quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Aldo Fornazieri: A hora decisiva da sociedade civil e da militância

O cenário das eleições presidenciais está assentado sobre uma grande zona de indeterminação. O empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro e as análises das linhas de evolução das intenções de voto de todos os candidatos e das médias e das medianas de cada um mostram as hipóteses de três desfechos possíveis: um segundo turno, a vitória de Lula no primeiro turno e a vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno.

Com esse cenário, alguns fatores serão decisivos para definir qual desfecho se concretizará: o movimento do voto útil, as definições dos indecisos e o índice de abstenção. Esses fatores e os acontecimentos a eles adjacentes se moverão de acordo com a capacidade de cada campanha incidir sobre eles.

Além das estratégias políticas de defesa, de ataque e de proposição, a capacidade que as campanhas terão de mobilizar ativismo, militância, empatia e engajamento serão elementos definidores para promover movimentos favoráveis ou desfavoráveis dos fatores decisivos.

As últimas semanas foram marcadas por uma recuperação e estabilização das intenções de voto em Flávio Bolsonaro e uma lenta queda na avaliação do governo e nas intenções de voto em Lula. A crise do STF e o defensivismo, a abstração e a ineficiência da campanha de Lula eram os fatores que mais determinavam esse processo. A campanha de Flávio conseguiu criar um ambiente de vitória, enquanto no lado lulista havia preocupação e apatia.

Na última semana, no entanto, ocorreram mudanças significativas de ambientes que reequilibraram a disputa, melhorando as condições da campanha de Lula. A primeira mudança ocorreu no dia 15 de setembro, no confronto do STF. A forte reação dos ministros Flávio Dino, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes impediu que Flávio Bolsonaro e André Mendonça saíssem vitoriosos do confronto para abrir investigação contra Moraes.

Ao contrário do que pensa “o entorno de Lula”, se Moraes fosse processado representaria uma grande vitória para Flávio, que a cantaria em prosa e verso, faturando eleitoralmente. Ao adotar a estratégia fabiana de postergação da decisão com o pedido de vista, Dino permitiu que se abrisse uma guerra pública de desgaste contra Mendonça e seus aliados Nunes Marques e Fux, que passaram a ser suspeitos de relações escusas com Vorcaro. O desgaste da propalada aliança Lula-Moraes foi sendo diluído. Alexandre de Moraes deixou de ser o único gato pardo na noite do STF e a militância de esquerda ganhou argumentos para atacar Flávio, Mendonça e seus aliados.

Duas outras medidas também contribuíram para melhorar as condições da campanha lulista. A primeira veio da própria campanha. O defensivismo cedeu em favor do aumento do ataque a Flávio, e a propaganda de rádio e TV sofreu um freio de arrumação centrado, agora, mais em propostas concretas, com a redução de temas generalistas e abstratos como soberania, terras raras, crise do STF, legislação, emendas constitucionais, saudosismo do passado…

A mudança de tom da campanha veio acompanhada também pelo pacote de bondades: fim da taxa das blusinhas, reajuste do Bolsa Família, canetas emagrecedoras no SUS, crítica às bets, nova fase do Desenrola 2.0 e novas linhas de crédito para o agro e para a indústria. Mas a campanha precisa melhorar ainda mais, tanto na forma quanto no conteúdo.

O risco da vitória de Flávio, contudo, permanece real. É preciso projetar as consequências desse risco para além dos próximos quatro anos. Uma vitória de Flávio abre a perspectiva de uma longa hegemonia da extrema-direita, de 15 a 20 anos.

O próximo Congresso poderá ser mais conservador do que o atual. Se eleito, Flávio terá a possibilidade de indicar quatro ou cinco ministros do Supremo. Controlaria tanto o Congresso quanto o STF. Não teria nenhuma barreira de contenção. Poderia adotar medidas autoritárias sem a necessidade de apelar para os militares, sem dar um golpe clássico. Além de poder concorrer à reeleição com Flávio, a extrema-direita teria um estoque significativo de novas lideranças em projeção ou projetadas. Seria o corolário do triunfo do trumpismo e da extrema-direita na América do Sul.

As esquerdas sairiam enfraquecidas e fragmentadas da derrota, sem poder contar com Lula como coringa para eleições futuras. Além disso, teriam dificuldade de superar dois outros problemas. Por um lado, sofrem uma carência de lideranças nacionais significativas, enfraquecendo suas capacidades competitivas eleitorais. Por outro, estão extraviadas, perdidas, em termos de ideário, de narrativa, de ideologia. Perderam capacidade de convencimento, de persuasão e de inovação. A vitória de Lula lhes daria tempo e condições para enfrentar esses problemas e promover uma transição geracional.

É preciso ter consciência desses riscos para estabelecer a importância estratégica dessas eleições para o Brasil, para a América Latina e para o futuro. Essa consciência deve estabelecer o imperativo de que a vitória de Lula é uma necessidade e um dever absolutos. Esse imperativo deve dimensionar a responsabilidade de Lula, do comando da campanha, dos dirigentes dos partidos de esquerda, dos candidatos aos outros cargos eleitorais e da militância e do ativismo progressista e de esquerda.

Lula precisa fazer um urgente pronunciamento, forte e contundente, chamando a atenção para os riscos do momento para o Brasil e para o futuro, e fazendo uma convocação, uma conclamação, para que todos se mobilizem na tarefa de construir a vitória. É preciso que a campanha se torne mais empolgante, disseminadora de engajamento e entusiasmo.

Cada um de nós deve se deixar tomar e se mover por dois sentimentos: temor e esperança. Temor do advento de uma tragédia política prolongada. Esperança de que é possível evitá-la e que isto depende de cada um e de todos.

A campanha de Lula deveria ser capaz de criar uma estratégia de mobilização total nestas duas últimas semanas. Uma estratégia de ocupação de todos os espaços, físicos e virtuais. Uma estratégia de saturação de espaços com mensagens criativas e engajadoras.

As organizações da sociedade civil, os movimentos sociais e a militância podem jogar um papel decisivo na definição dessas eleições. Com sua mobilização, podem definir o lado para o qual penderá a maioria dos indecisos, podem ter um impacto importante na redução das abstenções principalmente nos setores sociais em que atuam e podem influenciar o destino e a amplitude do voto útil. As lideranças dessas organizações e movimentos precisam tomar para si a responsabilidade e a missão de desencadear essa onda de engajamento e mobilização capaz de garantir a vitória.

¨      Eleições: o que está em jogo. Por Ronaldo Lima Lins

Na Roma antiga, a República, alvo de conspirações, viu-se às voltas com um inimigo imortalizado pelas denúncias de um político famoso: Cícero. Eternizado por sua capacidade oratória, não perdoou o bandido. Denunciou-o através de discursos que ficaram conhecidos como “as catilinárias”. O inimigo do regime tinha tudo para dar um golpe de Estado e promover o autoritarismo.

Não foi uma situação única na história. Vivemos atualmente no Brasil algo semelhante, só que com as faces do bolsonarismo e de seus cúmplices, com ramificações nos Estados Unidos. O ministro André Mendonça assumiu o papel como um deles, despertando a lembrança do orador romano. É o nosso Catilina. “Até quando abusarás da nossa paciência?”. Como o seu antecessor, ficou mal na pele, desta vez graças a uma plenária do STF, quando se tornou o centro da execração pública. E a tarefa não se concentrou somente em Gilmar Mendes, que arrasou com o sujeito. Outros, incluindo Dino e Moraes (para não falar em Zanin), concluíram a iniciativa, atirando a última pá de cal no quase moribundo.

Depois do ocorrido, restam poucas dúvidas a respeito do caráter do dito-cujo ou de suas tramoias subterrâneas. Pouco importa se Cármen Lúcia ficou em cima do muro e, com seu voto, evitou se comprometer. Menos ainda importa o Fux, já há tempos associado à causa do Jair. Ou a abstenção do Nunes Marques. Também não se mostram relevantes os moralistas que acusam o tribunal de haver lavado a roupa suja em público. Tratava-se de uma questão de respeito por si mesmos que os magistrados realizassem aquele balanço.

Transformado em “Pixuleco” nas manifestações do dia 1º em São Paulo, o terrivelmente conspirador terá muito a explicar. Tramas golpistas, em outras épocas, implicavam bases nos quartéis. Com Dilma Rousseff, houve anuência parlamentar. Agora, para tanto, pretende-se uma implosão jurídica via Supremo. Não conseguirão. O país se cansou de tais anomalias. O bom senso julgará Alexandre de Moraes. E, enquanto isso, que vença o melhor, Luiz Inácio Lula da Silva, que dispõe de programa, biografia e dignidade comprovada. As mãos sujas estão do outro lado. Saberemos preservar a nossa soberania, inclusive das interferências externas — diga-se Trump. Espiões e traidores irão para o lixo da história.

¨      Na eleição mais complexa da história do País, eleitor já tem informação suficiente para tomar decisão simples. Por Marco Damiani

É uma contradição aparente, mas a estratégia bolsonarista composta de mentiras em pronunciamentos, trapaças nos bastidores e busca por interferência externa ao ambiente eleitoral do País está fazendo muito bem para o esclarecimento do eleitorado. A 13 dias das urnas, nunca estiveram tão claras como agora as diferenças de caráter, propostas e compromissos entre o presidente Lula e o extremista Flávio Bolsonaro, os dois principais candidatos na disputa.

Bolsonaro está inteiramente associado, com orgulho e desejo, à submissão do Brasil aos interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos. Ele prometeu ao governo americano, em uma eventual etapa de transição, participação com direito a indicação e aprovação de nomes e rumos para postos-chave de uma futura administração bolsonarista no Brasil. Na mesma toada, ele projeta uma política econômica na qual o modelo praticado na Argentina por Javier Milei será “o exemplo”, o que significa cortes em investimentos sociais, arrocho sobre o salário mínimo e redução de direitos trabalhistas.

Lula, ao contrário, prega pela soberania nacional e pratica uma política econômica pautada por crescimento econômico, incentivo ao consumo e ampliação dos programas sociais. No campo do trabalho, o presidente atuou a favor da implantação da escala 5×2; Flávio jogou abertamente pela permanência da 6×1. Em propaganda no horário eleitoral, o presidente garante que continuará corrigindo o salário mínimo acima da inflação, enquanto o adversário deixa claro, em suas conversas com banqueiros e empresários, que irá mudar essa regra.

No terreno institucional, o presidente deixou clara, em comício em Santa Catarina, na semana passada, mais uma diferença fundamental em relação ao candidato da extrema-direita. “Ele quer livrar Bolsonaro da cadeia, eu quero mantê-lo preso”, cravou Lula. Em torno da crise do STF, o candidato à reeleição sustenta a necessidade de uma reforma completa no Poder Judiciário, enquanto Flávio diz que irá atuar pesado pelo impeachment de Alexandre de Moraes e gaba-se do poder de nomear cinco ministros para a Corte, em caso de vitória. Da lavra dele virão perfis semelhantes aos de André Mendonça e Nunes Marques, indicados por seu pai e envolvidos de toga inteira em ligações inconfessáveis com Daniel Vorcaro e o Banco Master. Lula quer nomes que se pareçam muito mais com Flávio Dino, indicado por ele em novembro de 2023 para o Supremo e referência de saber jurídico na Corte.

Na parte do famoso bordão “diga-me com quem andas e te direi quem és”, Flávio se apresenta ao lado de um vice, o deputado Alfredo Gaspar, envolvido em um obscuro caso de abuso sexual contra vulnerável. Na chapa de Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin segue na mesma posição e como um dos principais veículos de diálogo com o empresariado nacional. O presidente ganha o apoio espontâneo de artistas consagrados pelo público, já o filho de Bolsonaro ressuscita milicianos como Fabrício Queiroz e o advogado Frederick Wassef.

Apesar de toda a fumaça lançada pelo bolsonarismo para poluir o ambiente eleitoral, as grandes diferenças que definem o voto estão nítidas. O eleitor não tem o direito de dizer que não está bem informado. Flávio é a certeza de crises em várias frentes. Lula é a manutenção da estabilidade do País, tal como todos vimos nos últimos quatro anos. A eleição é complexa, mas nunca foi tão fácil para o eleitorado discernir quem é quem.

¨      A hora do entusiasmo! Por Emir Sader

Alguns dizem que sentem medo. E têm razão. Outros dizem que entram em pânico. Poderia ser. Outros ainda dizem que sentem susto. E têm razão.

Mas o nosso sentimento maior tem que ser o do entusiasmo, que é o que vai nos levar a acabar com o medo, o pânico e o susto e nos conduzir à vitória!

E temos muitas razões para o entusiasmo. Lula fez uma nova caravana por quase todo o país, com imensas manifestações, até em Santa Catarina! Seu discurso, que alguns acham antigo, fala da superação da fome, das conquistas do seu governo, dos empregos criados e por criar. Fala sobre as necessidades das pessoas. Dá continuidade ao discurso do combate às desigualdades, ao feminicídio e a todas as formas de violência.

Foi com esse discurso que ele, usando toda a sua imensa força, circulou todos os dias, fazendo um comício em algum lugar do Brasil. Foi admirável sua força, sua disposição, sua saúde. Parecia um menino, pelo seu entusiasmo, pela confiança no nosso discurso, pela sua voz, que mal aguentava.

Temos que seguir esse entusiasmo. Estamos vivendo hoje, por todo o Brasil, movimentos de mobilização popular como não havia há muito tempo. Movimentos populares, com confiança na vitória. Estamos navegando em uma nova onda de luta de massas como não conseguíamos desencadear havia muito tempo.

Impressionante o nosso querido Lula! Dá-nos orgulho ter um líder como ele! Com seu vigor, com a confiança que transmite às pessoas. Aclamado em todos os lugares por onde anda!

Temos que empunhar toda a nossa capacidade de entusiasmo, porque é a reta final. É a hora do entusiasmo, da militância, do vigor, do grito, da luta popular. Temos um enorme arsenal de argumentos para empunhar e gritar por todos os lados! É a hora de retomar a militância de base, a luta de massas e a mobilização popular.

É a hora do entusiasmo! Estamos prestes a conseguir mais uma vitória, a derrotar mais uma vez a extrema direita!

Vamos lá! Todos. Convencer os vizinhos, os colegas, os que andam pelas ruas, pelas praças, pelos caminhos.

É a hora do entusiasmo, como se tivéssemos 15 anos, como se fosse a primeira campanha presidencial! Vamos lá! Vamos ganhar e derrotar os trogloditas, os violentos, os negacionistas!

Vamos lá, com todo o entusiasmo do mundo! Na última campanha do nosso querido Lula! Vamos fazê-lo triunfar de novo e conquistar um novo mandato, impedindo definitivamente que a extrema direita possa voltar a governar o país, como uma vez fez, horrivelmente!

É a hora do entusiasmo, da confiança. É a hora da vitória. A hora de mais uma vitória de Lula!

 

Fonte: Brasil 247

 

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