A
escolha da profissão não é uma sentença para a vida toda
Houve
um tempo em que escolher uma graduação parecia assinar um contrato de longo
prazo com o futuro. As tradicionais medicina, direito, engenharia,
administração eram um passaporte para a estabilidade e o curso era quase uma
definição de identidade.
Hoje,
escolher uma graduação é basicamente decidir quais problemas quer resolver no
futuro e quais competências precisa desenvolver. A escolha continua exigindo
pesquisa, autoconhecimento e reflexão. Só que não precisa mais ser um caminho
único e uma escolha irreversível.
O ponto
é observar os sinais e aprender sobre si mesmo. Em quais atividades você entra
em concentração profunda, aquele “flow” em que o tempo parece passar sem ser
percebido? Que desafios despertam sua curiosidade? Você gosta de criar,
analisar, cuidar, negociar, investigar, explicar, construir ou imaginar? Essas
perguntas não dão respostas prontas, mas ajudam a tornar a escolha menos
abstrata.
Para
quem está diante das inscrições dos processos seletivos de 2027, algumas
atitudes tornam a decisão mais consciente. Converse com profissionais de áreas
que despertam interesse. Fale com professores, visite universidades, feiras de
profissões e laboratórios: ver o curso de perto é diferente de ler uma
descrição na internet. Use testes vocacionais e assessments como ponto de
partida, não como como linha de chegada. Experimente antes de escolher, com
cursos livres, projetos pessoais e hackathons. Use as redes sociais para ver
como profissionais se posicionam, de quais eventos participam, como expõe suas conquistas e seus
desafios reais. E o mais importante: observe-se com honestidade. Nem tudo o que
parece dar dinheiro ou status, vai trazer satisfação. Pense realmente quais
problemas gostaria de enfrentar todos os dias.
A boa
notícia para quem está escolhendo um curso é que há mais caminhos possíveis
entre interesse pessoal e trabalho do que havia no passado. Quem passa horas
tocando em uma banda talvez não precise limitar o futuro à ideia de ser músico.
Pode trilhar uma carreira em engenharia de áudio, produção musical ou
desenvolvimento de softwares de edição. Quem perde a noção do tempo em
campeonatos de games pode desenvolver jogos, atuar no design, roteiro, animação
ou experiência do usuário. O interesse por causas ambientais pode ser
aproveitado em um trabalho sobre economia circular ou inovação.
Para
quem pensa em escolher a carreira de engenharia, não basta gostar de exatas. O
caminho pode seguir para áreas como computação, energia, mobilidade, relações
com investidores, meio ambiente, sistemas, automação, química ou aeroespacial.
Essa multiplicidade reflete um mercado que exige profissionais cada vez mais
especializados, mas com visão sistêmica do negócio. Não se trata mais apenas de
ser um “engenheiro”
Em um
mundo em transformação, escolher uma profissão é menos sobre decidir quem você
será para sempre — e mais sobre desenvolver condições para continuar se
tornando. Carreiras, afinal, serão cada vez menos lineares.
Escolher
uma graduação continua sendo uma decisão relevante. Mas, talvez, seja mais
saudável encará-la como a abertura de uma trajetória, e não como o fechamento
de todas as outras possibilidades. A melhor preparação não é tentar prever o
cargo que existirá daqui a 10 anos: é desenvolver curiosidade, capacidade de
aprender continuamente e coragem para ajustar a rota. A carreira do futuro
talvez não seja aquela que se escolhe de uma vez só. Mas aquela que pode ser
construída e renovada dia a dia.
• O poder do diploma: pesquisa revela que
salário aumenta 110% após formatura
Ter um
diploma continua compensando no bolso, mas cada vez menos no reconhecimento. É
o que mostra a 5ª Pesquisa de Empregabilidade dos Egressos do Ensino Superior
Brasileiro, feita pelo Semesp, entidade que representa mantenedoras de ensino
superior do Brasil, divulgada na última quinta feira (17/9) durante o 28º
Congresso do Ensino Superior (Finesp), em São Paulo, que entrevistou 4.106
egressos de 200 instituições e 134 cursos entre julho e agosto deste ano. O
evento foi promovido pelo Semesp, entidade que representa mantenedoras de
ensino superior no Brasil.
Do lado
financeiro, o retorno é expressivo. Antes de concluir a graduação, a renda
média bruta dos entrevistados era de R$ 2,7 mil. Depois, subiu para R$ 5,8 mil,
um aumento de 110%. O efeito é maior entre quem partia de salários mais baixos:
91,8% dos que ganhavam até R$ 1 mil passaram a receber mais após o diploma. Na
pós-graduação, esse ganho se amplia, elevando a renda média de R$ 4.630 na
graduação para R$ 9.262 entre mestres e doutores.
Apesar
disso, o diploma vem perdendo prestígio aos olhos de quem o conquistou. Na
pesquisa, 38,6% dos egressos dizem que sua formação é pouco ou nada valorizada
no mercado, e o ceticismo cresce entre os mais jovens: 43,6% dos que têm até 29
anos pensam assim, contra 25,4% dos que têm 50 anos ou mais. Quanto mais
recente a formatura, menor a sensação de que ela pesa na contratação. Para os
próprios egressos, a experiência prática fala mais alto do que o diploma, mesmo
nas vagas de entrada.
Para o
diretor-executivo do Semesp, Rodrigo Capelato, a mobilidade de renda revelada
pela pesquisa tem explicação. “A pesquisa mostra que o ensino superior traz
mobilidade social, pois quem ganhava menos foi quem mais teve melhora de renda.
Isso é impacto puro”, afirma. Segundo ele, a área de formação pesa, já que há
cursos que pagam e empregam mais do que outros, mas o ponto em comum entre quem
mais ganhou renda é outro: “São escolas que efetivamente trabalham com prática,
que conseguem aliar bem teoria e prática, com projetos e parcerias fortes com o
mercado de trabalho. Não só para abrir vagas de estágio, mas também para
entender o que o mercado busca e incorporá-lo ao currículo.” Acima de tudo,
resume Rodrigo, a instituição precisa
ter qualidade: “Esse é o primeiro grande passo para que a mobilidade aconteça.”
Essa
exigência de experiência também figura entre as maiores dificuldades relatadas
pelos egressos ao ingressar no mercado: 42,8% citam a falta de vivência na área
como principal obstáculo, seguida de salários baixos (29,6%) e de falta de
vagas (26,2%).
Rodrigo
aponta ainda uma lacuna que explica o despreparo de muitos recém-formados: o
vínculo com a instituição costuma se encerrar exatamente quando o aluno mais
precisa dele. “O Brasil ainda carece muito desse relacionamento com o aluno
após a formatura. Com a crise demográfica e o crescimento exponencial da
tecnologia e da IA, vamos precisar de educação ao longo da vida, e as escolas
têm dificuldade nisso.” O erro mais comum, diz, é tratar esse vínculo como algo
a criar só depois da formatura: “Pegar a base de dados e mandar um e-mail não
funciona. Ela tem que se relacionar com o aluno em comunidades durante a
graduação, por interesses, até por hobbies, e trazer para essa conversa as
questões do mercado de trabalho. Quando ele se formar, manter essa relação vai
ser natural. O que as instituições ainda não fazem bem é isso: elas esperam o
aluno se formar para, depois, buscar o relacionamento com ele.”
Nas
considerações finais do estudo, o Semesp resume o cenário: o diploma continua
sendo um importante vetor de mobilidade profissional e econômica, mas o mercado
exige cada vez mais experiência, competências digitais e atualização contínua.
Segundo o instituto, o desafio das instituições de ensino é transformar a
graduação em uma ponte permanente entre formação, carreira, mercado e
aprendizagem ao longo da vida.
Fonte:
Correio Braziliense

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