Hábito
de leitura ajuda a preservar saúde mental
Seja um
mangá ou um romance de Machado de Assis, ler por prazer favorece a saúde
mental, com ganhos que vão do aumento da empatia ao risco reduzido da doença de
Alzheimer. Novos estudos de neuroimagem demonstram que o hábito, quando
voluntário, está associado a diferenças na estrutura do cérebro, como volume
aumentado em regiões envolvidas em aprendizado, linguagem, regulação emocional
e controle das funções executivas, aquelas que gerenciam pensamentos e ações
para se atingir um objetivo.
Pesquisas
também relacionam a leitura a uma conectividade mais forte da substância branca
e aumento da espessura cortical em áreas-chave do cérebro onde ocorre o
processamento da linguagem. Embora muitos desses estudos mostrem apenas
associações, alguns já conseguem estabelecer evidências de causa e efeito,
argumenta Barbara Sahakian, do Departamento de Psiquiatria da Universidade de
Cambridge, no Reino Unido. Ela é um dos autores de um artigo publicado na
revista Psychological Medicine no qual descreve os múltiplos benefícios
do hábito para a saúde mental.
"A
leitura é uma ótima maneira de cuidar da saúde do cérebro, desenvolver
habilidades cognitivas importantes e melhorar o bem-estar", enumera
Sahakian. "É algo que devemos incentivar desde cedo, considerando as
crescentes evidências de seus benefícios, principalmente para as crianças, mas,
na verdade, nunca é tarde para começar, e os benefícios podem persistir ao
longo de toda a vida, inclusive na velhice."
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Massa cinzenta
Um dos
estudos com relação causal descritos no artigo foi conduzido por Anthony J.
Krafnick, da Universidade de Georgetown, em Washington, nos Estados Unidos, e
incluiu 11 crianças com dislexia na faixa etária de 7 a 11 anos. Segundo a
pesquisa, um treinamento de oito semanas com foco em imagens mentais, traçado
de letras e articulação de palavras melhorou significativamente as habilidades
de leitura, sendo que alguns dos benefícios foram mantidos em uma avaliação
realizada dois meses após o fim do programa. Os ganhos cognitivos foram
acompanhados por aumento no volume de substância cinzenta — o
"processador" de pensamento, controle muscular e percepção dos
sentidos — em cinco regiões cerebrais, o que foi calculado por um exame chamado
morfometria baseada em voxel (MBV).
"A
leitura é uma experiência cognitiva muito completa. Quando uma criança lê ou
escuta uma história, ela precisa sustentar a atenção, acompanhar a sequência
dos acontecimentos, lembrar personagens, antecipar hipóteses e organizar
informações para compreender o sentido do texto", observa Raquel Nazário,
diretora e gestora educacional da escola Maple Bear Brasília. "Esse
processo mobiliza memória, linguagem, imaginação e funções executivas, como
planejamento, flexibilidade de pensamento e controle inibitório." Segundo
a pedagoga, quanto mais prazerosa e frequente a prática na infância e na
adolescência, maiores os ganhos em concentração, interpretação, conexões e
execução de tarefas complexas.
A
psicóloga clínica e neuropsicóloga Juliana Gebrim, de Brasília, observa que
começar cedo a gostar de ler pode ter impactos cognitivos duradouros. "Um
estudo com mais de 10 mil adolescentes constatou que aqueles que começaram a
ler por prazer na infância apresentaram, mais tarde, melhor atenção, memória de
trabalho, memória episódica e controle inibitório", relata. "Também
tiveram melhor desempenho acadêmico e menos problemas relacionados à saúde
mental, além de diferenças em áreas do cérebro ligadas à linguagem e à
cognição."
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Plasticidade
Gebrim
afirma que mesmo quem começou a ler mais tarde pode se beneficiar. "O
cérebro continua plástico. Temos estudos mostrando mudanças no cérebro de
adultos que passaram por processos de alfabetização, acompanhadas de melhora na
leitura e na escrita", diz. Em 2013, um artigo da Universidade do Sul da
Califórnia, publicado na revista Scientific Studies of Reading, por
exemplo, demonstrou que, em pessoas de 18 a 25 anos, uma exposição maior à
leitura aumentou a espessura cortical em regiões importantes do processamento
da linguagem.
A
neuropsicóloga ressalta, porém, que ainda não é possível saber se quem começa a
ler por prazer depois dos 40 anos sofre alterações cerebrais estruturais.
"Mas eu acho essa possibilidade muito interessante. Não existe uma idade
atrasada para começar a estimular o cérebro. Se a leitura desperta interesse e
prazer, ela coloca atenção, memória, linguagem, imaginação e compreensão para
trabalhar. E isso já é um ótimo motivo para abrir um livro, independentemente
da idade.
Outro benefício para
adultos leitores é uma possível proteção contra a neurodegeneração. Barbara
Sahakian, da Universidade de Cambridge, observa que há um conjunto de
evidências observacionais que relacionam atividades de lazer cognitivamente estimulantes,
como a leitura, a um declínio cognitivo mais lento e a um risco reduzido de
demência em idosos. Uma dessas pesquisas, com dados de 1.939 pessoas, foi
publicada neste ano na revista Neurology. Os autores descobriram que, entre
aquelas que passaram a vida lendo por prazer, o risco de desenvolver a doença
de Alzheimer foi 36% menor. Os autores ressaltam, porém, que não se trata de
uma relação causal.
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Uma janela para o mundo
Os
benefícios da leitura prazerosa vão além da consolidação da memória ou do
aperfeiçoamento linguístico. No artigo de revisão publicado na revista Psychological
Medicine, os autores destacam os ganhos socioemocionais, como redução
do estresse, maior relaxamento, mais empatia e compreensão pelos outros e uma
atitude mais tolerante em relação a diferentes perspectivas.
"Quando
a pessoa se envolve com uma leitura agradável, sua atenção se afasta, por algum
tempo, das preocupações, e isso ajuda a diminuir pensamentos repetitivos e
produz uma sensação de pausa e relaxamento", esclarece a psicóloga clínica
Maria Keity Fernandez Cavalcante, de Brasília. "A leitura também desperta
emoções positivas, estimula a imaginação e pode ajudar a pessoa a encontrar
novos sentidos para aquilo que está vivendo. Além disso, o vínculo criado com
personagens e histórias pode gerar uma sensação de companhia, reduzindo a
percepção de solidão."
Um
estudo publicado na revista Plos One por pesquisadores da Universidade
Livre de Amsterdã, nos Países Baixos, sustenta, inclusive, que a leitura de
ficção estimula a empatia. "Frequentemente, quando alguém lê uma história
de ficção, a identificação com os personagens e o envolvimento emocional com a
história fazem com que o leitor simpatize com eles e talvez até vivencie os
eventos da história como se os estivesse vivenciando pessoalmente",
escreveram os autores.
A
pedagoga e gestora educacional Raquel Nazário, da Maple Bear Brasília, destaca
a importância de a criança entrar em contato com diferentes realidades,
emoções, conflitos e formas de ver o mundo. "Ao acompanhar personagens,
ela aprende a reconhecer sentimentos, compreender motivações, perceber
consequências de escolhas e desenvolver empatia. Do ponto de vista
socioemocional, isso é muito poderoso. A leitura amplia a capacidade de escuta
e de compreensão do outro", diz.
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Três perguntas para - Elaine Cristina da Silva, psicopedagoga com
especialização em Neurociência Cognitiva do colégio SIGMA
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Como a leitura é processada pelo cérebro?
A
leitura é uma aquisição cultural e, para aprendê-la, o cérebro reorganiza e
integra circuitos que originalmente realizavam outras funções, especialmente
aqueles relacionados à visão e à linguagem. É o que a neurociência denomina
reciclagem neuronal, uma manifestação da plasticidade cerebral. Isso significa
que, enquanto uma criança lê, não está simplesmente reconhecendo letras e
palavras. Diferentes regiões cerebrais trabalham de forma articulada para
transformar grafemas em fonemas, reconhecer visualmente as palavras, acessar a
linguagem e, principalmente, construir significado. Mas há algo ainda mais
interessante: ler é sustentar uma construção de sentido ao longo do tempo. Para
compreender uma narrativa, é preciso manter informações disponíveis na
memória de trabalho, recuperar aquilo que já aconteceu, relacionar
conhecimentos prévios às novas informações, formular hipóteses e revê-las à
medida que o texto avança. Quando falamos em leitura por prazer, acrescentamos
ainda outro componente importante: a emoção. Memória, emoção e aprendizagem
estão profundamente relacionadas. As experiências emocionais que acompanham a
leitura podem influenciar a formação e a consolidação das memórias,
especialmente quando despertam sentimentos positivos, como curiosidade,
interesse, prazer e envolvimento.
·
Como esse hábito afeta as funções cerebrais?
A
leitura demanda atenção sustentada, memória de trabalho, controle de distrações
e flexibilidade cognitiva. Se uma informação nova muda aquilo que eu imaginava
sobre um personagem, por exemplo, preciso abandonar uma hipótese e construir
outra. Se algo não foi compreendido, preciso voltar, reler e reorganizar meu
pensamento. A leitura não “treina” uma única área do cérebro; ela mobiliza uma
verdadeira rede de processos cognitivos que precisam atuar de forma integrada
para podermos compreender, interpretar e construir sentidos. A própria
aprendizagem da leitura promove modificações nas redes relacionadas à linguagem
e, à medida que a proficiência leitora avança, também são observadas mudanças
na forma como o cérebro processa e integra as informações.
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Ler também favorece o desenvolvimento socioemocional?
Existe
uma dimensão da leitura que podemos considerar tão importante quanto a
cognitiva: a leitura é também uma experiência social e emocional. Quando
acompanhamos uma história, temporariamente enxergamos o mundo a partir de outro
ponto de vista. Entramos em contato com personagens que desejam, sofrem, erram,
escolhem e interpretam situações de maneiras diferentes das nossas, e o leitor
é convidado a sair da própria perspectiva e considerar a perspectiva do outro.
É nesse exercício que a literatura pode favorecer o desenvolvimento de
competências relacionadas à empatia, à compreensão das emoções e à percepção de
diferentes perspectivas. No entanto, a leitura não pode ser compreendida apenas
como um fenômeno cerebral isolado. Os processos cognitivos e sociais estão
profundamente interligados, de modo que o desenvolvimento do sujeito se
constitui também a partir das experiências, das relações e das interações
socioculturais que atravessam sua trajetória.
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Palavra de especialista - Juliana Gebrim, psicóloga clínica e neuropsicóloga
pelo Instituto de Psicologia Aplicada e Formação de Portugal
A
leitura pode contribuir para a chamada reserva cognitiva. Eu gosto de pensar
nela como uma espécie de poupança mental. Ao longo da vida, vamos acumulando
recursos que podem ajudar o cérebro a lidar melhor com as mudanças do
envelhecimento. E ler exige bastante da nossa cabeça. Tem atenção, memória,
linguagem, raciocínio, compreensão e a capacidade de fazer
conexões. Pesquisas que acompanharam pessoas durante muitos anos
encontraram uma associação entre ler com frequência e um menor risco de declínio
cognitivo e demência — isso não significa que ler seja uma vacina contra o
Alzheimer. Quem lê mais pode também ter outros hábitos que favorecem a saúde do
cérebro, além de diferenças de escolaridade e de condições de vida. O que
temos é uma associação bastante interessante. Manter o cérebro ativo ao longo
da vida parece estar relacionado a um envelhecimento cognitivo mais saudável, e
a leitura é uma maneira simples e acessível de fazer isso. A ideia é que esse
estímulo constante possa ajudar a construir uma reserva cognitiva e dar ao
cérebro mais recursos para enfrentar as mudanças que vêm com a idade.
Fonte:
Correio Braziliense

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