Houthis
ameaçam posição do Hezbollah no Eixo da Resistência
Após os
acontecimentos recentes no Iêmen, um pequeno grupo marchou por uma rua do Iraque
carregando cartazes quase idênticos aos que haviam sido vistos não muito tempo
antes mais ao sul.
Os
cartazes diziam "morte à América" e continham insultos à Arábia
Saudita e a Israel, com slogans muito semelhantes aos usados pelo grupo rebelde
houthi no Iêmen. Os homens que aparecem no vídeo gravado no Iraque são
integrantes de um dos grupos paramilitares xiitas do país.
Tanto
os paramilitares iraquianos quanto os houthis no Iêmen fazem parte do chamado
"Eixo da Resistência" no Oriente Médio, composto por grupos
apoiados pelo Teerã e contrários a Israel e aos EUA, como o Hamas e o Hezbollah, além do próprio Irã.
Depois
que os Estados Unidos e Israel iniciaram ataques contra o Irã no fim de
fevereiro, integrantes do "Eixo da Resistência" responderam atacando
alvos associados aos EUA ou a Israel. Mas, até recentemente, o grupo houthi
havia permanecido mais ou menos à margem do conflito.
A recente campanha militar do grupo, que resultou na
ampliação do controle dos houthis sobre a costa
iemenita e várias ilhas do Mar Vermelho, porém, "cria
condições para estabelecer uma área marítima controlada pelo Eixo da
Resistência como parte de um esforço para exercer controle sobre as exportações
regionais de petróleo", afirma um artigo da semana passada do centro de
pesquisas americano Instituto para Estudos da Guerra.
O Irã e
os Estados Unidos disputam atualmente o controle do Estreito de Ormuz, outra importante
rota marítima para exportações de petróleo.
No Irã,
jornais alinhados à ala mais dura do regime publicaram artigos elogiando os
avanços territoriais dos houthis. Esses avanços "aumentaram
significativamente a importância de Sanaa [a capital do Iêmen, sob controle
houthi] como um polo da resistência na guerra regional em curso", escreveu
o jornal Kayhan, um dos mais conservadores do país.
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O "novo Hezbollah"?
Os
houthis derrubaram nesta semana um caça saudita F-15 usando um míssil que teria
sido modificado por eles próprios. A façanha é inédita. O Hezbollah conseguiu
abater grandes drones israelenses e atacar caças, mas nunca atingiu nenhum
deles.
Os
houthis estariam ocupando o lugar do Hezbollah como a força potencialmente mais
importante e talvez até mais perigosa do "Eixo da Resistência"?
"Os
houthis se tornaram mais valiosos do que o Hezbollah jamais poderia ter
sido", afirma Farea al-Muslimi, pesquisador especializado no Iêmen do
centro de estudos Chatham House, no Reino Unido. "É claro que o Hezbollah
tinha décadas de experiência e ajudou a desenvolver a capacidade dos houthis ao
longo dos anos. Mas os houthis agora já os superaram."
Os
houthis estão "desempenhando cada vez mais uma função estratégica
semelhante para o Irã [à exercida pelo Hezbollah] e, em alguns aspectos, até
mais útil", afirma Andreas Krieg, professor da Escola de Estudos de
Segurança do King's College em Londres.
"O
Hezbollah proporcionava a Teerã um mecanismo de dissuasão contra Israel a
partir do Líbano. Os houthis dão ao Irã influência sobre a Arábia Saudita,
Israel e as rotas globais de navegação", acrescentou. "Por isso,
acredito que sua importância estratégica para Teerã aumentou fortemente à
medida que o Hezbollah passou a enfrentar pressões muito maiores."
Al-Muslimi
observa que líderes houthis, incluindo o atual chefe Abdul Malik al-Houthi,
eram admiradores fervorosos do líder do Hezbollah Hassan Nasrallah, morto por
Israel em 2024 e considerado um herói por seu papel na retirada israelense do
sul do Líbano em 2000. "É possível perceber que ele até tenta imitar
Nasrallah em seus discursos. E agora Abdul Malik al-Houthi tem mais influência
do que Nasrallah jamais teve."
Segundo
ele, Nasrallah já foi visto como o principal articulador do "Eixo da
Resistência", atuando como elo entre diferentes facções e transmitindo
orientações a combatentes apoiados pelo Irã no Líbano, Iêmen e Síria.
Al-Muslimi
acredita que Al-Houthi esteja assumindo esse papel atualmente, apontando que um
recente ataque a oleodutos sauditas partiu, na verdade, de integrantes
iraquianos do eixo.
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Representante do Irã ou aliado?
Ao
contrário do que ocorre com o Hezbollah, ainda existe divergência sobre o grau
exato de controle que o Irã exerce sobre os houthis.
Uma
análise da cobertura de imprensa realizada pelo site iraquiano Amwaj mostrou
que, enquanto a mídia iraniana tratava os avanços houthis como uma vitória do "Eixo da
Resistência"
liderado pelo Irã, os canais controlados pelos houthis se concentravam em sua
própria luta contra a Arábia Saudita, que mantém um bloqueio sobre os
territórios sob controle do grupo.
Krieg
acredita que a maior diferença entre os houthis e o Hezbollah seja a autonomia.
"Os houthis têm sua própria liderança, ideologia, base de apoio interna e
projeto territorial", ressaltou. "Teerã pode capacitá-los, armá-los e
se beneficiar de suas ações, mas não consegue necessariamente ligá-los e
desligá-los quando quiser."
Outros
observadores destacam que, no passado, os houthis avançaram com determinados
planos militares apesar das objeções do Irã. Teerã também negou envolvimento
com essa campanha mais recente.
Mas
al-Muslimi não tem tanta certeza. Segundo ele, nos últimos dois anos, os
houthis se aproximaram muito mais do Irã. Há relatos frequentes de envio de
armamentos sofisticados iranianos ao grupo. Em julho, fontes dentro do Irã
disseram à agência de notícias Reuters que a liderança iraniana discutiu com os
houthis a possibilidade de bloquear o estreito de Bab el-Mandeb.
"Embora
os líderes houthis apresentem suas ações em termos locais, seu alinhamento com
Teerã parece ter se fortalecido", escreveu Allison Minor, ex-vice-enviada
especial dos EUA para o Iêmen, na revista Foreign Affairs na semana
passada.
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Os houthis podem ser derrotados?
Sobre
um ponto há consenso: será difícil conter os houthis. Campanhas militares
anteriores conduzidas pela Arábia Saudita, pelos Estados Unidos e por outros
países fracassaram. Sanções e pressão econômica também costumam ter pouco
efeito, pois o grupo não opera dentro do sistema financeiro internacional.
Os
houthis adotam uma "lógica de soma zero", explica al-Muslimi. Eles
arrecadam impostos, mas não pagam salários nem oferecem serviços públicos; tudo
é direcionado para o esforço de guerra. O fundador do movimento defendia que as
sociedades muçulmanas contemporâneas eram excessivamente "brandas" e
que pobreza e sofrimento constituem uma prova divina.
Isso é
muito diferente do Hezbollah. O grupo libanês possui também um braço político e
oferece serviços de assistência social. Além disso, precisa equilibrar
cuidadosamente seu relacionamento com outros grupos da sociedade libanesa.
Os
houthis não enfrentam nenhuma dessas limitações. "Eles não se importam se
os israelenses bombardearem o aeroporto ou se os EUA bombardearem um
hospital", afirma al-Muslimi. "Na verdade, isso lhes serve muito bem
porque sua ideologia gira em torno do martírio e do sacrifício."
Isso,
acrescenta o especialista, torna o grupo potencialmente mais perigoso do que o
Hezbollah, especialmente para os civis iemenitas. "Eles representam uma
grande ameaça internacional", concorda, "mas são também a maior
ameaça já vista, na história do Iêmen, à ideia de república e cidadania."
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O dilema saudita diante do avanço dos houthis no Iêmen
A Arábia Saudita está sendo cada vez
mais afetada pelo conflito em rápida escalada em sua fronteira sul, no Iêmen, onde os houthis – grupo insurgente
apoiado pelo Irã – combatem as forças do governo
iemenita, apoiadas pelos sauditas.
Ataques
houthis contra a Arábia Saudita deixaram outras 13 pessoas feridas na noite
desta segunda-feira (14/09), elevando para em torno de 100 o número de feridos
desde julho, quando o conflito se intensificou.
Em
julho, os houthis bloquearam o transporte de petróleo saudita no Estreito de Bab el-Mandeb, uma via navegável
estratégica que servia como rota alternativa para as exportações de petróleo
saudita em meio ao bloqueio imposto pelo Irã ao vizinho Estreito de Ormuz.
Na
semana passada, o oleoduto Leste-Oeste, uma rota alternativa vital para a
exportação de petróleo da Arábia Saudita, foi supostamente alvo de milícias
iranianas no Iraque. Nesta terça-feira, autoridades informaram que pode levar
semanas para reparar os danos ao oleoduto, que se estende por 1,2 mil
quilômetros através do país e termina no porto de Yanbu, no Mar Vermelho.
"Riad
enfrenta um dilema real", disse à DW Neil Quilliam, pesquisador associado
do programa para o Oriente Médio e Norte da África do think tank Chatham House,
sediado em Londres. "O príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, tenta proteger
simultaneamente a segurança e o desenvolvimento econômico de
seu país", afirmou. "A dificuldade é que os houthis são cada vez
mais capazes de ameaçar ambos."
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Sauditas acusam houthis de ataque a Meca
Riad
acusou os houthis de tentarem lançar um ataque contra Meca, a cidade sagrada do
Islã, o que foi prontamente negado pelos insurgentes. A notícia, porém,
provocou uma onda de indignação em todo o mundo muçulmano.
As
autoridades sauditas relataram que um drone que seguia em direção a Meca foi
abatido. O ministério saudita do Exterior condenou o ataque, classificando-o
como um "atentado terrorista covarde", e reafirmou o direito do reino
de "defender a segurança das duas mesquitas sagradas, dos peregrinos e de
todo o território saudita".
No
entanto, Hazem al-Assad, membro da liderança houthi, rejeitou a acusação,
chamando-a de "uma mentira batida, já usada anteriormente e que não engana
mais ninguém". A Arábia Saudita já havia acusado os houthis de lançarem
ataques contra a cidade em um conflito anterior.
Nesta
quarta-feira, o porta-voz militar dos houthi, Yahya Saree, afirmou que
"aviões de guerra sauditas lançaram 40 ataques aéreos [...] visando as
províncias de Taiz, Marib e Hodeidah nas últimas 24 horas". Anteriormente,
ele havia estimado em mais de 450 o número de ataques sauditas realizados na
última semana, afirmando que, em resposta, o grupo havia atacado uma base aérea
saudita e uma instalação da companhia petrolífera estatal na cidade portuária
de Yanbu, no Mar Vermelho.
O grupo
também alegou, nesta quarta-feira, ter abatido um caça saudita.
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Equilíbrio entre dissuasão e diplomacia
A
Arábia Saudita possui uma das forças militares mais bem armadas e
tecnologicamente sofisticadas do Oriente Médio, especialmente em aviação de
combate e defesa aérea. O país, no entanto, está "relutante em ser
novamente arrastado para uma campanha militar custosa no Iêmen", disse
Quilliam.
Uma
coalizão militar liderada pela Arábia Saudita interveio no Iêmen em 2015 para
apoiar o governo na luta contra os insurgentes houthis. Após sete anos de uma
guerra intensa, os combates diminuíram em 2022, graças a uma trégua mediada
pela ONU.
As
investidas mais recentes dos houthis contra a Arábia Saudita e o governo do
Iêmen apoiado pelos sauditas visam pressionar a Arábia Saudita a encerrar os
bloqueios aéreos e marítimos impostos ao território controlado pelo grupo –
medidas que não foram totalmente suspensas apesar da trégua de 2022.
"A
Arábia Saudita se encontra agora em uma situação muito complicada",
afirmou Sebastian Sons, especialista em Oriente Médio do centro de pesquisas
alemão Carpo.
"Por
um lado, Riad precisa deixar claro aos houthis que uma linha vermelha foi
ultrapassada e que haverá uma resposta militar, particularmente em coordenação
com o governo do Iêmen reconhecido internacionalmente. Mas, por outro lado,
também precisa manter os canais de comunicação abertos para retornar à mesa de
negociações e reduzir as tensões", explicou.
Em sua
visão, o objetivo de Riad é equilibrar dissuasão e diplomacia. "O
argumento é muito claro", disse ele, acrescentando que "os houthis
representam uma ameaça não apenas para a Arábia Saudita, mas para a economia
global como um todo".
Após o
avanço dos houthis no sul do Iêmen na semana passada – incluindo a tomada de
cidades portuárias e da Ilha de Perim, no Estreito de Bab el-Mandeb –, os
rebeldes agora têm condições de exercer ainda mais pressão sobre o
abastecimento global de petróleo.
Essa
estratégia poderia conferir maior poder de barganha ao Irã no conflito com os
Estados Unidos.
Segundo
a empresa de dados e análises do setor marítimo Kpler, apenas 21 navios de
transporte transitaram pelo Estreito de Bab el-Mandeb nesta segunda-feira.
Antes da crise, essa estreita via navegável movimentava cerca de 30% do tráfego
global de contêineres.
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O "novo nível de vulnerabilidade" da Arábia Saudita
"O
conflito atual expõe um novo nível de vulnerabilidade para a Arábia
Saudita", disse Quilliam, da Chatham House. "O país está sendo posto
à prova por todos os lados."
Embora
a Arábia Saudita seja uma aliada próxima dos EUA, três fontes citadas
pela agência de notícias Reuters relataram que o governante de fato do país,
Mohammed bin Salman telefonou ao presidente americano, Donald Trump, na última quinta-feira, para solicitar ajuda
militar para combater o avanço dos houthis.
As
fontes relataram que, por enquanto, foi oferecido apenas apoio de inteligência,
uma vez que Trump hesitou em abrir mais uma frente de batalha no conflito em curso envolvendo os EUA e
o Irã.
O Acordo de Defesa Conjunta de Meca, assinado
recentemente entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, também ainda não foi
acionado. Até o momento, o Paquistão – aliado do Irã e mediador no atual
conflito entre Teerã e Washington – tem relutado em se envolver diretamente no
confronto entre a Arábia Saudita e os houthis.
"O
fato de o Pacto de Meca ainda não ter sido testado aumenta os desafios da
Arábia Saudita", observou Quilliam.
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A repressão à dissidência na Arábia Saudita
Enquanto
isso, Mohammed bin Salman – apelidado de MBS, as iniciais de seu nome –
enfrenta uma pressão interna cada vez maior.
"As
pessoas esperam progresso econômico", disse Sons à DW. Para a população
saudita, isso significa "habitação acessível, empregos e proteção contra
novos ataques vindos do Iêmen", acrescentou.
Além
disso, a Arábia Saudita precisa de estabilidade para dar continuidade ao seu
ambicioso e custoso plano de reformas, o Vision 2030. Essa ampla agenda de
diversificação visa reduzir a dependência do reino em relação ao petróleo e
transformar a economia e a sociedade; no entanto, o investimento estrangeiro, o
turismo e a confiança dos investidores dependem de uma situação de segurança
estável, ressaltou Quilliam.
Outros
grandes eventos planejados para a Arábia Saudita, como a Expo 2030 e a Copa do
Mundo da Fifa de 2034, também dependem de estabilidade geopolítica.
Paralelamente,
à medida que aumentam as ameaças à segurança e se intensificam as pressões
econômicas, observadores de direitos humanos afirmam que as autoridades
sauditas se tornam cada vez mais sensíveis a críticas sobre a forma como lidam
com a crise.
"Desde
que MBS chegou ao poder, houve uma forte repressão à liberdade de expressão,
especialmente em relação a críticas à política externa saudita", disse à
DW Yahya Al-Asiri, fundador da ALQST for Human Rights, uma organização de
direitos humanos sediada em Londres.
"Críticos
e pessoas que pedem a paz são tratados com severidade", disse ele,
ressaltando que essas pessoas são processadas com base nas leis antiterrorismo
do país e condenadas a longas penas de prisão ou até mesmo à morte por ações
não violentas.
Em
2025, a Arábia Saudita realizou pelo menos 356 execuções, o maior total anual
registrado pela ALQST.
Um
relatório da entidade alertou que as autoridades sauditas executaram pelo menos
154 pessoas entre janeiro e setembro de 2026. Destas, 101 foram executadas
devido a crimes relacionados a drogas, enquanto nove ocorreram por infrações
ligadas ao terrorismo – o que, "segundo a definição vaga e excessivamente
ampla da legislação saudita, pode incluir uma vasta gama de atos não
letais", afirma o documento.
Fonte:
DW Brasil

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