terça-feira, 22 de setembro de 2026

Canetas emagrecedoras mudam hábitos e movimentam novos mercados

Durante muito tempo, a balança foi o principal instrumento para medir o resultado de uma dieta. O número que aparecia depois de subir no aparelho parecia resumir o esforço, a mudança corporal e até a sensação de sucesso ou fracasso. Com a popularização dos medicamentos injetáveis para emagrecimento, porém, a transformação passou a aparecer em outros lugares, como no guarda-roupa, na mesa do restaurante, nas fotografias, na disposição para praticar exercícios e na maneira como algumas pessoas ocupam espaços.

A gerente de projetos de tecnologia da informação e comunicação Ana Daniela Andrade, 52 anos, percebeu isso aos poucos. O processo começou em março de 2025, primeiro com atividade física e acompanhamento médico e nutricional. Cerca de sete meses depois, a medicação entrou como complemento. Ela iniciou o tratamento com Wegovy e, posteriormente, passou para o Mounjaro. Ao todo, considerando o período desde setembro de 2025, foram cerca de 25 quilos eliminados em aproximadamente 12 meses. "Meu processo foi gradual, e foi muito mais do que simplesmente perder peso", conta Ana Daniela. Quando começou a medicação, estava com aproximadamente 91 quilos. Desde então, chegou aos 73. Mais do que a diferença na balança, ela percebeu mudanças nas medidas e na composição corporal. "Não tive perda de massa magra; pelo contrário, ela aumentou bastante. E isso é algo que valorizo muito, porque ganhar massa magra é um processo difícil e que exige constância." A primeira mudança visível apareceu no armário. "Foi principalmente com as roupas. Chega um momento em que você percebe que aquela roupa que antes ficava apertada começa a ficar larga. Depois, você experimenta uma peça que antes nem consideraria, e ela serve", destaca.

A advogada Fernanda Marques, 38, também associa a transformação a situações que ultrapassam o peso. Ela perdeu 13 quilos em aproximadamente três meses e atualmente está na fase de manutenção. O início do tratamento foi acompanhado de efeitos colaterais, principalmente enjoo e fraqueza. Em determinado momento, precisou tomar vitamina na veia. Para Fernanda, a mudança física também interferiu na forma como se percebia. "Além da mudança física, senti uma melhora significativa na minha autoestima, e isso também acabou refletindo positivamente na minha ansiedade e na forma como eu me sentia comigo mesma." O internacionalista Pedro Balaban perdeu 14 quilos em quase um ano. Antes do tratamento, estava na faixa de obesidade e insatisfeito com o próprio corpo. Entre as mudanças que percebeu, estão o conforto para vestir roupas que já possuía e a melhora no condicionamento físico para praticar esportes.

Os três relatos ajudam a mostrar que o efeito de uma mudança corporal não termina no momento em que o ponteiro da balança desce. Mas, antes de chegar às consequências cotidianas, é preciso entender o que acontece dentro do organismo.

<><> Além da balança

Para compreender o real impacto dos medicamentos injetáveis no organismo, a médica endocrinologista Vanina Farias explica que o ponto de partida deve ser a desmistificação da doença. Segundo ela, o excesso de peso não pode ser reduzido a uma simples conta matemática. "O importante para entender como os medicamentos ajudam é entender a fisiopatologia da doença. Não se trata somente de uma equação entre comer menos e exercitar menos. É uma doença biológica que tem múltiplos mecanismos."

As novas moléculas atuam simulando a ação de hormônios produzidos no próprio intestino humano, mas com uma durabilidade muito superior no organismo. É essa característica que permite a aplicação semanal do fármaco e garante um efeito prolongado sobre a sensação de saciedade. De acordo com a endocrinologista, em pacientes diagnosticados com obesidade, as sinalizações químicas entre o corpo e o cérebro que indicam a hora de parar de comer estão desreguladas. A medicação age justamente reparando esse mecanismo. "Dentro disso, existe em nível central, digamos, no cérebro, um circuito, que é como se fosse um freio. Nos obesos, os sinais de fome e saciedade estão alterados. E esses medicamentos são semelhantes a esses hormônios que produzem no corpo e que lhe devolvem esse freio de saciedade a nível mental. Por isso, de fato, tudo parece mudar", ressalta a especialista. Além da atuação direta no sistema nervoso central, o remédio reduz a velocidade do esvaziamento gástrico, prolongando a sensação de preenchimento do estômago após as refeições. É justamente essa alteração na percepção da fome que ajuda a explicar uma das mudanças mais relatadas por quem faz o tratamento: a quantidade de comida consumida.

Para Ana Daniela, a diferença é perceptível principalmente à mesa. "Hoje, não consigo comer como comia antes e também não sinto necessidade daquela quantidade", relata. Ela afirma ter passado a prestar mais atenção à alimentação, especialmente à proteína e à qualidade do que consome. "Comecei a enxergar a alimentação como parte da manutenção do meu corpo e da minha massa muscular, e não apenas como uma questão de emagrecer." A endocrinologista do Sabin Diagnóstico e Saúde Ana Clara d'Acampora explica que semaglutida e tirzepatida atuam de maneira semelhante, mas não idêntica. A semaglutida se liga aos receptores do GLP-1, hormônio produzido pelo próprio organismo e relacionado à produção de insulina e à sinalização de fome e saciedade. A tirzepatida também atua sobre o GLP-1, mas acrescenta a ação sobre o GIP. "Ela tem um comportamento dual. Então, imita dois hormônios: o GLP-1 e o GIP. Os estudos mostram que é como se tivesse uma ação sinérgica, que potencializa essa ação", detalha Ana Clara. Os efeitos adversos, segundo a endocrinologista, são semelhantes entre os dois medicamentos: náusea, piora do refluxo e alteração gastrointestinal, em geral, são os principais. 

<><> Os dilemas desse mundo

O avanço da procura fez acender um sinal de alerta entre os médicos: o aumento das compras por canais não oficiais. A endocrinologista Vanina Farias destaca que o uso de substâncias adquiridas fora da rede farmacêutica credenciada expõe o paciente a riscos, uma vez que não há garantia sobre a procedência ou a composição do produto. "Quando eu compro um medicamento que não está regulado pela agência regulatória, não sei o que estão vendendo, não sei o que estão aplicando. Se eu me aplico algo que compro por fora do mercado oficial, isso é extremamente sério e prejudicial", acrescenta Vanina. Outro ponto levantado pela médica é a utilização da medicação por pessoas que buscam apenas a perda de poucos quilos por razões estéticas, sem possuir diagnóstico de sobrepeso com comorbidades ou obesidade. Nesses casos, a interrupção precoce do uso pode ser acompanhada do chamado "efeito sanfona", especialmente quando não houve mudança de hábitos e preservação da massa muscular. "A longo prazo, talvez ele vai trazer mais problemas do que benefícios, porque estou utilizando um medicamento para baixar de peso apenas pensando no peso da balança, sem ter em conta toda a composição desse peso. Quando eu uso mal o medicamento, sem troca de hábitos, sem boa alimentação proteica, sem atividade física que me preserve o músculo, não só baixei gordura, também perdi músculo no caminho. Caso a rotina não inclua ingestão adequada de proteínas e treinos de força para preservação dos músculos, o organismo pode reduzir o gasto energético basal. Ao suspender o remédio, a tendência biológica é recuperar parte do peso perdido em forma de gordura. Por essa razão, a endocrinologista defende que o objetivo do tratamento deve ir além do número registrado na balança. "Precisamos deixar somente de olhar o peso e nos centrar em melhorar a composição corporal desse paciente", aponta.

<><> Tratamento ininterrupto

Assim como qualquer intervenção farmacológica, os análogos hormonais exigem atenção aos efeitos colaterais. Os sintomas mais comuns envolvem o sistema digestivo, ocorrendo com mais frequência nas fases iniciais do tratamento ou a cada aumento de dosagem. "Não existe remédio mágico que seja efetivo para tratar a doença e que não tenha nenhum efeito adverso", reforça Vanina Farias. Ao contrário de tratamentos com início, meio e fim predeterminados, o acompanhamento da obesidade deve ser compreendido dentro da lógica das doenças crônicas, a exemplo da hipertensão arterial. A endocrinologista esclarece que iniciar o uso da substância já projetando a sua interrupção pode comprometer os resultados a longo prazo. A manutenção do quadro de saúde pode envolver a redução gradual das doses ou o suporte contínuo focado no estilo de vida, mas sempre sob supervisão regular. "Não tenho que começar uma medicação pensando em quando vou suspender, porque é uma doença crônica. Tem que estar acompanhado sempre de algum tratamento", conclui a médica.

<><> O novo corpo chega primeiro ao armário

Se, dentro do organismo, a mudança acontece por meio de sinais relacionados à fome e à saciedade, no cotidiano, ela aparece em gestos mais concretos. Uma das primeiras áreas afetadas costuma ser o guarda-roupa. Ana Daniela conta que perdeu praticamente todas as roupas que tinha. "As peças começaram a ficar mais folgadas e, de repente, perdi praticamente todo o meu guarda-roupa."

Como a perda foi significativa e ainda estava em andamento, ela optou por não investir em grandes ajustes. "Passei tudo para um brechó e comprei algumas peças novas, mas não muitas, porque ainda estava no processo de emagrecimento." A situação se repetiu pouco depois. "As roupas novas também já ficaram folgadas, e essas, sim, precisarão de ajustes." Para ela, porém, a principal mudança aconteceu antes mesmo da compra. "Hoje entro em uma loja com mais curiosidade e menos receio de experimentar. Parece banal, mas, para quem passou muito tempo evitando determinadas roupas, isso representa uma mudança enorme." 

Fernanda Marques passou por experiência semelhante. "Foi muito significativo voltar a vestir minhas roupas e perceber que elas estavam servindo novamente", celebra. Antes, evitava algumas peças, especialmente blusas sem manga, porque não se sentia confortável com o corpo. "Hoje, poder olhar para mim e me sentir bem é uma das maiores mudanças. Não se trata apenas do tamanho da roupa, mas sobre a sensação de voltar a gostar do que vejo no espelho." A mudança também abriu espaço para experimentar modelos que antes eram evitados. "Hoje, consigo escolher o que quero usar porque realmente gosto, e não simplesmente porque é o que consegue disfarçar alguma coisa", adiciona.

Pedro Balaban, por sua vez, não abandonou o estilo que desenvolveu durante o período em que ganhou peso. "Mantive o gosto que adquiri quando engordei, as roupas oversized, mas também voltei a utilizar outras que havia deixado de utilizar", conta. "Voltei a usar camisas G, que antes ficavam mais apertadas. Hoje estão confortáveis." Para o alfaiate Valdir Camargo, as mudanças no corpo já chegaram ao ateliê. "Aumentou, e aumentou muito a procura por ajustes. Eu te falo que mais de 60% dos meus clientes devem estar usando as canetas emagrecedoras ou usaram."

Segundo ele, o ajuste está atrelado à quantidade de peso perdida. Normalmente, dá para ajustar quando a mudança foi de, no máximo, 10kg. "Dependendo do quanto a pessoa perde, é possível ajustar e a roupa ficar boa. Mas também tem limite." Quando a transformação é maior, a relação com o guarda-roupa muda completamente. "Quando tem aquelas mudanças drásticas, 30kg, 40kg, é preciso um armário novo, e normalmente é um momento muito feliz, ele vai comprar mais feliz pelo novo corpo dele."

<><> Tamanho psicológico

A transformação física, entretanto, não acontece necessariamente na mesma velocidade da percepção que a pessoa tem de si. A consultora de imagem Lilian Lemos, que atua no segmento plus size desde 2013, acompanha casos em que a numeração escolhida continua maior mesmo depois de uma perda expressiva de peso. "Tudo o que você escolhe para vestir afirmar que o seu corpo tem uma representatividade. Até a falta de opções é uma questão. Quando uma cliente emagrece muito e rápido, essa 'representatividade' e o hábito de compra, muitas vezes, não acompanham essa velocidade." Ela cita o caso de um cliente que passou por cirurgia bariátrica e perdeu cerca de 40 quilos. Antes, vestia tamanho 54/56. Depois, chegou ao 46. Mesmo assim, continuava comprando roupas maiores. "Quando fui ao armário, ela já tinha se desfeito das roupas grandes, e feito novas compras: de roupas ainda grandes no corpo dela! Sim, ela continuava comprando tamanho 50, porque, aos olhos dela, era o tamanho do próprio corpo", conta.

Para Lilian, o episódio mostrou como a percepção corporal pode demorar a acompanhar a transformação física. "Isso me mostrou o quanto existe uma visão distorcida delas mesmas. Talvez por medo, ou por crenças, ou até por realmente acreditar que ainda precisa perder peso." A consultora também chama atenção para outra mudança no mercado. Segundo ela, marcas plus size vêm reduzindo numerações ou encerrando operações. "A quantidade de marcas plus size diminuindo suas numerações ou até fechando as portas está alarmante. Isso demonstra uma movimentação do comércio voltada totalmente para o corpo magro", salienta. Para Lilian, a discussão não deveria partir da ideia de que corpos maiores deixaram de existir por causa da popularização dos medicamentos. "A mulher plus size não sumiu, ela continua precisando de comunicação visual, então, para isso, ela tem que emagrecer? E é onde fica a questão: como tem representatividade e viabilidade das marcas?", questiona.

A consultora observa ainda que a compra de roupas depois de um emagrecimento pode carregar expectativas que vão além da necessidade prática de renovar o armário. "Esse emagrecimento vem carregado de um monte de sentimentos (bons e ruins): desejos, sonhos, pertencimento, inclusão, aceitação pessoal, orgulho próprio, aprovação social… uma infinidade de motivos que só aquela mulher vai entender." O risco, segundo Lilian, está em transformar o emagrecimento em uma corrida permanente por números menores. Por isso, ela recomenda que a compra de roupas acompanhe o processo de transformação. "Para começar, ter noção do quanto vai emagrecer em cada intervalo de tempo, para não comprar muito o que não vai servir lá na frente", enfatiza. 

<><> Comer também muda

A relação com a comida é outro ponto em que as mudanças aparecem. Fernanda conta que era uma pessoa que "beliscava o tempo inteiro" e percebeu redução desse comportamento durante o tratamento. "Passei a ter mais controle e a identificar melhor quando realmente estava com fome ou quando estava comendo por ansiedade", observa. Pedro também percebeu mudanças. "Um dos meus maiores problemas era a velocidade ao comer. Com o remédio, além de controlar a quantidade e a impulsividade, aprendi a controlar a velocidade em que como." Ana Daniela continua frequentando restaurantes, festas e encontros. A diferença está na quantidade consumida. "Hoje, consigo comer uma quantidade menor", relata.

Para a psicóloga Camilla Leitão, essa mudança precisa ser acompanhada de cuidado para que a comida não seja transformada em inimiga. "A alimentação está relacionada ao prazer, e não somente à saciedade", resume. Segundo ela, a perda de peso deve ser acompanhada de reeducação alimentar, com variedade e espaço para alimentos que proporcionem prazer, além do acompanhamento de nutricionista e endocrinologista. A preocupação é evitar que o controle da alimentação se transforme em uma nova fonte de restrição. O objetivo, segundo Camilla, deve ser construir uma relação mais equilibrada com a comida, inclusive em situações sociais.

A alteração no corpo também pode modificar a maneira como a pessoa se apresenta para o mundo. "O corpo faz parte de nossa identidade e integra a forma como cada um se relaciona com o outro e também com o meio que habitamos." Ela explica que uma mudança corporal pode produzir uma sensação de liberdade quando permite que a pessoa retome atividades ou situações que antes eram difíceis. "A partir do momento que esse corpo está saudável, traz uma sensação de liberdade que se associa com o prazer de acessar locais ou fazer coisas que antes podiam ser inviáveis, como praticar esportes, fazer trilhas ou até subir e descer escadas", enfatiza.

Para Fernanda, uma das situações mais marcantes foi voltar a usar biquíni. "Nunca fui uma pessoa que amasse o meu corpo. Desde que me entendo por gente faço dieta, inclusive, já fiz cirurgia plástica. A ansiedade e o fato de comer compulsivamente faziam com que eu acabasse vivendo o efeito sanfona, passei a evitar ainda mais esse tipo de roupa", conta. Pedro, por outro lado, relata que a mudança na percepção de si apareceu nas fotografias. "Não me achar bonito em nenhuma foto e apenas aceitar que estou feio era o que mais me marcava e me incentivou a iniciar o processo." A autoestima, entretanto, também pode se tornar um território delicado. Camilla alerta para o risco de associar excessivamente o valor pessoal ao corpo. "O mundo em que vivemos, por vezes, apresenta corpos impossíveis e vidas extremamente bem-sucedidas. As redes sociais, movidas por influenciadores, criam tendências inatingíveis", alerta. 

<><> Nenhuma caneta aplica massa muscular

A mudança na balança também não significa que o trabalho físico perdeu importância. A educadora física Carol Borba reforça que os medicamentos podem fazer parte de um tratamento, mas não substituem o movimento. “Ainda não inventaram uma caneta que aplica massa muscular, nem cápsula que fortalece osso ou melhora condicionamento. Isso depende do movimento”, diz Carol. “O esforço não é castigo, é o preço que a gente paga para ter autonomia, força e massa muscular.”

A recomendação é de que o uso da medicação seja acompanhado de uma rotina capaz de preservar a massa muscular. Carol afirma que é possível combinar tratamento e exercício. “São muito bem-vindas em diversos casos, mas ferramenta é diferente de substituto”, afirma. “Perigoso é quando o movimento vira algo opcional, porque o treino não é opcional.”

Ana Daniela é um exemplo desse processo combinado. Antes mesmo de começar a medicação, já havia iniciado os treinos. Hoje, mantém o exercício como parte da rotina, faz treino funcional em uma academia de CrossFft e caminhadas aos domingos no Eixão do Lazer. “Hoje, tenho uma preocupação muito grande não só em emagrecer, mas em preservar massa muscular, continuar treinando e conseguir manter esse resultado", conta.  Para ela, o exercício também passou a representar uma mudança de perspectiva. “Sempre sonhei em ter uma vida fitness, e todo esse processo me incentivou ainda mais. Hoje, mais do que comemorar o resultado, meu foco é manter tudo o que conquistei e alcançar novas metas", celebra. 

<><> Um mercado que também muda de tamanho

As transformações individuais começam a produzir reflexos em setores que vão além da saúde. Na moda, a discussão sobre a redução dos tamanhos disponíveis ganhou força em meio à popularização dos medicamentos GLP-1. Nos Estados Unidos, uma análise da Edited, citada pelo The Guardian, comparou a oferta de novos vestidos femininos da H&M entre janeiro e maio de 2025 e o mesmo período de 2026. No ano passado, os tamanhos 3XL e 4XL representavam 2% do novo estoque; em 2026, desapareceram da amostra, e o XXL também perdeu espaço. A H&M confirmou ao jornal a descontinuação das duas numerações, atribuindo a decisão à queda de demanda. A redução, porém, não significa que a necessidade por roupas maiores tenha desaparecido. Como observa a especialista Lilian Lemos, "um tamanho menor não deveria estar associado a beleza, sucesso ou saúde, assim como um tamanho maior não deveria ser visto como algo que precisa ser escondido ou corrigido".

<><> Do estoque à balança

No Brasil, o fenômeno já é sentido na ponta que abastece o pequeno comércio. Segundo Alaor Gomes, presidente do Sindiatacadista-DF, o impacto começou pelo bolso. "No atacado de alimentos e bebidas, nós já sentimos no faturamento: o consumidor come menos e muda o que compra menos", diz. Ele cita uma projeção de queda de cerca de 0,49% ao ano no volume total vendido nos supermercados, com as categorias de indulgência — doces, salgadinhos, refrigerantes, sorvetes, bebida alcoólica — perdendo espaço para frescos, proteínas, iogurte e fibras. O movimento também chegou às araras. "Isso já é perceptível. As grandes redes observam uma redução de consumo nos tamanhos XXL e XL e uma migração para o consumo de roupas esportivas", afirma Gomes. Para ele, o risco é operacional e financeiro. "Se as confecções não alinharem a essas projeções, correm o risco de bilhões em prejuízo por estoque errado. A indústria de confecção e o varejo de moda terão de refazer suas curvas de tamanho." O problema, segundo o presidente do sindicato, está na antecedência com que o varejo de moda trabalha. "As compras são feitas com seis a nove meses de antecedência, usando 'curvas de tamanho' que definem quantas peças de cada numeração comprar. Um erro ou a não previsão dessas alterações de tamanho pode afetar a rentabilidade do setor de moda", ressalta. No setor alimentar, o ajuste é outro. "É preciso recalibrar o mix — mais proteína e porções menores. Quem não ajustar sortimento e estoque vai carregar produto que não gira", acrescenta. 

Gomes lista, ainda, outros setores sob pressão: "No alimentar, perdem força as bebidas açucaradas, o álcool, além de doces, salgadinhos, sorvetes, fast food e foodservice, e cresce proteínas, iogurte, frutas frescas e congeladas", destaca.  Para Gomes, não há dúvida sobre a natureza do movimento: "É tendência estrutural, não moda passageira. Hoje, o impacto sobre o volume total ainda é de um dígito, mas a curva é ascendente e rápida. Quem tratar isso como ponto fora da curva vai ser pego despreparado; quem se antecipar, ajustando mix, estoque e sortimento, sai na frente. No comércio, quem não se antecipa contabiliza prejuízo." Os efeitos indiretos dos medicamentos também aparecem em setores menos óbvios, como a aviação comercial, já que o peso transportado interfere em cálculos de equilíbrio, desempenho e consumo de combustível. Estimativas citadas em reportagens americanas apontam que uma redução de 10% no peso médio dos passageiros poderia diminuir em até 1,5% os gastos com combustível das quatro maiores companhias aéreas dos Estados Unidos — United, Delta, American e Southwest —, o equivalente a até US$ 580 milhões por ano.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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