segunda-feira, 21 de setembro de 2026

De 'objeto' a 'sujeito': como a África pode ser protagonista no século XXI

Alvo de cobiça e exploração durante séculos e ainda lutando contra o neocolonialismo, a África deixa de ser vista como mero objeto de disputas e se consolida como ator geopolítico cada vez mais relevante. "Sujeito sempre foi, mas a questão é a forma como sempre foi representada e sempre foi invisibilizada na arena internacional", afirma analista.

O continente amplia sua capacidade de articulação por meio de instituições e mecanismos de integração regional, como a União Africana e a Área de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA).

Essa transformação ocorre em meio à crescente presença e disputa por influência de potências como China, Estados Unidos, Rússia e União Europeia, além de países como Turquia e as monarquias do Golfo. Paralelamente, as nações africanas buscam ampliar sua autonomia e aproveitar o potencial de recursos estratégicos, como lítio, cobalto, cobre, urânio e terras raras.

O Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, aborda as principais questões geopolíticas que moldam o futuro do continente, incluindo integração regional, crescimento populacional e urbanização, mudanças climáticas, segurança alimentar, transição energética e a projeção da África como um novo polo de poder no sistema internacional.

Para Carolina Ferreira Galdino, doutora e mestre em relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas e coordenadora do Núcleo de Estudos sobre África e Relações Étnico-Raciais (NEARE), da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a mudança representa uma passagem da condição passiva para a de ativa nas relações internacionais.

Segundo ela, essa transformação ganhou impulso a partir do início do século XXI, com a criação e o fortalecimento de instituições voltadas à articulação dos próprios países africanos. Um dos principais marcos foi a criação da União Africana, em 2002, que abriu novos espaços para que os governos do continente discutissem seus problemas e formulassem respostas conjuntas.

"Então, ao fazer parte, ao edificar novas instituições internacionais ou conseguir ingressar efetivamente em novas instituições, organizações internacionais, a África acaba deixando de ser objeto e se transforma em sujeito", explica. "Sujeito sempre foi, mas a questão é a forma como sempre foi representada e sempre foi invisibilizada na arena internacional."

Assim, a criação de mecanismos continentais também está associada à tentativa de formular respostas a partir das próprias necessidades da região. Galdino destaca que, especialmente após 2002, ganha força a ideia de pensar os problemas africanos, levando em consideração soluções formuladas no próprio continente.

A mudança, porém, não significa que os obstáculos tenham desaparecido. A situação deve ser analisada considerando simultaneamente os desafios e as oportunidades disponíveis. A existência de instituições e iniciativas de integração cria possibilidades, mas sua concretização depende de vontade política, recursos e capacidade de implementação.

Essa perspectiva também aparece na Agenda 2063, plano estratégico da União Africana que estabelece objetivos de longo prazo para o desenvolvimento do continente. Embora nem todas as metas tenham sido alcançadas na primeira década, Galdino avalia que a iniciativa oferece uma direção para os países africanos perseguirem seus próprios interesses.

Mais do que estabelecer metas econômicas e políticas, a agenda também expressa uma mudança na forma como o continente busca se apresentar internacionalmente. Em vez de ser visto apenas como receptor de ajuda externa, a África procura se consolidar como parceira estratégica e ator relevante no sistema internacional. "É como se nós conseguíssemos vislumbrar uma possibilidade, uma rota, e isso acaba sendo importante."

<><> Mais opções de negociação

A busca por maior protagonismo ocorre, entretanto, em um ambiente marcado pela disputa entre diferentes potências. Para Gustavo de Carvalho, chefe de programa do Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais (SAIIA, na sigla em inglês), a presença simultânea de China, Estados Unidos, Rússia, União Europeia e outros atores cria novas possibilidades de negociação para os governos africanos.

Segundo ele, o objetivo de diversos países é evitar que qualquer parceiro externo seja considerado exclusivo. A diversificação permite ampliar as alternativas disponíveis em áreas como comércio, infraestrutura e segurança.

Galdino descreve essa estratégia como uma espécie de "equidistância pragmática", na qual um país pode estabelecer relações comerciais com determinado parceiro e, ao mesmo tempo, buscar cooperação em segurança com outro.

"Essa equidistância pragmática seria o fato de poder dialogar comercialmente com determinado parceiro, dialogar no que se refere a processos de cooperação na área de segurança com outro parceiro, então isso acaba dando maior margem de manobra."

Carvalho, porém, chama atenção para outro lado dessa dinâmica. A multiplicação de parceiros não significa necessariamente o fim das relações de dependência. A estratégia africana precisa evitar simplesmente trocar uma dependência por outra e, em vez disso, fortalecer mecanismos próprios de integração econômica e produtiva.

Nesse sentido, iniciativas como a AfCFTA e sistemas continentais de pagamentos podem ajudar a criar um ambiente no qual decisões estratégicas sejam tomadas dentro do próprio continente. A ideia é fazer com que os parceiros externos participem de um ecossistema no qual a África tenha maior capacidade de definir suas prioridades.

<><> China, Rússia e a diversificação

A diferença entre a atuação de China e Rússia ajuda a ilustrar essa estratégia. Enquanto Pequim consolidou uma presença econômica de longo prazo e se tornou um importante parceiro comercial de diversos países africanos, Moscou mantém uma atuação mais concentrada em determinados campos, sobretudo político e de segurança.

Para Carvalho, essa presença não deve ser interpretada necessariamente como uma escolha entre diferentes blocos geopolíticos. A entrada de novos atores representa, em grande medida, uma ampliação das opções disponíveis aos governos africanos. "A diversificação de atores, em grande medida, é por si só uma busca por autonomia."

Essa diversificação também se manifesta na perda de espaço de parceiros tradicionais em algumas regiões. No Sahel, por exemplo, o especialista considera a redução da influência francesa um movimento de forte significado político, diante do desgaste acumulado pela presença francesa em áreas como política, segurança e economia.

Ao mesmo tempo, China, Rússia, Índia e países do Golfo ampliam suas relações com diferentes nações africanas. Dessa maneira, o desafio não é apenas compreender o que essas potências procuram no continente, mas estabelecer uma estratégia própria sobre o que os países africanos pretendem obter dessas relações.

<><> Juventude como ativo econômico

Outro fator que pode alterar o peso internacional da África é a sua estrutura demográfica. O continente possui uma população jovem e em expansão, o que pode representar tanto uma oportunidade econômica quanto um desafio social.

Para Galdino, o potencial econômico dessa juventude está condicionado à capacidade dos governos de transformar o crescimento demográfico em capital humano qualificado. A pesquisadora ressalta que o tamanho da população, por si só, não garante maior competitividade.

"Então o aumento da competitividade do continente africano não está atrelado à densidade demográfica. Está atrelado aos recursos adequados que vão ser mobilizados para formar quadros que possam pensar e implementar medidas que se coadunem aos interesses das populações africanas."

Nesse processo, a educação ocupa papel central. Galdino defende que a formação dos jovens deve combinar conhecimentos contemporâneos, como engenharia, tecnologia, inovação e empreendedorismo, com saberes e especificidades locais. A ideia, segundo ela, é formar profissionais capazes de identificar e solucionar problemas a partir das próprias necessidades das comunidades africanas.

A especialista cita ainda o pan-africanista Joshua Maponga, que defende a combinação entre conhecimentos locais e formação voltada ao empreendedorismo, à engenharia e à inovação. Para Galdino, essa abordagem permitiria desenvolver uma força de trabalho preparada para responder aos desafios do próprio continente, sem desconsiderar as transformações tecnológicas e econômicas contemporâneas.

Ao mesmo tempo, a dimensão demográfica pode ampliar o mercado consumidor e a capacidade de atração de investimentos. Galdino cita projeções de crescimento da população da África Subsaariana e destaca que uma população numerosa e jovem pode representar um mercado interno em expansão.

O potencial, entretanto, convive com limitações estruturais. Sem investimentos suficientes em educação, qualificação profissional e geração de oportunidades, o crescimento da população pode não se converter em desenvolvimento e contribuir para a manutenção de relações de dependência.

<><> Minerais estratégicos e poder de barganha

A abundância de minerais estratégicos para setores como tecnologia, indústria e transição energética coloca países africanos no centro da disputa internacional por cadeias de fornecimento. Para Carvalho, a questão fundamental é definir para quem esses minerais são considerados críticos. Enquanto potências buscam reduzir sua dependência de determinadas cadeias globais, a perspectiva africana deveria priorizar o uso desses recursos para o próprio desenvolvimento.

"Dentro do continente, a visão que deve ser central nesse processo é uma visão de que esses minerais têm de ser críticos ao próprio processo de desenvolvimento africano."

A disputa já amplia as possibilidades de negociação para países da África Central, como a República Democrática do Congo e a Zâmbia. Carvalho cita o Corredor do Lobito, que liga áreas produtoras de minerais ao litoral de Angola, e as alternativas de escoamento mantidas pela China em direção ao Oceano Índico.

Sobretudo, o aumento do poder de barganha depende também da capacidade de processar os recursos e agregar valor dentro do continente, vinculando a mineração a políticas industriais próprias.

Nesse sentido, a disputa internacional por recursos estratégicos pode ampliar o espaço de negociação da África, mas a consolidação de seu protagonismo dependerá da capacidade de transformar essa posição estratégica em desenvolvimento interno.

¨      África vive renascimento geopolítico e reafirma protagonismo global

Mais de seis décadas depois, a África volta ao centro da disputa global. Com uma população superior a 1,4 bilhão de pessoas, vastas reservas minerais, enorme potencial energético e posição estratégica no Sul Global, o continente se tornou peça-chave na construção de uma nova ordem multipolar impulsionada pelos BRICS, pela ascensão da China e pela reorganização econômica global.

<><> África e o nascimento do pan-africanismo

A criação da OUA, em 25 de maio de 1963, foi resultado direto das lutas de libertação nacional que atravessaram o continente ao longo do século XX. Líderes históricos como Kwame Nkrumah, do Gana, Gamal Abdel Nasser, do Egito, Julius Nyerere, da Tanzânia, e Haile Selassie, da Etiópia, defendiam a união africana como instrumento de soberania política e emancipação econômica.

O pan-africanismo surgiu como movimento político e intelectual voltado à integração dos povos africanos e da diáspora negra espalhada pelo mundo após séculos de escravidão e colonização europeia. A ideia central era simples, mas poderosa: apenas uma África unida poderia enfrentar a exploração externa e construir um projeto próprio de desenvolvimento.

A partir dos anos 1960, dezenas de países africanos conquistaram independência formal das potências europeias. No entanto, muitos continuaram submetidos a mecanismos de dependência econômica, financeira e militar, em um processo frequentemente descrito por intelectuais africanos como “neocolonialismo”.

<><> O continente que o mundo disputa

Hoje, a África é vista como uma das regiões mais estratégicas do planeta. O continente concentra parte significativa das reservas globais de minerais essenciais para a transição energética e tecnológica, incluindo cobalto, lítio, manganês, cobre, urânio e terras raras.

A República Democrática do Congo, por exemplo, responde por cerca de 70% da produção mundial de cobalto, elemento essencial para baterias elétricas. Já países como Níger, Angola, Argélia e Moçambique possuem enorme relevância energética e mineral.

Além disso, a África apresenta algumas das economias com maior potencial de crescimento demográfico e urbano do século XXI. Segundo projeções da ONU, um em cada quatro habitantes do planeta será africano até 2050.

Esse cenário colocou o continente no centro da disputa entre Estados Unidos, China, União Europeia, Rússia, Índia e países árabes.

<><> China amplia presença e muda o eixo econômico africano

Nas últimas duas décadas, a China se consolidou como principal parceiro comercial de grande parte dos países africanos. Por meio da Nova Rota da Seda, Pequim financiou ferrovias, portos, hidrelétricas, estradas e projetos industriais em diversos países do continente.

Diferentemente das antigas potências coloniais europeias, a diplomacia chinesa costuma enfatizar o discurso de cooperação Sul-Sul e respeito à soberania nacional, o que ampliou sua influência política na região.

Em vários países africanos, cresce a percepção de que a parceria com a China oferece alternativas mais vantajosas do que os tradicionais programas de austeridade impostos por organismos financeiros internacionais ligados ao Ocidente.

Ao mesmo tempo, Rússia, Índia, Turquia e países do Golfo ampliam investimentos e presença diplomática na África, reforçando a transição para um mundo menos concentrado nas potências atlânticas tradicionais.

<><> BRICS e o fortalecimento do Sul Global

A entrada de novos países africanos na dinâmica dos BRICS também simboliza essa mudança histórica. A África do Sul já integra o bloco desde 2011, enquanto países como Egito e Etiópia passaram a participar do grupo ampliado.

O fortalecimento dos BRICS é visto por muitos governos africanos como oportunidade para reduzir dependência do dólar, ampliar investimentos em infraestrutura e construir mecanismos financeiros alternativos aos controlados por Washington e Bruxelas.

A discussão sobre comércio em moedas locais, bancos de desenvolvimento e maior integração entre países do Sul Global passou a ocupar espaço central nas estratégias africanas de desenvolvimento.

<><> Feridas do colonialismo ainda permanecem

Apesar do crescimento econômico em várias regiões, o continente ainda enfrenta graves desafios sociais e estruturais herdados do colonialismo europeu.

Muitos países convivem com pobreza extrema, conflitos armados, instabilidade política, fome e exploração predatória de recursos naturais por empresas multinacionais estrangeiras.

Além disso, antigas potências coloniais continuam exercendo influência direta em várias regiões africanas, especialmente na África Ocidental, onde cresce o sentimento popular contra a presença militar francesa.

Nos últimos anos, países como Mali, Burkina Faso e Níger passaram por rupturas políticas acompanhadas de forte discurso anti-imperialista e defesa da soberania nacional.

<><> África e Brasil: laços históricos e culturais

Milhões de africanos escravizados foram trazidos ao país durante mais de três séculos, deixando marcas decisivas na cultura, religião, música, culinária e formação social brasileira.

A influência africana está presente em praticamente todos os aspectos da identidade nacional brasileira, do samba às religiões de matriz africana, passando pela capoeira, literatura, gastronomia e vocabulário popular.

Ao mesmo tempo, o racismo estrutural e as desigualdades herdadas da escravidão continuam sendo desafios centrais da sociedade brasileira.

Nos últimos anos, governos progressistas brasileiros buscaram fortalecer relações diplomáticas, comerciais e culturais com países africanos, retomando a ideia de cooperação Sul-Sul e aproximação estratégica entre Brasil e África.

 

Fonte: Sputnik Brasil/Brasil 247

 

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