Quando
a promessa de prosperidade vira promessa de punição
O PIB
pode crescer enquanto uma família continua adiando a compra da casa,
renegociando dívidas e revendo os planos para os filhos. Entre a melhora das
estatísticas e a experiência de quem trabalha existe uma distância que também é
política. Quando a expectativa de prosperar se enfraquece, discursos que
prometem identificar e punir os culpados pelo fracasso podem ganhar espaço.
Essa
relação está no centro de The Moral Consequences of Economic Growth,
publicado em 2005. Benjamin M. Friedman argumenta que a melhora do padrão de
vida da maioria favorece a tolerância e o compromisso com a democracia. O
economista se refere ao progresso percebido pelas pessoas, que pode divergir da
expansão da riqueza nacional. Seu argumento depende de uma pergunta concreta: a
vida está melhorando para uma parcela ampla da população?
Na
interpretação de Friedman, as pessoas comparam sua situação com o próprio
passado e com a posição dos outros. Quem percebe avanço em sua vida tende a ver
o sucesso alheio como uma ameaça menor. Se essa perspectiva desaparece, a
competição por posição social pode se intensificar. O autor reconhece outras
causas para os fenômenos políticos, mas chama atenção para o que acontece
quando o esforço deixa de produzir a expectativa de progresso.
Há
evidências históricas de que certos choques econômicos alteram a disputa
política. Manuel Funke, Moritz Schularick e Christoph Trebesch analisaram mais
de 800 eleições em 20 economias avançadas, entre 1870 e 2014. Após crises
financeiras sistêmicas, observaram maior polarização, enfraquecimento das
maiorias governistas e crescimento da votação da extrema direita. Os autores
relacionam esse resultado à atração por discursos que atribuem as dificuldades
a minorias ou estrangeiros.
O
padrão não apareceu nas recessões comuns nem nos choques macroeconômicos graves
sem origem financeira. Portanto, o estudo não descreve uma reação automática ao
empobrecimento. Também não permite aplicar suas conclusões diretamente ao
Brasil, ausente da amostra. Sua contribuição é mostrar que a natureza da crise
importa: dificuldades econômicas de origens distintas podem estar associadas a
respostas políticas diferentes.
A
década de 1930 oferece um contraste histórico. Na Alemanha, a depressão
contribuiu para a desagregação da República de Weimar e para a ascensão do
nazismo, embora não tenha sido a única causa. Nos Estados Unidos, o New Deal
ampliou programas de emprego, a regulação financeira e a proteção social, com
continuidade das eleições presidenciais. As medidas ajudaram a recuperação, mas
não encerraram a depressão naquela década. Uma crise internacional teve
desfechos políticos distintos; sua gravidade, isoladamente, não explica essa
diferença.
No
Brasil, essa reflexão começa pelo orçamento das famílias. O crescimento
agregado pode conviver com renda estagnada para determinados grupos,
insegurança no emprego ou dívidas que absorvem os ganhos do trabalho. A
experiência de cada pessoa depende de como os resultados econômicos se
distribuem. Isso ajuda a formular o problema, mas não autoriza confundir
descontentamento com um governo e rejeição à democracia.
O medo
da violência acrescenta outra dimensão. Evitar um trajeto, fechar um comércio
mais cedo ou restringir a circulação dos filhos são formas pelas quais a
insegurança pode reorganizar a vida. É também a partir dessas experiências que
as pessoas avaliam a proteção oferecida pelo Estado. Os registros de
criminalidade e a sensação de segurança nem sempre avançam juntos. Compreender
essa diferença importa para analisar a confiança nas instituições.
El
Salvador reúne mudanças que precisam ser examinadas em conjunto. No relatório
mundial de 2026, referente aos acontecimentos de 2025, a Human Rights Watch
registra queda acentuada da violência das gangues durante o governo de Nayib
Bukele. A organização também documenta prisões arbitrárias, tortura e violações
do devido processo legal. O relatório ressalva que restrições de acesso aos
dados e mudanças na contabilização dos homicídios dificultam avaliar a precisão
das alegações oficiais sobre a redução dos crimes.
Em
julho de 2025, a Assembleia Legislativa salvadorenha aprovou alterações
constitucionais que eliminaram o limite de reeleições presidenciais. A queda da
violência e a concentração de poder ocorreram no mesmo período, mas essa
simultaneidade não demonstra que uma dependesse da outra. O caso coloca lado a
lado resultados de segurança, abusos documentados e mudanças nas regras do
poder. Nenhum desses elementos pode substituir a análise dos demais.
A
comparação com o Brasil exige atenção às diferenças entre os países. Ainda
assim, ela permite separar perguntas que muitas vezes se confundem: houve
melhora das condições de vida? A população se sente mais protegida? Como avalia
o governo e os limites de sua autoridade? Uma resposta favorável sobre
segurança não equivale, por si só, à aprovação de qualquer medida adotada em
seu nome. Da mesma forma, uma avaliação negativa da economia não revela sozinha
a preferência por outro regime político.
A
questão brasileira vai além de saber se a economia cresce. Importa compreender
quem percebe a melhora, quem continua exposto à insegurança e como essa
experiência altera as expectativas. A literatura sobre crises financeiras
indica que a busca de culpados pode ganhar força após determinados choques.
Quando o futuro parece fora de alcance, a política passa a disputar também o
sentido da frustração. É nesse terreno que a promessa de punir pode ocupar o
lugar da promessa de prosperar.
Fonte:
Por Gustavo Pessoa, em Brasil 247

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