolados a aproximação de Flávio Bolsonaro
com autoridades norte-americanas e a pressão exercida pelo governo Trump sobre
o Brasil. Essa revelação reforça as reiteradas investidas do governo
norte-americano para enfraquecer a economia brasileira, por meio de sucessivos
tarifaços, e, de resto, atingir a soberania nacional. Falta ao pernicioso
imperialismo estadunidense abocanhar o Brasil, a maior potência e economia da
América Latina, para sugar o que puder de seus recursos e de sua autonomia
política, até agora preservada pelo atual governo brasileiro, que não se rendeu
às pressões trumpistas. Nos planos de Trump está a missão de eleger um
entreguista que servirá aos seus propósitos colonialistas. Vale lembrar que em carta
a Marco Rubio, numa menção de subserviência vergonhosa, Flávio Bolsonaro
ofereceu colocar sua equipe de transição à disposição do governo
norte-americano caso venha a ser eleito. Rubio respondeu registrando a
“generosa oferta”. O fato, por si só, revela uma disposição absurda de
aproximar a futura estrutura de governo brasileira dos interesses dos EUA.
Diante
desta pretensão exploratória, o candidato Flávio Bolsonaro, de reconhecida
personalidade mitômana, explora essa crise e tenta colar a imagem de Moraes à
de Lula, omitindo que o ministro foi indicado por Michel Temer, em 2017 e na
ocasião de sua sabatina no Senado não obteve aprovação pelos senadores do PT e
demais partidos da esquerda. No escândalo do Banco Master, a solicitação de uma
vultosa quantia a Daniel Vorcaro para a produção do filme de quinta categoria
“Dark Horse” só foi admitida depois que o Intercept Brasil revelou mensagens
que evidenciavam a aproximação íntima e sistemática entre o candidato Flávio e
o ex-banqueiro preso. A participação de Flávio nas negociações e o destino dos
recursos relacionados ao filme, com repasses milionários ao Havengate
Development Fund LP, no Texas, posteriormente enviados, coincidentemente, ao
advogado de Eduardo Bolsonaro, jamais foram explicados pelo filho 01 de Jair.
Felizmente, o caso é objeto de investigação pela PF, instituição cuja atuação
quase foi barrada pelo ministro André Mendonça.
A crise
no Supremo não se restringe a rixas procedimentais, processuais ou de disputas
de poder entre ministros do Supremo, ela assume uma dimensão política mais
ampla. Se, de um lado, há uma ofensiva externa que pressiona o Brasil e
encontra interlocutores declarados no campo bolsonarista, de outro, a própria
Suprema Corte se transforma em espaço de uma disputa que pode atingir
diretamente a eleição. A pergunta que se impõe é simples, embora incômoda: a
quem interessa o esfacelamento da mais alta Corte de Justiça do país, quando
ela volta a ser colocada no centro da disputa eleitoral?
É nesse
ambiente que surge a atuação do ministro André Mendonça. Sua decisão de afastar
o diretor-geral da Polícia Federal e o diretor de Inteligência Policial
desencadeou uma crise institucional dentro da própria Corte. O caso ganhou
dimensão ainda maior quando Mendonça levou ao STF um relatório da Polícia
Federal, baseado em mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, nas quais
aparecem diálogos relacionados ao ministro Alexandre de Moraes. Foi essa
Petição 16.662 que chegou à sessão plenária extraordinária convocada pelo
presidente do STF para 15/09.
O STF,
porém, não chegou a examinar nessa sessão o mérito de eventual investigação
contra Moraes. O que estava em discussão era se esse caso deveria ser analisado
conjuntamente com o procedimento que apura possíveis irregularidades atribuídas
ao próprio Mendonça. O ministro Flávio Dino pediu vista, suspendendo a
discussão, e o placar provisório ficou em 4 a 3 pela separação dos processos.
Por
ironia do destino, dois dias após a tensa sessão do STF do dia 15/09, quando os
ânimos exaltados entre os ministros pareciam arrefecer, uma nova bomba vem à
tona. Reportagem publicada pela imprensa revelou que o Instituto Iter, fundado
pelo ministro André Mendonça, recebeu R$ 5,2 milhões de uma empresa ligada a um
ex-parceiro de negócios de Daniel Vorcaro. A revelação deixa claro que não
apenas Alexandre de Moraes mantinha um vínculo expressivo com o ex-banqueiro.
Mendonça também aparece ligado numa perspectiva financeira ao círculo de
Vorcaro e, diante disso, terá de prestar esclarecimentos e até responder a uma
investigação. Diante dessa notícia e por Mendonça ser pastor, há que lembrar do
velho ditado “quem com ferro fere, com ferro será ferido” que surge de uma
adaptação popular de um versículo do Evangelho de Mateus (Mateus 26:52) na
Bíblia.
Mendonça
agiu fora dos ritos processuais ao acolher e dar segmento ao relatório da PF
que apontava Moraes como interlocutor do ex-banqueiro Daniel Vorcaro sem
consultar o plenário do STF nem contar com a autorização prévia do presidente
do tribunal, Edson Fachin. De modo proposital, Mendonça e em plena corrida
eleitoral alimentou uma ofensiva política contra o ministro que se tornou um
dos principais alvos do ódio voraz do bolsonarismo. O próprio decano Gilmar
Mendes acusou Mendonça, durante a sessão, de conduzir o caso com “inequívoco
viés político-eleitoral” e questionou a escolha do momento para levar o tema ao
plenário.
A
sequência dos acontecimentos ajuda a entender por que a atuação do ministro
desperte tamanha controvérsia. Sua trajetória política e institucional,
portanto, não pode ser dissociada do grupo político que o levou à mais alta
Corte do país. Durante sua passagem pelo governo Bolsonaro, como Advogado Geral
da União e ministro de Justiça e Segurança Pública, sua atuação foi marcada por
medidas autoritárias ao se valer inúmeras vezes da antiga Lei de Segurança
Nacional dos tempos da ditatura militar em procedimentos contra críticos do
governo. Esse histórico alimenta a percepção de que sua atuação atual não pode
ser examinada apenas sob o prisma jurídico, mas também sob a ótica de sua
trajetória política e de suas relações anteriores com o bolsonarismo.
Por
óbvio, o que os fatos revelam é uma sucessão de decisões de Mendonça tomadas
deliberadamente em um momento eleitoral particularmente sensível, que atingem
diretamente um dos ministros mais combatidos pela extrema direita e, em alguma
medida, o campo da esquerda, em razão do papel relevante desse ministro no
julgamento da tentativa de golpe de Estado liderada pela organização criminosa
chefiada pelo aliado visceral de Mendonça, Jair Bolsonaro. É precisamente essa
coincidência entre o conteúdo das medidas, o momento em que foram adotadas e
seus efeitos políticos que torna legítima a pergunta sobre o alcance da atuação
de Mendonça. Todavia, a crise não se encerra nele, outros ministros também
precisam responder por suas escolhas.
Não por
acaso, durante a tumultuada sessão do dia 15/09, a condução de Edson Fachin
também passou a ser questionada. O presidente do STF decidiu que o plenário
examinaria naquele momento apenas o caso relacionado a Alexandre de Moraes,
deixando para outra data a análise do procedimento envolvendo Mendonça. A
separação dos casos foi criticada por ministros que defendiam uma apreciação
conjunta. É nesse ponto que o passado de Fachin deve ser lembrado. Mensagens
reveladas pela Vaza Jato mostraram o então procurador Deltan Dallagnol
comemorando, em 2015, uma conversa com Fachin com a frase “Aha uhu o Fachin é
nosso”. As objeções sobre as decisões atuais deste ministro integram um
histórico que ajuda a compreender por que sua atuação durante a atual crise
despertou questionamentos apropriados do ministro Flavio Dino.
Na
tensa reunião plenária, a divisão interna do Supremo ficou exposta como poucas
vezes antes. Gilmar Mendes acusou o ministro Mendonça de conduzir o caso com
viés político-eleitoral e afirmou que “até a máfia tem ética”. A crítica foi
direta. O decano questionou a seleção das mensagens tornadas públicas e a
decisão de levar ao plenário, em pleno período eleitoral, uma investigação que
atingia diretamente Moraes, não restando nenhuma dúvida de que Mendonça ancorou
em seus objetivos ganhos secundários para o campo político ao qual está aliado.
Flávio
Dino foi ainda mais incisivo ao questionar a condução institucional. O ministro
criticou o rito adotado e afirmou que aquele era “o momento mais corrupto da
história do Poder Judiciário”. Suas manifestações colocaram no centro da
discussão não apenas o conteúdo das suspeitas envolvendo os ministros, mas a
forma como o próprio Supremo estava administrando uma crise que envolve seus
integrantes.
E há
uma questão que agrava ainda mais a atual crise. As mensagens extraídas do
celular de Vorcaro não dizem respeito apenas a Alexandre de Moraes. As
investigações também alcançaram relações suspeitas do ex-banqueiro com outros
ministros da Corte e familiares. É precisamente por isso que a discussão sobre
transparência precisa valer para todos, e não apenas para o ministro que se
tornou alvo da ofensiva política bolsonarista. As apurações precisarão alcançar
todos os fatos relevantes, sem selecionar o que será exposto conforme a
identidade do personagem envolvido.
A
própria posição do ministro Kássio Nunes Marques tornou-se objeto de
questionamentos. A cada dia que passa chegam mais informações que o comprometem
por sua proximidade a Daniel Vorcaro. O ministro não participou da votação de
15/09, alegando impedimento em processos relacionados ao caso Master, enquanto
Dias Toffoli também se declarou suspeito por foro íntimo. A existência de
vínculos, contratos, relações familiares ou profissionais mencionados nas
investigações exige esclarecimento público e documental, não proteção
corporativa nem exposição seletiva.
É
exatamente essa seletividade que aprofunda ainda mais a crise do STF. Se
existem suspeitas envolvendo ministros do Supremo, familiares ou pessoas
próximas, todas devem ser escrutinadas a partir das regras do Estado de
Direito. Se não existem elementos suficientes para sustentar uma acusação, isso
também precisa ser esclarecido. O que não se pode aceitar é que a investigação
seja usada seletivamente para destruir a reputação de um ministro, enquanto
fatos envolvendo outros integrantes da Corte permanecem em segundo plano.
A
ministra Cármen Lúcia também não saiu ilesa dessa sessão plenária. Embora tenha
expressado seu pedido de “desculpas aos colegas e ao povo por não ter
conseguido resolver essas questões de melhor modo” é necessário asseverar que
seu pedido de desculpas é um tanto demagógico, pois ela sempre esteve ciente
dos acontecimentos, mas preferiu manter a neutralidade confortável e
conveniente. No auge da Operação Lava Jato, votou sistematicamente ao lado do
relator Edson Fachin, garantindo a validade de decisões que feriam o devido
processo legal, proferidas em primeira instância pelo ex-juiz suspeito Sergio
Moro. Somente a partir de 2019, com a Vaza Jato, a ministra recuou do apoio
absoluto que dera à malfadada operação. Quanto à afirmação de Cármen Lúcia de
que não julga com base na opinião pública, também não corresponde à realidade.
A ministra parece ter ouvido o clamor da extrema direita bolsonarista e da
direita oportunista ao votar com Fachin pela não análise conjunta de Alexandre
de Moraes e André Mendonça, uma vez que, para esses grupos políticos, a análise
em separado sobre Alexandre de Moraes neutraliza a ofensiva política e jurídica
liderada por Mendonça contra Moraes.
Por
essas razões, não se pode mais tolerar que um caso como o do Master se
transforme em disputa pelo controle do debate político, seja em qualquer tempo,
seja às vésperas das eleições. De um lado, há suspeitas que exigem apuração
transparente, independentemente de quem seja atingido. De outro, há o uso
seletivo dessas mesmas suspeitas para transformar um ministro em alvo político,
deslocar a contenda eleitoral para dentro da Suprema Corte e, de forma
oportuna, desviar o foco dos fatos e das suspeitas que pairam sobre o currículo
de um candidato aliado de um dos ministros, Flávio. Nos últimos dias, a
sociedade não fala de outra coisa senão das vísceras abertas do STF e do
ministro mais odiado pelo bolsonarismo desde 2019.
O golpe
continuado não precisa chegar à porta do Supremo para produzir seus efeitos.
Ele pode avançar por dentro da própria instituição, quando a disputa política
passa a contaminar o rito, quando a investigação deixa de obedecer aos mesmos
critérios para todos e quando a credibilidade da Corte é transformada em moeda
de uma contenda eleitoral. É nesse terreno que a democracia precisa ser
defendida não protegendo ministros de investigação, mas protegendo a
investigação contra a política. O Brasil já viu instituições democráticas serem
corroídas por dentro. O perigo agora não está apenas nos ataques explícitos ao
Supremo vindos de fora. Está também na possibilidade de que a própria Corte,
dividida, exposta e incapaz de estabelecer critérios comuns de transparência,
ofereça à extrema direita o instrumento perfeito para transformar suas fissuras
internas em arma eleitoral.
Em
entrevista à TV Record, no mesmo dia da sessão de 15/09, Lula defendeu a
abertura integral das informações sob sigilo, a apuração das responsabilidades
e a punição de eventuais envolvidos, alertando que a Suprema Corte precisa
preservar sua credibilidade e servir de exemplo à sociedade. Esta fala de Lula
corresponde ao que o povo brasileiro espera que aconteça. É inadmissível que o
STF se transforme em território de disputas políticas, onde o rito seja
relativizado, a investigação seja seletiva e a credibilidade institucional seja
colocada a serviço de interesses eleitorais. A Corte precisa passar a limpo
seus próprios atos, com transparência, rigor e respeito à Constituição, porque
a democracia não se sustenta sem instituições que também se submetam, sem
exceção, à lei.
Ao fim
e ao cabo, a disputa eleitoral é que deveria estar no centro da ordem do dia,
no exíguo tempo que nos separa de 4 de outubro de 2026, e não a guerra
instaurada em torno do Supremo, nem a tentativa de transformar ministros em
protagonistas de uma eleição. O que está verdadeiramente em jogo é o peso que
cada brasileiro e cada brasileira colocará na balança diante de dois projetos
de país radicalmente distintos: um civilizatório, comprometido com a redução
das desigualdades, a inclusão social, a valorização do trabalho e a soberania
nacional, representado pela esquerda progressista e pelo candidato Lula (PT).
Em oposição, um projeto excludente e ultraliberal, representado pelo candidato
da extrema direita, Flávio Bolsonaro (PL), suspeito de crimes graves que estão
sob investigação e por um histórico político abjeto que o acompanha. No fim, é
essa escolha, e não a crise do Supremo, que deverá ocupar o centro do debate
nacional. A balança eleitoral deverá pesar projetos e o país que se pretende
construir. A decisão caberá, soberanamente, aos brasileiros e às brasileiras. E
será deles a responsabilidade de decidir para que lado a balança deverá pender.
Fonte:
Brasil 247

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