Quem
são os 3 candidatos que já foram incluídos na Lista Suja do trabalho escravo
UM
TRABALHADOR com feridas nos dois pés, sem tratamento, numa fazenda cujo dono
era médico. Famílias alojadas em um barracão sobre um abrigo de porcos. Um
menino de 13 anos que roçava o pasto com foice e aplicava agrotóxico sem
proteção. Assim eram tratados, segundo relatórios de fiscalização do MTE
(Ministério do Trabalho e Emprego), empregados de três candidatos a deputado
nas eleições de outubro.
Os três
já foram incluídos na Lista Suja do trabalho escravo. Wanderley Dias Vieira, o
Dr. Wanderley (PL-PA), ex-vice-prefeito de Tucumã, no sul do Pará, disputa uma
cadeira de deputado estadual. Miguel Gomes Filho, o Miguelito (PDT-PA),
ex-presidente da Câmara de Marabá, no sudeste paraense, concorre a deputado
federal. E José Lopes Júnior, o Zé Lopes (Republicanos-AC), vereador de Rio
Branco, tenta chegar à Assembleia Legislativa do Acre.
A
Repórter Brasil cruzou os dados das mais de 20 mil candidaturas registradas no
TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o histórico da Lista Suja do trabalho
escravo, divulgada semestralmente pelo governo federal desde novembro de 2003.
O cadastro torna públicos os nomes de empregadores responsabilizados pelo MTE
por explorar trabalho escravo, depois que tiveram oportunidade de se defender e
recorrer. A relação permite que empresas, bancos e consumidores saibam com quem
estão fazendo negócios. A inclusão resulta de uma decisão do ministério, não de
uma condenação criminal.
Dr.
Wanderley está na lista atual, publicada em abril de 2026, pelo resgate de dois
trabalhadores na Fazenda Primavera, em São Félix do Xingu, em 2023. Não foi a
primeira vez. Em dezembro de 2004, ele entrou no cadastro pela Estância do
Pontal, no mesmo município, onde 11 trabalhadores haviam sido resgatados no ano
anterior.
Zé
Lopes foi incluído na Lista Suja após fiscalização em 2012 em duas fazendas no
Amazonas. A operação resgatou 26 trabalhadores de condições análogas à
escravidão, entre eles um menino.
Já
Miguelito esteve na lista em dois momentos, com inclusões em 2008 e 2018. O
primeiro caso envolveu três trabalhadores; no segundo, fiscais encontraram
famílias vivendo sobre um abrigo de porcos e bebendo água de uma grota
acessível aos animais.
<><>
Dr. Wanderley: fazenda tinha agrotóxicos no alojamento
Médico
e ex-vice-prefeito de Tucumã, Dr. Wanderley, de 59 anos, tenta chegar à
Assembleia Legislativa do Pará pelo PL. Seu partido lança Flávio Bolsonaro à
Presidência, integra a coligação de Dr. Daniel Santos (Podemos) ao governo
paraense e disputa o Senado com Éder Mauro (PL).
Em 11
de outubro de 2023, uma equipe federal fiscalizou a Fazenda Primavera, em São
Félix do Xingu, e resgatou dois trabalhadores. Segundo o relatório do
Ministério do Trabalho e Emprego, um deles dormia na varanda. O outro ocupava
um quarto com uma abertura no canto inferior dos fundos, pela qual o gado
colocava a cabeça e passavam galinhas.
O
relatório de fiscalização descreve agrotóxicos armazenados nos espaços de
moradia, junto aos pertences dos empregados e próximos dos alimentos. Um dos
banheiros era uma fossa seca, com um buraco no chão de tábuas, sem lavatório,
água limpa, sabão ou papel higiênico à disposição dos trabalhadores. Nas
frentes de trabalho, o empregado que fazia cercas precisava usar o mato para
suas necessidades.
A
fazenda do político, que é médico e sócio de um hospital, também não dispunha
de material de primeiros socorros, segundo os auditores. Um dos trabalhadores
contou que havia quebrado o antebraço direito após levar um coice de égua.
Disse ter sido levado por outro empregado de motocicleta até a estrada vicinal
e, depois, seguido de ônibus para atendimento.
Segundo
seu depoimento, ficou 90 dias sem trabalhar e sem receber. Não foi emitida
Comunicação de Acidente de Trabalho, registrou a fiscalização.
Dr.
Wanderley contestou a existência dos vínculos. Em manifestação apresentada
durante a operação, seu advogado afirmou que um dos homens não era empregado do
fazendeiro e que o outro prestava serviço de cerca por empreitada.
Os
auditores sustentaram a caracterização das relações de emprego com base nos
depoimentos, nas atividades realizadas e nas informações sobre pagamentos. O
relatório inclui um comprovante de transferência de R$ 800 feita por Dr.
Wanderley, em agosto de 2023, à conta indicada por um dos trabalhadores para
receber o dinheiro.
O
processo administrativo que levou à inclusão de Dr. Wanderley na Lista Suja
terminou em setembro de 2024. O registro da Fazenda Primavera foi incorporado
ao cadastro em abril de 2025.
Vinte
anos antes do resgate na Primavera, fiscais já haviam resgatado 11
trabalhadores da Estância do Pontal, outra propriedade de Dr. Wanderley, também
em São Félix do Xingu.
A
equipe de fiscalização chegou ao caso por acaso. Em 26 de junho de 2003, seguia
para fiscalizar outra fazenda quando encontrou dois homens que haviam deixado a
Estância do Pontal por causa das condições de trabalho. Os agentes mudaram o
roteiro e, no caminho, encontraram o Dr. Wanderley e um irmão em uma picape.
Segundo
o relatório, o fazendeiro se recusou a prestar informações e conduziu os
fiscais por uma caminhada de mais de dez quilômetros até um local distante dos
barracos, numa tentativa de dificultar a fiscalização. A equipe encontrou os
trabalhadores, que indicaram onde dormiam.
Os
abrigos tinham cobertura de plástico preto, chão de terra, nenhuma proteção
lateral e nenhuma instalação sanitária. A água, inclusive para beber, era
retirada diretamente de um córrego. Fotografias anexadas ao relatório mostram a
carne armazenada em um recipiente improvisado e os barracos no meio da mata.
Os
homens haviam sido recrutados em Tucumã por um “gato”, como é conhecido o
intermediário que recruta mão de obra para as fazendas. Segundo os depoimentos
colhidos pela equipe, o intermediário vendia mercadorias sem informar os preços
e dizia que ninguém poderia ir embora enquanto devesse dinheiro ao
proprietário. Os trabalhadores não sabiam quanto deviam. No auto de infração,
os fiscais apontaram servidão por dívida.
Um dos
trabalhadores estava com feridas nos dois pés e mal conseguia caminhar. Apesar
de o dono da fazenda ser médico, registraram os auditores, o trabalhador não
havia recebido tratamento, além de medicamentos oferecidos por colegas. A
equipe precisou ampará-lo na caminhada até os veículos. O relatório inclui seu
depoimento e fotografias dos ferimentos.
Dr.
Wanderley foi detido pela Polícia Federal, mas foi liberado no dia seguinte:
segundo os fiscais, não pôde ser transportado pelo helicóptero de apoio e houve
“extinção do prazo do flagrante”.
<><>
Fazenda de Dr. Wanderley tinha ponte para a terra indígena
A
fiscalização da Fazenda Primavera, em 2023, também deu origem a uma acusação
ambiental. A propriedade fica no limite externo da Terra Indígena Apyterewa, do
povo Parakanã. Segundo o MPF (Ministério Público Federal), uma ponte ligava a
fazenda ao interior do território.
Os
agentes encontraram rastros de pneus e de gado, uma área recém-desmatada de 2,3
hectares e sinais de exploração de madeira em outros 203 hectares. A acusação
relata a presença de toras, madeira serrada e um caderno de controle da
produção com o nome do Dr. Wanderley. Também aponta que o gado encontrado na
área desmatada tinha a mesma marca do rebanho da Primavera.
Em ação
civil pública, o MPF pediu que Dr. Wanderley recuperasse a área e pagasse R$
2,2 milhões por danos materiais, além de indenização por dano moral coletivo a
ser fixada pela Justiça.
A
acusação ambiental também originou uma ação penal. A Justiça Federal recebeu a
denúncia em janeiro de 2025. Em 17 de agosto, rejeitou o pedido de absolvição
sumária apresentado pela defesa e determinou a continuidade da instrução.
Na
defesa apresentada à Vara Federal de Redenção (PA), Dr. Wanderley alegou que a
denúncia era inepta e não tinha justa causa. Pediu ainda uma perícia para
apurar a autoria das anotações no caderno. O juiz negou o exame, sob o
argumento de que a questão relevante era a veracidade dos dados anotados, que
poderia ser discutida com as testemunhas.
O
candidato soma R$ 1,05 milhão em multas do Ibama, referentes a três autos de
novembro de 2023.
Ao TSE,
Dr. Wanderley informou R$ 923,8 mil em bens. Desse total, R$ 300 mil
correspondem a quotas do Hospital e Maternidade Santo Agostinho. Outros R$ 525
mil são equipamentos médicos. Juntas, as parcelas somam cerca de 89% do
patrimônio declarado. Também informou uma área rural em São Félix do Xingu,
denominada Estância Vieira, por R$ 58 mil.
A
Repórter Brasil procurou a assessoria de imprensa do diretório nacional do PL e
dois advogados de Dr. Wanderley que atuam no processo judicial relacionado ao
resgate. Nenhum deles respondeu até a publicação.
<><>
Zé Lopes: fiscalização resgatou menino que atuava com foice e agrotóxicos
Vereador
de Rio Branco (AC), Zé Lopes (Republicanos) foi incluído na Lista Suja após
fiscalização em 2012 em duas fazendas dele, Mustafa e FAM, em Boca do Acre, no
Amazonas. A operação resgatou 26 trabalhadores de condições análogas à
escravidão, entre eles um menino que trabalhava com foice e manuseio de
agrotóxicos.
Segundo
os auditores fiscais do Trabalho, o menino trabalhava sem equipamento de
proteção, exposto ao produto químico, ao sol e ao risco de ferimentos com a
ferramenta. A fiscalização identificou também que as vítimas dormiam em abrigos
sem instalações sanitárias.
Ao todo
oito trabalhadores foram encontrados pelos fiscais na carroceria de uma picape
na BR-317. Eles voltavam da Fazenda FAM. Conforme o relatório, haviam recebido
ordem para deixar o local em razão da chegada da fiscalização.
Os
documentos descrevem uma retirada de trabalhadores de diferentes propriedades
do grupo durante a operação. Alguns foram transportados em caçambas e
caminhonetes; outros saíram por conta própria. Os auditores atribuíram a Zé
Lopes uma tentativa de impedir que as condições de trabalho fossem verificadas.
Zé
Lopes é o mais rico dos três candidatos que já estiveram na lista suja.
Vereador de Rio Branco pelo Republicanos, declarou patrimônio de R$ 32,6
milhões para disputar uma vaga de deputado estadual, segundo os dados do TSE.
Entre
os bens estão R$ 7 milhões em gado e a Fazenda Santana, de 5 mil hectares,
avaliada em R$ 6,3 milhões. A declaração também inclui o Seringal Marary II, a
Fazenda Redenção, apartamentos, investimentos e participações empresariais.
O
candidato acumula 12 multas do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e
dos Recursos Naturais Renováveis), aplicadas entre 2018 e 2024, que somam R$
8,18 milhões em valores nominais. A maior, de R$ 2,7 milhões, foi aplicada em
agosto de 2022 por destruição de 541,4 hectares de floresta nativa em terras
públicas na Fazenda Santana, em Lábrea (AM).
Procurado
pela Repórter Brasil, Zé Lopes afirmou que a fiscalização do Ministério do
Trabalho ocorreu, mas disse ter sido absolvido em processo judicial relacionado
ao caso. Segundo ele, desde então seu modelo de trabalho foi aperfeiçoado, com
uma equipe de segurança do trabalho, vistorias periódicas e capacitações sobre
prevenção de acidentes com agrotóxicos, saúde e segurança no trabalho rural e
primeiros socorros. O candidato afirmou ainda que as verbas dos funcionários
são pagas em dia.
Sobre
as autuações ambientais, Zé Lopes disse que os processos administrativos e
judiciais ainda estão em discussão e atribuiu parte dos problemas a ocupações
de terras no sul do Amazonas. Afirmou que as defesas apresentadas buscam
identificar os responsáveis pelos desmatamentos e que as áreas passam por
regularização ambiental e fundiária.
Procurado,
o presidente do Republicanos no Acre, deputado estadual Roberto Duarte, disse
que a inclusão na Lista Suja do trabalho escravo é uma medida administrativa.
“Distinta da condenação criminal com trânsito em julgado exigida pela Lei da
Ficha Limpa para gerar inelegibilidade, o que não ocorreu neste caso”, afirma.
<><>
Miguelito: dois casos de escravidão separados por uma década
Miguelito
(PDT-PA) presidia a Câmara Municipal de Marabá e tentava renovar seu mandato de
vereador quando entrou na Lista Suja, em julho de 2008. Na época ele era
filiado ao PP. O registro se referia ao resgate de três trabalhadores da
Fazenda do Miguelito, em Itupiranga, também no sudeste do Pará.
Na
ocasião, Miguelito contestou a inclusão em reportagem da Repórter Brasil. “Isso
é uma brincadeira. Sou um homem honrado. O rapaz que mora em um assentamento ao
lado da fazenda com o filho e a nora foi fazer uma cerca e dizem que é trabalho
escravo. O engraçado é que eles ainda moram ali”, afirmou.
Oito
anos depois, em novembro de 2016, o Grupo Especial de Fiscalização Móvel chegou
à Fazenda Abaram, também em Itupiranga. A equipe encontrou dez empregados sem
registro. Nove, que moravam ou estavam alojados na propriedade, foram
resgatados. O gerente não foi incluído nesse grupo porque não residia no local
nem estava submetido às mesmas condições de moradia.
Parte
dos trabalhadores e de suas famílias vivia em um barracão de madeira sustentado
por pilastras. Embaixo, ficavam os porcos. O piso e as paredes tinham frestas,
e a cobertura deixava a chuva entrar. Os auditores registraram fezes de ratos
no alojamento; os trabalhadores relataram que os animais roíam mantimentos e
circulavam pelos móveis durante a noite.
Outro
casal de empregados e suas duas filhas pequenas ocupavam uma casa de madeira
parcialmente demolida. Ali também eram preparadas refeições para trabalhadores
da fazenda. Segundo os fiscais, porcos e galinhas circulavam pela moradia.
A água
para beber e tomar banho vinha de uma grota acessível aos animais da
propriedade. Era bombeada sem tratamento para reservatórios. A fiscalização
encontrou sujeira visível na água e uma camada de limo e ferrugem em um dos
recipientes de armazenamento.
Miguelito
informou aos auditores que havia delegado a administração da fazenda ao
gerente. Este disse ser responsável por contratar, dar ordens e pagar os
trabalhadores, com dinheiro repassado pelo proprietário.
Na
ocasião, Miguelito reconheceu os vínculos, comprometeu-se a regularizar os
registros e pagou as verbas rescisórias dos trabalhadores. Depois do processo
administrativo, seu nome voltou à Lista Suja em outubro de 2018.
A
Repórter Brasil procurou a direção nacional do PDT, que repassou a demanda a
Allan Pombo, presidente do partido em Belém. Além de solicitar um contato
direto de Miguelito, a reportagem perguntou se a legenda tinha conhecimento das
duas inclusões do candidato na Lista Suja e como avaliava sua candidatura
diante da tradição trabalhista do PDT, partido fundado por Leonel Brizola.
Pombo
não respondeu nem encaminhou a demanda a Miguelito. A reportagem também
procurou um advogado do candidato, que não respondeu até a publicação.
Miguelito disputa agora uma vaga na Câmara dos Deputados pelo PDT. No Pará, seu
partido lança Celso Sabino ao Senado. Nacionalmente, integra a coligação de
Lula (PT) à Presidência.
Fonte:
Repórter Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário