segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Houthis ameaçam posição do Hezbollah no Eixo da Resistência

Após os acontecimentos recentes no Iêmen, um pequeno grupo marchou por uma rua do Iraque carregando cartazes quase idênticos aos que haviam sido vistos não muito tempo antes mais ao sul.

Os cartazes diziam "morte à América" e continham insultos à Arábia Saudita e a Israel, com slogans muito semelhantes aos usados pelo grupo rebelde houthi no Iêmen. Os homens que aparecem no vídeo gravado no Iraque são integrantes de um dos grupos paramilitares xiitas do país.

Tanto os paramilitares iraquianos quanto os houthis no Iêmen fazem parte do chamado "Eixo da Resistência" no Oriente Médio, composto por grupos apoiados pelo Teerã e contrários a Israel e aos EUA, como o Hamas e o Hezbollah, além do próprio Irã.

Depois que os Estados Unidos e Israel iniciaram ataques contra o Irã no fim de fevereiro, integrantes do "Eixo da Resistência" responderam atacando alvos associados aos EUA ou a Israel. Mas, até recentemente, o grupo houthi havia permanecido mais ou menos à margem do conflito.

A recente campanha militar do grupo, que resultou na ampliação do controle dos houthis sobre a costa iemenita e várias ilhas do Mar Vermelho, porém, "cria condições para estabelecer uma área marítima controlada pelo Eixo da Resistência como parte de um esforço para exercer controle sobre as exportações regionais de petróleo", afirma um artigo da semana passada do centro de pesquisas americano Instituto para Estudos da Guerra.

O Irã e os Estados Unidos disputam atualmente o controle do Estreito de Ormuz, outra importante rota marítima para exportações de petróleo.

No Irã, jornais alinhados à ala mais dura do regime publicaram artigos elogiando os avanços territoriais dos houthis. Esses avanços "aumentaram significativamente a importância de Sanaa [a capital do Iêmen, sob controle houthi] como um polo da resistência na guerra regional em curso", escreveu o jornal Kayhan, um dos mais conservadores do país.

<><> O "novo Hezbollah"?

Os houthis derrubaram nesta semana um caça saudita F-15 usando um míssil que teria sido modificado por eles próprios. A façanha é inédita. O Hezbollah conseguiu abater grandes drones israelenses e atacar caças, mas nunca atingiu nenhum deles.

Os houthis estariam ocupando o lugar do Hezbollah como a força potencialmente mais importante e talvez até mais perigosa do "Eixo da Resistência"?

"Os houthis se tornaram mais valiosos do que o Hezbollah jamais poderia ter sido", afirma Farea al-Muslimi, pesquisador especializado no Iêmen do centro de estudos Chatham House, no Reino Unido. "É claro que o Hezbollah tinha décadas de experiência e ajudou a desenvolver a capacidade dos houthis ao longo dos anos. Mas os houthis agora já os superaram."

Os houthis estão "desempenhando cada vez mais uma função estratégica semelhante para o Irã [à exercida pelo Hezbollah] e, em alguns aspectos, até mais útil", afirma Andreas Krieg, professor da Escola de Estudos de Segurança do King's College em Londres.

"O Hezbollah proporcionava a Teerã um mecanismo de dissuasão contra Israel a partir do Líbano. Os houthis dão ao Irã influência sobre a Arábia Saudita, Israel e as rotas globais de navegação", acrescentou. "Por isso, acredito que sua importância estratégica para Teerã aumentou fortemente à medida que o Hezbollah passou a enfrentar pressões muito maiores."

Al-Muslimi observa que líderes houthis, incluindo o atual chefe Abdul Malik al-Houthi, eram admiradores fervorosos do líder do Hezbollah Hassan Nasrallah, morto por Israel em 2024 e considerado um herói por seu papel na retirada israelense do sul do Líbano em 2000. "É possível perceber que ele até tenta imitar Nasrallah em seus discursos. E agora Abdul Malik al-Houthi tem mais influência do que Nasrallah jamais teve."

Segundo ele, Nasrallah já foi visto como o principal articulador do "Eixo da Resistência", atuando como elo entre diferentes facções e transmitindo orientações a combatentes apoiados pelo Irã no Líbano, Iêmen e Síria.

Al-Muslimi acredita que Al-Houthi esteja assumindo esse papel atualmente, apontando que um recente ataque a oleodutos sauditas partiu, na verdade, de integrantes iraquianos do eixo.

<><> Representante do Irã ou aliado?

Ao contrário do que ocorre com o Hezbollah, ainda existe divergência sobre o grau exato de controle que o Irã exerce sobre os houthis.

Uma análise da cobertura de imprensa realizada pelo site iraquiano Amwaj mostrou que, enquanto a mídia iraniana tratava os avanços houthis como uma vitória do "Eixo da Resistência" liderado pelo Irã, os canais controlados pelos houthis se concentravam em sua própria luta contra a Arábia Saudita, que mantém um bloqueio sobre os territórios sob controle do grupo.

Krieg acredita que a maior diferença entre os houthis e o Hezbollah seja a autonomia. "Os houthis têm sua própria liderança, ideologia, base de apoio interna e projeto territorial", ressaltou. "Teerã pode capacitá-los, armá-los e se beneficiar de suas ações, mas não consegue necessariamente ligá-los e desligá-los quando quiser."

Outros observadores destacam que, no passado, os houthis avançaram com determinados planos militares apesar das objeções do Irã. Teerã também negou envolvimento com essa campanha mais recente.

Mas al-Muslimi não tem tanta certeza. Segundo ele, nos últimos dois anos, os houthis se aproximaram muito mais do Irã. Há relatos frequentes de envio de armamentos sofisticados iranianos ao grupo. Em julho, fontes dentro do Irã disseram à agência de notícias Reuters que a liderança iraniana discutiu com os houthis a possibilidade de bloquear o estreito de Bab el-Mandeb.

"Embora os líderes houthis apresentem suas ações em termos locais, seu alinhamento com Teerã parece ter se fortalecido", escreveu Allison Minor, ex-vice-enviada especial dos EUA para o Iêmen, na revista Foreign Affairs na semana passada.

<><> Os houthis podem ser derrotados?

Sobre um ponto há consenso: será difícil conter os houthis. Campanhas militares anteriores conduzidas pela Arábia Saudita, pelos Estados Unidos e por outros países fracassaram. Sanções e pressão econômica também costumam ter pouco efeito, pois o grupo não opera dentro do sistema financeiro internacional.

Os houthis adotam uma "lógica de soma zero", explica al-Muslimi. Eles arrecadam impostos, mas não pagam salários nem oferecem serviços públicos; tudo é direcionado para o esforço de guerra. O fundador do movimento defendia que as sociedades muçulmanas contemporâneas eram excessivamente "brandas" e que pobreza e sofrimento constituem uma prova divina.

Isso é muito diferente do Hezbollah. O grupo libanês possui também um braço político e oferece serviços de assistência social. Além disso, precisa equilibrar cuidadosamente seu relacionamento com outros grupos da sociedade libanesa.

Os houthis não enfrentam nenhuma dessas limitações. "Eles não se importam se os israelenses bombardearem o aeroporto ou se os EUA bombardearem um hospital", afirma al-Muslimi. "Na verdade, isso lhes serve muito bem porque sua ideologia gira em torno do martírio e do sacrifício."

Isso, acrescenta o especialista, torna o grupo potencialmente mais perigoso do que o Hezbollah, especialmente para os civis iemenitas. "Eles representam uma grande ameaça internacional", concorda, "mas são também a maior ameaça já vista, na história do Iêmen, à ideia de república e cidadania."

¨      O dilema saudita diante do avanço dos houthis no Iêmen

A Arábia Saudita está sendo cada vez mais afetada pelo conflito em rápida escalada em sua fronteira sul, no Iêmen, onde os houthis – grupo insurgente apoiado pelo Irã – combatem as forças do governo iemenita, apoiadas pelos sauditas.

Ataques houthis contra a Arábia Saudita deixaram outras 13 pessoas feridas na noite desta segunda-feira (14/09), elevando para em torno de 100 o número de feridos desde julho, quando o conflito se intensificou.

Em julho, os houthis bloquearam o transporte de petróleo saudita no Estreito de Bab el-Mandeb, uma via navegável estratégica que servia como rota alternativa para as exportações de petróleo saudita em meio ao bloqueio imposto pelo Irã ao vizinho Estreito de Ormuz.

Na semana passada, o oleoduto Leste-Oeste, uma rota alternativa vital para a exportação de petróleo da Arábia Saudita, foi supostamente alvo de milícias iranianas no Iraque. Nesta terça-feira, autoridades informaram que pode levar semanas para reparar os danos ao oleoduto, que se estende por 1,2 mil quilômetros através do país e termina no porto de Yanbu, no Mar Vermelho.

"Riad enfrenta um dilema real", disse à DW Neil Quilliam, pesquisador associado do programa para o Oriente Médio e Norte da África do think tank Chatham House, sediado em Londres. "O príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, tenta proteger simultaneamente a segurança e o desenvolvimento econômico de seu país", afirmou. "A dificuldade é que os houthis são cada vez mais capazes de ameaçar ambos."

<><> Sauditas acusam houthis de ataque a Meca

Riad acusou os houthis de tentarem lançar um ataque contra Meca, a cidade sagrada do Islã, o que foi prontamente negado pelos insurgentes. A notícia, porém, provocou uma onda de indignação em todo o mundo muçulmano.

As autoridades sauditas relataram que um drone que seguia em direção a Meca foi abatido. O ministério saudita do Exterior condenou o ataque, classificando-o como um "atentado terrorista covarde", e reafirmou o direito do reino de "defender a segurança das duas mesquitas sagradas, dos peregrinos e de todo o território saudita".

No entanto, Hazem al-Assad, membro da liderança houthi, rejeitou a acusação, chamando-a de "uma mentira batida, já usada anteriormente e que não engana mais ninguém". A Arábia Saudita já havia acusado os houthis de lançarem ataques contra a cidade em um conflito anterior.

Nesta quarta-feira, o porta-voz militar dos houthi, Yahya Saree, afirmou que "aviões de guerra sauditas lançaram 40 ataques aéreos [...] visando as províncias de Taiz, Marib e Hodeidah nas últimas 24 horas". Anteriormente, ele havia estimado em mais de 450 o número de ataques sauditas realizados na última semana, afirmando que, em resposta, o grupo havia atacado uma base aérea saudita e uma instalação da companhia petrolífera estatal na cidade portuária de Yanbu, no Mar Vermelho.

O grupo também alegou, nesta quarta-feira, ter abatido um caça saudita.

<><> Equilíbrio entre dissuasão e diplomacia

A Arábia Saudita possui uma das forças militares mais bem armadas e tecnologicamente sofisticadas do Oriente Médio, especialmente em aviação de combate e defesa aérea. O país, no entanto, está "relutante em ser novamente arrastado para uma campanha militar custosa no Iêmen", disse Quilliam.

Uma coalizão militar liderada pela Arábia Saudita interveio no Iêmen em 2015 para apoiar o governo na luta contra os insurgentes houthis. Após sete anos de uma guerra intensa, os combates diminuíram em 2022, graças a uma trégua mediada pela ONU.

As investidas mais recentes dos houthis contra a Arábia Saudita e o governo do Iêmen apoiado pelos sauditas visam pressionar a Arábia Saudita a encerrar os bloqueios aéreos e marítimos impostos ao território controlado pelo grupo – medidas que não foram totalmente suspensas apesar da trégua de 2022.

"A Arábia Saudita se encontra agora em uma situação muito complicada", afirmou Sebastian Sons, especialista em Oriente Médio do centro de pesquisas alemão Carpo.

"Por um lado, Riad precisa deixar claro aos houthis que uma linha vermelha foi ultrapassada e que haverá uma resposta militar, particularmente em coordenação com o governo do Iêmen reconhecido internacionalmente. Mas, por outro lado, também precisa manter os canais de comunicação abertos para retornar à mesa de negociações e reduzir as tensões", explicou.

Em sua visão, o objetivo de Riad é equilibrar dissuasão e diplomacia. "O argumento é muito claro", disse ele, acrescentando que "os houthis representam uma ameaça não apenas para a Arábia Saudita, mas para a economia global como um todo".

Após o avanço dos houthis no sul do Iêmen na semana passada – incluindo a tomada de cidades portuárias e da Ilha de Perim, no Estreito de Bab el-Mandeb –, os rebeldes agora têm condições de exercer ainda mais pressão sobre o abastecimento global de petróleo.

Essa estratégia poderia conferir maior poder de barganha ao Irã no conflito com os Estados Unidos.

Segundo a empresa de dados e análises do setor marítimo Kpler, apenas 21 navios de transporte transitaram pelo Estreito de Bab el-Mandeb nesta segunda-feira. Antes da crise, essa estreita via navegável movimentava cerca de 30% do tráfego global de contêineres.

<><> O "novo nível de vulnerabilidade" da Arábia Saudita

"O conflito atual expõe um novo nível de vulnerabilidade para a Arábia Saudita", disse Quilliam, da Chatham House. "O país está sendo posto à prova por todos os lados."

Embora a Arábia Saudita seja uma aliada próxima dos EUA, três fontes citadas pela agência de notícias Reuters relataram que o governante de fato do país, Mohammed bin Salman telefonou ao presidente americano, Donald Trump, na última quinta-feira, para solicitar ajuda militar para combater o avanço dos houthis.

As fontes relataram que, por enquanto, foi oferecido apenas apoio de inteligência, uma vez que Trump hesitou em abrir mais uma frente de batalha no conflito em curso envolvendo os EUA e o Irã.

O Acordo de Defesa Conjunta de Meca, assinado recentemente entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, também ainda não foi acionado. Até o momento, o Paquistão – aliado do Irã e mediador no atual conflito entre Teerã e Washington – tem relutado em se envolver diretamente no confronto entre a Arábia Saudita e os houthis.

"O fato de o Pacto de Meca ainda não ter sido testado aumenta os desafios da Arábia Saudita", observou Quilliam.

<><> A repressão à dissidência na Arábia Saudita

Enquanto isso, Mohammed bin Salman – apelidado de MBS, as iniciais de seu nome – enfrenta uma pressão interna cada vez maior.

"As pessoas esperam progresso econômico", disse Sons à DW. Para a população saudita, isso significa "habitação acessível, empregos e proteção contra novos ataques vindos do Iêmen", acrescentou.

Além disso, a Arábia Saudita precisa de estabilidade para dar continuidade ao seu ambicioso e custoso plano de reformas, o Vision 2030. Essa ampla agenda de diversificação visa reduzir a dependência do reino em relação ao petróleo e transformar a economia e a sociedade; no entanto, o investimento estrangeiro, o turismo e a confiança dos investidores dependem de uma situação de segurança estável, ressaltou Quilliam.

Outros grandes eventos planejados para a Arábia Saudita, como a Expo 2030 e a Copa do Mundo da Fifa de 2034, também dependem de estabilidade geopolítica.

Paralelamente, à medida que aumentam as ameaças à segurança e se intensificam as pressões econômicas, observadores de direitos humanos afirmam que as autoridades sauditas se tornam cada vez mais sensíveis a críticas sobre a forma como lidam com a crise.

"Desde que MBS chegou ao poder, houve uma forte repressão à liberdade de expressão, especialmente em relação a críticas à política externa saudita", disse à DW Yahya Al-Asiri, fundador da ALQST for Human Rights, uma organização de direitos humanos sediada em Londres.

"Críticos e pessoas que pedem a paz são tratados com severidade", disse ele, ressaltando que essas pessoas são processadas com base nas leis antiterrorismo do país e condenadas a longas penas de prisão ou até mesmo à morte por ações não violentas.

Em 2025, a Arábia Saudita realizou pelo menos 356 execuções, o maior total anual registrado pela ALQST.

Um relatório da entidade alertou que as autoridades sauditas executaram pelo menos 154 pessoas entre janeiro e setembro de 2026. Destas, 101 foram executadas devido a crimes relacionados a drogas, enquanto nove ocorreram por infrações ligadas ao terrorismo – o que, "segundo a definição vaga e excessivamente ampla da legislação saudita, pode incluir uma vasta gama de atos não letais", afirma o documento.

 

Fonte: DW Brasil

 

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