O
'verdadeiro Indiana Jones' que achou uma antiga cidade perdida dos incas
Em
1909, um acadêmico americano, Hiram Bingham III, foi convocado por
proprietários de terras do Peru para averiguar se um local conhecido como
Choquequirao ("berço de ouro") seria uma cidade inca perdida, há
muito tempo procurada e possivelmente repleta de tesouros.
Acreditava-se
que o lugar poderia ser Vilcabamba (que significa "planície sagrada"
em quíchua, uma antiga língua indígena), a antiga fortaleza montanhosa do
último rei inca, nas profundezas dos Andes peruanos.
Bingham,
então com 34 anos, era professor assistente de história latino-americana e
estava apenas de passagem pela região. Ele não era arqueólogo, nem estava à
procura de ruínas incas.
No
entanto, o prefeito de Apurímac, Juan José Núñez, não aceitou um
"não" como resposta.
Núñez
insistia que, como Bingham era doutor — possuía um PhD —, certamente entendia
tudo de arqueologia e poderia averiguar o potencial de Choquequirao como um
local cheio de tesouros.
"Minhas
tentativas de explicar que ele estava enganado quanto ao meu conhecimento
arqueológico foram interpretadas por ele apenas como sinal de modéstia",
escreveu Bingham.
"Eu
sabia muito pouco sobre os incas".
O
acadêmico, então, recorreu a um livro publicado pela Real Sociedade Geográfica
Britânica, intitulado Hints to Travellers ("Dicas para Viajantes"),
que continha sugestões sobre o que fazer ao se deparar com um sítio
arqueológico.
Embora
cético quanto à existência de ouro em Choquequirao — ou de que realmente se
tratava da famosa cidade perdida —, Bingham sentiu-se inspirado e decidiu
liderar uma expedição representando a universidade de Yale em 1911.
"Parecia
haver uma região desconhecida além das cordilheiras, que poderia oferecer
grandes possibilidades. Talvez a capital do [rei inca] Manco estivesse
escondida ali", disse Bingham.
O mau
tempo, a escassez de alimentos e a ameaça de deserção de seus carregadores
foram obstáculos em um caminho que, no entanto, aparentemente teria tido um
desfecho triunfal: ele afirmou ter encontrado a cidade perdida em Machu Picchu,
revelando-a ao mundo em 1911.
"Ninguém
mais contesta que este é o local da antiga Vilcabamba", escreveu Bingham.
Mas ele
estava errado.
Cinquenta
anos depois, em agosto de 1964, o americano Gene Savoy — apelidado de o
"verdadeiro Indiana Jones" — reivindicou ter encontrado a real
Vilcabamba.
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Enfrentando a selva, a neblina e as maldições
Savoy,
de 37 anos, estava acompanhado do explorador peruano Antonio Santander
Cascelli.
Inicialmente,
os moradores locais recusaram-se a guiá-los até o local, temendo uma lenda
tribal segundo a qual os deuses matariam aqueles que revelassem sua
localização. Após muita insistência, os peruanos conduziram Savoy e Santander
às ruínas de Vilcabamba, cobertas de musgo e neblina, no alto de um afluente do
Amazonas.
"Não
podíamos acreditar no que estávamos vendo", disse Savoy. "A cada dia,
o lugar se tornava mais fantástico."
Savoy e
Santander encontraram ruínas espalhadas por três platôs montanhosos, incluindo
um palácio, construções de granito e calcário e fontes; apenas o primeiro platô
tinha cerca de quatro vezes o tamanho de Machu Picchu.
A
exploração da área levou Savoy a acreditar que "o local era um refúgio
utilizado pelos últimos incas, envolvidos na luta final contra os novos
conquistadores".
No
entanto, após apenas duas semanas, seus guias começaram a ir embora, temerosos
das superstições tribais.
"Normalmente,
eles eram amigáveis e sorridentes", contou Savoy. "Mas, quando os
levávamos para aquela mata, eles mudavam."
A dupla
decidiu partir e retornar mais tarde para novas investigações.
Apenas
seis semanas após a expedição deles, uma equipe da BBC fez o mesmo trajeto —
viajando em um bote inflável (e chegando a virar) em corredeiras, subindo
encostas íngremes de cânions com mulas e abrindo caminho pela selva até o
local.
"Durante
400 anos, poucos europeus haviam passado por ali, muito menos alguém com uma
câmera de filmagem", escreveu Tony Morrison, diretor do filme produzido
para a série Adventure, da BBC, apresentada por David Attenborough.
"Após
uma semana de caminhada árdua e uma longa descida por uma floresta montana
densa e frequentemente encharcada pela chuva, chegamos às ruínas do
assentamento inca."
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'Prefiro morrer ali do que não explorar esse lugar'
No
início do século 20, Vilcabamba havia se tornado uma cidade lendária.
Não
tendo conseguido impedir que os conquistadores espanhóis tomassem em 1536 sua
capital, Cusco, o rei inca Manco conduziu seu povo derrotado para as montanhas.
Acredita-se
que milhares deles tenham construido palácios e templos na capital que Manco
formou no exílio, para onde o rei teria levado tesouros em ouro, seus ídolos
cintilantes e as múmias de seus ancestrais.
Segundo
o frade do século 16 Martín de Murúa, que registrou a conquista espanhola do
Peru, "os incas desfrutavam de quase tantos luxos, grandiosidade e
esplendor quanto em Cusco, naquela terra distante — ou melhor, de exílio".
Vilcabamba
se tornou um centro de resistência inca, onde táticas de guerrilha contra os
espanhóis eram planejadas e rebeliões eram incitadas.
No
entanto, em 1572, diante de uma invasão, os incas incendiaram a cidade e
fugiram.
A
última capital inca foi engolida pela selva — e sua localização permaneceu um
mistério por séculos.
Segundo
um relato: "Árvores imensas haviam fixado suas raízes ao redor das
muralhas e sobre os terraços, e seus galhos estavam entrelaçados por cipós tão
grossos e resistentes quanto cabos telefônicos".
Savoy
disse: "Eu odeio essa maldita selva."
Acrescentou,
porém: "Mas eu prefiro morrer ali do que não explorar esse lugar."
A
descoberta de Savoy e Santander não provou que as ruínas faziam parte da última
capital inca. No entanto, algo que encontraram lá levaria à confirmação de que
se tratava de Vilcabamba: telhas.
"Essas
telhas são, até o momento, a evidência tangível mais forte", disse o
apresentador da BBC em 1964.
"Elas
têm design espanhol, mas apresentam uma influência inca distinta na coloração e
nas marcações."
A
importância da descoberta da dupla foi posteriormente reconhecida por John
Hemming, especialista em cultura inca e diretor da Real Sociedade Geográfica de
Londres entre 1975 e 1996.
Ele
conseguiu combinar relatos de testemunhas oculares sobre Vilcabamba — incluindo
crônicas do frade Martín de Murúa — a detalhes do local.
A
descoberta das telhas foi incomum, visto que os incas normalmente utilizavam
telhados de palha. Contudo, na descrição de Murúa, havia uma pista importante:
"Os incas tinham um palácio em diferentes níveis, coberto por
telhas."
Parece
que, em 1911, Bingham havia passado a poucos metros do lugar que procurava: o
refúgio final do Império Inca.
Para
Savoy, no entanto, um mistério permanecia.
"Apenas
uma pequena parte do ouro e das joias incas foi recuperada", disse ele à
revista Esquire em 1967.
"Tenho
motivos para acreditar que eles jogaram o restante em lagos e cavernas, em vez
de deixar que caísse nas mãos dos espanhóis. Em expedições anteriores,
encontrei lagos e túneis murados que não constavam em nenhum mapa."
A
descoberta do que parece ter sido a última cidade inca — que, ainda hoje,
permanece em grande parte soterrada pela selva, com suas construções de pedra
estranguladas por cipós e raízes de árvores — levantou mais perguntas do que
respostas.
"A
área é fascinante porque ainda não foi perturbada nem saqueada", disse
Javier Fonseca, arqueólogo do Ministério da Cultura do Peru, ao jornal The
Guardian em 2018.
Há até
relatos sobre a existência de outra cidade, mais adentro da floresta.
"Sabemos
que o chamado 'tesouro perdido dos incas' não foi encontrado", disse Savoy
em 1967.
"Se
esse tesouro existe... então podemos especular sobre o seu paradeiro."
Fonte:
BBC Culture

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