terça-feira, 22 de setembro de 2026

A escolha da profissão não é uma sentença para a vida toda

Houve um tempo em que escolher uma graduação parecia assinar um contrato de longo prazo com o futuro. As tradicionais medicina, direito, engenharia, administração eram um passaporte para a estabilidade e o curso era quase uma definição de identidade.

Hoje, escolher uma graduação é basicamente decidir quais problemas quer resolver no futuro e quais competências precisa desenvolver. A escolha continua exigindo pesquisa, autoconhecimento e reflexão. Só que não precisa mais ser um caminho único e uma escolha irreversível.

O ponto é observar os sinais e aprender sobre si mesmo. Em quais atividades você entra em concentração profunda, aquele “flow” em que o tempo parece passar sem ser percebido? Que desafios despertam sua curiosidade? Você gosta de criar, analisar, cuidar, negociar, investigar, explicar, construir ou imaginar? Essas perguntas não dão respostas prontas, mas ajudam a tornar a escolha menos abstrata.

Para quem está diante das inscrições dos processos seletivos de 2027, algumas atitudes tornam a decisão mais consciente. Converse com profissionais de áreas que despertam interesse. Fale com professores, visite universidades, feiras de profissões e laboratórios: ver o curso de perto é diferente de ler uma descrição na internet. Use testes vocacionais e assessments como ponto de partida, não como como linha de chegada. Experimente antes de escolher, com cursos livres, projetos pessoais e hackathons. Use as redes sociais para ver como profissionais se posicionam, de quais eventos  participam, como expõe suas conquistas e seus desafios reais. E o mais importante: observe-se com honestidade. Nem tudo o que parece dar dinheiro ou status, vai trazer satisfação. Pense realmente quais problemas gostaria de enfrentar todos os dias.

A boa notícia para quem está escolhendo um curso é que há mais caminhos possíveis entre interesse pessoal e trabalho do que havia no passado. Quem passa horas tocando em uma banda talvez não precise limitar o futuro à ideia de ser músico. Pode trilhar uma carreira em engenharia de áudio, produção musical ou desenvolvimento de softwares de edição. Quem perde a noção do tempo em campeonatos de games pode desenvolver jogos, atuar no design, roteiro, animação ou experiência do usuário. O interesse por causas ambientais pode ser aproveitado em um trabalho sobre economia circular ou inovação.

Para quem pensa em escolher a carreira de engenharia, não basta gostar de exatas. O caminho pode seguir para áreas como computação, energia, mobilidade, relações com investidores, meio ambiente, sistemas, automação, química ou aeroespacial. Essa multiplicidade reflete um mercado que exige profissionais cada vez mais especializados, mas com visão sistêmica do negócio. Não se trata mais apenas de ser um “engenheiro”

Em um mundo em transformação, escolher uma profissão é menos sobre decidir quem você será para sempre — e mais sobre desenvolver condições para continuar se tornando. Carreiras, afinal, serão cada vez menos lineares.

Escolher uma graduação continua sendo uma decisão relevante. Mas, talvez, seja mais saudável encará-la como a abertura de uma trajetória, e não como o fechamento de todas as outras possibilidades. A melhor preparação não é tentar prever o cargo que existirá daqui a 10 anos: é desenvolver curiosidade, capacidade de aprender continuamente e coragem para ajustar a rota. A carreira do futuro talvez não seja aquela que se escolhe de uma vez só. Mas aquela que pode ser construída e renovada dia a dia.

•        O poder do diploma: pesquisa revela que salário aumenta 110% após formatura

Ter um diploma continua compensando no bolso, mas cada vez menos no reconhecimento. É o que mostra a 5ª Pesquisa de Empregabilidade dos Egressos do Ensino Superior Brasileiro, feita pelo Semesp, entidade que representa mantenedoras de ensino superior do Brasil, divulgada na última quinta feira (17/9) durante o 28º Congresso do Ensino Superior (Finesp), em São Paulo, que entrevistou 4.106 egressos de 200 instituições e 134 cursos entre julho e agosto deste ano. O evento foi promovido pelo Semesp, entidade que representa mantenedoras de ensino superior no Brasil.

Do lado financeiro, o retorno é expressivo. Antes de concluir a graduação, a renda média bruta dos entrevistados era de R$ 2,7 mil. Depois, subiu para R$ 5,8 mil, um aumento de 110%. O efeito é maior entre quem partia de salários mais baixos: 91,8% dos que ganhavam até R$ 1 mil passaram a receber mais após o diploma. Na pós-graduação, esse ganho se amplia, elevando a renda média de R$ 4.630 na graduação para R$ 9.262 entre mestres e doutores.

Apesar disso, o diploma vem perdendo prestígio aos olhos de quem o conquistou. Na pesquisa, 38,6% dos egressos dizem que sua formação é pouco ou nada valorizada no mercado, e o ceticismo cresce entre os mais jovens: 43,6% dos que têm até 29 anos pensam assim, contra 25,4% dos que têm 50 anos ou mais. Quanto mais recente a formatura, menor a sensação de que ela pesa na contratação. Para os próprios egressos, a experiência prática fala mais alto do que o diploma, mesmo nas vagas de entrada.

Para o diretor-executivo do Semesp, Rodrigo Capelato, a mobilidade de renda revelada pela pesquisa tem explicação. “A pesquisa mostra que o ensino superior traz mobilidade social, pois quem ganhava menos foi quem mais teve melhora de renda. Isso é impacto puro”, afirma. Segundo ele, a área de formação pesa, já que há cursos que pagam e empregam mais do que outros, mas o ponto em comum entre quem mais ganhou renda é outro: “São escolas que efetivamente trabalham com prática, que conseguem aliar bem teoria e prática, com projetos e parcerias fortes com o mercado de trabalho. Não só para abrir vagas de estágio, mas também para entender o que o mercado busca e incorporá-lo ao currículo.” Acima de tudo, resume Rodrigo, a  instituição precisa ter qualidade: “Esse é o primeiro grande passo para que a mobilidade aconteça.”

Essa exigência de experiência também figura entre as maiores dificuldades relatadas pelos egressos ao ingressar no mercado: 42,8% citam a falta de vivência na área como principal obstáculo, seguida de salários baixos (29,6%) e de falta de vagas (26,2%).

Rodrigo aponta ainda uma lacuna que explica o despreparo de muitos recém-formados: o vínculo com a instituição costuma se encerrar exatamente quando o aluno mais precisa dele. “O Brasil ainda carece muito desse relacionamento com o aluno após a formatura. Com a crise demográfica e o crescimento exponencial da tecnologia e da IA, vamos precisar de educação ao longo da vida, e as escolas têm dificuldade nisso.” O erro mais comum, diz, é tratar esse vínculo como algo a criar só depois da formatura: “Pegar a base de dados e mandar um e-mail não funciona. Ela tem que se relacionar com o aluno em comunidades durante a graduação, por interesses, até por hobbies, e trazer para essa conversa as questões do mercado de trabalho. Quando ele se formar, manter essa relação vai ser natural. O que as instituições ainda não fazem bem é isso: elas esperam o aluno se formar para, depois, buscar o relacionamento com ele.”

Nas considerações finais do estudo, o Semesp resume o cenário: o diploma continua sendo um importante vetor de mobilidade profissional e econômica, mas o mercado exige cada vez mais experiência, competências digitais e atualização contínua. Segundo o instituto, o desafio das instituições de ensino é transformar a graduação em uma ponte permanente entre formação, carreira, mercado e aprendizagem ao longo da vida.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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