Novo
consenso recomenda rastrear diabetes tipo 1 antes dos sintomas; veja como
funciona
O
diabetes tipo 1 pode começar muito antes do aparecimento de sintomas como sede
excessiva, aumento da quantidade de urina, cansaço e perda de peso. Agora, um
novo consenso internacional propõe ampliar o rastreamento para identificar esse
processo ainda nas fases iniciais da doença.
Publicado
em 2026 na revista científica Diabetologia, o documento recomenda que o
rastreamento de autoanticorpos relacionados ao diabetes tipo 1 seja oferecido à
população geral nos locais onde exista estrutura para confirmar os resultados e
acompanhar as pessoas identificadas.
A
proposta representa uma mudança importante na estratégia de detecção da doença.
Em vez de procurar sinais de autoimunidade principalmente em familiares de
pessoas com diabetes tipo 1 e outros grupos considerados de maior risco, os
especialistas defendem ampliar o rastreamento.
Um dos
motivos é que mais de 85% das pessoas diagnosticadas com diabetes tipo 1 no
estágio clínico não têm histórico familiar da doença. Na prática, grande parte
dos casos não seria identificada antecipadamente se os exames fossem
direcionados apenas aos familiares.
O
consenso foi elaborado por especialistas internacionais e recebeu o endosso de
entidades como a European Association for the Study of Diabetes (EASD),
International Society for Pediatric and Adolescent Diabetes (ISPAD), IDF
Europe, Breakthrough T1D e outras organizações da área.
<><>
Como é possível identificar o diabetes tipo 1 antes dos sintomas?
O
diabetes tipo 1 é uma doença autoimune. O sistema imunológico passa a atacar as
células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina.
Esse
processo pode começar meses ou anos antes do diagnóstico clínico.
O
rastreamento procura no sangue os chamados autoanticorpos contra as ilhotas
pancreáticas, que funcionam como marcadores desse processo autoimune.
Atualmente,
quatro autoanticorpos são utilizados clinicamente:
• IAA, contra a insulina;
• GADA, contra GAD65;
• IA-2A, contra IA-2;
• ZnT8A, contra o transportador de zinco
8.
A
presença desses marcadores permite identificar pessoas que apresentam
autoimunidade relacionada ao diabetes tipo 1 mesmo quando ainda não existem os
sintomas clássicos da doença.
Um
resultado positivo inicial, no entanto, precisa ser confirmado. O consenso
recomenda uma nova coleta de sangue e, idealmente, a utilização de outro método
de análise para confirmar os autoanticorpos encontrados.
Ter
apenas um autoanticorpo confirmado também não é suficiente para classificar a
pessoa como tendo diabetes tipo 1 em estágio inicial. A presença isolada desse
marcador está associada a maior risco e pode indicar a necessidade de novo
acompanhamento, dependendo de fatores como idade e histórico familiar.
<><>
Consenso indica três momentos para rastreamento na infância
Uma das
principais novidades do documento é a indicação de faixas etárias para o
rastreamento da população geral.
A
primeira avaliação é recomendada entre 2 e 4 anos de idade. Caso nenhum
autoanticorpo seja identificado, o exame deve ser repetido entre 6 e 8 anos e
novamente entre 10 e 15 anos.
Crianças
que não tenham sido avaliadas anteriormente poderiam realizar o rastreamento
assim que possível.
Para
pessoas com mais de 15 anos que nunca foram rastreadas, o consenso considera
que uma avaliação única também pode ser realizada em conjunto com outras ações
de saúde. Os autores reconhecem, porém, que ainda existem menos evidências para
determinar a melhor idade e a frequência dos exames entre adultos.
<><>
Diabetes tipo 1 já pode ser identificado em diferentes estágios
A
possibilidade de encontrar autoanticorpos mudou a compreensão sobre quando o
diabetes tipo 1 começa.
No
estágio 1, a pessoa apresenta dois ou mais autoanticorpos confirmados e ainda
mantém a glicemia normal.
No
estágio 2, além da autoimunidade, começam a aparecer alterações no metabolismo
da glicose, chamadas de disglicemia, mas ainda sem o quadro clínico
tradicional.
O
estágio 3 corresponde à fase clínica, caracterizada pela hiperglicemia
persistente, com ou sem os sintomas clássicos do diabetes.
Identificar
alguém nos estágios iniciais permite acompanhar a evolução da doença antes que
aconteça a manifestação clínica.
<><>
Rastreamento pode reduzir diagnóstico com cetoacidose
Um dos
principais benefícios apontados pelo consenso está na redução da cetoacidose
diabética no momento do diagnóstico clínico.
A
cetoacidose é uma complicação provocada pela deficiência de insulina. É uma
emergência médica que pode exigir internação e, nos casos mais graves, cuidados
em unidade de terapia intensiva.
Segundo
o documento, estudos internacionais mostram que entre 20% e 67% das crianças e
adolescentes podem apresentar cetoacidose no momento do diagnóstico do diabetes
tipo 1, dependendo da população analisada. Cerca de um terço dos casos de
cetoacidose citados no consenso necessita de cuidados intensivos.
Experiências
de rastreamento mostram que esse cenário pode ser diferente quando as famílias
já sabem que a criança apresenta autoimunidade e recebem acompanhamento.
Em um
centro especializado dos Estados Unidos, a ocorrência de cetoacidose foi de
4,9% entre crianças identificadas precocemente e acompanhadas, comparada a
48,5% na população regional.
Na
Alemanha, o programa Fr1da registrou cetoacidose em 3,2% das crianças
identificadas com diabetes tipo 1 em estágio inicial e acompanhadas. Outro
programa realizado no Colorado, nos Estados Unidos, encontrou taxa de 4,5%
entre crianças com diagnóstico confirmado em estágio inicial, comparada a 58%
entre crianças que não haviam participado do rastreamento.
Os
resultados reforçam que o benefício não está apenas em descobrir os
autoanticorpos. A identificação precisa ser acompanhada de monitoramento e
orientação para reconhecer a progressão da doença.
<><>
Resultado positivo precisa ser confirmado e acompanhado
O
consenso estabelece que um programa de rastreamento precisa ir além da
realização do exame.
Os
especialistas defendem uma estrutura que permita confirmar os resultados,
avaliar alterações da glicose, encaminhar as pessoas identificadas para
serviços de saúde e acompanhar a evolução da doença.
O
documento também recomenda educação para pacientes e familiares e suporte
psicossocial quando necessário.
Isso é
importante porque o rastreamento também pode gerar ansiedade, resultados
falso-positivos e falsa sensação de segurança após um resultado negativo.
Um
exame sem autoanticorpos naquele momento não significa que a pessoa nunca
desenvolverá diabetes tipo 1. A autoimunidade pode surgir posteriormente, uma
das razões para o consenso recomendar avaliações em diferentes momentos da
infância.
<><>
Experiências já rastrearam milhares de crianças
Programas
realizados em diferentes países ajudam a dimensionar como o rastreamento pode
funcionar na prática.
Na
Alemanha, o programa Fr1da rastreou mais de 200 mil crianças entre fevereiro de
2015 e julho de 2024. Destas, 576, o equivalente a 0,30%, foram identificadas
com diabetes tipo 1 em estágio inicial.
Nos
Estados Unidos, o programa ASK rastreou 34.110 crianças e adolescentes de 1 a
17 anos entre 2017 e 2023. Cerca de 0,54% apresentaram múltiplos autoanticorpos
e 0,42% apresentaram um único autoanticorpo de alta afinidade.
A
Itália também é citada pelo consenso. Em 2023, o Parlamento italiano aprovou
uma lei estabelecendo a oferta de rastreamento para diabetes tipo 1 em estágio
inicial e doença celíaca para crianças e adolescentes por meio do sistema
nacional de saúde. O programa ainda passa por etapas de implementação e
avaliação de sustentabilidade.
<><>
Brasil também avança na discussão sobre rastreamento
A
discussão sobre identificar o diabetes tipo 1 antes dos sintomas também está
avançando no Brasil.
A
Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) prepara uma iniciativa de rastreamento
de autoanticorpos no país, ampliando a discussão sobre a identificação do
diabetes tipo 1 antes do aparecimento dos sintomas.
A
iniciativa brasileira ganha relevância diante de um dos principais argumentos
apresentados pelo novo consenso: a maioria das pessoas que desenvolve diabetes
tipo 1 não possui histórico familiar da doença. Por isso, estratégias restritas
aos familiares conseguem alcançar apenas uma parcela daqueles que poderão
desenvolver a doença.
Os
detalhes sobre abrangência, número de participantes, locais, critérios e início
do projeto da SBD não constam no consenso internacional e precisam ser
acrescentados a partir das informações oficiais da iniciativa brasileira.
<><>
Identificar antes dos sintomas muda o momento do diagnóstico
O novo
consenso reforça uma mudança que vem acontecendo na compreensão do diabetes
tipo 1.
O
diagnóstico não precisa acontecer apenas quando a glicose já está elevada ou
quando aparecem sede excessiva, aumento da urina, perda de peso e outros
sintomas.
Os
autoanticorpos permitem identificar o processo autoimune antes dessa fase e
acompanhar pessoas com maior risco de progressão.
Para os
especialistas, ampliar o rastreamento pode ajudar a preparar pacientes e
famílias, reduzir a ocorrência de cetoacidose no diagnóstico, permitir
acompanhamento metabólico e identificar pessoas que possam participar de
estudos clínicos ou, nos locais onde houver indicação e disponibilidade, ter
acesso a terapias capazes de modificar a progressão da doença.
O
consenso ressalta, entretanto, que o rastreamento precisa fazer parte de uma
estratégia completa. Encontrar os autoanticorpos é apenas o primeiro passo.
Confirmação do resultado, acompanhamento e orientação ao longo do tempo são
partes fundamentais da identificação precoce do diabetes tipo 1.
Fonte:
Um Diabético

Nenhum comentário:
Postar um comentário