quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A força das mulheres na eleição brasileira

Cerca de 34 milhões de eleitoras declaram voto em Lula no primeiro turno, segundo o Datafolha divulgado em 17 de setembro de 2026. A conta cruza os 41% que o presidente tem entre as mulheres com as 83,9 milhões de eleitoras registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Flávio Bolsonaro tem 32% entre elas, o equivalente a 26,8 milhões, e a margem de erro do recorte é de três pontos. Entre os homens, ainda no primeiro turno, o senador aparece numericamente à frente, com 39% a 37%, empate técnico.

A pesquisa ouviu 2.002 eleitores entre 15 e 17 de setembro de 2026 e está registrada no TSE sob o número BR-04029/2026. No total, Lula marca 39% contra 36% de Flávio no primeiro turno e 46% a 44% na simulação de segundo turno, empate técnico na margem de dois pontos.

O cruzamento do segundo turno por gênero da rodada de 15 a 17 de setembro de 2026 ainda não foi divulgado. Na pesquisa anterior, de 8 a 10 de setembro de 2026, Lula tinha os mesmos 41% entre as mulheres no primeiro turno e subia a 49% entre elas na simulação contra Flávio Bolsonaro, que ficava com 40%.

Como o voto feminino em Lula no primeiro turno não se moveu e o placar total do segundo turno repetiu os 46% a 44%, infere-se que o presidente segue perto de 49% entre as mulheres na disputa direta. Isso equivale a cerca de 41 milhões de eleitoras, numa faixa de 38,6 milhões a 43,6 milhões pela margem de três pontos, em estimativa do Cafezinho que o instituto ainda não confirmou.

Lula chega a duas semanas da eleição com 34% de ótimo ou bom, patamar vizinho dos 32% que Jair Bolsonaro exibia no mesmo instituto em 22 de setembro de 2022. O governo atual entrega inflação de alimentos bem menor, crescimento econômico superior e desemprego em queda, e ainda assim colhe avaliação parecida com a do antecessor.

Negar pesquisa é um luxo que o campo democrático não tem. A extrema direita continua uma força formidável e estrutural no Brasil.

<><> Recortes pedem cautela

A margem de erro sobe nos subgrupos e chega a seis pontos entre os eleitores de renda mais alta e na região Sul, o que desaconselha levar pequenas flutuações de renda ou idade ao pé da letra. O gênero, medido sobre metade da amostra e com margem de três pontos, é o indicador mais confiável.

Entre os eleitores de 60 anos ou mais, Lula lidera o primeiro turno por 43% a 33%, no limite da margem de cinco pontos dessa faixa. O dado reflete a memória da estabilidade e o peso das políticas previdenciárias.

<>< De onde vem o avanço de Flávio

No primeiro turno, Flávio Bolsonaro subiu de 33% no Datafolha de agosto de 2026 para 36% agora, e o movimento não decorre de onda orgânica de renovação. No mesmo intervalo, Ronaldo Caiado recuou de 5% para 4%, Renan Santos de 4% para 3% e Romeu Zema de 3% para 2%, sinal de que o eleitor desses nomes da direita pratica o voto útil conservador.

Lula repete os 46% no segundo turno pela terceira rodada seguida em setembro de 2026, e a aprovação ao seu trabalho marca 48%, contra 50% de desaprovação. Num universo de 158,7 milhões de eleitores, isso equivale a cerca de 76 milhões de pessoas, alicerce monumental e perfeitamente compatível com a reeleição.

<><> O voto religioso

Flávio Bolsonaro concentra seu capital no segmento evangélico, onde vence o primeiro turno por 48% a 26%. Lula lidera entre os católicos, mais da metade dos brasileiros no Censo de 2022, por 43% a 32% na mesma etapa.

Essa distribuição confere à base lulista uma heterogeneidade valiosa. Lula dialoga com católicos, protestantes históricos, religiões de matriz africana, ateus e agnósticos, sem depender de um nicho dogmático.

Uma base assim espalhada sustenta uma estabilidade democrática que o adversário, apoiado em um único segmento, não oferece.

<><> Passe livre no dia da votação

A logística do dia da votação pesa no resultado, e a abstenção é fantasma constante. Em 2022, 79% do eleitorado compareceu às urnas no primeiro turno, segundo o TSE.

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu por unanimidade, em 18 de outubro de 2023, que o poder público deve oferecer transporte coletivo gratuito nos dias de eleição, com frequência de dia útil. A regra vale desde as eleições municipais de 2024 e cabe à Justiça Eleitoral regulamentá-la, o que faz do passe livre uma obrigação de estados e municípios.

Facilitar o acesso às urnas é premissa democrática básica. Quem resiste à gratuidade esquece que o próprio bolsonarismo atrai milhões de eleitores de baixa renda, igualmente dependentes do ônibus para votar.

<><> Sem espaço para pânico

O cenário exige mobilização e dispensa derrotismo ou narrativa apocalíptica. Lula lidera numericamente o primeiro turno, tem a força do cargo a seu favor e aparece à frente de Flávio no segundo turno em todas as rodadas do Datafolha desde a segunda quinzena de maio de 2026.

No dia 25 de outubro de 2026 virá a repolarização, com tendência de reaglutinação da frente ampla democrática de 2022. Os últimos dias de campanha costumam trazer forte engajamento da sociedade civil, e o momento pede confiança analítica e militância ativa.

•        VIOLÊNCIA POLÍTICA CONTRA AS MULHERES: Basta eleger mais mulheres? Por Deborah Ramos da Silva

Durante muito tempo, a ausência de mulheres dos espaços de poder foi explicada como se fosse um problema das próprias mulheres. Faltaria interesse, preparo, vocação ou disposição para a política. A história brasileira mostra, porém, que o problema nunca esteve simplesmente nelas. Estava – e ainda está – nas estruturas que definem quem pode chegar ao poder, permanecer nele e ser reconhecido como autoridade.

A Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP) oferece um exemplo importante dessa mudança. Na 20ª Legislatura, iniciada em 2023, a Casa chegou a 25 deputadas entre 94 parlamentares, o maior número de mulheres de sua história recente e um crescimento em relação às 19 parlamentares da legislatura anterior. É uma conquista que merece ser celebrada.

Mas celebrar esse avanço não deveria nos impedir de fazer uma pergunta mais incômoda: o que acontece depois que as mulheres chegam ao poder?

Essa pergunta muda completamente a maneira de olhar para a representação feminina. Não basta saber quantas mulheres foram eleitas. É preciso observar em que condições elas exercem seus mandatos, quais obstáculos enfrentam e quanto custa, para elas, permanecer na política.

Uma mulher pode conquistar uma cadeira no Legislativo e continuar sendo interrompida, deslegitimada, constrangida ou tratada como menos preparada do que seus colegas homens, conforme o estudo realizado1, em 2024, por Debora Thomé e Maurício Izumi. Pode ter sua competência questionada, sua aparência transformada em assunto público, sua vida pessoal utilizada para desqualificá-la ou sua autoridade colocada permanentemente à prova.

É nesse ponto que a discussão sobre violência política contra as mulheres deixa de ser uma questão periférica e passa a tocar o próprio funcionamento da democracia.

A violência política não se resume à ameaça explícita ou à agressão física. Ela também pode aparecer em práticas aparentemente banais: interrupções recorrentes, ataques à reputação, exposição da vida privada, comentários sobre aparência, questionamentos sobre capacidade intelectual ou profissional e tentativas de afastamento da atividade política. Pode, ainda, assumir uma dimensão institucional quando regras, procedimentos ou relações de poder tornam mais difícil que uma parlamentar exerça plenamente seu mandato.

O problema é que muitas dessas situações não aparecem nas estatísticas.

Uma ameaça pode ser registrada. Uma agressão pode gerar uma denúncia. Já a sucessão de pequenas deslegitimações cotidianas costuma ser mais difícil de identificar. Ser constantemente interrompida, ter uma decisão questionada, perceber que determinado comportamento é tolerado em homens, mas considerado inadequado em mulheres: isoladamente, cada episódio pode parecer pequeno. Quando essas experiências se repetem, entretanto, elas podem revelar um padrão.

É por isso que ouvir as próprias parlamentares é tão importante.

Minha pesquisa, que ainda está em andamento, sobre as deputadas da ALESP procura justamente compreender como essas mulheres percebem a violência política e quais situações identificam como obstáculos ao exercício de seus mandatos. A investigação reúne entrevistas semiestruturadas, questionários e análise documental para olhar para além da contagem de episódios e compreender como a violência é vivenciada e interpretada dentro da instituição.

Essa perspectiva também exige abandonar a ideia de que “as mulheres” constituem um grupo homogêneo.

Não existe uma experiência feminina única na política. Uma deputada branca de classe média não necessariamente enfrenta as mesmas barreiras que uma deputada negra, periférica, indígena ou LGBT+. Raça/etnia, classe, sexualidade, território e posicionamento político podem se combinar e produzir experiências distintas de desigualdade e violência.

É justamente aí que a perspectiva interseccional se torna fundamental. A pergunta não deve ser apenas “o que aconteceu?”, mas também com quem aconteceu, em que contexto e por quê?

Há, ainda, outra questão que costuma provocar desconforto: aumentar o número de mulheres eleitas não significa, automaticamente, aumentar a representação de pautas feministas.

Mulheres podem ter posições políticas profundamente diferentes. Podem estar em partidos de esquerda, centro ou direita e defender projetos distintos para a sociedade. Algumas podem se identificar com o feminismo; outras podem adotar posições conservadoras sobre gênero, família e direitos das mulheres.

Isso não invalida a importância da representação feminina. Ao contrário. Uma democracia representativa precisa comportar a diversidade de posições existentes entre as próprias mulheres.

Representar, afinal, não é simplesmente ocupar fisicamente o lugar de alguém. A representação envolve ação política, disputa de interesses e construção de agendas e posições. Ter mais mulheres no Parlamento amplia as possibilidades de representação, mas não determina previamente como cada uma delas irá votar, quais pautas defenderá ou como interpretará as desigualdades de gênero.

Essa diversidade também é importante para compreender a violência política.

Não podemos transformar toda crítica dirigida a uma parlamentar em violência. A crítica às ideias, aos votos e às decisões de uma pessoa eleita faz parte da democracia. Uma parlamentar, assim como qualquer agente público, deve ser submetida ao debate e à contestação; esse é o cerne do pluralismo democrático.

O limite aparece quando a crítica deixa de atingir sua atuação política e passa a utilizar o fato de ela ser mulher como instrumento de humilhação, intimidação ou silenciamento.

É uma diferença fundamental.

O problema não é discordar de uma mulher que ocupa o poder. O problema é considerar que, por ser mulher, ela deve ocupar o poder de uma maneira diferente.

Historicamente, a política foi construída como um espaço masculino. A presença dos homens foi naturalizada; a das mulheres, tratada como exceção. Quando uma mulher entra no Parlamento, portanto, ela não entra em uma instituição neutra. Ela entra em um espaço moldado por relações de poder nas quais os homens ocuparam, durante muito tempo, os principais lugares de autoridade.

Por isso, muitas vezes a violência começa antes de uma ameaça.

Pode começar na surpresa diante de uma mulher que exerce autoridade. Na expectativa de que ela seja permanentemente cordial. Na cobrança para que desempenhe um papel de cuidadora. Na desconfiança em relação à sua competência. Na tentativa de reduzir uma parlamentar à sua aparência, à sua vida afetiva ou à sua família.

São mecanismos que comunicam, ainda que silenciosamente: você está aqui, mas precisa provar o tempo todo que merece estar.

É esse o paradoxo da representação feminina.

A eleição de 25 deputadas na Assembleia representa uma transformação importante na composição da instituição. Mas mudar a composição de um Parlamento não significa necessariamente mudar sua cultura política.

E talvez esse seja o próximo desafio.

Precisamos discutir quais mecanismos existem para receber denúncias, como as instituições respondem aos casos, se há protocolos claros, se as parlamentares sabem a quem recorrer e de que maneira partidos e órgãos legislativos protegem quem sofre violência política.

Essas não são questões secundárias. São perguntas sobre a qualidade da democracia.

Mais mulheres na política é necessário. Mas não é suficiente.

Precisamos saber quais mulheres estão chegando, quais grupos estão sendo representados, quais recursos possuem, quais obstáculos enfrentam e se conseguem exercer seus mandatos sem pagar um preço adicional por sua presença.

A diversidade política entre mulheres não é uma ameaça à democracia. É parte dela. O que precisa ser enfrentado é outra coisa: a ideia de que determinadas mulheres têm menos legitimidade para ocupar o poder ou que, por serem mulheres, devem aceitar formas específicas de controle, humilhação e silenciamento.

A verdadeira mudança democrática não acontece apenas quando as mulheres conseguem entrar pela porta do Parlamento.

Ela acontece quando podem permanecer.

Quando podem falar.

Quando podem discordar.

Quando podem disputar poder.

E, principalmente, quando exercer um mandato deixa de significar aceitar a violência como preço pela presença feminina na política.

 

Fonte: O Cafezinho/Le Monde

 

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