Cunha,
Garotinho, Arruda: os barrados do pleito de 2026
Mais de
1.500 candidaturas foram barradas pela Justiça Eleitoral até a noite de
sexta-feira (18/09), segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Mais de
90% foram indeferidas por questões burocráticas (falta de documentação,
problemas de filiação e domicílio, pendências eleitorais etc.).
E há
108 candidaturas que foram barradas por inelegibilidade infraconstitucional, na
qual se enquadra a lei da Ficha Limpa, que impede que condenados em decisões
colegiadas pela Justiça possam se candidatar por um prazo de oito a doze anos.
E entre
essa centena de candidatos barrados estão alguns antigos protagonistas de
escândalos nas últimas duas décadas. Outrora influentes, eles pretendiam voltar
a disputar mandatos em 2026. Entre eles estão o ex-deputado e ex-presidente da
Câmara dos Deputados Eduardo Cunha e os ex-governadores José Roberto Arruda e
Anthony Garotinho.
A lista
é engrossada por políticos com influência regional, entre eles dois
ex-governadores de Rondônia e do Acre, um ex-candidato presidencial e a filha
do ex-deputado Roberto Jefferson.
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Eduardo Cunha
Articulador
original do processo de impeachment
contra a ex-presidente Dilma Rousseff, o ex-deputado Eduardo Cunha teve sua
candidatura à Câmara dos Deputados barrada neste mês, exatamente uma década
depois da sua cassação.
Após
deixar a Câmara, o político carioca acumulou condenações por corrupção passiva,
lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
O
ex-deputado passou quase três anos e meio detido em regime fechado. A partir de
2021, com o fim da Lava Jato e a anulação de processos da operação, Cunha teve
uma última ordem de prisão domiciliar revogada, e ficou livre.
Solto,
conseguiu em 2022 uma liminar que suspendeu temporariamente sua
inelegibilidade. Apesar de ter construído seu poder político no Rio de Janeiro,
desta vez registrou candidatura no estado de São Paulo. A inelegibilidade
voltou a ser imposta pouco depois, mas Cunha ainda assim conseguiu assegurar
que seu número permanecesse nas urnas.
No
entanto, fracassou nas urnas, recebendo apenas 5 mil votos. Mas foi
bem-sucedido em eleger a filha, Dani Cunha (PL), como deputada federal pelo
Rio.
Após o
fracasso em São Paulo, Cunha se voltou para Minas Gerais, filiando-se ao
partido Republicanos. No final de 2024, passou a construir metodicamente uma
rede de influência regional baseada no cultivo do eleitorado evangélico.
Mas o
ex-deputado ainda enfrenta as consequências da cassação pela Câmara em 2016.
Embora tenham se passado mais de oito anos após a cassação, a punição de Cunha
passou a contar a partir daquele que teria sido o último dia remanescente de
mandato, 31 de janeiro de 2019. Ou seja, sua inelegibilidade deve durar até
fevereiro de 2027.
No
início de setembro, o Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG)
decidiu barrar a candidatura de Cunha. Ele ainda pode recorrer ao TSE.
Na
semana passada, após o indeferimento do TRE-MG, Cunha insistiu que ainda se
considera apto a concorrer. "A campanha segue firme, não tem qualquer
problema com a continuidade", disse.
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José Roberto Arruda
Ex-deputado,
ex-senador e ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (PSD), de
72 anos, teve a candidatura barrada pelo TER-DF no início deste mês. O Tribunal
entendeu que Arruda, pivô de um escândalo de corrupção no DF no fim dos anos
2000, está inelegível até 2030 com base na Lei da Ficha Limpa.
Arruda
tenta reverter o quadro, alegando que sua inelegibilidade teria se encerrado em
julho de 2026. "Vou às últimas consequências", declarou Arruda após
ter a candidatura barrada.
O
ex-governador acumula sete condenações, todas por improbidade administrativa.
Em
2009, José Roberto Arruda, então filiado ao DEM e governador do Distrito
Federal, protagonizou um escândalo de pagamento de propinas.
Um dos
pontos altos do escândalo foi a exibição de um vídeo que mostrava Arruda
recebendo um maço de 50 mil reais de um ex-secretário do seu governo. As
imagens haviam sido gravadas em 2006, quando Arruda ainda era candidato.
Segundo as investigações, Arruda comandava um esquema que captava dinheiro
ilegal de empresas. Os recursos eram então distribuídos para vários membros do
governo.
O então
governador tentou argumentar que os 50 mil que apareciam no vídeo eram uma
doação que seria usada na compra de panetones para pessoas carentes.
Arruda
acabou sendo preso no início de 2010. Perdeu o cargo semanas depois. Nos anos
seguintes, sem poder disputar cargos, Arruda lançou a então mulher, Flávia,
para uma vaga na Câmara. Em 2018, ela foi a deputada federal mais votada do DF.
Em 2022, ela se separou de Arruda.
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Anthony Garotinho
Veterano
da política do estado do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho (Republicanos)
pretendia voltar a se lançar para o governo local em 2026, mas teve sua
candidatura barrada por unanimidade na semana passada pelo TRE-RJ.
O
Tribunal entendeu que ele não reunia condições de elegibilidade, por estar
enquadrado na Ficha Limpa até 2028, em decorrência de uma condenação
relacionada a fraudes e desvios quando ocupava cargo de secretário estadual
durante o governo da sua mulher, Rosinha, nos anos 2000.
Ex-governador
do Rio entre 1999 e 2002, Garotinho já havia tido uma nova candidatura ao
governo barrada em 2018.
Entre
2016 e 2017, Garotinho foi preso cinco vezes. Ele já foi acusado por crimes de
corrupção, concussão (exigir vantagem indevida em razão do cargo), participação
em organização criminosa e falsidade na prestação das contas eleitorais.
A
condenação que embasou o indeferimento da sua candidatura envolve, segundo
acusação do Ministério Público, um desvio de R$ 234 milhões de um programa de
saúde entre 2005 e 2006.
Enquanto
ainda aguardava seu registro de candidatura em 2026, Garotinho apareceu em
terceiro lugar em pesquisa Datafolha, com 10% das intenções de voto.
A
esposa de Garotinho, Rosinha, também foi declarada inelegível em 2019, mas não
tentou concorrer a cargos desde então. O clã, no entanto, ainda pode conquistar
um mandato em 2026. Um dos filhos do casal, Wladimir Garotinho (PL), concorre a
uma vaga na Câmara.
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Outros políticos barrados
No Rio
de Janeiro, Cristiane Brasil (DC), ex-deputada federal e filha de Roberto
Jefferson, teve a candidatura a deputada federal pelo Rio indeferida em decisão
relacionada a alegações de vínculo com organização criminosa. A decisão ainda
pode ser contestada no TSE.
Também
no Rio de Janeiro, o Pastor Everaldo (Podemos), ex-dirigente do antigo PSC que
foi candidato à Presidência em 2014 e que desta vez tentava uma candidatura a
suplente de senador, teve o registro indeferido pelo TRE-RJ por envolvimento
com uma organização criminosa caracterizada como "milícia de
gravata".
Ex-vice-governador
e brevemente governador de Roraima por um mês no início de 2016, até ser
cassado, Edilson Damião (União) teve sua candidatura à Câmara dos Deputados
barrada nesta semana. O mesmo ocorreu com
Gladson Cameli (PP), que foi governador do Acre até abril e teve sua
candidatura ao Senado barrada em razão de uma condenação por corrupção, lavagem
de dinheiro e organização criminosa.
Apesar
de nunca ter exercido cargos políticos ou partidários, o influenciador Pablo
Marçal (PRTB) não conseguiu reverter em agosto uma decisão que o declarou
inelegível até 2032 por uso indevido de meios de comunicação durante a campanha
de 2024. No mês seguinte, ele teve sua candidatura à Presidência barrada pelo
TSE.
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Candidatos que conseguiram reverter indeferimento
Das
cerca de 1.500 candidaturas que tiveram registro indeferido, pouco mais de mil
ainda aguardavam recurso ou estavam em prazo recursal na quinta-feira (18/09).
Ou seja, os candidatos ainda têm chance de reverter o quadro.
Outros
candidatos também conseguiram afastar o risco de indeferimento, apesar de ações
do Ministério Público Eleitoral (MPE). Um deles é o ex-deputado federal
paranaense Fernando Francischini (Solidariedade), que ganhou notoriedade
nacional em 2021 após se tornar o primeiro parlamentar a ter o mandato cassado
pelo TSE por propagação de desinformação e fake news. Em 2018, ele tinha feito
uma live na qual disse – sem provas – que urnas eletrônicas haviam sido
fraudadas e não estavam aceitando votos para Jair Bolsonaro.
Candidato
novamente à Câmara em 2026, Francischini foi alvo de uma ação do MPE que
argumentou que o prazo de inelegibilidade ainda não terminou. No entanto, o
TRE-PR contrariou o parecer e confirmou o registro.
O
ex-senador Acir Gurgacz (PDT-RO) também arriscou ficar de fora das eleições
neste ano. Ele é candidato novamente a uma vaga no Senado, oito anos após ser
condenado por crimes contra o sistema financeiro. Em julho, o TRE-RO chegou a
entender que ele ainda permanecia inelegível, mas o ex-senador acionou o
Supremo Tribunal Federal (STF), que restabeleceu seus direitos políticos,
abrindo caminho para a candidatura.
• Justiça Eleitoral barra mais de 1,2 mil
candidatos nas eleições
Mais de
mil candidaturas foram barradas pela Justiça Eleitoral até a noite de
terça-feira (16), segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral analisados pelo
g1. Ao todo, 1,2 mil candidaturas encontram-se indeferidas; dessas, 888 estão
em prazo de recurso; outras 326 foram indeferidas definitivamente.
A maior
parte das rejeições afeta postulantes a cargos proporcionais:
• Deputado estadual: 561 candidaturas;
• Deputado federal: 494;
• Suplentes (1º e 2º): 73;
• Senador: 31;
• Governador: 24;
• Vice-governador: 19;
• Deputado Distrital: 9
• Presidente: 1.
Não há
candidatos à Vice-Presidência da República com candidatura indeferida. No
entanto, há ainda um registro pendente de julgamento.
Entre
os casos mais conhecidos está o de Pablo Marçal (PRTB), que teve o registro
como candidato à Presidência indeferido pelo Tribunal Superior Eleitoral com
base na Lei da Ficha Limpa. Também tiveram as candidaturas barradas o candidato
a governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho (Republicanos), a governador
do Distrito Federal José Roberto Arruda (PSD) e a deputado federal por Minas
Gerais Eduardo Cunha (Republicanos) .
A maior
parte dos candidatos atingidos por decisões desfavoráveis ainda busca reverter
a situação. Os 888 casos que permanecem em fase recursal representam cerca de
73% de todos os registros enquadrados nas categorias de indeferimento.
Entre
os partidos, os maiores volumes absolutos de candidaturas indeferidas aparecem
no DC, que soma 185 casos entre indeferimentos; no Democrata, com 154; no Agir,
com 144; e no Mobiliza, com 134. Essas quatro legendas reúnem, sozinhas, 617
registros, o equivalente a pouco mais da metade de todos os casos
identificados.
Também
aparecem com números relevantes o PCO, com 70 registros (42% de todas as
candidaturas do partido; porém, 69 ainda estão em fase de recurso), o Avante,
com 64, o PSOL, com 45, e o PSDB, com 42.
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Por que as candidaturas são indeferidas?
O
indeferimento de uma candidatura ocorre quando a Justiça Eleitoral identifica
que o candidato não cumpre algum dos requisitos previstos na legislação
eleitoral, e pode ser contestado por meio de recurso. Enquanto o processo não
tiver decisão definitiva, a situação do candidato pode sofrer alterações.
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Os principais motivos de indeferimento foram:
• Desatendimento a requisito formal (412
casos): Algum documento, informação ou procedimento obrigatório para o registro
não foi apresentado corretamente ou dentro das regras;
• Ausência de condição de elegibilidade
(365): O candidato não cumpre algum requisito básico para poder ser candidato,
como alistamento eleitoral, filiação partidária ou domicílio eleitoral;
• Indeferimento do DRAP (314): O problema
está no DRAP, documento que reúne as informações do partido/federação e de sua
chapa;
• Ausência de quitação eleitoral (112): O
candidato não está em situação regular com a Justiça Eleitoral (por exemplo, há
multa eleitoral não paga ou outra pendência que impeça a quitação);
• Inelegibilidade infraconstitucional
(110): O candidato se enquadra em uma das hipóteses de inelegibilidade
previstas na Lei Complementar 64/1990, conhecida como Lei de Inelegibilidades,
incluindo situações decorrentes de condenações;
• Descumprimento da cota de gênero (90): O
partido ou federação não cumpriu as regras de participação mínima de cada
gênero na composição da chapa;
• Falta de desincompatibilização (52): A
pessoa ocupava determinado cargo ou função e não se afastou dentro do prazo
exigido pela lei para poder disputar a eleição.
Uma
mesma candidatura pode ter mais de um motivo de indeferimento, por isso a soma
dos registros supera o total de candidaturas barradas.
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1 a cada 5 candidaturas no Piauí foram indeferidas
A
distribuição dos indeferimentos varia bastante entre os estados e o Distrito
Federal. O Piauí apresenta o maior percentual de candidaturas indeferidas, com
20,9%, quase o dobro de São Paulo, que aparece em segundo lugar, com 12,9%. Em
seguida estão Sergipe (9,2%), Rio de Janeiro (7,8%) e Pernambuco (7,2%).
Na
outra ponta, os menores percentuais são registrados em Mato Grosso do Sul
(1,4%), Ceará (1,8%), Espírito Santo (2,0%), Rondônia (2,0%) e Santa Catarina
(2,3%).
Fonte:
DW Brasil/g1

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