Canetas
emagrecedoras mudam hábitos e movimentam novos mercados
Durante
muito tempo, a balança foi o principal instrumento para medir o resultado de
uma dieta. O número que aparecia depois de subir no aparelho parecia resumir o
esforço, a mudança corporal e até a sensação de sucesso ou fracasso. Com a
popularização dos medicamentos
injetáveis para emagrecimento, porém, a transformação passou a aparecer em
outros lugares, como no guarda-roupa, na mesa do restaurante, nas fotografias,
na disposição para praticar exercícios e na maneira como algumas pessoas ocupam
espaços.
A
gerente de projetos de tecnologia da informação e comunicação Ana Daniela
Andrade, 52 anos, percebeu isso aos poucos. O processo começou em março de
2025, primeiro com atividade física e acompanhamento médico e nutricional.
Cerca de sete meses depois, a medicação entrou como complemento. Ela iniciou o
tratamento com Wegovy e, posteriormente, passou para o Mounjaro. Ao todo,
considerando o período desde setembro de 2025, foram cerca de 25 quilos
eliminados em aproximadamente 12 meses. "Meu processo foi gradual, e foi
muito mais do que simplesmente perder peso", conta Ana Daniela. Quando
começou a medicação, estava com aproximadamente 91 quilos. Desde então, chegou
aos 73. Mais do que a diferença na balança, ela percebeu mudanças nas medidas e
na composição corporal. "Não tive perda de massa magra; pelo contrário,
ela aumentou bastante. E isso é algo que valorizo muito, porque ganhar massa
magra é um processo difícil e que exige constância." A primeira mudança
visível apareceu no armário. "Foi principalmente com as roupas. Chega um
momento em que você percebe que aquela roupa que antes ficava apertada começa a
ficar larga. Depois, você experimenta uma peça que antes nem consideraria, e
ela serve", destaca.
A
advogada Fernanda Marques, 38, também associa a transformação a situações que
ultrapassam o peso. Ela perdeu 13 quilos em aproximadamente três meses e
atualmente está na fase de manutenção. O início do tratamento foi acompanhado
de efeitos colaterais, principalmente enjoo e fraqueza. Em determinado momento,
precisou tomar vitamina na veia. Para Fernanda, a mudança física também
interferiu na forma como se percebia. "Além da mudança física, senti uma
melhora significativa na minha autoestima, e isso também acabou refletindo
positivamente na minha ansiedade e na forma como eu me sentia comigo
mesma." O internacionalista Pedro Balaban perdeu 14 quilos em quase um
ano. Antes do tratamento, estava na faixa de obesidade e insatisfeito com o
próprio corpo. Entre as mudanças que percebeu, estão o conforto para vestir
roupas que já possuía e a melhora no condicionamento físico para praticar
esportes.
Os três
relatos ajudam a mostrar que o efeito de uma mudança corporal não termina no
momento em que o ponteiro da balança desce. Mas, antes de chegar às
consequências cotidianas, é preciso entender o que acontece dentro do
organismo.
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Além da balança
Para
compreender o real impacto dos medicamentos injetáveis no organismo, a médica
endocrinologista Vanina Farias explica que o ponto de partida deve ser a
desmistificação da doença. Segundo ela, o excesso de peso não pode ser reduzido
a uma simples conta matemática. "O importante para entender como os
medicamentos ajudam é entender a fisiopatologia da doença. Não se trata somente
de uma equação entre comer menos e exercitar menos. É uma doença biológica que
tem múltiplos mecanismos."
As
novas moléculas atuam simulando a ação de hormônios produzidos no próprio
intestino humano, mas com uma durabilidade muito superior no organismo. É essa
característica que permite a aplicação semanal do fármaco e garante um efeito
prolongado sobre a sensação de saciedade. De acordo com a endocrinologista, em
pacientes diagnosticados com obesidade, as sinalizações químicas entre o corpo
e o cérebro que indicam a hora de parar de comer estão desreguladas. A
medicação age justamente reparando esse mecanismo. "Dentro disso, existe
em nível central, digamos, no cérebro, um circuito, que é como se fosse um
freio. Nos obesos, os sinais de fome e saciedade estão alterados. E esses
medicamentos são semelhantes a esses hormônios que produzem no corpo e que lhe
devolvem esse freio de saciedade a nível mental. Por isso, de fato, tudo parece
mudar", ressalta a especialista. Além da atuação direta no sistema nervoso
central, o remédio reduz a velocidade do esvaziamento gástrico, prolongando a
sensação de preenchimento do estômago após as refeições. É justamente essa
alteração na percepção da fome que ajuda a explicar uma das mudanças mais
relatadas por quem faz o tratamento: a quantidade de comida consumida.
Para
Ana Daniela, a diferença é perceptível principalmente à mesa. "Hoje, não
consigo comer como comia antes e também não sinto necessidade daquela
quantidade", relata. Ela afirma ter passado a prestar mais atenção à
alimentação, especialmente à proteína e à qualidade do que consome.
"Comecei a enxergar a alimentação como parte da manutenção do meu corpo e
da minha massa muscular, e não apenas como uma questão de emagrecer." A
endocrinologista do Sabin Diagnóstico e Saúde Ana Clara d'Acampora explica que semaglutida e
tirzepatida atuam de maneira semelhante, mas não idêntica. A semaglutida se liga aos
receptores do GLP-1, hormônio produzido pelo próprio organismo e relacionado à
produção de insulina e à sinalização de fome e saciedade. A tirzepatida também
atua sobre o GLP-1, mas acrescenta a ação sobre o GIP. "Ela tem um
comportamento dual. Então, imita dois hormônios: o GLP-1 e o GIP. Os estudos
mostram que é como se tivesse uma ação sinérgica, que potencializa essa
ação", detalha Ana Clara. Os efeitos adversos, segundo a endocrinologista,
são semelhantes entre os dois medicamentos: náusea, piora do refluxo e
alteração gastrointestinal, em geral, são os principais.
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Os dilemas desse mundo
O
avanço da procura fez acender um sinal de alerta entre os médicos: o aumento
das compras por canais não oficiais. A endocrinologista Vanina Farias destaca
que o uso de substâncias adquiridas fora da rede farmacêutica credenciada expõe
o paciente a riscos, uma vez que não há garantia sobre a procedência ou a
composição do produto. "Quando eu compro um medicamento que não está
regulado pela agência regulatória, não sei o que estão vendendo, não sei o que
estão aplicando. Se eu me aplico algo que compro por fora do mercado oficial,
isso é extremamente sério e prejudicial", acrescenta Vanina. Outro ponto
levantado pela médica é a utilização da medicação por pessoas que buscam apenas
a perda de poucos quilos por razões estéticas, sem possuir diagnóstico de
sobrepeso com comorbidades ou obesidade. Nesses casos, a interrupção precoce do
uso pode ser acompanhada do chamado "efeito sanfona", especialmente
quando não houve mudança de hábitos e preservação da massa muscular. "A
longo prazo, talvez ele vai trazer mais problemas do que benefícios, porque
estou utilizando um medicamento para baixar de peso apenas pensando no peso da
balança, sem ter em conta toda a composição desse peso. Quando eu uso mal o
medicamento, sem troca de hábitos, sem boa alimentação proteica, sem atividade
física que me preserve o músculo, não só baixei gordura, também perdi músculo
no caminho. Caso a rotina não inclua ingestão adequada de proteínas e treinos
de força para preservação dos músculos, o organismo pode reduzir o gasto
energético basal. Ao suspender o remédio, a tendência biológica é recuperar
parte do peso perdido em forma de gordura. Por essa razão, a endocrinologista
defende que o objetivo do tratamento deve ir além do número registrado na
balança. "Precisamos deixar somente de olhar o peso e nos centrar em
melhorar a composição corporal desse paciente", aponta.
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Tratamento ininterrupto
Assim
como qualquer intervenção farmacológica, os análogos hormonais exigem atenção
aos efeitos colaterais. Os sintomas mais comuns envolvem o sistema digestivo,
ocorrendo com mais frequência nas fases iniciais do tratamento ou a cada
aumento de dosagem. "Não existe remédio mágico que seja efetivo para
tratar a doença e que não tenha nenhum efeito adverso", reforça Vanina
Farias. Ao contrário de tratamentos com início, meio e fim predeterminados, o
acompanhamento da obesidade deve ser compreendido dentro da lógica das doenças
crônicas, a exemplo da hipertensão arterial. A endocrinologista esclarece que
iniciar o uso da substância já projetando a sua interrupção pode comprometer os
resultados a longo prazo. A manutenção do quadro de saúde pode envolver a
redução gradual das doses ou o suporte contínuo focado no estilo de vida, mas
sempre sob supervisão regular. "Não tenho que começar uma medicação
pensando em quando vou suspender, porque é uma doença crônica. Tem que estar
acompanhado sempre de algum tratamento", conclui a médica.
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O novo corpo chega primeiro ao armário
Se,
dentro do organismo, a mudança acontece por meio de sinais relacionados à fome
e à saciedade, no cotidiano, ela aparece em gestos mais concretos. Uma das
primeiras áreas afetadas costuma ser o guarda-roupa. Ana Daniela conta que
perdeu praticamente todas as roupas que tinha. "As peças começaram a ficar
mais folgadas e, de repente, perdi praticamente todo o meu guarda-roupa."
Como a
perda foi significativa e ainda estava em andamento, ela optou por não investir
em grandes ajustes. "Passei tudo para um brechó e comprei algumas peças
novas, mas não muitas, porque ainda estava no processo de emagrecimento."
A situação se repetiu pouco depois. "As roupas novas também já ficaram
folgadas, e essas, sim, precisarão de ajustes." Para ela, porém, a
principal mudança aconteceu antes mesmo da compra. "Hoje entro em uma loja
com mais curiosidade e menos receio de experimentar. Parece banal, mas, para
quem passou muito tempo evitando determinadas roupas, isso representa uma
mudança enorme."
Fernanda
Marques passou por experiência semelhante. "Foi muito significativo voltar
a vestir minhas roupas e perceber que elas estavam servindo novamente",
celebra. Antes, evitava algumas peças, especialmente blusas sem manga, porque
não se sentia confortável com o corpo. "Hoje, poder olhar para mim e me
sentir bem é uma das maiores mudanças. Não se trata apenas do tamanho da roupa,
mas sobre a sensação de voltar a gostar do que vejo no espelho." A mudança
também abriu espaço para experimentar modelos que antes eram evitados.
"Hoje, consigo escolher o que quero usar porque realmente gosto, e não
simplesmente porque é o que consegue disfarçar alguma coisa", adiciona.
Pedro
Balaban, por sua vez, não abandonou o estilo que desenvolveu durante o período
em que ganhou peso. "Mantive o gosto que adquiri quando engordei, as
roupas oversized, mas também voltei a utilizar outras que havia deixado de
utilizar", conta. "Voltei a usar camisas G, que antes ficavam mais
apertadas. Hoje estão confortáveis." Para o alfaiate Valdir Camargo, as
mudanças no corpo já chegaram ao ateliê. "Aumentou, e aumentou muito a
procura por ajustes. Eu te falo que mais de 60% dos meus clientes devem estar
usando as canetas emagrecedoras ou usaram."
Segundo
ele, o ajuste está atrelado à quantidade de peso perdida. Normalmente, dá para
ajustar quando a mudança foi de, no máximo, 10kg. "Dependendo do quanto a
pessoa perde, é possível ajustar e a roupa ficar boa. Mas também tem
limite." Quando a transformação é maior, a relação com o guarda-roupa muda
completamente. "Quando tem aquelas mudanças drásticas, 30kg, 40kg, é
preciso um armário novo, e normalmente é um momento muito feliz, ele vai
comprar mais feliz pelo novo corpo dele."
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Tamanho psicológico
A
transformação física, entretanto, não acontece necessariamente na mesma
velocidade da percepção que a pessoa tem de si. A consultora de imagem Lilian
Lemos, que atua no segmento plus size desde 2013, acompanha casos em que a
numeração escolhida continua maior mesmo depois de uma perda expressiva de
peso. "Tudo o que você escolhe para vestir afirmar que o seu corpo tem uma
representatividade. Até a falta de opções é uma questão. Quando uma cliente
emagrece muito e rápido, essa 'representatividade' e o hábito de compra, muitas
vezes, não acompanham essa velocidade." Ela cita o caso de um cliente que
passou por cirurgia bariátrica e perdeu cerca de 40 quilos. Antes, vestia
tamanho 54/56. Depois, chegou ao 46. Mesmo assim, continuava comprando roupas
maiores. "Quando fui ao armário, ela já tinha se desfeito das roupas
grandes, e feito novas compras: de roupas ainda grandes no corpo dela! Sim, ela
continuava comprando tamanho 50, porque, aos olhos dela, era o tamanho do
próprio corpo", conta.
Para
Lilian, o episódio mostrou como a percepção corporal pode demorar a acompanhar
a transformação física. "Isso me mostrou o quanto existe uma visão
distorcida delas mesmas. Talvez por medo, ou por crenças, ou até por realmente
acreditar que ainda precisa perder peso." A consultora também chama
atenção para outra mudança no mercado. Segundo ela, marcas plus size vêm
reduzindo numerações ou encerrando operações. "A quantidade de marcas plus
size diminuindo suas numerações ou até fechando as portas está alarmante. Isso
demonstra uma movimentação do comércio voltada totalmente para o corpo
magro", salienta. Para Lilian, a discussão não deveria partir da ideia de
que corpos maiores deixaram de existir por causa da popularização dos
medicamentos. "A mulher plus size não sumiu, ela continua precisando de
comunicação visual, então, para isso, ela tem que emagrecer? E é onde fica a
questão: como tem representatividade e viabilidade das marcas?",
questiona.
A
consultora observa ainda que a compra de roupas depois de um emagrecimento pode
carregar expectativas que vão além da necessidade prática de renovar o armário.
"Esse emagrecimento vem carregado de um monte de sentimentos (bons e
ruins): desejos, sonhos, pertencimento, inclusão, aceitação pessoal, orgulho
próprio, aprovação social… uma infinidade de motivos que só aquela mulher vai
entender." O risco, segundo Lilian, está em transformar o emagrecimento em
uma corrida permanente por números menores. Por isso, ela recomenda que a
compra de roupas acompanhe o processo de transformação. "Para começar, ter
noção do quanto vai emagrecer em cada intervalo de tempo, para não comprar
muito o que não vai servir lá na frente", enfatiza.
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Comer também muda
A
relação com a comida é outro ponto em que as mudanças aparecem. Fernanda conta
que era uma pessoa que "beliscava o tempo inteiro" e percebeu redução
desse comportamento durante o tratamento. "Passei a ter mais controle e a
identificar melhor quando realmente estava com fome ou quando estava comendo
por ansiedade", observa. Pedro também percebeu mudanças. "Um dos meus
maiores problemas era a velocidade ao comer. Com o remédio, além de controlar a
quantidade e a impulsividade, aprendi a controlar a velocidade em que
como." Ana Daniela continua frequentando restaurantes, festas e encontros.
A diferença está na quantidade consumida. "Hoje, consigo comer uma
quantidade menor", relata.
Para a
psicóloga Camilla Leitão, essa mudança precisa ser acompanhada de cuidado para
que a comida não seja transformada em inimiga. "A alimentação está
relacionada ao prazer, e não somente à saciedade", resume. Segundo ela, a
perda de peso deve ser acompanhada de reeducação alimentar, com variedade e
espaço para alimentos que proporcionem prazer, além do acompanhamento de
nutricionista e endocrinologista. A preocupação é evitar que o controle da
alimentação se transforme em uma nova fonte de restrição. O objetivo, segundo
Camilla, deve ser construir uma relação mais equilibrada com a comida,
inclusive em situações sociais.
A
alteração no corpo também pode modificar a maneira como a pessoa se apresenta
para o mundo. "O corpo faz parte de nossa identidade e integra a forma
como cada um se relaciona com o outro e também com o meio que habitamos."
Ela explica que uma mudança corporal pode produzir uma sensação de liberdade
quando permite que a pessoa retome atividades ou situações que antes eram
difíceis. "A partir do momento que esse corpo está saudável, traz uma
sensação de liberdade que se associa com o prazer de acessar locais ou fazer
coisas que antes podiam ser inviáveis, como praticar esportes, fazer trilhas ou
até subir e descer escadas", enfatiza.
Para
Fernanda, uma das situações mais marcantes foi voltar a usar biquíni.
"Nunca fui uma pessoa que amasse o meu corpo. Desde que me entendo por
gente faço dieta, inclusive, já fiz cirurgia plástica. A ansiedade e o fato de
comer compulsivamente faziam com que eu acabasse vivendo o efeito sanfona,
passei a evitar ainda mais esse tipo de roupa", conta. Pedro, por outro
lado, relata que a mudança na percepção de si apareceu nas fotografias.
"Não me achar bonito em nenhuma foto e apenas aceitar que estou feio era o
que mais me marcava e me incentivou a iniciar o processo." A autoestima,
entretanto, também pode se tornar um território delicado. Camilla alerta para o
risco de associar excessivamente o valor pessoal ao corpo. "O mundo em que
vivemos, por vezes, apresenta corpos impossíveis e vidas extremamente
bem-sucedidas. As redes sociais, movidas por influenciadores, criam tendências
inatingíveis", alerta.
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Nenhuma caneta aplica massa muscular
A
mudança na balança também não significa que o trabalho físico perdeu
importância. A educadora física Carol Borba reforça que os medicamentos podem
fazer parte de um tratamento, mas não substituem o movimento. “Ainda não
inventaram uma caneta que aplica massa muscular, nem cápsula que fortalece osso
ou melhora condicionamento. Isso depende do movimento”, diz Carol. “O esforço
não é castigo, é o preço que a gente paga para ter autonomia, força e massa
muscular.”
A
recomendação é de que o uso da medicação seja acompanhado de uma rotina capaz
de preservar a massa muscular. Carol afirma que é possível combinar tratamento
e exercício. “São muito bem-vindas em diversos casos, mas ferramenta é
diferente de substituto”, afirma. “Perigoso é quando o movimento vira algo
opcional, porque o treino não é opcional.”
Ana
Daniela é um exemplo desse processo combinado. Antes mesmo de começar a
medicação, já havia iniciado os treinos. Hoje, mantém o exercício como parte da
rotina, faz treino funcional em uma academia de CrossFft e caminhadas aos
domingos no Eixão do Lazer. “Hoje, tenho uma preocupação muito grande não só em
emagrecer, mas em preservar massa muscular, continuar treinando e conseguir
manter esse resultado", conta. Para ela, o exercício também passou a
representar uma mudança de perspectiva. “Sempre sonhei em ter uma vida fitness,
e todo esse processo me incentivou ainda mais. Hoje, mais do que comemorar o
resultado, meu foco é manter tudo o que conquistei e alcançar novas
metas", celebra.
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Um mercado que também muda de tamanho
As
transformações individuais começam a produzir reflexos em setores que vão além
da saúde. Na moda, a discussão sobre a redução dos tamanhos disponíveis ganhou
força em meio à popularização dos medicamentos GLP-1. Nos Estados Unidos, uma
análise da Edited, citada pelo The Guardian, comparou a oferta de novos
vestidos femininos da H&M entre janeiro e maio de 2025 e o mesmo período de
2026. No ano passado, os tamanhos 3XL e 4XL representavam 2% do novo estoque; em
2026, desapareceram da amostra, e o XXL também perdeu espaço. A H&M
confirmou ao jornal a descontinuação das duas numerações, atribuindo a decisão
à queda de demanda. A redução, porém, não significa que a necessidade por
roupas maiores tenha desaparecido. Como observa a especialista Lilian Lemos,
"um tamanho menor não deveria estar associado a beleza, sucesso ou saúde,
assim como um tamanho maior não deveria ser visto como algo que precisa ser
escondido ou corrigido".
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Do estoque à balança
No
Brasil, o fenômeno já é sentido na ponta que abastece o pequeno comércio.
Segundo Alaor Gomes, presidente do Sindiatacadista-DF, o impacto começou pelo
bolso. "No atacado de alimentos e bebidas, nós já sentimos no faturamento:
o consumidor come menos e muda o que compra menos", diz. Ele cita uma
projeção de queda de cerca de 0,49% ao ano no volume total vendido nos
supermercados, com as categorias de indulgência — doces, salgadinhos,
refrigerantes, sorvetes, bebida alcoólica — perdendo espaço para frescos,
proteínas, iogurte e fibras. O movimento também chegou às araras. "Isso já
é perceptível. As grandes redes observam uma redução de consumo nos tamanhos
XXL e XL e uma migração para o consumo de roupas esportivas", afirma
Gomes. Para ele, o risco é operacional e financeiro. "Se as confecções não
alinharem a essas projeções, correm o risco de bilhões em prejuízo por estoque
errado. A indústria de confecção e o varejo de moda terão de refazer suas
curvas de tamanho." O problema, segundo o presidente do sindicato, está na
antecedência com que o varejo de moda trabalha. "As compras são feitas com
seis a nove meses de antecedência, usando 'curvas de tamanho' que definem
quantas peças de cada numeração comprar. Um erro ou a não previsão dessas
alterações de tamanho pode afetar a rentabilidade do setor de moda",
ressalta. No setor alimentar, o ajuste é outro. "É preciso recalibrar o
mix — mais proteína e porções menores. Quem não ajustar sortimento e estoque
vai carregar produto que não gira", acrescenta.
Gomes
lista, ainda, outros setores sob pressão: "No alimentar, perdem força as
bebidas açucaradas, o álcool, além de doces, salgadinhos, sorvetes, fast food e
foodservice, e cresce proteínas, iogurte, frutas frescas e congeladas",
destaca. Para Gomes, não há dúvida sobre a natureza do movimento: "É
tendência estrutural, não moda passageira. Hoje, o impacto sobre o volume total
ainda é de um dígito, mas a curva é ascendente e rápida. Quem tratar isso como
ponto fora da curva vai ser pego despreparado; quem se antecipar, ajustando
mix, estoque e sortimento, sai na frente. No comércio, quem não se antecipa
contabiliza prejuízo." Os efeitos indiretos dos medicamentos também
aparecem em setores menos óbvios, como a aviação comercial, já que o peso
transportado interfere em cálculos de equilíbrio, desempenho e consumo de
combustível. Estimativas citadas em reportagens americanas apontam que uma
redução de 10% no peso médio dos passageiros poderia diminuir em até 1,5% os
gastos com combustível das quatro maiores companhias aéreas dos Estados Unidos
— United, Delta, American e Southwest —, o equivalente a até US$ 580 milhões
por ano.
Fonte:
Correio Braziliense

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