terça-feira, 22 de setembro de 2026

Itamaraty e a hora do equilíbrio: aprofundar com a China sem isolar os EUA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve buscar manter uma posição de equilíbrio internacional diante do atual cenário de fragmentação do comércio global. A diretriz central do Palácio do Planalto consiste em garantir a segurança econômica do país, contendo os efeitos do tarifaço dos Estados Unidos sobre as empresas nacionais — que chega a até 37,5% — e mitigando as consequências econômicas dos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio.

Há meses, o governo federal vem anunciando medidas, algumas já sancionadas, para conter a alta internacional dos combustíveis e dos fertilizantes. No entanto, diversas análises técnicas demonstram que elas tiveram efeito limitado, especialmente sobre os preços finais nas bombas dos postos de combustíveis em todo o país. É aí que reside o núcleo do aumento do custo de vida, uma preocupação primordial para os brasileiros a apenas duas semanas do primeiro turno de uma acirrada eleição presidencial. Nesse contexto, adquirem valor estratégico inestimável as relações com a China — em ascensão sob a atual gestão —, assim como os vínculos comerciais com a União Europeia, o Mercosul, os países do BRICS+, a ASEAN, a África Austral e o Sul Global em seu conjunto. Cabe sublinhar: nada está garantido nas próximas eleições.

Com serenidade, a diplomacia brasileira e o Palácio do Planalto têm sido prudentes e eficazes na formulação de suas medidas de resposta. Mesmo diante do tarifaço, a expectativa entre interlocutores do presidente Lula é de que as reuniões previstas para as próximas semanas com o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos sirvam para revisar as acusações infundadas de Washington. Espera-se que prevaleça o tratamento cordial entre Lula e Trump, um tom que, de maneira surpreendente, foi impulsionado pelo próprio presidente norte-americano durante a conversa telefônica que mantiveram em 21 de agosto.

A resposta do Brasil também tem profundo alcance político. Hoje, a democracia do país é mais sólida, eficiente e madura. Os Três Poderes — incluindo um Supremo Tribunal Federal envolto em acusações de corrupção e em uma guerra aberta entre seus ministros — não apenas rejeitaram as medidas unilaterais adotadas contra o país, como também reafirmaram de forma proativa que qualquer tentativa de interferência eleitoral destinada a favorecer Flávio Bolsonaro está condenada ao fracasso.

A origem dessa ofensiva política encontra-se no Departamento de Estado, influenciado por brasileiros bolsonaristas instalados em Washington e considerados traidores da pátria. Esses grupos atuam incansavelmente a partir da capital norte-americana e de bases ligadas ao gabinete do ódio da extrema direita, tanto nos Estados Unidos quanto em países vizinhos. Seu objetivo é aproveitar a ala ideológica do governo Trump e a ofensiva mais ampla dos Estados Unidos sobre a América do Sul para arrastar o Brasil para uma agenda desprovida de propostas. As táticas empregadas — como o combate ao narcotráfico por meio do Escudo das Américas, a pressão antinacional e anti-China exercida pela Embaixada dos Estados Unidos e a retórica exacerbada de latino-americanos de extrema direita radicados no estrangeiro — não oferecem soluções nem surtirão efeito, a menos que ocorra uma escalada militar, em um cenário no qual nada está descartado.

Mesmo diante de uma eventual melhora nas relações com os Estados Unidos, o governo Lula deve assimilar que Washington não pode ser considerado um parceiro estável e confiável. Ao mesmo tempo, não pode perder de vista a correlação de forças nem, em última instância, a supremacia militar que os Estados Unidos exercem na América do Sul. É precisamente nesse ponto de inflexão que nasce a necessidade atual de equilíbrio.

Diante desse cenário, o fato mais relevante da última semana foi o respaldo político do presidente da China, Xi Jinping, ao seu homólogo brasileiro, materializado na carta que o assessor especial Celso Amorim entregou ao chanceler chinês Wang Yi, em Pequim. O documento ressalta que a relação estratégica entre Brasil e China avança com firmeza. Além de consolidar Pequim como um ator central no tabuleiro econômico brasileiro, fica claro que a China não vê Luiz Inácio Lula da Silva como um simples candidato, mas como um líder histórico, o único capaz de aprofundar os laços comerciais em perfeita sintonia com a estratégia nacional de reindustrialização.

¨      Leonardo Trevisan: “Trump não pode empurrar o Brasil para o confronto”

O Brasil deve evitar uma escalada no confronto com os Estados Unidos e responder às pressões do governo de Donald Trump reforçando sua autonomia diplomática e suas relações com outros centros de poder. A avaliação é do professor e cientista político Leonardo Trevisan, que, em entrevista ao Boa Noite 247, analisou as manifestações recentes de Washington sobre o Brasil e o caminho que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode adotar na Assembleia Geral das Nações Unidas.

“Deixa a turma do Marco Rubio gritar o suficiente”, afirmou Trevisan ao defender que o governo brasileiro não transforme as declarações vindas de Washington em um confronto permanente. Para ele, a resposta deve combinar defesa da soberania com cautela diplomática, evitando alimentar uma escalada que possa comprometer as relações entre os dois países.

A análise ocorre às vésperas da participação de Lula na Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Segundo informações divulgadas pelo Brasil 247, a expectativa é que o presidente trate de soberania, multilateralismo e interferência estrangeira em seu pronunciamento, além de temas como conflitos internacionais, mudanças climáticas e direitos humanos.

Trevisan relacionou a pressão norte-americana à atuação de setores do governo Trump, em particular do secretário de Estado, Marco Rubio. Na avaliação do professor, determinadas manifestações de Washington sobre o Brasil devem ser compreendidas mais como resultado de uma disputa política dentro da administração norte-americana do que como indicação de uma ação concreta contra o país.

Ao comentar uma manifestação dos Estados Unidos envolvendo o combate ao crime organizado em diferentes países, Trevisan afirmou que a referência ao Brasil aparece, em sua leitura, sem uma definição precisa das medidas que poderiam ser tomadas. “É muito mais uma visão específica dentro do Departamento de Estado do que uma realidade efetiva de uma possível invasão”, disse.

O professor evitou, porém, descartar completamente a possibilidade de novas medidas norte-americanas. Para ele, não é possível garantir quais decisões Washington poderá adotar, sobretudo em um período marcado pela disputa eleitoral brasileira. Sua avaliação é que uma escalada teria consequências para a relação bilateral caso Lula conquiste um novo mandato.

É nesse ponto que Trevisan identifica a aproximação entre Brasil e China como um elemento da estratégia diplomática brasileira. Ele chamou atenção para a viagem do assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, a Pequim e para seu encontro com o chanceler chinês, Wang Yi. Segundo o professor, o aprofundamento dessa relação transmite aos Estados Unidos a mensagem de que o Brasil dispõe de alternativas para suas relações econômicas e internacionais.

“Se vocês ficarem tratando a gente muito mal, nós temos outro freguês, nós temos com quem nos aproximar”, resumiu Trevisan ao explicar o significado político que atribui ao movimento.

Na avaliação do cientista político, essa possibilidade também funciona como fator de contenção sobre Washington porque uma parcela do empresariado norte-americano não teria interesse em assistir a uma aproximação ainda maior entre Brasil e China. Dessa forma, a diversificação das relações internacionais ampliaria a margem de negociação brasileira sem exigir o rompimento com os Estados Unidos.

Esse raciocínio, segundo Trevisan, pode aparecer no discurso de Lula na ONU. Em vez de uma resposta baseada no confronto direto, o presidente poderia reafirmar que o país possui compromissos internacionais e alternativas econômicas e diplomáticas.

“Nós temos alternativas. Não adianta vocês, de alguma forma, pressionarem, porque nós temos compromissos com o multilateralismo, nós temos compromissos com a ONU, nós temos compromissos principalmente com a liberdade comercial”, afirmou.

A defesa do multilateralismo também permite ao Brasil apresentar a questão da soberania como um princípio de sua política externa, e não apenas como uma resposta circunstancial ao governo Trump. Em discurso anterior na Assembleia Geral, Lula já havia associado soberania ao direito dos Estados de legislar, julgar conflitos e fazer cumprir suas normas dentro do próprio território.

Ao mesmo tempo, Brasília procura preservar canais de negociação com Washington. Brasil e Estados Unidos retomaram formalmente o diálogo comercial no fim de agosto, após conversas entre Lula e Trump, segundo nota conjunta dos ministérios das Relações Exteriores e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

Trevisan considera que essa combinação entre diálogo e diversificação de parceiros deve orientar a resposta brasileira. “Para o Brasil não convém que a gente se apresente numa área de confronto, principalmente com um governo tão imprevisível quanto o de Trump”, afirmou.

Para o professor, manifestações mais duras de integrantes da administração norte-americana também devem ser analisadas levando em conta a política interna dos Estados Unidos. Em sua avaliação, discursos de confronto cumprem uma função diante da base eleitoral de Trump, razão pela qual uma reação brasileira destinada a responder a cada declaração poderia contribuir para ampliar sua repercussão.

Trevisan também considera possível que as pressões aumentem durante a reta final da eleição brasileira. Ele mencionou episódios recentes em outros países latino-americanos para sustentar que movimentos externos em períodos eleitorais não constituem uma novidade na região. Ainda assim, sua recomendação é que o Brasil mantenha a linha adotada até agora: defesa da soberania sem converter cada declaração de Washington em uma crise bilateral.

O próprio Lula afirmou nesta semana ter pedido diretamente a Trump que não interfira nas eleições brasileiras e que não questione o sistema de votação do país.

Para Trevisan, portanto, a resposta às pressões não passa por reproduzir o tom dos setores mais confrontantes do governo norte-americano. O instrumento brasileiro estaria na capacidade de manter relações com Washington enquanto amplia suas opções comerciais e diplomáticas e reafirma o princípio de que decisões internas pertencem ao país.

“Deixa eles latirem”, concluiu o professor.

¨      É uma questão de soberania. Por Pedro Benedito Maciel Neto

Há coisas que, de tão antigas, parecem novas. A interferência estrangeira na política brasileira é uma delas. Talvez a trágica novidade seja que hoje um dos presidenciáveis já tenha se comprometido a entregar a presidência ao departamento de estado dos EUA, desde a transição.

Basta olhar um pouco para trás – não muito – para perceber que a soberania de um país nunca foi apenas uma palavra bonita nos discursos oficiais. Ela é uma disputa permanente. Disputa econômica, política, diplomática e, às vezes, eleitoral.

O Trump está tentando influenciar a eleição brasileira para favorecer um governo Bolsonaro. Tarifas, sanções, restrições de vistos e ataques políticos fariam parte dessa estratégia. 

A história oferece exemplos.

Em 1946, os Estados Unidos tentaram impedir a ascensão de Juan Domingo Perón na Argentina. Perón venceu, e o nacionalismo argentino encontrou naquela interferência externa um poderoso argumento político; décadas depois, a história parece oferecer uma nova versão do mesmo fenômeno, novamente na Argentina, Trump apoiou abertamente Javier Milhei e antes das eleições legislativas de 2025, Washington chegou a condicionar ajuda financeira ao comportamento eleitoral dos argentinos. E, desta vez, a interferência não encontrou resistência suficiente para produzir o efeito contrário.

No Brasil, ainda não sabemos o resultado da interferência de Trump, mas até que ponto aceitamos que uma potência estrangeira diga aos brasileiros quem deve governar o Brasil? Há incautos ou pessoas vis que desejam que Trump interfira.

Não se trata de defender Lula, Flávio Bolsonaro, Cury ou qualquer outro candidato. Trata-se de uma questão anterior às preferências eleitorais: a decisão sobre o futuro do país pertence aos brasileiros, ou não?

É uma questão de soberania. E soberania, em democracia, não significa concordar com o governo de turno. Significa reconhecer que a escolha do governo deve ser garantida pelas instituições e escolhida pelos cidadãos do próprio país.

Em 2022, a democracia ocupava o centro do debate eleitoral, o ambiente era de enorme polarização e havia uma preocupação concreta com a possibilidade de ruptura institucional, o que quase ocorreu. Lula apresentou-se naquele momento menos como candidato de esquerda e mais como candidato da democracia.

Quatro anos depois, o cenário mudou. A democracia continua sendo uma questão fundamental, mas já não parece ocupar o mesmo espaço no debate público: economia, segurança pública e crime organizado ganharam protagonismo e talvez isso seja natural. 

Democracia não é apenas votar, é também comer, trabalhar, morar, estudar, circular pelas cidades sem medo, pagar as contas e acreditar que amanhã poderá ser um pouco melhor que hoje.

O fato que a História mostra é: quando a melhora que a democracia traz e garante não é percebida pelas pessoas, ela perde parte de sua força simbólica, foi assim na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler.

Os números macroeconômicos, por sua vez, contam apenas uma parte da história, pois, apesar de Lula 3 ter reduzido a pobreza e a pobreza extrema, embora o desempenho econômico dos últimos anos seja muito bom, embora os juros elevados tenham atrapalhado, a percepção do cidadão comum é que Lula 3 “não entregou” o que prometeu, apesar de ter entregue muito mais do que as promessas de campanha.

É aí que aparece uma velha questão brasileira: a diferença entre o país que aparece nas planilhas e o país que aparece na mesa de jantar, pois, o PIB pode crescer, a inflação pode estar controlada, o desemprego pode cair, como caiu, mas se o cidadão não percebe isso na sua vida, a estatística não produz confiança.

Política é, em grande medida, percepção.

Se por um lado o STF teve papel importante na defesa da democracia durante o governo Bolsonaro, a forte politização da Corte, fruto da judicialização de alta intensidade, também pode produzir riscos e uma postura mais moderada teria sido desejável.

Defender a democracia torna nenhuma instituição em instituição acima de críticas, afinal, a democracia pressupõe instituições fortes, mas também instituições submetidas às regras, aos limites constitucionais e ao escrutínio público.

Não devemos permitir que Washington escolha nosso presidente, mas também não devemos permitir que Brasília escolha nossa consciência, nem o governo, nem a oposição, nem o Supremo, nem os partidos, nem os influenciadores, nem as redes sociais.

A democracia pressupõe cidadãos livres para escolher, instituições capazes de respeitar as regras e governos que compreendam que o poder recebido nas urnas não lhes pertence.

A democracia pertence, sempre, ao povo, não a outro país ou grupo.

 

Fonte: Insttituto Sul Global/Brasil 247

 

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