Alzheimer
pode ser prevenido? 14 fatores que ajudam a reduzir o risco
Uma das perguntas que mais ouço no consultório
é: “Doutor, o que eu posso fazer para prevenir o Alzheimer?”. A resposta exige
algum cuidado. Não existe uma fórmula capaz de garantir que uma pessoa nunca
desenvolverá a doença. Entretanto, hoje sabemos que uma parcela importante do
risco de demência está relacionada a fatores que podem ser modificados ao longo
da vida.
Em
2024, a Comissão Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidados em demência
atualizou a relação de fatores potencialmente modificáveis, que passou de 12
para 14. Isso significa que temos diferentes frentes nas quais podemos atuar
para diminuir a probabilidade de desenvolver Alzheimer e outros quadros
demenciais. Não é uma garantia, mas é uma oportunidade concreta de prevenção.
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Educação e a construção da reserva cognitiva
O
primeiro fator é a baixa escolaridade. Existe um conceito importante em
neurologia chamado reserva cognitiva. Podemos imaginá-la como uma espécie de
poupança que construímos durante a vida. Quanto mais aprendemos e estimulamos
nosso cérebro, maior tende a ser essa reserva.
E isso
não significa apenas educação formal. Ler, estudar, assistir a bons filmes e
documentários, aprender coisas novas e manter atividades intelectuais são
formas de estimular continuamente o cérebro. Essa construção começa na infância
e deve continuar durante toda a vida.
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Colesterol, diabetes, hipertensão e obesidade
Vários
dos fatores associados à demência também são velhos conhecidos da prevenção
cardiovascular. O colesterol LDL elevado, especialmente na meia-idade, integra
atualmente a lista de fatores modificáveis. Por isso, alimentação equilibrada,
acompanhamento médico e controle dos níveis de colesterol são importantes não
apenas para o coração e os vasos, mas também para a saúde cerebral.
O mesmo
vale para a hipertensão arterial, muitas vezes silenciosa, e para o diabetes.
Alterações vasculares e metabólicas podem contribuir para lesões cerebrais e
aumentar o risco de comprometimento cognitivo. A recomendação é simples: medir
a pressão, acompanhar glicemia e colesterol e tratar adequadamente essas
condições quando presentes.
A
obesidade também precisa ser encarada como uma questão de saúde, e não apenas
estética. Ela está frequentemente associada à hipertensão, diabetes e
alterações metabólicas. Para uma pessoa com obesidade, reduzir o peso e passar
para uma condição de sobrepeso já pode representar um avanço importante. Quando
é possível atingir e manter um peso adequado, melhor ainda.
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Atividade física e contato social também protegem o cérebro
Outro
fator fundamental é a inatividade física. Não importa necessariamente se a
pessoa prefere caminhar, correr, nadar ou praticar algum esporte. O importante
é manter o corpo ativo. A atividade física favorece a saúde cardiovascular e
cerebral e, em muitas modalidades, também exige coordenação, planejamento,
estratégia e tomada de decisões.
Da
mesma forma, precisamos prestar atenção ao isolamento social. Vivemos uma época
em que podemos ter centenas ou milhares de contatos nas redes sociais e, ao
mesmo tempo, poucos relacionamentos presenciais. Encontrar amigos, conversar,
participar de atividades comunitárias, culturais ou religiosas e manter
vínculos reais significa também trocar informações e estimular o cérebro.
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Depressão e consumo excessivo de álcool
A
depressão, principalmente quando não diagnosticada ou adequadamente tratada,
também aparece entre os fatores associados ao risco de demência. Ainda existe
preconceito em relação à saúde mental, embora isso esteja diminuindo. Diante de
sintomas persistentes, é importante procurar avaliação profissional e realizar
o tratamento indicado, que pode envolver acompanhamento médico, psicológico e,
quando necessário, medicamentos.
O
consumo excessivo de álcool é outro ponto de atenção. A expressão “beber com
moderação” pode ser vaga, porque cada pessoa pode interpretar moderação de uma
maneira. O mais importante é evitar o consumo frequente e, principalmente,
quantidades capazes de produzir intoxicação. O uso abusivo e prolongado de
álcool pode causar danos importantes ao sistema nervoso.
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Audição e visão não devem ser negligenciadas
A perda
auditiva e a perda de visão não tratada merecem atenção especial. Quando alguém
começa a ouvir ou enxergar mal, pode progressivamente reduzir atividades que
estimulam o cérebro. Lê menos, acompanha menos conversas, evita determinados
ambientes e pode se isolar socialmente.
Por
isso, dificuldades auditivas não devem ser tratadas como algo que simplesmente
precisa ser aceito com o envelhecimento. Se houver indicação, usar aparelho
auditivo é uma medida de cuidado com a saúde. O mesmo raciocínio vale para
problemas de visão que podem ser diagnosticados e tratados.
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Tabagismo, poluição e traumatismos cranianos
O
tabagismo continua sendo um importante fator modificável. Houve no passado
interpretações equivocadas de estudos que sugeriam uma possível proteção da
nicotina contra Alzheimer. O problema é que fumantes muitas vezes apresentavam
menor ocorrência da doença simplesmente porque tinham menor expectativa de vida
e não chegavam às idades em que sua incidência aumenta. O cigarro compromete
vasos sanguíneos, coração, pulmões e oxigenação, com consequências também para
a saúde cerebral.
A
poluição do ar é outro fator reconhecido. Evidentemente, quem mora em uma
grande cidade não consegue simplesmente eliminar essa exposição. Parte da
solução depende de políticas públicas, mas reduzir a exposição sempre que
possível e buscar ambientes menos poluídos e mais arborizados pode fazer parte
dos cuidados com a saúde.
Por
fim, estão os traumatismos cranianos. Uma lesão cerebral importante sofrida
décadas antes pode repercutir na saúde cognitiva futura. Isso torna fundamental
adotar medidas de segurança no trânsito, no trabalho e na prática esportiva e
reduzir situações que aumentem desnecessariamente o risco de traumatismos.
Prevenção
começa muito antes da velhice
Os 14
fatores modificáveis são, portanto: baixa escolaridade, perda auditiva,
hipertensão, tabagismo, obesidade, depressão, inatividade física, diabetes,
isolamento social, consumo excessivo de álcool, traumatismo craniano, poluição
do ar, colesterol LDL elevado e perda de visão não tratada.
Talvez
o ponto mais importante seja compreender que prevenção de demência não começa
aos 70 ou 80 anos. Ela acontece ao longo de toda a vida. Educação na infância,
hábitos saudáveis na vida adulta, controle dos fatores cardiovasculares na
meia-idade e manutenção da atividade física, intelectual e social no
envelhecimento fazem parte de uma mesma estratégia.
Não
podemos controlar todos os fatores envolvidos no desenvolvimento da doença de
Alzheimer. Idade e genética, por exemplo, não podem ser modificadas. Mas existe
uma parcela sobre a qual podemos agir. Cuidar do coração, dos sentidos, da
saúde mental, das relações sociais e manter cérebro e corpo ativos é uma forma
concreta de investir hoje na saúde cognitiva que teremos no futuro.
Fonte:
Por Dr. Renato Anghinah - Neurologista e Head Nacional de Neurologia da Brazil
Health, para CNN Brasil

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