Câncer
infantil: diagnóstico precoce é chave para tratamento de sucesso
Apesar
de pouco frequente, o câncer afeta e interrompe a vida de muitas crianças no
Brasil. Se descoberto precocemente, o tratamento atinge índice de cura de mais
de 50%. No entanto, os tumores malignos ainda são a causa de cerca de 8% das
fatalidades entre crianças e adolescentes. Segundo levantamento realizado pelo
Ministério da Saúde em 2022, é a maior causa de morte por doenças na pediatria.
Nos
pequenos, o mais comum é a leucemia
linfoide aguda de células B, câncer hematológico — tipo que afeta o
sangue, a medula óssea e o sistema linfático — que representa cerca de 25% dos
casos, seguido pelo neuroblastoma, tumor extracraniano que afeta as glândulas
suprarrenais e o abdômen, e pelos tumores do sistema nervoso central, cânceres
não hematológicos, ou seja, que não afetam o sangue. Segundo a
onco-hematologista do Hospital de Brasília Simone Franco, esses são os três
tipos mais frequentes na infância.
A
coordenadora da oncologia infantil do Hospital Samaritano Carla Macedo,
destaca, ainda, o tumor de wilms, que é o mais comum dos dois aos cinco anos.
Além disso, há, também, o Linfoma, que pode ser Hodgkin ou não-Hodgkin, sendo
que o Hodgkin tem maior índice de ocorrência em crianças. A principal diferença
entre os dois está na presença das células Reed-Sternberg — células gigantes
anormais — encontradas no linfoma Hodgkin.
Macedo
explica que os indícios da doença costumam ser inespecíficos e podem se
confundir com doenças comuns da infância. “O mais importante é observar sinais
persistentes ou que se agravam ao longo dos dias”. Os sintomas são progressivos
e não melhoram com medicação, o que é um alerta para procurar um médico e
investigar as causas.
<><>
Diagnóstico
O
diagnóstico tardio ainda acontece e pode ocorrer porque os sintomas iniciais se
parecem com os de infecções, viroses ou problemas ortopédicos comuns na
infância.
A
identificação precoce aumenta significativamente as chances de sucesso do
tratamento e pode reduzir a necessidade de terapias mais agressivas e o risco
de sequelas.
<><>
Sintomas mais comuns
Leucemia:
-
Palidez, sangramentos, queda das plaquetas, mal-estar, febre e aumento dos
gânglios (adenomegalias). A leucemia aguda costuma evoluir rapidamente. Os
sintomas aparecem em um curto período, e a criança geralmente não consegue
permanecer bem em casa por muito tempo, o que acaba levando ao diagnóstico em
um prazo relativamente curto.
Retinoblastoma:
-
Leucocoria — quando, em vez do reflexo vermelho habitual nas fotografias,
aparece um reflexo esbranquiçado no olho —, estrabismo e nistagmo, que é o
movimento involuntário dos olhos.
Neuroblastoma:
- Pode
ocorrer dor abdominal, dor óssea e aumento do volume abdominal. Como geralmente
é um tumor que cresce na região do abdômen, ele também pode comprimir
estruturas e fazer com que a criança apresente dificuldade para urinar ou
evacuar.
Tumores
do sistema nervoso central:
Perda
de marcos do desenvolvimento já adquiridos. Por exemplo, uma criança que
sentava passa a não conseguir mais sentar; uma criança que falava deixa de
falar; pode surgir estrabismo, dificuldade para engolir, dores de cabeça
intensas e vômitos em jato, que podem indicar aumento da pressão intracraniana.
*Esses
sinais não significam necessariamente câncer, mas justificam uma avaliação
médica, especialmente quando persistem ou não têm uma causa identificada.
<><>
Tratamento
Nas
crianças, o tratamento de câncer atinge níveis maiores de sucesso pois elas
respondem melhor à quimioterapia, por exemplo. Atualmente a maioria das
quimioterapias é ambulatorial e não requer internação, o que torna o
atendimento mais humanizado e menos agressivo.
>>>>
Palavra do Especialista - Simone Franco, Onco-hematologista do Hospital
Brasília
• 1. A descoberta tardia é comum? Em quais
tipos?
Quando
falamos em diagnóstico tardio, muitas vezes estamos nos referindo ao fato de a
doença já ter sido identificada em estágio metastático. Isso não significa,
necessariamente, que houve um longo tempo de evolução. Nos cânceres
pediátricos, alguns tumores são bastante agressivos e podem se disseminar
rapidamente. Há alguns anos, o acesso ao diagnóstico era mais difícil. Hoje,
especialmente em Brasília, essa realidade mudou bastante. Contamos com centros
especializados em oncologia pediátrica e maior acesso aos exames, inclusive
pelo SUS. Por isso, considero que essa barreira foi, em grande parte, superada
na nossa região. Ainda assim, o diagnóstico metastático continua sendo uma
realidade na oncologia pediátrica, justamente porque muitos desses tumores apresentam
crescimento muito rápido. Em contrapartida, eles também costumam responder
muito bem à quimioterapia. Atualmente, cerca de 50% dos tumores pediátricos
podem já estar metastáticos no momento do diagnóstico, mesmo quando a criança
apresenta pouco tempo de evolução dos sintomas. Essa realidade pode variar
bastante entre as regiões do Brasil. Em Brasília e nos grandes centros urbanos,
houve uma melhora significativa no acesso ao diagnóstico e ao tratamento. Já em
outras regiões do país, onde ainda não existem centros especializados em
oncologia pediátrica, essa dificuldade de acesso pode impactar o tempo até o
diagnóstico. Um exemplo clássico é o retinoblastoma. Em algumas regiões,
principalmente no Norte do país, ainda é comum que as crianças cheguem ao
serviço especializado com a doença mais avançada, muitas vezes já com perda do
olho em decorrência da demora no acesso ao diagnóstico. Em Brasília, esse
cenário é diferente. A maioria dos casos é diagnosticada ainda na fase
intraocular, justamente porque o acesso ao atendimento especializado é mais
rápido.
• 2. Existe algum cuidado preventivo para
os primeiros anos de vida?
Na
infância, não existe uma forma comprovada de prevenir o aparecimento do câncer.
Diferentemente do que acontece em muitos cânceres do adulto, os tumores
pediátricos geralmente não estão relacionados a fatores ambientais ou ao estilo
de vida. Na maioria das vezes, a criança já nasce com alterações genéticas que,
em determinado momento, podem levar ao desenvolvimento da doença. Por isso, o
principal foco não é a prevenção, mas sim o diagnóstico precoce. Reconhecer
rapidamente os sinais e sintomas permite iniciar o tratamento mais cedo e
aumenta as chances de melhores resultados, evitando, por exemplo, que um tumor
inicialmente de baixo risco evolua para uma condição de maior complexidade.
Existem algumas crianças que apresentam síndromes de predisposição ao câncer.
Nesses casos, é fundamental que elas sejam acompanhadas de perto para que
qualquer alteração seja identificada precocemente. Embora seja sempre
recomendado evitar a exposição da criança ao cigarro e a outros agentes
nocivos, essas medidas fazem parte dos cuidados gerais com a saúde e não
representam uma forma específica de prevenção do câncer infantil.
• Câncer de pulmão: diagnóstico tardio
ainda é um dos principais obstáculos no tratamento
O
câncer de pulmão é responsável pelo maior número de mortes por tumores malignos
no mundo. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima mais de 35
mil novos casos por ano da doença entre 2026 e 2028. Durante o Agosto Branco,
mês dedicado à conscientização sobre a condição, especialistas reforçam que
ampliar a prevenção e a identificação precoce é fundamental para reduzir a
mortalidade.
Grande
parte do impacto do câncer de pulmão está relacionada a fatores que podem ser
evitados ou modificados ao longo da vida e à dificuldade de reconhecer a doença
em suas fases iniciais. Segundo o INCA, apenas 16% dos casos no Brasil são
descobertos em estágios precoces.
Para o
Dr. Álvaro Guimarães Paula, oncologista especialista em tumores de tórax, da
Croma Oncologia, a combinação entre a exposição ao cigarro principal fator
associado ao desenvolvimento da doença e a ausência de sinais claros no começo,
contribui para que muitos pacientes recebam o diagnóstico quando o tumor já
está mais avançado.
“O
tabagismo continua sendo o principal fator de risco para o câncer de pulmão,
relacionado a aproximadamente 85% dos casos. Como a doença frequentemente não
apresenta sintomas ou provoca sinais pouco específicos no início, cerca de
75-80% dos pacientes são diagnosticados quando o tumor já está mais avançado,
reduzindo as possibilidades de tratamento com intenção de cura”, explica.
<><>
Tipos de câncer de pulmão e principais sintomas
Embora
seja tratada como uma única condição, a doença reúne diferentes tipos de
tumores, com características próprias. De forma geral, é dividida em dois
grandes grupos: o câncer de pulmão de células não pequenas e o de pequenas
células. Essa classificação ajuda os médicos a compreenderem o comportamento do
tumor e a definir a abordagem terapêutica mais adequada para cada paciente.
Quando
presentes, sintomas como tosse persistente, dor no peito, falta de ar, tosse
com sangue e perda de peso sem explicação devem ser investigados. Como os
sinais podem ser discretos no início, muitos casos acabam sendo identificados
durante exames de imagem realizados por outros motivos.
<><>
Tomografia de baixa intensidade ajuda na detecção precoce
Uma das
estratégias para ampliar a identificação precoce do câncer de pulmão é o
rastreamento com tomografia computadorizada de baixa dose em pessoas
consideradas de alto risco. No Brasil, a recomendação contempla fumantes ou
ex-fumantes que interromperam o hábito há até 15 anos, têm entre 50 e 80 anos e
histórico de consumo igual ou superior a 20 maços-ano.
Apesar
dos benefícios, o acesso ainda é limitado: o exame possui cobertura na saúde
suplementar para pessoas elegíveis, mas não integra a rotina do Sistema Único
de Saúde (SUS). Atualmente, um estudo conduzido pelo INCA avalia a viabilidade
de incorporar essa estratégia à rede pública.
<><>
Avanços no tratamento tornaram a abordagem mais personalizada
A
medicina passou a contar com ferramentas capazes de revelar características
específicas de cada tumor e orientar escolhas mais individualizadas. Além da
biópsia, exames que analisam alterações genéticas ajudam os médicos a
identificar quais pacientes podem se beneficiar de terapias direcionadas. Um
exemplo é uma alteração no gene ALK, encontrada em cerca de 5% a 7% dos casos
de câncer de pulmão de células não pequenas.
O ALK
participa do funcionamento das células e, quando sofre uma alteração
específica, pode estimular o crescimento do tumor. Nesses casos, terapias
desenvolvidas para bloquear esse mecanismo podem atuar de forma mais precisa.
Essa alteração é mais frequente em pacientes jovens, que nunca fumaram ou
tiveram pouca exposição ao tabaco, especialmente mulheres.
Nos
últimos anos, a imunoterapia e as terapias direcionadas transformaram a forma
de tratar o câncer de pulmão. Embora a quimioterapia ainda tenha papel
importante, essas estratégias ampliaram o controle da doença e contribuíram
para melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Muitos desses tratamentos
podem ser administrados por via oral, reduzindo a necessidade de aplicações
intravenosas frequentes. “Quanto mais cedo a doença é identificada e quanto
mais individualizada é a abordagem, maiores são as chances de controle e de
preservação da qualidade de vida dos pacientes”, conclui o Dr. Álvaro Guimarães
Paula.
Fonte:
Correio Braziliense/Portal EdiCase

Nenhum comentário:
Postar um comentário