Por
que as mortes por overdose de fentanil caíram vertiginosamente nos EUA
Por 15
anos, as mortes causadas pelo consumo de fentanil nos Estados Unidos
apresentaram aumentos contínuos. Até que, em meados de 2023, elas
repentinamente desabaram.
No
final de 2024, o número havia caído em mais de um terço.
Este
fenômeno não aconteceu apenas nos Estados Unidos. As mortes também diminuíram
muito no Canadá.
Esta é
uma notícia fantástica, mas não deixa de ser preocupante que os pesquisadores
não saibam ao certo os motivos que levaram a esta queda tão repentina e
significativa. Não houve nenhum grande avanço da medicina, nem uma iniciativa
nacional de criação de novos centros de reabilitação.
Isso
levou a equipe do professor Keith Humphries, da Universidade de Stanford, no
Estado americano da Califórnia, a investigar as possíveis causas e publicar um
estudo expondo suas hipóteses sobre os reais motivos que levaram à queda das
overdoses mortais e qual a probabilidade de que esses índices se mantenham no
futuro.
LEIA A
ENTREVISTA:
• Professor, o senhor e seus colaboradores
escreveram um artigo sobre o que vocês acreditam que esteja por trás dessa
redução dramática das mortes em 2023. O que vocês concluíram?
Keith
Humphries - Para entender o artigo, preciso explicar rapidamente de onde provém
o fentanil.
O
fentanil é produzido a partir de substâncias químicas chamadas precursores, que
provêm da China.
Estas
substâncias são enviadas para traficantes na América do Norte, que fabricam a
droga com elas. Posteriormente, o produto é consumido, principalmente nos
Estados Unidos e no Canadá.
Os dois
países enfrentaram crises de opioides paralelas, iniciadas na década de 1990,
com a era dos analgésicos em comprimidos. Mas a estrutura do seu comércio
ilegal é diferente.
No caso
dos Estados Unidos, os precursores químicos chegam da China para o México. Ali,
grupos do crime organizado os processam para obter fentanil, que é transportado
por terra através da nossa fronteira sul.
Já o
Canadá conta com seus próprios grupos de fabricação ilícita. Os produtos
químicos chegam diretamente ao país, onde o fentanil é elaborado para os
consumidores canadenses.
Quando
observamos todas essas mudanças ocorrendo simultaneamente nos dois países, é
possível deduzir que a causa não pode ser um fator exclusivo do México (porque,
neste caso, só os Estados Unidos seriam afetados), nem algo próprio do Canadá,
pois teria repercutido apenas naquele país.
Qual é,
então, o denominador comum? Os precursores químicos chineses.
É
difícil obter informações sobre a China, que não é uma sociedade muito aberta.
Mas a hipótese mais plausível é que o país tenha intensificado suas medidas de
proibição contra os fabricantes de precursores.
Esta
parece ser a explicação mais lógica do motivo por que os dois países (Estados
Unidos e Canadá) vivenciaram, ao mesmo tempo e em escala nacional, uma queda
drástica do fornecimento de fentanil.
• Qual o motivo da sua confiança de que a
queda das mortes nos Estados Unidos e Canadá esteja relacionada aos precursores
que saem da China?
Humphries
– Temos total certeza de que existe uma alteração repentina da oferta, como
mostram os indicadores dos dois países.
O
componente chinês desta situação, na verdade, é uma especulação baseada em
indícios indiretos. Por que os dois países vivenciariam esta alteração ao mesmo
tempo?
É
complicado, especialmente por se tratar da China e de uma atividade ilícita.
Por isso, não podemos perguntar aos produtores (nem a mais ninguém ao longo da
cadeia de abastecimento) exatamente o que aconteceu.
Mas
podemos observar medidas nos relatórios oficiais chineses, como o fechamento de
websites e a assinatura de um acordo com os Estados Unidos em 2023, para
aumentar a pressão sobre este tipo de comércio.
As
autoridades chinesas estão plenamente conscientes de que participar do tráfico
de fentanil prejudica sua reputação internacional.
Além
disso, a tomada de medidas a respeito traz benefícios, ou seja, constitui um
trunfo nas negociações internacionais. É uma ação que eles podem empreender e
que outros países desejam ver realizada.
Estas
são todas as razões, mas insisto que se trata de especulação.
• Pode nos contar como funciona a relação
do governo chinês com os fabricantes de precursores de fentanil? Evidentemente,
não é o governo que está fabricando essas substâncias para exportá-las em
seguida.
Humphries
– É uma sociedade diferente. Por isso, a separação entre a empresa privada e o
governo nem sempre é clara, como ocorre nos Estados Unidos ou no Canadá. Mas a
produção é ilegal.
Ela é
provavelmente feita por pessoas que mantêm vínculos com a indústria legal, mas
não é dirigida pelo governo. E, claramente, o governo tem a capacidade de
suprimir este comércio e acredito que tenha demonstrado, agora, a vontade de
fazê-lo.
• Imagino que uma boa notícia decorrente
da sua investigação é, sobretudo, que o número de mortes diminuiu. A outra é
que a diplomacia funciona e que, se interagirmos com a China, podemos alterar
seu comportamento de forma que nos beneficie aqui, na América do Norte. Mas não
posso deixar de pensar que a má notícia é que isso, agora, é controlado pela
China, não algo que nós estejamos fazendo. Ou seja, nós não alteramos
necessariamente o comportamento dos americanos, não encontramos tratamentos
mais eficazes, nem investimos em centros de reabilitação. De certa forma, nós
dependemos dos chineses. E, se eles reduziram a quantidade de fentanil sendo
exportada, é possível supor que eles poderão reverter a situação.
Humphries
– Pois esta é a grande incógnita. Será a mudança da oferta um fenômeno
duradouro?
O que
todos nós observamos com certa preocupação neste momento é se o número de
mortes voltará a aumentar.
Até
agora, não foi o que aconteceu, o que é notável e parece sugerir que o choque
na oferta persiste. Mas isso não significa que as pessoas que se encontram no
Canadá ou nos Estados Unidos não podem tomar ações a respeito.
A
prestação de tratamento salva vidas. Resgatar as pessoas com medicamentos de
emergência contra overdoses salva vidas e foi o que aconteceu ao longo de todo
este processo, que já dura 30 anos.
O que
não pode ser feito é transformar radicalmente toda a situação em questão de
seis meses, pois desenvolver estes sistemas exige muito tempo.
Por
isso, reconhecer o impacto do choque na oferta não diminui a importância dos
serviços de saúde destinados às pessoas que enfrentam problemas de consumo de
drogas.
• Se o senhor tivesse uma varinha mágica
para influenciar agora mesmo as políticas públicas, neste período em que as
mortes diminuíram, o que o sr. faria para promover a resiliência do país,
frente à possibilidade de que a China volte a aumentar a exportação de
precursores de fentanil?
Humphries
– Existe aqui uma grande oportunidade, como destacamos no nosso estudo, que é a
seguinte: à medida que a droga fica mais difícil de conseguir, mais cara e de
menor potência, a experiência de consumir fentanil passa a ser menos
gratificante.
Aqui se
apresenta, portanto, uma grande oportunidade de oferecer tratamento às pessoas
que sentem que o seu consumo chegou a um ponto crítico (o pior momento da sua
convivência com a droga) e desejam abandoná-la.
É o que
eu faria a curto prazo, para fazer uso desta conjuntura incomum.
A longo
prazo, em um mundo de comércio global e internet, sempre haverá oferta para
atender à demanda. Por isso, se a China se retirar totalmente deste mercado,
ele poderá se transferir para a Índia, por exemplo, para a Tailândia ou para
algum país similar.
Consequentemente,
todas as nações devem implementar medidas para reduzir a demanda, pois, cedo ou
tarde, alguém acabará fornecendo fentanil ou até alguma droga ainda pior.
• O único ponto que falta destacar é a
tentativa de controlar as fronteiras, seja no Canadá ou nos Estados Unidos.
Humphries
– É preciso manter certo controle das fronteiras por diversas razões, não só
pelo tema das drogas. Mas o retorno do investimento atinge seu limite com muita
rapidez.
Em
outras palavras, se triplicássemos o número de guardas na fronteira ou de
inspeções de caminhões, interceptaríamos mais drogas, mas não o triplo da
quantidade.
É
importante que as pessoas saibam que elas não podem simplesmente transportar a
mercadoria abertamente em caminhões, mas as possibilidades de atuação neste
nível têm limite.
Por
outro lado, em relação à aplicação da lei neste particular, as medidas
policiais são fundamentais, mas podem trazer graves efeitos colaterais.
Como
observamos durante a "guerra contra as drogas", as detenções em massa
em bairros pobres geram problemas. O lado positivo é que, até onde sabemos, não
houve detenções, nem foram gerados efeitos colaterais.
Trata-se,
portanto, de uma forma de intervenção que altera as rotas reais do tráfico de
drogas e nos permite atingir nosso objetivo, sem causar o sofrimento que tanto
preocupa muitas pessoas de bom senso.
• O senhor estuda e trabalha neste tema há
anos. Qual é a sua opinião sobre esta queda? Imagino que o senhor tenha ficado
entusiasmado com a ocorrência da redução. Mas também me pergunto se existe
certo receio por ser algo que não podemos controlar por completo, como
consumidores aqui ou no Canadá.
Humphries
– Fico muito satisfeito porque estive muito próximo da realidade da adicção
durante os 35 anos em que realizo este trabalho.
Faço
voluntariado em um bairro de São Francisco chamado Tenderloin, onde encontro
muitas pessoas sob os efeitos agudos desta droga tão incapacitante. Por isso,
sempre que esses números diminuem, sinto uma imensa alegria.
Fico
muito feliz ao ver alguém superar a dependência do fentanil e empreender o
caminho da recuperação. É compreensível que as pessoas desanimem e sintam que
nada pode funcionar, mas acredito que isso demonstre que existem soluções
eficazes.
É claro
que a China atingiu resultados, mas, naturalmente, foi graças à diplomacia.
E é
algo que nós também podemos fazer: manter boas relações com outros países que
podem nos auxiliar. Estou certo de que encontraremos formas de também
ajudá-los.
Fonte:
BBC News

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