"Ultrapassar
os limites desperta o monstro que existe dentro de nós", diz psicanalista
Em sua
Ética a Nicômaco, Aristóteles traça uma linha clara que separa
irreversivelmente o humano do monstruoso. Enquanto o humano seria orientado
pela razão para a virtude, o monstruoso, ao contrário, não conheceria nem razão
nem virtude. A terrível lição de Freud quebra traumaticamente o encanto de
Aristóteles, revelando que o monstruoso não é de modo algum externo ao humano,
mas lhe diz respeito intimamente.
Não
surge, como pensava Aristóteles, da animalização do humano, mas representa sua
expressão mais significativa. Acrescenta-se que o monstruoso não coincide com o
deformado, o aberrante ou o excessivo. Nem sempre tem a face da loucura, da
ferocidade incontrolável ou da paixão destrutiva, do estranho ou do hostil, mas
– como muitos episódios da transição para a ação criminosa demonstram – pode
também ter a face reconfortante do empregado, do funcionário público, do homem
que volta para casa depois do trabalho, do pai de família.
Em um
famoso curso intitulado Introdução à Metafísica, ao interpretar o coro da
Antígona de Sófocles, Heidegger se detém na célebre definição do homem como o
ser "mais perturbador": "De muitas espécies existe o estranho,
mas nada é mais perturbador do que o homem". Em suma, não há ser
"mais terrível" ("mais poderoso" e "mais
extraordinário") do que o homem. Heidegger traduz o estranho sofocliano
como o "estranho", ou melhor, o "inquietante": o homem
constrói sua própria casa, ergue cidades, gera cultura, determina fronteiras,
atravessa mares, cultiva a terra, captura animais, estabelece leis, domina a
natureza.
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Sua
técnica revela uma vontade de poder que constantemente transforma o familiar em
seu oposto. O monstruoso, portanto, não é o homem moralmente mau — não virtuoso
no sentido aristotélico —, mas define o humano como tal. A violência mais
terrível e cruel não é a dos animais, que visa garantir a sobrevivência da
espécie, mas sim a dos humanos, movidos pela tentação de dominar o mundo, de
ultrapassar os limites, de cruzar as fronteiras da família impunemente.
Talvez
seja por isso que Freud chegou a definir a humanidade como uma raça ruinosa
rumo à sua própria destruição. Ser humano significa não apenas estar destinado
à morte, mas ter o poder de semear a morte, decretar sadicamente a morte dos
outros e cultivar masoquicamente a própria.
Nesse
sentido, o homem seria o monstro mais monstruoso. Não é coincidência que, para
Freud, a pulsão mais fundamental que define o ser humano seja a pulsão de
morte. O homem não é uma criatura monstruosa ao lado de outras criaturas
normais, mas é o único animal que carrega consigo a monstruosa tentação de
dominar. Limitarei-me aqui a evocar duas representações do monstruoso, apenas
aparentemente diferentes. A primeira é a da famosa Conferência de Wannsee,
realizada em janeiro de 1942, na qual os líderes nazistas aprovaram a chamada
"solução final" para a questão judaica. A segunda é a narrativa
cinematográfica de Salò, de Pasolini, lançado nos cinemas em 1976. Em Wannsee,
o homem se revela o "mais perturbador" porque subordina sua capacidade
de organizar, classificar, administrar e calcular ao exercício de uma violência
monstruosa.
Um
genocídio sem precedentes na história da humanidade é tratado como uma questão
de coordenação, habilidades, procedimentos, transporte e eficiência. A horrenda
brutalidade do crime que reduziu a cinzas as vidas de crianças, idosos frágeis,
homens e mulheres foi reduzida pelos nazistas bem-vestidos de Wannsee a um mero
problema organizacional.
O corpo
da vítima desapareceu; sobre as mesas, restavam apenas documentos,
responsabilidades, categorias, hierarquias e tarefas. A morte foi transformada
em um simples princípio administrativo. Não é coincidência que se diga que
Hitler não queria saber nada do que realmente acontecia nos campos de
extermínio. Números substituíram corpos e rostos; a linguagem, em vez de nomear
a natureza monstruosa do ocorrido, tornou-se o instrumento mais sutil para
apagar o horror daquela realidade. Na eficiência anônima do aparato
burocrático, prevaleceu a existência paradoxal de uma monstruosidade sem
monstro.
Em
Salò, de Pasolini, o foco recai, em vez disso, na dominação sádica do poder
exercido sobre os corpos de jovens indefesos, com o objetivo perverso de
transformá-los em meros meios de prazer. Se Wannsee representa a burocratização
do monstruoso, Salò, por sua vez, realiza sua exibição aberta. Se o verdadeiro
escândalo de Wannsee não é apenas o fato de homens planejarem o extermínio, mas
sim a capacidade de fazê-lo dentro de uma forma comum de sociabilidade, o de
Salò não é apenas o fato de homens torturarem outros homens unicamente para seu
próprio prazer, mas sim o fato de terem feito desse prazer arbitrário a única
forma possível de Lei.
Nesse
sentido, Salò descreve não tanto a dimensão monstruosa da crueldade fascista,
mas sim a nossa própria crueldade enquanto seres humanos. Salò é um filme sobre
um novo poder que não mais reprime o prazer, mas se torna seu criador mais
ardente. É a versão apocalíptica de Pasolini para o cinismo sádico da nossa
época: a Lei não mais limita o excesso de prazer, mas parece estar a seu
serviço. Em ambos os casos — no salão asséptico de Wannsee ou na vila dos
horrores em Salò — há um desejo de esquecer que os seres humanos não podem, de
forma alguma, dominar a morte.
É isso
que o coro de Antígona, relido por Heidegger, também evoca, e é a mesma
reflexão lúcida que encontramos em Freud: quando o homem rejeita a sua própria
castração — a sua própria finitude — ele se torna perigoso para si mesmo e para
os outros. O monstruoso não é o caos desafiando a ordem, mas uma virada trágica
que a ordem pode eletivamente tomar quando perde a sua dimensão humana finita.
Fonte:
Por Massimo Recalcati, no La Repubblica

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