terça-feira, 22 de setembro de 2026

Câncer infantil: diagnóstico precoce é chave para tratamento de sucesso

Apesar de pouco frequente, o câncer afeta e interrompe a vida de muitas crianças no Brasil. Se descoberto precocemente, o tratamento atinge índice de cura de mais de 50%. No entanto, os tumores malignos ainda são a causa de cerca de 8% das fatalidades entre crianças e adolescentes. Segundo levantamento realizado pelo Ministério da Saúde em 2022, é a maior causa de morte por doenças na pediatria.

Nos pequenos, o mais comum é a leucemia  linfoide aguda de células B, câncer hematológico — tipo que afeta o sangue, a medula óssea e o sistema linfático — que representa cerca de 25% dos casos, seguido pelo neuroblastoma, tumor extracraniano que afeta as glândulas suprarrenais e o abdômen, e pelos tumores do sistema nervoso central, cânceres não hematológicos, ou seja, que não afetam o sangue. Segundo a onco-hematologista do Hospital de Brasília Simone Franco, esses são os três tipos mais frequentes na infância.

A coordenadora da oncologia infantil do Hospital Samaritano Carla Macedo, destaca, ainda, o tumor de wilms, que é o mais comum dos dois aos cinco anos. Além disso, há, também, o Linfoma, que pode ser Hodgkin ou não-Hodgkin, sendo que o Hodgkin tem maior índice de ocorrência em crianças. A principal diferença entre os dois está na presença das células Reed-Sternberg — células gigantes anormais — encontradas no linfoma Hodgkin.

Macedo explica que os indícios da doença costumam ser inespecíficos e podem se confundir com doenças comuns da infância. “O mais importante é observar sinais persistentes ou que se agravam ao longo dos dias”. Os sintomas são progressivos e não melhoram com medicação, o que é um alerta para procurar um médico e investigar as causas.

<><> Diagnóstico

O diagnóstico tardio ainda acontece e pode ocorrer porque os sintomas iniciais se parecem com os de infecções, viroses ou problemas ortopédicos comuns na infância.

A identificação precoce aumenta significativamente as chances de sucesso do tratamento e pode reduzir a necessidade de terapias mais agressivas e o risco de sequelas.

<><> Sintomas mais comuns

Leucemia:

- Palidez, sangramentos, queda das plaquetas, mal-estar, febre e aumento dos gânglios (adenomegalias). A leucemia aguda costuma evoluir rapidamente. Os sintomas aparecem em um curto período, e a criança geralmente não consegue permanecer bem em casa por muito tempo, o que acaba levando ao diagnóstico em um prazo relativamente curto.

Retinoblastoma:

- Leucocoria — quando, em vez do reflexo vermelho habitual nas fotografias, aparece um reflexo esbranquiçado no olho —, estrabismo e nistagmo, que é o movimento involuntário dos olhos.

Neuroblastoma:

- Pode ocorrer dor abdominal, dor óssea e aumento do volume abdominal. Como geralmente é um tumor que cresce na região do abdômen, ele também pode comprimir estruturas e fazer com que a criança apresente dificuldade para urinar ou evacuar.

Tumores do sistema nervoso central:

Perda de marcos do desenvolvimento já adquiridos. Por exemplo, uma criança que sentava passa a não conseguir mais sentar; uma criança que falava deixa de falar; pode surgir estrabismo, dificuldade para engolir, dores de cabeça intensas e vômitos em jato, que podem indicar aumento da pressão intracraniana.

*Esses sinais não significam necessariamente câncer, mas justificam uma avaliação médica, especialmente quando persistem ou não têm uma causa identificada.

<><> Tratamento

Nas crianças, o tratamento de câncer atinge níveis maiores de sucesso pois elas respondem melhor à quimioterapia, por exemplo. Atualmente a maioria das quimioterapias é ambulatorial e não requer internação, o que torna o atendimento mais humanizado e menos agressivo.

>>>> Palavra do Especialista - Simone Franco, Onco-hematologista do Hospital Brasília

•        1. A descoberta tardia é comum? Em quais tipos?

Quando falamos em diagnóstico tardio, muitas vezes estamos nos referindo ao fato de a doença já ter sido identificada em estágio metastático. Isso não significa, necessariamente, que houve um longo tempo de evolução. Nos cânceres pediátricos, alguns tumores são bastante agressivos e podem se disseminar rapidamente. Há alguns anos, o acesso ao diagnóstico era mais difícil. Hoje, especialmente em Brasília, essa realidade mudou bastante. Contamos com centros especializados em oncologia pediátrica e maior acesso aos exames, inclusive pelo SUS. Por isso, considero que essa barreira foi, em grande parte, superada na nossa região. Ainda assim, o diagnóstico metastático continua sendo uma realidade na oncologia pediátrica, justamente porque muitos desses tumores apresentam crescimento muito rápido. Em contrapartida, eles também costumam responder muito bem à quimioterapia. Atualmente, cerca de 50% dos tumores pediátricos podem já estar metastáticos no momento do diagnóstico, mesmo quando a criança apresenta pouco tempo de evolução dos sintomas. Essa realidade pode variar bastante entre as regiões do Brasil. Em Brasília e nos grandes centros urbanos, houve uma melhora significativa no acesso ao diagnóstico e ao tratamento. Já em outras regiões do país, onde ainda não existem centros especializados em oncologia pediátrica, essa dificuldade de acesso pode impactar o tempo até o diagnóstico. Um exemplo clássico é o retinoblastoma. Em algumas regiões, principalmente no Norte do país, ainda é comum que as crianças cheguem ao serviço especializado com a doença mais avançada, muitas vezes já com perda do olho em decorrência da demora no acesso ao diagnóstico. Em Brasília, esse cenário é diferente. A maioria dos casos é diagnosticada ainda na fase intraocular, justamente porque o acesso ao atendimento especializado é mais rápido.

•        2. Existe algum cuidado preventivo para os primeiros anos de vida?

Na infância, não existe uma forma comprovada de prevenir o aparecimento do câncer. Diferentemente do que acontece em muitos cânceres do adulto, os tumores pediátricos geralmente não estão relacionados a fatores ambientais ou ao estilo de vida. Na maioria das vezes, a criança já nasce com alterações genéticas que, em determinado momento, podem levar ao desenvolvimento da doença. Por isso, o principal foco não é a prevenção, mas sim o diagnóstico precoce. Reconhecer rapidamente os sinais e sintomas permite iniciar o tratamento mais cedo e aumenta as chances de melhores resultados, evitando, por exemplo, que um tumor inicialmente de baixo risco evolua para uma condição de maior complexidade. Existem algumas crianças que apresentam síndromes de predisposição ao câncer. Nesses casos, é fundamental que elas sejam acompanhadas de perto para que qualquer alteração seja identificada precocemente. Embora seja sempre recomendado evitar a exposição da criança ao cigarro e a outros agentes nocivos, essas medidas fazem parte dos cuidados gerais com a saúde e não representam uma forma específica de prevenção do câncer infantil.

•        Câncer de pulmão: diagnóstico tardio ainda é um dos principais obstáculos no tratamento

O câncer de pulmão é responsável pelo maior número de mortes por tumores malignos no mundo. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima mais de 35 mil novos casos por ano da doença entre 2026 e 2028. Durante o Agosto Branco, mês dedicado à conscientização sobre a condição, especialistas reforçam que ampliar a prevenção e a identificação precoce é fundamental para reduzir a mortalidade.

Grande parte do impacto do câncer de pulmão está relacionada a fatores que podem ser evitados ou modificados ao longo da vida e à dificuldade de reconhecer a doença em suas fases iniciais. Segundo o INCA, apenas 16% dos casos no Brasil são descobertos em estágios precoces.

Para o Dr. Álvaro Guimarães Paula, oncologista especialista em tumores de tórax, da Croma Oncologia, a combinação entre a exposição ao cigarro principal fator associado ao desenvolvimento da doença e a ausência de sinais claros no começo, contribui para que muitos pacientes recebam o diagnóstico quando o tumor já está mais avançado.

“O tabagismo continua sendo o principal fator de risco para o câncer de pulmão, relacionado a aproximadamente 85% dos casos. Como a doença frequentemente não apresenta sintomas ou provoca sinais pouco específicos no início, cerca de 75-80% dos pacientes são diagnosticados quando o tumor já está mais avançado, reduzindo as possibilidades de tratamento com intenção de cura”, explica.

<><> Tipos de câncer de pulmão e principais sintomas

Embora seja tratada como uma única condição, a doença reúne diferentes tipos de tumores, com características próprias. De forma geral, é dividida em dois grandes grupos: o câncer de pulmão de células não pequenas e o de pequenas células. Essa classificação ajuda os médicos a compreenderem o comportamento do tumor e a definir a abordagem terapêutica mais adequada para cada paciente.

Quando presentes, sintomas como tosse persistente, dor no peito, falta de ar, tosse com sangue e perda de peso sem explicação devem ser investigados. Como os sinais podem ser discretos no início, muitos casos acabam sendo identificados durante exames de imagem realizados por outros motivos.

<><> Tomografia de baixa intensidade ajuda na detecção precoce

Uma das estratégias para ampliar a identificação precoce do câncer de pulmão é o rastreamento com tomografia computadorizada de baixa dose em pessoas consideradas de alto risco. No Brasil, a recomendação contempla fumantes ou ex-fumantes que interromperam o hábito há até 15 anos, têm entre 50 e 80 anos e histórico de consumo igual ou superior a 20 maços-ano.

Apesar dos benefícios, o acesso ainda é limitado: o exame possui cobertura na saúde suplementar para pessoas elegíveis, mas não integra a rotina do Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, um estudo conduzido pelo INCA avalia a viabilidade de incorporar essa estratégia à rede pública.

<><> Avanços no tratamento tornaram a abordagem mais personalizada

A medicina passou a contar com ferramentas capazes de revelar características específicas de cada tumor e orientar escolhas mais individualizadas. Além da biópsia, exames que analisam alterações genéticas ajudam os médicos a identificar quais pacientes podem se beneficiar de terapias direcionadas. Um exemplo é uma alteração no gene ALK, encontrada em cerca de 5% a 7% dos casos de câncer de pulmão de células não pequenas.

O ALK participa do funcionamento das células e, quando sofre uma alteração específica, pode estimular o crescimento do tumor. Nesses casos, terapias desenvolvidas para bloquear esse mecanismo podem atuar de forma mais precisa. Essa alteração é mais frequente em pacientes jovens, que nunca fumaram ou tiveram pouca exposição ao tabaco, especialmente mulheres.

Nos últimos anos, a imunoterapia e as terapias direcionadas transformaram a forma de tratar o câncer de pulmão. Embora a quimioterapia ainda tenha papel importante, essas estratégias ampliaram o controle da doença e contribuíram para melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Muitos desses tratamentos podem ser administrados por via oral, reduzindo a necessidade de aplicações intravenosas frequentes. “Quanto mais cedo a doença é identificada e quanto mais individualizada é a abordagem, maiores são as chances de controle e de preservação da qualidade de vida dos pacientes”, conclui o Dr. Álvaro Guimarães Paula.

 

Fonte: Correio Braziliense/Portal EdiCase

 

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