segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Inquérito das fake news: relembre decisões que marcaram a investigação

Aberto há 7 anos para investigar ataques, ameaças e notícias falsas contra o Supremo Tribunal Federal (STF), o chamado inquérito das fake news acumulou, ao longo dos anos, decisões que ampliaram o alcance da investigação e geraram controvérsias dentro e fora da Corte.

•        🔎O Inquérito das Fake News é uma investigação aberta pelo STF em 2019 para apurar a existência de notícias fraudulentas, falsas comunicações de crimes, denúncias caluniosas, ameaças e outros ataques contra o STF, seus ministros e familiares.

•        Após decisão do presidente do Supremo, Edson Fachin, desta quarta-feira (9), a relatoria do caso que estava com o ministro Alexandre de Moraes passa para ele.

<><> Relembre as decisões que marcaram a investigação:

Em abril de 2019, Moraes determinou a retirada do ar da reportagem "O amigo do amigo do meu pai", publicada pela revista Crusoé e reproduzida pelo site O Antagonista. A decisão gerou forte reação de entidades de imprensa e juristas, que a classificaram como censura prévia.

Dias depois, a decisão foi revogada. Até hoje, esse episódio é frequentemente citado como um dos momentos mais controversos do inquérito.

A investigação também foi usada para bloquear contas de influenciadores em redes sociais e determinar buscas, apreensões e e quebras de sigilo.

O inquérito levou ao bloqueio de contas em redes sociais, buscas e apreensões e quebras de sigilo de diversos influenciadores e ativistas políticos.

Entre os casos mais conhecidos estiveram investigações contra Allan dos Santos, Oswaldo Eustáquio e outros influenciadores ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Relembre nesta reportagem episódios que marcaram o inquérito:

<><> Prisão de deputado

Em 2021, o então deputado federal Daniel Silveira foi preso após divulgar um vídeo com ameaças a ministros do STF e defesa de medidas autoritárias contra a Corte.

Embora o processo que resultou na condenação tenha seguido caminho próprio, a investigação teve origem no contexto das apurações relacionadas ao inquérito das fake news e seus desdobramentos.

<><> Sigilo da fonte

Mais recentemente, outro caso que ganhou relevância foi o do jornalista Luís Pablo, jornalista que mantém um blog no Maranhão e que publicou reportagens sobre o suposto uso de veículo oficial ligado ao Tribunal de Justiça do Maranhão pelo ministro Flávio Dino e familiares.

Ele acabou sendo alvo de busca e apreensão autorizada por Alexandre de Moraes no âmbito do inquérito.

A investigação menciona suspeitas de perseguição ("stalking") e monitoramento ilegal de autoridade.

<><> Investigação contra partido

Outro caso que ganhou repercussão, em 2022, foi o do Partido da Causa Operária (PCO).

A sigla passou a ser investigada no inquérito após publicar críticas duras contra ministros do STF, especialmente Alexandre de Moraes.

O partido chegou a ter perfis em redes sociais suspensos por determinação judicial.

<><> Vazamentos de dados de ministros

Também foi dentro do inquérito das fake news que Moraes começou a apurar acessos e vazamentos de dados fiscais sigilosos de ministros do STF e de seus familiares.

A PF chegou a cumprir mandados de busca e apreensão contra servidores em três estados.

Moraes também decretou a quebra de sigilo bancário dos investigados com o objetivo de descobrir se as informações eram vendidas.

•        Lula foi alvo de 1 em cada 4 conteúdos com IA publicados na pré-campanha

O presidente Lula (PT) foi o principal alvo de conteúdos com uso de inteligência artificial durante a pré-campanha, aponta levantamento do Observatório IA nas Eleições. Ao todo, foram 112 casos identificados com reprodução artificial da imagem ou voz do presidente.

Adversário de Lula na disputa presidencial, o senador Flávio Bolsonaro (PL) foi o segundo principal alvo de conteúdos sintéticos, com 57 casos. Na sequência, aparecem Jair Bolsonaro (PL), o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL).

O levantamento identificou 413 casos de uso político da tecnologia nas redes sociais, uma média de 1,8 caso por dia, no período entre 1º de janeiro e 15 de agosto.

O observatório é uma iniciativa conjunta da Data Privacy, entidade que atua com privacidade e proteção de dados, e do Aláfia Lab, laboratório de pesquisa em internet e política.

Em relatório divulgado nesta segunda-feira (14), o observatório apontou que 81% dos conteúdos de inteligência artificial identificados no período da pré-campanha eram deepfakes, ou seja, tinham manipulação de imagens ou falas de figuras públicas.

<><> Pesquisa

A pesquisa também indicou que 63% das publicações com uso de inteligência artificial identificadas neste período não as identificavam como conteúdos sintéticos.

Nos dois casos, o conteúdo vai na contramão das regras estabelecidas pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para o uso de inteligência artificial nas eleições.

Em resolução publicada em março, a Justiça Eleitoral determinou que as candidaturas informem de maneira explícita, destacada e acessível quando um conteúdo tiver sido fabricado ou manipulado, além de informar qual tecnologia foi usada.

A corte também estabelece restrições específicas aos chamados deepfakes, quando áudios e vídeos são manipulados digitalmente para criar, substituir ou alterar a imagem ou a voz de uma pessoa. O uso deste tipo de conteúdo é vetado seja para prejudicar, seja para favorecer uma candidatura.

Um dos casos mais emblemáticos foi a transmissão de um conteúdo que simulava um discurso do ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar, na convenção partidária que referendou a candidatura à Presidência do senador Flávio Bolsonaro.

Na época, o TSE estabeleceu que este tipo de conteúdo poderia ser considerado ilícito eleitoral se fosse usado para propaganda ao público externo. Como a sua divulgação foi no âmbito de uma convenção, voltada para o público interno do partido, não houve punição.

A maioria dos conteúdos com inteligência artificial foi publicado por pessoas anônimas, mas ao menos 35% vieram de agentes políticos, sendo 92 publicações feitas por políticos e 53 por partidos.

O político que mais publicou conteúdos sintéticos neste período foi Flávio Bolsonaro, com 13 casos. Na sequência, aparecem o deputado federal Mário Frias (PL-SP), o ex-governador Romeu Zema (Novo-MG), o deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

Entre os partidos, o PL aparece com 28 publicações, seguido por PT, com quatro, e PSDB, com duas. Republicanos, União Brasil, PSOL e MDB também tiveram ao menos uma publicação identificada.

O levantamento ainda aponta que 60% dos conteúdos sintéticos que circularam na pré-campanha eram de sátira ou humor, enquanto 40% foram classificados como desinformação.

Ao todo, 64% dos conteúdos eram críticas ou ataques políticos, enquanto 34% eram usados para elogiar ou endossar políticos e causas. Em seis casos, imagens de políticos foram utilizadas para aplicar golpes virtuais.

Entre os casos considerados mais graves no relatório estão manipulações usadas em ataques contra mulheres. O observatório identificou imagens adulteradas da deputada Érika Hilton (PSOL-SP) e um deepfake da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF).

A principal plataforma de circulação dos conteúdos foi o Instagram, com 50% dos casos. O TikTok aparece em seguida, com 21%, e o X, com 16%. Também foram registrados casos, em menor número, no Facebook, YouTube e Kwai.

Além das imagens e vídeos manipulados, o observatório testou o comportamento de ferramentas de inteligência artificial generativa diante das regras eleitorais.

Entre abril e agosto, cinco chatbots gratuitos disponíveis no Brasil, ChatGPT, Gemini, Grok, DeepSeek e Meta AI, foram submetidos mensalmente a 11 perguntas idênticas. O objetivo era verificar se as ferramentas atuaram para ranquear, traçar perfis e recomendar pré-candidatos à Presidência.

A pesquisa apontou que as empresas não seguiram as novas regras do TSE, fornecendo informações, orientações ou indicações que, segundo o observatório, poderiam influenciar o debate público e a escolha do voto.

•        Hackers usam sites de Cury e do PT para alavancar bets e conteúdo sobre prostituição

Hackers usaram o site institucional do candidato à Presidência Augusto Cury (Avante) e o portal do PT na Bahia para publicar links de bets e conteúdo relacionado a prostituição, numa tentativa de alavancar páginas de terceiros em mecanismos de pesquisa.

A técnica, conhecida como SEO parasita, explora a reputação de sites legítimos para dar relevância ao conteúdo malicioso inserido pelos invasores. No endereço ligado a Cury, foram inseridos links e referências a plataformas de apostas e uma lista de URLs com títulos ou descrições sobre páginas de acompanhantes. No caso do PT da Bahia, textos inteiros sobre cassinos ficaram acessíveis no portal do partido.

Procurados, a campanha de Cury e o PT da Bahia não responderam à reportagem.

Falhas nas plataformas usadas para criar e administrar sites e suas extensões são uma porta de entrada frequente para esse tipo de ataque, de acordo com Fernando Amatte, consultor de segurança digital da Oakmont Group.

Quando uma vulnerabilidade é descoberta, diz, cabe aos responsáveis atualizá-los ou substituí-los.

“Aquele sistema tem uma falha e, de repente, a gente tem um milhão de sites usando o mesmo componente com aquela falha”, diz Amatte. “Na grande maioria das vezes, existem versões novas e as pessoas continuam usando versões antigas.”

Se o sistema estiver mal configurado ou desatualizado, explica o especialista, conteúdo enviado dessa forma pode ser publicado automaticamente, sem passar por revisão.

No site de Cury, referências e links para plataformas de apostas apareceram em meio ao conteúdo sobre livros, filmes, palestras e a trajetória do escritor e psiquiatra.

Arquivos chamados “llms.txt” são uma espécie de manual de instruções para IAs que navegam a internet: publicados na raiz de um site, eles orientam como sistemas de IA devem ler e resumir o conteúdo daquele site a usuários.

No endereço de Cury, esse arquivo reúne ao menos 55 URLs cujos títulos ou descrições fazem referências explícitas a apostas e prostituição, em idiomas como português, russo, alemão e turco.

O objetivo de espalhar o mesmo conteúdo por diferentes domínios é fazer com que mecanismos como o Google interpretem a página promovida como relevante. A repetição em grande escala costuma ser feita por programas automatizados.

“O site do Augusto Cury foi só um dano colateral para que esses sites aparecessem nas primeiras buscas”, diz.

No caso do PT da Bahia, a página inicial e a seção de notícias exibiram textos sobre cassinos e plataformas de apostas entre publicações partidárias.

Os textos apareceram em diversos idiomas e, em alguns casos, direcionam o leitor a endereços externos relacionados a cassinos.

Amatte afirma que o risco para o usuário varia conforme o objetivo dos responsáveis pelo ataque. Os links podem levar a páginas de apostas ou pornografia, exibir anúncios que remuneram os operadores ou induzir o visitante a baixar arquivos maliciosos.

•        Como a teoria falsa de que Lula morreu ameaça a democracia

Desde 2022, circula na internet a teoria da conspiração de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria morrido, e um sósia dele estaria ocupando o cargo. A teoria é impulsionada por influenciadores nas redes sociais e, neste ano de eleições, voltou a viralizar com ajuda da inteligência artificial (IA).

Em agosto, uma pesquisa do Instituto Meio/Ideia indicou que um a cada oito eleitores (12,5%) acredita que Lula foi substituído por um clone ou sósia. Entre os que dizem que vão votar no senador Flávio Bolsonaro para presidente, a proporção sobe para um a cada cinco (20%).

A tecnologia vem sendo usada pra alterar imagens do presidente e colocar em xeque a identidade dele.

Uma foto, por exemplo, mostra Lula com cinco dedos na mão esquerda. O presidente perdeu o mindinho em 1964, num acidente quando era metalúrgico.

Agências checadoras já analisaram a imagem e diagnosticaram que ela foi editada e manipulada com IA. Outros registros do mesmo dia mostram, corretamente, Lula com quatro dedos na mão esquerda.

<><> Lula já comentou o caso

Há outro vídeo que mostra Lula com dez dedos, mas foi publicado por petistas. Neste caso, o que aconteceu foi um efeito colateral inesperado de uma edição com ajuda de IA para fins estéticos. O erro acabou servindo para alimentar a teoria conspiratória.

O próprio presidente já chegou a rir publicamente do boato, que busca minar a confiança dos cidadãos na democracia brasileira.

Como outras teorias conspiratórias, o objetivo é fazer as pessoas acreditarem que estão sendo constantemente manipuladas por um sistema malicioso contra a população.

E que, portanto, não há motivo para confiar nas instituições criadas para garantir a ordem constitucional e o Estado democrático de direito no Brasil.

 

Fonte: g1/Folhapress/DW Brasil

 

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