quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Milhões de idosos vivem sem apoio adequado no Brasil, diz estudo

O Brasil conta com mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em um processo acelerado de envelhecimento populacional. A terceira onda do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), conduzido pela Fiocruz Minas em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), acendeu um alerta sobre as condições de vida dos idosos.

Considerada uma das maiores pesquisas sobre envelhecimento no Brasil, ela mostra que milhões de idosos enfrentam dificuldades para manter a autonomia e não recebem o suporte necessário para lidar com essas limitações.

Um dos dados mais preocupantes do levantamento é que 20,4% dos idosos brasileiros apresentam dificuldade para realizar pelo menos uma atividade básica do dia a dia, como tomar banho, se vestir, comer, usar o banheiro ou levantar da cama.

Segundo os pesquisadores, isso representa cerca de 6,5 milhões de pessoas vivendo com algum grau de limitação funcional.

O problema se agrava quando a pesquisa analisa a rede de apoio disponível para esse grupo. Entre os idosos que têm dificuldade para realizar atividades cotidianas, apenas 37,9% recebem ajuda. Isso significa que a maioria não conta com assistência regular, mesmo enfrentando limitações que afetam diretamente sua independência e qualidade de vida.

Os resultados indicam ainda que a situação piora com o avanço da idade. Enquanto 13,9% das pessoas entre 60 e 69 anos apresentam limitações funcionais, esse percentual sobe para 44,2% entre aqueles com 80 anos ou mais. As mulheres também são mais afetadas: 23,1% relatam dificuldades para atividades básicas, contra 17% dos homens.

O estudo também aponta falhas na estrutura de cuidados oferecida aos idosos. Apenas 5,8% dos cuidadores afirmaram ter recebido algum tipo de treinamento para desempenhar essa função.

Para os pesquisadores, esse dado evidencia a falta de políticas públicas voltadas à capacitação e ao suporte de familiares e cuidadores informais, que frequentemente assumem a responsabilidade pelos cuidados sem orientação adequada.

Além da falta de assistência, a pesquisa mostra que fatores urbanos e sociais também dificultam o envelhecimento saudável. Quase metade dos idosos que vivem em áreas urbanas, 42,7%, afirma ter medo de cair por causa de buracos, defeitos em calçadas ou problemas nas vias públicas próximas de casa. Entre pessoas com 80 anos ou mais, esse índice chega a 63,1%.

A sensação de insegurança também afeta milhões de brasileiros mais velhos. Segundo o levantamento, 12,1% dos idosos consideram as vizinhanças muito inseguras em relação à violência e à criminalidade. 

Na área da saúde, a pesquisa identificou que 34,4% dos idosos apresentam níveis compatíveis com hipertensão arterial. O percentual corresponde a cerca de 11 milhões de brasileiros que precisam de acompanhamento para evitar complicações graves, como infarto, acidente vascular cerebral, insuficiência renal e demência vascular.

Os pesquisadores destacam que os desafios do envelhecimento vão muito além das doenças. Questões como mobilidade urbana, acessibilidade, segurança, assistência domiciliar e suporte aos cuidadores têm impacto direto na autonomia e no bem-estar da população idosa.

O estudo também reforça a importância do Sistema Único de Saúde (SUS) nesse cenário. Cerca de dois terços dos brasileiros com 60 anos ou mais dependem exclusivamente da rede pública para atendimento médico. Além disso, 69,2% estão vinculados à Estratégia Saúde da Família, considerada uma das principais portas de entrada para o cuidado dessa população.

¨      Número de médicos geriatras cresce quase 380% em 14 anos no Brasil

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que os idosos deixaram de ser a menor fatia da população brasileira em 2023 e, daqui a duas décadas, serão maioria no país.

A população com 60 anos ou mais teve um aumento de 56% em relação ao Censo Demográfico de 2010. São cerca de 32.113.490 pessoas que estão nessa faixa etária, que representam 15,6% da população do Brasil.

À medida que essa parcela considerável da população cresce, aumenta também a preocupação em relação à saúde e ao bem-estar dela. A boa notícia é que o número de médicos geriatras no Brasil também vem aumentando. No entanto, ainda faltam profissionais.

A especialidade, focada em cuidar da saúde de pessoas idosas, registrou um aumento de 378,4% entre os anos de 2011 e 2024, segundo dados da Demografia Médica, publicação do CFM (Conselho Federal de Medicina) e da USP (Universidade de São Paulo).

Em 2011, o país contava com apenas 662 geriatras. Hoje, são mais de 3 mil profissionais com título de especialista reconhecido, o que corresponde a 1,49 especialista por 100 mil habitantes.

O número de mulheres geriatras é maior em relação aos homens: são 62,1% contra 37,9%. A região Sudeste é a que concentra o maior número desses especialistas, com 58,1%. Em segundo lugar é o Nordeste, com 16,9%, seguido pela região Sul, com 14,1%, Centro-Oeste, com 8,6%, e região Norte, com 2,3%.

“O Brasil está passando por um acelerado processo de envelhecimento populacional. No entanto, o número de médicos geriatras ainda é insuficiente para atender a essa demanda crescente. Embora a especialidade tenha ganhado maior reconhecimento nos últimos anos, é fundamental expandir a formação de geriatras e também sensibilizar outros profissionais da saúde sobre os princípios do cuidado geriátrico”, diz Marco Túlio Cintra, geriatra e presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).

O crescimento na formação de geriatras e a necessidade cada vez maior desses profissionais ocorrem em resposta a uma mudança no perfil da população. Doenças crônicas, como hipertensão, diabetes, osteoporose, demências e cardiopatias, tornam-se mais prevalentes com o envelhecimento e exigem acompanhamento contínuo.

Cintra explica ainda que o geriatra, além de especialista no envelhecimento humano, realiza também prevenção, diagnóstico, tratamento, gerenciamento das condições clínicas e múltiplas doenças do idoso.

“O objetivo é manter a autonomia, funcionalidade e qualidade de vida, respeitando as singularidades e prioridades de cada indivíduo. O geriatra acompanha todas as fases do envelhecimento, desde os primeiros sinais da transição para a velhice até os momentos de maior fragilidade, incluindo o cuidado paliativo e o apoio à pessoa idosa e sua família diante da finitude. Trata-se de um cuidado contínuo”, explica.

O indicado é que pessoas a partir dos 60 anos busquem atendimento de um geriatra. No entanto, o acompanhamento pode começar ainda mais cedo.

“Pessoas mais jovens, com doenças crônicas complexas ou que desejam se preparar para um envelhecimento saudável, também podem se beneficiar da avaliação geriátrica. Quanto mais cedo for iniciado o acompanhamento, maiores as chances de prevenir complicações e preservar a qualidade de vida ao longo do tempo”, acrescenta Cintra.

¨      A saúde que não aparece nos exames

Cuidar do corpo é um hábito que, se ainda não foi incorporado, deveria ser, por todos nós. Exames de rotina, check-up, aquela bateria de números que nos diz se está tudo bem. Colesterol, glicemia, pressão. Um cuidado que a gente já entende como essencial: prevenir antes que o corpo peça.

Mas há uma saúde que não aparece em nenhum desses exames. Ela não tem taxa de referência, não cabe em gráfico, não acende alerta em consultório. E, talvez por isso, seja a que mais negligenciamos: a saúde da mente.

Com o corpo, aprendemos a lógica da prevenção. Cuidamos antes que ele reclame e achamos isso o mais natural do mundo. Com a mente, invertemos tudo: só olhamos para ela quando algo já não vai bem. Como se cuidar da saúde emocional fosse um recurso de emergência, e não uma prática de vida.

Aprendi cedo o valor do autoconhecimento. A terapia entrou na minha vida não como conserto, mas como manutenção. Um espaço de escuta, de organização interna, de encontro comigo mesma. Ali, aprendi a nomear o que sentia, a entender meus movimentos, a me preparar para as fases que a vida traria. E foram muitas. Posso dizer que atravessei os momentos mais desafiadores da minha trajetória com mais inteireza porque esse cuidado já existia antes deles, e sigo.

Porque a mente também acumula. Acumula preocupações, cobranças, lutos pequenos e grandes, conversas que não tivemos, decisões adiadas. E o que não é olhado não desaparece, apenas encontra outros caminhos para aparecer: no sono, no corpo, na impaciência, na ansiedade, na distância de quem amamos.

O curioso é que ninguém acha exagero em fazer alongamento antes da corrida. Ninguém questiona quem cuida da alimentação estando saudável. No corpo, prevenção é sabedoria. Na mente, ainda carrega um resquício de tabu, como se procurar um espaço de cuidado emocional precisasse de uma justificativa, de um motivo grave, de uma crise que o autorize.

Mas não precisa. Cuidar da mente pode ser tão cotidiano quanto cuidar do corpo. Pode ser a terapia, sim. Mas pode ser também a pausa consciente no meio do dia, o diário antes de dormir, a caminhada sem celular, a oração, a respiração, a meditação, a conversa honesta com alguém de confiança, o hábito de agradecer. Cada um encontra suas formas, e pode ser um conjunto delas. O que importa é que elas existam antes que façam falta.

Vejo essa mudança acontecendo, aos poucos, nas novas gerações. Meus filhos falam de saúde emocional com uma naturalidade que a minha geração levou décadas para conquistar. E isso me enche de esperança. Talvez estejamos, finalmente, entendendo que não existe saúde pela metade: corpo e mente são um só sistema.

Não se trata de estar mal para se cuidar. Trata-se de entender que a saúde mental é parte da saúde. Simples assim. E que existe algo de muito bonito em se conhecer antes da crise, e não por causa dela. Quem se conhece atravessa melhor. Quem se cuida, sustenta melhor os outros cuidados que a vida pede.

No fim, talvez seja isso: a mente merece o mesmo carinho de agenda que damos ao corpo. Merece hora marcada, constância e prioridade.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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