A
ultradireita contra os direitos: Exame de uma estratégia
O
relatório global de 2025 e 2026 da Anistia Internacional descreve um processo
de desintegração dos direitos humanos em diferentes partes do mundo. Nos
Estados Unidos, o segundo governo de Donald Trump converteu essa tendência em
programa explícito ao intensificar a perseguição aos imigrantes, eliminar
políticas federais de diversidade e restringir mecanismos de proteção de grupos
historicamente discriminados. Na Europa, partidos de extrema-direita ampliam
sua influência sobre as políticas migratórias e os direitos das mulheres e da
população LGBTQIA+. No Brasil, o fim do governo de Jair Bolsonaro não encerrou
o bolsonarismo, que preserva força parlamentar e capacidade para impor
propostas contrárias aos direitos sociais, territoriais e civis.
Essas
ofensivas não representam somente uma alternância entre políticas progressistas
e conservadoras. Elas procuram alterar o sentido da cidadania, estabelecendo
diferenças entre aqueles que seriam merecedores de direitos e os grupos que
poderiam ser abandonados à insegurança, à discriminação e à violência. A
destruição da agenda social constitui, por isso, um retrocesso civilizatório. O
que está sendo contestado é o princípio de que o Estado deve proteger a
dignidade humana, reduzir desigualdades e assegurar direitos independentemente
da origem, da raça, do gênero, da orientação sexual, da religião ou da
nacionalidade.
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Os direitos sociais como conquista histórica
Os
direitos sociais não foram concessões espontâneas dos governos nem resultados
naturais do desenvolvimento econômico. Sua formação esteve associada às lutas
dos trabalhadores e dos movimentos antirracistas, feministas e populares contra
interesses que tratavam a desigualdade como parte inevitável da ordem social.
Depois da ascensão do fascismo e da Segunda Guerra Mundial, a criação de
sistemas públicos de proteção ganhou força. A Declaração Universal dos Direitos
Humanos de 1948 reuniu direitos civis, políticos, econômicos, sociais e
culturais em uma mesma concepção de dignidade, reconhecendo que a liberdade
permaneceria incompleta enquanto milhões de pessoas estivessem privadas de
alimentação, moradia, educação, saúde e trabalho digno.
No
Brasil, esse processo alcançou sua expressão mais abrangente na Constituição
Federal de 1988. A saúde foi reconhecida como direito de todos e dever do
Estado, a assistência social deixou de depender exclusivamente da caridade e
foram estabelecidas as bases para a ampliação da proteção trabalhista, dos
direitos indígenas e das políticas de igualdade racial, defesa das mulheres e
reconhecimento da diversidade. Destruir essa agenda não significa apenas
reduzir despesas públicas, mas devolver parcelas da população à dependência, à
insegurança e ao arbítrio dos grupos mais poderosos.
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A reconstrução política das hierarquias
A
extrema-direita contemporânea cresceu apresentando a igualdade como ameaça e a
diversidade como causa de desagregação social. No centro de seu projeto
encontra-se um povo idealizado, definido por referências nacionais, religiosas,
raciais e familiares, em oposição aos grupos acusados de corromper valores,
receber privilégios ou ameaçar a unidade do país. Essa concepção estabelece uma
hierarquia entre os habitantes considerados legítimos e aqueles que podem ser
privados de direitos e proteção.
O
trumpismo, o bolsonarismo e diferentes movimentos europeus possuem histórias e
bases sociais distintas, mas compartilham elementos fundamentais. Cultivam
lideranças personalistas, idealizam um passado de ordem e grandeza, atacam o
pluralismo, disseminam teorias conspiratórias e transformam adversários em
inimigos. Também procuram desacreditar tribunais, universidades, imprensa,
organismos científicos e entidades de defesa dos direitos humanos.
Essas
características situam esses movimentos em um processo de fascistização marcado
pelo nacionalismo excludente, pelo culto ao líder, pela fabricação de inimigos
internos e pela legitimação da violência. O conceito não pressupõe a repetição
integral dos regimes de Mussolini e Hitler nem ignora a singularidade do
nazismo e de seu projeto de extermínio. Estudos sobre o segundo governo Trump
identificam uma trajetória protofascista desenvolvida dentro da democracia
eleitoral, com a submissão das instituições à fidelidade pessoal ao líder. As
formas atuais do fascismo disputam eleições, mobilizam ressentimentos pelas
redes digitais e combinam autoritarismo político com políticas econômicas
neoliberais.
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A igualdade transformada em privilégio
Os
ataques às chamadas pautas identitárias ocupam posição estratégica nessa
ofensiva. A expressão reúne, de maneira depreciativa, reivindicações diferentes
e oculta seu conteúdo concreto. O que se pretende deslegitimar são políticas de
combate ao racismo, proteção das mulheres, reconhecimento dos povos indígenas,
inclusão das pessoas com deficiência, direitos da população LGBTQIA+ e medidas
destinadas a corrigir desigualdades históricas.
Nos
Estados Unidos, o governo Trump determinou o encerramento de programas federais
de diversidade, equidade e inclusão e ampliou a pressão sobre instituições
educacionais e empresas que mantêm iniciativas dessa natureza. O discurso
oficial apresenta essas políticas como discriminação, invertendo o significado
de medidas concebidas para enfrentar desigualdades raciais e sociais
persistentes. A população historicamente favorecida aparece como vítima,
enquanto os grupos discriminados são acusados de obter vantagens indevidas.
Em
Santa Catarina, a ofensiva contra a igualdade adquiriu forma institucional em
dezembro de 2025, quando a Assembleia Legislativa aprovou um conjunto de
propostas regressivas apresentadas por deputados do Partido Liberal (PL). A
principal delas proibiu cotas raciais e outras ações afirmativas nas
instituições de ensino superior públicas ou financiadas pelo estado, sob ameaça
de multas, corte de recursos e responsabilização de servidores. Ao defender a
medida no Supremo Tribunal Federal, o governo catarinense invocou como
argumento o fato de o estado possuir a “maior população branca do país”,
afirmação que tornou explícito o conteúdo discriminatório da iniciativa. Na
mesma sessão, foram aprovados um projeto que retomava a lógica do “Escola sem
Partido”, restringindo conteúdos considerados ideológicos, e outro que
determinava a instalação de câmeras nas salas do Ensino Médio. A articulação
dessas medidas revela uma ofensiva política mais abrangente contra a reparação
racial, a autonomia universitária e a liberdade de ensino. Sancionada em
janeiro de 2026, a lei contra as cotas foi declarada integralmente
inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal em abril.
Na
Europa, as campanhas contra a chamada “ideologia de gênero” acompanham
tentativas de restringir direitos reprodutivos, impedir políticas educacionais
sobre diversidade e limitar o reconhecimento jurídico das pessoas LGBTQIA+. No
Brasil, o bolsonarismo reuniu o combate às políticas de gênero, a hostilidade
às ações afirmativas, o ataque aos direitos indígenas e a desqualificação dos
movimentos sociais em uma mesma guerra cultural. Essa articulação permanece no
Congresso Nacional, nos governos locais e nas redes digitais, influenciando
partidos que evitam uma identificação direta com o bolsonarismo, mas incorporam
partes de sua agenda.
A
guerra cultural também protege interesses econômicos. No Brasil, setores
bolsonaristas apresentam o Bolsa Família como um “privilégio” concedido aos
pobres e difundem a ideia de que o programa estimularia a acomodação e
afastaria seus beneficiários do trabalho formal. Essa interpretação
responsabiliza as próprias famílias por sua condição de pobreza, ignora a
precariedade dos empregos disponíveis e desqualifica uma política destinada a
assegurar condições mínimas de sobrevivência. Ao convencer trabalhadores de que
seus adversários são os beneficiários de programas sociais, as minorias ou os
imigrantes, a extrema-direita desloca a insatisfação produzida pela
concentração de renda e pela precarização do trabalho. O ressentimento é
dirigido contra os que possuem menos poder, enquanto os benefícios fiscais, as
isenções e os privilégios destinados aos grupos economicamente dominantes
permanecem fora do centro do debate.
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A violência incorporada à vida pública
A
violência neofascista desenvolve-se pela alteração gradual dos limites do que
pode ser dito, tolerado e praticado na vida pública. Quando autoridades tratam
imigrantes como invasores, associam minorias à degeneração moral, apresentam
indígenas como obstáculos ao desenvolvimento ou classificam defensores dos
direitos humanos como inimigos, transformam grupos sociais em ameaças. Essa
linguagem autoriza indivíduos e organizações a intimidar aqueles que foram
previamente desvalorizados e cria condições para que instituições policiais e
administrativas ajam com maior severidade ou deixem de oferecer a proteção
devida. A violência social e a violência institucional passam, assim, a se
alimentar do mesmo ambiente político.
O
bolsonarismo conferiu visibilidade a essa lógica pela exaltação das armas, pelo
elogio à ditadura, pela defesa da brutalidade policial e pelo desprezo às
vítimas de violações. A tentativa de ruptura institucional que culminou nos
ataques de 8 de janeiro de 2023 demonstrou que essa linguagem podia
converter-se em ação coletiva contra o resultado eleitoral. Dois anos antes, em
6 de janeiro de 2021, apoiadores de Donald Trump haviam invadido o Capitólio
dos Estados Unidos para impedir a confirmação da vitória de Joe Biden, depois
de serem mobilizados por acusações infundadas de fraude eleitoral. A
proximidade entre os dois acontecimentos revela um repertório político comum ao
trumpismo e ao bolsonarismo, baseado na recusa da derrota, na deslegitimação
das instituições e na aceitação da violência como instrumento de disputa pelo
poder.
A
extrema-direita procura apresentar a compaixão como fraqueza e a violência como
demonstração de coragem. Direitos humanos são desqualificados como obstáculos à
ordem, garantias jurídicas são tratadas como proteção indevida a criminosos e
políticas de prevenção são substituídas pela promessa de punição. Essa
transformação moral prepara a sociedade para aceitar níveis crescentes de
violência desde que suas vítimas pertençam aos grupos previamente
desvalorizados.
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Os imigrantes convertidos em inimigos sociais
A
imigração tornou-se um dos principais instrumentos de mobilização da
extrema-direita nos Estados Unidos e na Europa. Guerras, mudanças climáticas,
perseguições e desigualdades econômicas são substituídas pela imagem de uma
invasão, e os imigrantes passam a ser responsabilizados pelo desemprego, pela
criminalidade e pela sobrecarga dos serviços públicos. Em março de 2026,
especialistas das Nações Unidas advertiram que a retórica racista de dirigentes
norte-americanos, associada ao endurecimento da política migratória, ampliava a
discriminação, o medo e o risco de violações.
O
segundo governo Trump intensificou detenções, deportações e restrições ao
asilo. Em fevereiro de 2025, duzentas pessoas de diferentes nacionalidades,
entre elas 81 crianças, foram expulsas para a Costa Rica, embora muitas
buscassem proteção nos Estados Unidos. Em setembro de 2026, o Departamento de
Justiça ameaçou retirar recursos federais de estados que se recusassem a
fornecer informações sobre imigrantes sem documentação mantidas por
universidades e outros órgãos públicos. A medida utilizava recursos destinados
a serviços sociais como instrumento de pressão para ampliar a perseguição
migratória.
A
desumanização alcançou um novo patamar em setembro de 2026, quando a Casa
Branca lançou em seu site oficial jogos eletrônicos inspirados em títulos
populares. Em Rio Run, semelhante ao jogo da cobrinha, o participante
acumula pontos ao capturar e deportar imigrantes. Em Build the Wall,
inspirado em Tetris, blocos são empilhados para impedir a aproximação de
pessoas descritas como uma “horda”. Ao converter perseguição, detenção e
deportação em entretenimento livremente acessível, inclusive às crianças, o governo
Trump banaliza o sofrimento humano e ensina o público a enxergar imigrantes
como alvos desprovidos de identidade e direitos.
Na
Europa, o crescimento da extrema-direita levou partidos tradicionais a
incorporar propostas mais repressivas. A transformação do discurso xenófobo em
política institucional tornou-se explícita em junho de 2026, quando o
Parlamento Europeu aprovou o Regulamento de Retorno, que amplia detenções e
deportações e permite a criação de centros de retorno fora da União Europeia.
Após a votação, parlamentares da extrema-direita comemoraram no plenário aos
gritos de “mandem-nos de volta”. A cena eliminou qualquer aparência humanitária
da nova política e mostrou como o racismo e a xenofobia passaram a influenciar
decisões centrais das instituições europeias.
A
perseguição também amplia a exploração de trabalhadores empregados na
agricultura, na construção, na alimentação e nos serviços de cuidado. A
vulnerabilidade jurídica facilita salários menores, condições precárias e o
silêncio diante de abusos. As políticas atuais não podem ser equiparadas ao
extermínio promovido pelo nazismo, mas reproduzem um de seus fundamentos
políticos: a redução de grupos inteiros a uma identidade negativa, a atribuição
coletiva de culpa por problemas sociais e a perda progressiva da condição de
sujeitos portadores de direitos.
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Um Estado menor para os direitos e maior para a repressão
No
Brasil, o governo Bolsonaro demonstrou que a defesa de um Estado menor não
significava a redução uniforme do poder público. Enquanto políticas
trabalhistas, ambientais, indigenistas e de participação social eram
enfraquecidas, ampliavam-se a presença de militares na administração federal, o
acesso a armas e munições e a legitimidade concedida às soluções policiais. O
Estado recuava em sua responsabilidade de proteger direitos, mas fortalecia sua
capacidade de vigiar, intimidar e reprimir. Essa seletividade também apareceu
durante a pandemia, quando a proteção da população foi subordinada a interesses
econômicos e as consequências mais graves recaíram sobre trabalhadores, pessoas
pobres, indígenas e moradores das periferias.
Um
estudo de 2025 caracteriza o bolsonarismo como uma coalizão de extrema-direita
formada por neofascismo, ultraliberalismo, conservadorismo cristão e
autoritarismo militar. Esses componentes desempenham funções diferentes, mas
convergem na reconstrução de uma sociedade mais desigual e autoritária. O
ultraliberalismo oferece justificativa para reduzir direitos e
responsabilidades sociais do Estado; o conservadorismo cristão transforma
gênero, sexualidade e organização familiar em objetos de controle político; o
autoritarismo militar valoriza a hierarquia, as armas e a repressão; e o
neofascismo articula esses elementos por meio do culto ao líder, da fabricação
de inimigos e da hostilidade ao pluralismo.
Essa
orientação não desapareceu com o fim do governo Bolsonaro. Sua influência
permanece no Congresso Nacional, nos governos estaduais e nas administrações
municipais por meio de propostas que restringem direitos trabalhistas,
enfraquecem a legislação ambiental, dificultam as demarcações indígenas e
atacam políticas de diversidade. O relatório sobre a violência contra os povos
indígenas em 2025, divulgado pelo Conselho Indigenista Missionário em agosto de
2026, relacionou o crescimento dos conflitos territoriais à pressão política e
econômica contrária às demarcações. A continuidade dessas agressões demonstra
que a extrema-direita conserva poder legislativo, econômico e territorial mesmo
quando não controla o governo federal.
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A agenda social como compromisso civilizatório
O
retrocesso civilizatório avança quando a sociedade se acostuma a distinguir
entre vidas merecedoras de proteção e vidas que podem ser expostas à fome, à
discriminação, à expulsão ou à violência. A preservação das instituições
formais não compensa o esvaziamento cotidiano da igualdade e da dignidade.
Combater
o neofascismo exige enfrentar o projeto social que lhe confere conteúdo,
marcado pela reconstrução das hierarquias, pela redução dos direitos e pela
transformação de grupos vulneráveis em inimigos. A democracia perde substância
quando parcelas da população conservam o direito de votar, mas permanecem
desprotegidas diante da miséria, do racismo, da exploração e da perseguição
estatal.
A
agenda social não constitui um conjunto de favores concedidos a grupos
particulares, mas expressa a responsabilidade coletiva diante das desigualdades
que impedem milhões de pessoas de exercer plenamente sua liberdade. Direitos
trabalhistas, proteção social, políticas antidiscriminatórias, acolhimento
humanitário e reconhecimento da diversidade pertencem ao mesmo processo
histórico de ampliação da cidadania. Ao apresentar a perda de direitos como
recuperação da ordem e a exclusão como defesa da maioria, a extrema-direita
procura inverter esse processo. Uma sociedade não se torna mais segura quando
abandona os vulneráveis, nem mais livre quando transforma diferenças em
ameaças.
Fonte: Por
Reinaldo Dias, em Outras Palavras

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