A
força das mulheres na eleição brasileira
Cerca
de 34 milhões de eleitoras declaram voto em Lula no primeiro turno, segundo o
Datafolha divulgado em 17 de setembro de 2026. A conta cruza os 41% que o
presidente tem entre as mulheres com as 83,9 milhões de eleitoras registradas
no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Flávio
Bolsonaro tem 32% entre elas, o equivalente a 26,8 milhões, e a margem de erro
do recorte é de três pontos. Entre os homens, ainda no primeiro turno, o
senador aparece numericamente à frente, com 39% a 37%, empate técnico.
A
pesquisa ouviu 2.002 eleitores entre 15 e 17 de setembro de 2026 e está
registrada no TSE sob o número BR-04029/2026. No total, Lula marca 39% contra
36% de Flávio no primeiro turno e 46% a 44% na simulação de segundo turno,
empate técnico na margem de dois pontos.
O
cruzamento do segundo turno por gênero da rodada de 15 a 17 de setembro de 2026
ainda não foi divulgado. Na pesquisa anterior, de 8 a 10 de setembro de 2026,
Lula tinha os mesmos 41% entre as mulheres no primeiro turno e subia a 49%
entre elas na simulação contra Flávio Bolsonaro, que ficava com 40%.
Como o
voto feminino em Lula no primeiro turno não se moveu e o placar total do
segundo turno repetiu os 46% a 44%, infere-se que o presidente segue perto de
49% entre as mulheres na disputa direta. Isso equivale a cerca de 41 milhões de
eleitoras, numa faixa de 38,6 milhões a 43,6 milhões pela margem de três
pontos, em estimativa do Cafezinho que o instituto ainda não confirmou.
Lula
chega a duas semanas da eleição com 34% de ótimo ou bom, patamar vizinho dos
32% que Jair Bolsonaro exibia no mesmo instituto em 22 de setembro de 2022. O
governo atual entrega inflação de alimentos bem menor, crescimento econômico
superior e desemprego em queda, e ainda assim colhe avaliação parecida com a do
antecessor.
Negar
pesquisa é um luxo que o campo democrático não tem. A extrema direita continua
uma força formidável e estrutural no Brasil.
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Recortes pedem cautela
A
margem de erro sobe nos subgrupos e chega a seis pontos entre os eleitores de
renda mais alta e na região Sul, o que desaconselha levar pequenas flutuações
de renda ou idade ao pé da letra. O gênero, medido sobre metade da amostra e
com margem de três pontos, é o indicador mais confiável.
Entre
os eleitores de 60 anos ou mais, Lula lidera o primeiro turno por 43% a 33%, no
limite da margem de cinco pontos dessa faixa. O dado reflete a memória da
estabilidade e o peso das políticas previdenciárias.
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De onde vem o avanço de Flávio
No
primeiro turno, Flávio Bolsonaro subiu de 33% no Datafolha de agosto de 2026
para 36% agora, e o movimento não decorre de onda orgânica de renovação. No
mesmo intervalo, Ronaldo Caiado recuou de 5% para 4%, Renan Santos de 4% para
3% e Romeu Zema de 3% para 2%, sinal de que o eleitor desses nomes da direita
pratica o voto útil conservador.
Lula
repete os 46% no segundo turno pela terceira rodada seguida em setembro de
2026, e a aprovação ao seu trabalho marca 48%, contra 50% de desaprovação. Num
universo de 158,7 milhões de eleitores, isso equivale a cerca de 76 milhões de
pessoas, alicerce monumental e perfeitamente compatível com a reeleição.
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O voto religioso
Flávio
Bolsonaro concentra seu capital no segmento evangélico, onde vence o primeiro
turno por 48% a 26%. Lula lidera entre os católicos, mais da metade dos
brasileiros no Censo de 2022, por 43% a 32% na mesma etapa.
Essa
distribuição confere à base lulista uma heterogeneidade valiosa. Lula dialoga
com católicos, protestantes históricos, religiões de matriz africana, ateus e
agnósticos, sem depender de um nicho dogmático.
Uma
base assim espalhada sustenta uma estabilidade democrática que o adversário,
apoiado em um único segmento, não oferece.
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Passe livre no dia da votação
A
logística do dia da votação pesa no resultado, e a abstenção é fantasma
constante. Em 2022, 79% do eleitorado compareceu às urnas no primeiro turno,
segundo o TSE.
O
Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu por unanimidade, em 18 de outubro de
2023, que o poder público deve oferecer transporte coletivo gratuito nos dias
de eleição, com frequência de dia útil. A regra vale desde as eleições
municipais de 2024 e cabe à Justiça Eleitoral regulamentá-la, o que faz do
passe livre uma obrigação de estados e municípios.
Facilitar
o acesso às urnas é premissa democrática básica. Quem resiste à gratuidade
esquece que o próprio bolsonarismo atrai milhões de eleitores de baixa renda,
igualmente dependentes do ônibus para votar.
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Sem espaço para pânico
O
cenário exige mobilização e dispensa derrotismo ou narrativa apocalíptica. Lula
lidera numericamente o primeiro turno, tem a força do cargo a seu favor e
aparece à frente de Flávio no segundo turno em todas as rodadas do Datafolha
desde a segunda quinzena de maio de 2026.
No dia
25 de outubro de 2026 virá a repolarização, com tendência de reaglutinação da
frente ampla democrática de 2022. Os últimos dias de campanha costumam trazer
forte engajamento da sociedade civil, e o momento pede confiança analítica e
militância ativa.
• VIOLÊNCIA POLÍTICA CONTRA AS MULHERES:
Basta eleger mais mulheres? Por Deborah Ramos da Silva
Durante
muito tempo, a ausência de mulheres dos espaços de poder foi explicada como se
fosse um problema das próprias mulheres. Faltaria interesse, preparo, vocação
ou disposição para a política. A história brasileira mostra, porém, que o
problema nunca esteve simplesmente nelas. Estava – e ainda está – nas
estruturas que definem quem pode chegar ao poder, permanecer nele e ser
reconhecido como autoridade.
A
Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP) oferece um exemplo importante dessa
mudança. Na 20ª Legislatura, iniciada em 2023, a Casa chegou a 25 deputadas
entre 94 parlamentares, o maior número de mulheres de sua história recente e um
crescimento em relação às 19 parlamentares da legislatura anterior. É uma
conquista que merece ser celebrada.
Mas
celebrar esse avanço não deveria nos impedir de fazer uma pergunta mais
incômoda: o que acontece depois que as mulheres chegam ao poder?
Essa
pergunta muda completamente a maneira de olhar para a representação feminina.
Não basta saber quantas mulheres foram eleitas. É preciso observar em que
condições elas exercem seus mandatos, quais obstáculos enfrentam e quanto
custa, para elas, permanecer na política.
Uma
mulher pode conquistar uma cadeira no Legislativo e continuar sendo
interrompida, deslegitimada, constrangida ou tratada como menos preparada do
que seus colegas homens, conforme o estudo realizado1, em 2024, por Debora
Thomé e Maurício Izumi. Pode ter sua competência questionada, sua aparência
transformada em assunto público, sua vida pessoal utilizada para
desqualificá-la ou sua autoridade colocada permanentemente à prova.
É nesse
ponto que a discussão sobre violência política contra as mulheres deixa de ser
uma questão periférica e passa a tocar o próprio funcionamento da democracia.
A
violência política não se resume à ameaça explícita ou à agressão física. Ela
também pode aparecer em práticas aparentemente banais: interrupções
recorrentes, ataques à reputação, exposição da vida privada, comentários sobre
aparência, questionamentos sobre capacidade intelectual ou profissional e
tentativas de afastamento da atividade política. Pode, ainda, assumir uma
dimensão institucional quando regras, procedimentos ou relações de poder tornam
mais difícil que uma parlamentar exerça plenamente seu mandato.
O
problema é que muitas dessas situações não aparecem nas estatísticas.
Uma
ameaça pode ser registrada. Uma agressão pode gerar uma denúncia. Já a sucessão
de pequenas deslegitimações cotidianas costuma ser mais difícil de identificar.
Ser constantemente interrompida, ter uma decisão questionada, perceber que
determinado comportamento é tolerado em homens, mas considerado inadequado em
mulheres: isoladamente, cada episódio pode parecer pequeno. Quando essas
experiências se repetem, entretanto, elas podem revelar um padrão.
É por
isso que ouvir as próprias parlamentares é tão importante.
Minha
pesquisa, que ainda está em andamento, sobre as deputadas da ALESP procura
justamente compreender como essas mulheres percebem a violência política e
quais situações identificam como obstáculos ao exercício de seus mandatos. A
investigação reúne entrevistas semiestruturadas, questionários e análise
documental para olhar para além da contagem de episódios e compreender como a
violência é vivenciada e interpretada dentro da instituição.
Essa
perspectiva também exige abandonar a ideia de que “as mulheres” constituem um
grupo homogêneo.
Não
existe uma experiência feminina única na política. Uma deputada branca de
classe média não necessariamente enfrenta as mesmas barreiras que uma deputada
negra, periférica, indígena ou LGBT+. Raça/etnia, classe, sexualidade,
território e posicionamento político podem se combinar e produzir experiências
distintas de desigualdade e violência.
É
justamente aí que a perspectiva interseccional se torna fundamental. A pergunta
não deve ser apenas “o que aconteceu?”, mas também com quem aconteceu, em que
contexto e por quê?
Há,
ainda, outra questão que costuma provocar desconforto: aumentar o número de
mulheres eleitas não significa, automaticamente, aumentar a representação de
pautas feministas.
Mulheres
podem ter posições políticas profundamente diferentes. Podem estar em partidos
de esquerda, centro ou direita e defender projetos distintos para a sociedade.
Algumas podem se identificar com o feminismo; outras podem adotar posições
conservadoras sobre gênero, família e direitos das mulheres.
Isso
não invalida a importância da representação feminina. Ao contrário. Uma
democracia representativa precisa comportar a diversidade de posições
existentes entre as próprias mulheres.
Representar,
afinal, não é simplesmente ocupar fisicamente o lugar de alguém. A
representação envolve ação política, disputa de interesses e construção de
agendas e posições. Ter mais mulheres no Parlamento amplia as possibilidades de
representação, mas não determina previamente como cada uma delas irá votar,
quais pautas defenderá ou como interpretará as desigualdades de gênero.
Essa
diversidade também é importante para compreender a violência política.
Não
podemos transformar toda crítica dirigida a uma parlamentar em violência. A
crítica às ideias, aos votos e às decisões de uma pessoa eleita faz parte da
democracia. Uma parlamentar, assim como qualquer agente público, deve ser
submetida ao debate e à contestação; esse é o cerne do pluralismo democrático.
O
limite aparece quando a crítica deixa de atingir sua atuação política e passa a
utilizar o fato de ela ser mulher como instrumento de humilhação, intimidação
ou silenciamento.
É uma
diferença fundamental.
O
problema não é discordar de uma mulher que ocupa o poder. O problema é
considerar que, por ser mulher, ela deve ocupar o poder de uma maneira
diferente.
Historicamente,
a política foi construída como um espaço masculino. A presença dos homens foi
naturalizada; a das mulheres, tratada como exceção. Quando uma mulher entra no
Parlamento, portanto, ela não entra em uma instituição neutra. Ela entra em um
espaço moldado por relações de poder nas quais os homens ocuparam, durante
muito tempo, os principais lugares de autoridade.
Por
isso, muitas vezes a violência começa antes de uma ameaça.
Pode
começar na surpresa diante de uma mulher que exerce autoridade. Na expectativa
de que ela seja permanentemente cordial. Na cobrança para que desempenhe um
papel de cuidadora. Na desconfiança em relação à sua competência. Na tentativa
de reduzir uma parlamentar à sua aparência, à sua vida afetiva ou à sua
família.
São
mecanismos que comunicam, ainda que silenciosamente: você está aqui, mas
precisa provar o tempo todo que merece estar.
É esse
o paradoxo da representação feminina.
A
eleição de 25 deputadas na Assembleia representa uma transformação importante
na composição da instituição. Mas mudar a composição de um Parlamento não
significa necessariamente mudar sua cultura política.
E
talvez esse seja o próximo desafio.
Precisamos
discutir quais mecanismos existem para receber denúncias, como as instituições
respondem aos casos, se há protocolos claros, se as parlamentares sabem a quem
recorrer e de que maneira partidos e órgãos legislativos protegem quem sofre
violência política.
Essas
não são questões secundárias. São perguntas sobre a qualidade da democracia.
Mais
mulheres na política é necessário. Mas não é suficiente.
Precisamos
saber quais mulheres estão chegando, quais grupos estão sendo representados,
quais recursos possuem, quais obstáculos enfrentam e se conseguem exercer seus
mandatos sem pagar um preço adicional por sua presença.
A
diversidade política entre mulheres não é uma ameaça à democracia. É parte
dela. O que precisa ser enfrentado é outra coisa: a ideia de que determinadas
mulheres têm menos legitimidade para ocupar o poder ou que, por serem mulheres,
devem aceitar formas específicas de controle, humilhação e silenciamento.
A
verdadeira mudança democrática não acontece apenas quando as mulheres conseguem
entrar pela porta do Parlamento.
Ela
acontece quando podem permanecer.
Quando
podem falar.
Quando
podem discordar.
Quando
podem disputar poder.
E,
principalmente, quando exercer um mandato deixa de significar aceitar a
violência como preço pela presença feminina na política.
Fonte:
O Cafezinho/Le Monde

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