Ministros
de Bolsonaro criam crise de confiança na Justiça Eleitoral
Durante
anos, Jair Bolsonaro e seus aliados fizeram da desconfiança na Justiça
Eleitoral uma estratégia política. Atacaram as urnas, questionaram ministros e
espalharam suspeitas sem provas sobre o processo eleitoral. Agora, às vésperas
da escolha do próximo presidente da República, uma ironia particularmente
incômoda se instalou no Tribunal Superior Eleitoral.
Os dois
ministros do Supremo Tribunal Federal indicados por Bolsonaro estão no comando
da Corte.
Kassio
Nunes Marques é presidente do TSE. André Mendonça é vice-presidente.
E ambos
chegam à eleição de 2026 submetidos a um escrutínio que ultrapassa suas
posições ideológicas ou a identidade de quem os indicou. Revelações extraídas
das investigações sobre Daniel Vorcaro e o Banco Master passaram a alcançar os
dois ministros — de maneiras diferentes e sem que isso, até agora, comprove
favorecimento ao banqueiro.
O
problema é ainda maior porque Vorcaro não acompanha a eleição presidencial como
mero espectador.
Em
junho, fontes que acompanham o caso afirmam ao ICL Notícias que o banqueiro
acompanha atentamente a disputa presidencial enquanto tenta melhorar sua
situação perante a Justiça. Segundo esses relatos, Vorcaro aposta que uma
eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pode produzir um ambiente mais
favorável aos seus interesses e ajudá-lo a deixar a prisão.
Não há
evidência de que Nunes Marques ou André Mendonça participassem dessa
expectativa ou tivessem assumido qualquer compromisso com Vorcaro.
Mas há
uma coincidência institucional impossível de ignorar: o banqueiro enxergava,
segundo essas fontes, uma vitória de Flávio como potencialmente benéfica para
sua situação enquanto os dois ministros indicados pelo pai do candidato
comandam justamente a Justiça Eleitoral.
E o
próprio caso Vorcaro passou a produzir questionamentos sobre relações
envolvendo ambos.
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Mansão, filho e mensagens colocam Nunes Marques no centro da crise
No caso
de Nunes Marques, já não existe apenas o episódio envolvendo seu filho.
Mensagens
extraídas do celular de Vorcaro e reveladas pelo Metrópoles mostram que o
banqueiro participou da articulação para reservar uma mansão no Joá, no Rio de
Janeiro, durante o Carnaval de 2025 para um ministro identificado como “KN” e
para o desembargador Newton Ramos, do TRF-1. Segundo a reportagem,
investigadores da Polícia Federal identificam “KN” como Kassio Nunes Marques.
Não se
tratava de uma hospedagem trivial.
A
mansão, avaliada em R$ 250 milhões, teria sido alugada por aproximadamente R$
1,45 milhão durante o período. As conversas tratavam de chef, garçons,
motoristas, bebidas de alto padrão, acesso diferenciado a camarote, uma
feijoada para dezenas de convidados e até possibilidade de passeio de
helicóptero.
Nunes
Marques afirma que nunca trocou mensagens com Vorcaro nem pediu nada ao
banqueiro. Os diálogos divulgados também não comprovam, por si só, que o
ministro tenha efetivamente utilizado todos os benefícios discutidos.
Esse
cuidado é fundamental. Mas também é impossível tratar as mensagens como
irrelevantes.
Outro
episódio é ainda mais delicado.
Conversas
extraídas do aparelho de Vorcaro mencionam um encontro de uma mulher com um
homem chamado “Kassio”, em fevereiro de 2025, em um tríplex de luxo no Itaim
Bibi, em São Paulo. Dias depois, uma interlocutora disse ao banqueiro que a
amiga havia ficado com “Kassio” e cobrou o pagamento. Vorcaro pediu os dados e
o valor. A resposta foi “10”. As mensagens não apresentam o nome completo do
homem citado e, portanto, isoladamente não comprovam que se tratasse do
ministro. Nunes Marques negou que o encontro tenha ocorrido.
A
apuração feita pelo ICL Notícias em parceria com a Alma Preta acrescentou,
porém, uma informação relevante: o apartamento mencionado nas mensagens
pertencia naquele momento à Super Empreendimentos e Participações, empresa que
teve como diretor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro.
O ponto
jornalisticamente relevante não é a vida sexual de um ministro. É saber se
Daniel Vorcaro pagou ou providenciou algum benefício particular para alguém que
ocupa uma das posições mais importantes do Judiciário brasileiro. Isso ainda
precisa ser esclarecido.
Há
também o episódio envolvendo Kevin Marques, filho de Nunes.
Mensagens
do grupo de Vorcaro mencionam pagamentos a Kevin por intermédio de uma
consultoria que mantinha negócios com o Banco Master. Kevin afirma que recebeu
R$ 281,6 mil por serviços jurídicos tributários efetivamente prestados, nega
ter recebido recursos de Vorcaro e diz que seu trabalho não tinha relação com o
banqueiro nem com processos no Supremo.
A
sucessão de revelações levou Nunes Marques a se declarar impedido de participar
de um julgamento no STF relacionado à crise provocada pelas mensagens de
Vorcaro. O ministro também pediu à Polícia Federal acesso à íntegra dos dados
brutos extraídos do celular do banqueiro.
Nenhum
desses episódios, individualmente ou em conjunto, comprova que Nunes Marques
tenha favorecido Vorcaro. Mas o volume de perguntas sem resposta ganha dimensão
institucional quando o personagem envolvido não é apenas ministro do Supremo.
É o
presidente do Tribunal Superior Eleitoral.
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Mendonça também aparece no universo de Vorcaro
André
Mendonça, vice-presidente do TSE, tem uma relação documentada de outra
natureza.
O
ministro confirmou ter recebido Vorcaro pessoalmente, em março de 2025, no
Instituto Iter, instituição que ajudou a fundar. Segundo Mendonça, a conversa
tratou de créditos de precatórios de interesse do Banco Master. O ministro
afirma que sua posição jurídica posterior foi contrária ao interesse
apresentado pelo banqueiro.
Mensagens
obtidas pela Polícia Federal mostram ainda que Vorcaro foi convidado para
eventos do Iter e que interlocutores do banqueiro buscaram aproximação com
Mendonça entre 2024 e 2025. Um dos convites acabou cancelado após resistência
interna à presença de Vorcaro.
O
instituto também recebeu R$ 5,2 milhões da Cedro Participações, holding de
Lucas Kallas, empresário que manteve negócios com Vorcaro. O acordo foi firmado
em 2024, quando Mendonça ainda integrava a instituição. O Iter afirma que se
tratava de um empréstimo conversível destinado à estruturação da entidade, que
decidiu interromper os repasses e começou a devolver os recursos antes de
Mendonça ser sorteado relator das investigações sobre o Master.
Nada
disso demonstra que Mendonça tenha beneficiado Vorcaro.
Mas
novamente surge o problema que acompanha toda esta história: confiança.
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As decisões também entram na conta
O
escrutínio sobre os dois ministros não pode ficar restrito ao caso Master. Eles
comandam o TSE e possuem histórico recente de decisões com consequências
políticas importantes.
Nunes
Marques divergiu da maioria do tribunal nos dois grandes julgamentos que
declararam Jair Bolsonaro inelegível.
Na ação
sobre a reunião com embaixadores, considerou que a conduta de Bolsonaro não
tinha gravidade suficiente para justificar a inelegibilidade. Meses depois, no
julgamento sobre o uso eleitoral das comemorações do Bicentenário da
Independência, novamente adotou posição mais branda do que a maioria.
Isso
não significa que tenha agido por preferência política. Ministro existe para
divergir.
Mas
decisões tomadas durante a própria eleição de 2026 tornam o quadro mais
sensível.
A
pedido do PL, Nunes Marques suspendeu liminarmente a divulgação de uma pesquisa
presidencial da AtlasIntel sob suspeita de indução dos entrevistados. Entre os
assuntos presentes no questionário estavam justamente Flávio Bolsonaro e o
Banco Master.
Em
outro julgamento de enorme repercussão, Nunes Marques e André Mendonça
defenderam a manutenção de um vídeo publicado por Flávio que associava o PT ao
PCC e ao Comando Vermelho. Foram derrotados por 5 a 2.
Também
existem decisões que contrariam interesses do PL, e elas precisam ser
consideradas para que uma seleção de casos não seja apresentada falsamente como
padrão estatístico.
Mas
outro episódio recente envolvendo Nunes Marques mostra por que suas decisões
ganham peso adicional no meio de uma eleição.
Na
quinta-feira (17), veio a público que a Polícia Federal havia pedido busca e
apreensão contra ACM Neto (União Brasil), candidato ao governo da Bahia, na
Operação Overclean. A Procuradoria-Geral da República concordou com a
realização da medida. Nunes Marques, relator do caso no STF, negou o pedido por
considerar insuficientes os elementos apresentados contra o político.
ACM
Neto é investigado sob suspeita de ter participado da indicação de um
secretário para a Prefeitura de Belo Horizonte dentro de um esquema que,
segundo a investigação, envolveria direcionamento de licitações e posterior
pagamento de propina. Ele nega irregularidades.
A
decisão de Nunes Marques pode ter fundamentação jurídica própria e não
demonstra favorecimento eleitoral. Mas ela produziu um efeito objetivo: um
candidato em plena campanha deixou de ser alvo de uma busca defendida
simultaneamente pela PF e pela PGR.
É
precisamente esse tipo de decisão que torna indispensável o máximo de
transparência quando quem decide também preside a Justiça Eleitoral.
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A ironia que Bolsonaro construiu
Durante
anos, Bolsonaro ensinou seus seguidores a desconfiar do árbitro.
Atacou
as urnas eletrônicas, colocou ministros sob suspeita, lançou acusações sem
provas contra o processo eleitoral e transformou o TSE em inimigo político.
Foi
longe demais.
A
reunião em que convocou embaixadores estrangeiros para repetir alegações contra
o sistema eleitoral ajudou a torná-lo inelegível.
Agora,
os dois ministros que ele próprio colocou no Supremo comandam justamente a
instituição que passou anos tentando desacreditar.
Ser
indicado por Bolsonaro não transforma Nunes Marques ou André Mendonça em
representantes do bolsonarismo dentro do Judiciário. Tampouco os episódios
envolvendo Vorcaro demonstram que a eleição esteja sendo manipulada ou que
decisões estejam sendo tomadas em benefício de Flávio Bolsonaro.
O
problema é mais elementar.
Democracias
não dependem apenas de eleições honestas. Dependem de eleições cuja honestidade
possa ser reconhecida pela sociedade.
E
confiança institucional não nasce de um pedido para que todos simplesmente
acreditem nos árbitros.
Quando
um banqueiro envolvido em uma das maiores crises políticas e financeiras do
país aparece em mensagens sobre uma mansão reservada para um ministro, quando
há conversas sobre possível pagamento de benefício particular, quando seu
universo empresarial alcança familiares de magistrados e quando outro
integrante da cúpula do TSE admite ter recebido pessoalmente esse mesmo
banqueiro, perguntas precisam ser respondidas.
Ainda
mais quando fontes que acompanham o caso dizem que Vorcaro enxergava uma
eventual vitória de Flávio Bolsonaro como possibilidade de melhora de sua
própria situação.
Não
porque exista prova de uma engrenagem ligando todas essas peças.
Não
existe.
Mas
porque justamente aqueles que comandam a eleição precisam estar acima de
qualquer dúvida razoável sobre a independência de suas decisões.
O
bolsonarismo passou anos tentando fabricar desconfiança sobre a Justiça
Eleitoral.
A
diferença é que agora existem fatos concretos que exigem esclarecimentos sobre
personagens que estão no comando dela.
E isso
coloca Nunes Marques e André Mendonça diante de uma responsabilidade que vai
muito além de proclamar o resultado das urnas.
Eles
terão de demonstrar, decisão após decisão, que a Justiça Eleitoral merece a
confiança que Bolsonaro passou anos tentando destruir.
Fonte:
ICL Notícias

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