Pedro
Serrano: “Se Mendonça não sair da relatoria, tem que ser declarado impedido”
O
jurista e professor de Direito Constitucional Pedro Serrano defendeu que o
ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), deixe a relatoria
das investigações relacionadas ao Banco Master. Para Serrano, a permanência do
magistrado à frente do caso tornou-se incompatível com a necessidade de
imparcialidade depois das referências ao próprio ministro em materiais ligados
à investigação e das controvérsias sobre sua atuação na condução dos
procedimentos.
A
avaliação foi feita em entrevista ao Boa Noite 247, durante uma análise da
sessão do Supremo que discutiu os procedimentos envolvendo ministros da Corte e
informações obtidas nas investigações sobre o banqueiro Daniel Vorcaro. Serrano
sustentou que a saída de Mendonça da relatoria deve ocorrer independentemente
da conclusão sobre a existência de elementos suficientes para uma investigação
contra ele.
“Ele
não pode continuar como relator desse caso. Primeiro, ele está citado em
gravações, então ele tem interesse individual nessa questão. Ele não pode, ele
está impedido de continuar”, afirmou. Em seguida, resumiu sua posição: “Se ele
não sair de bom grado, como fez o ministro Toffoli, tem que ser declarado
impedido.”
Para o
jurista, é necessário separar duas questões: a eventual responsabilidade de
Mendonça e sua capacidade de continuar conduzindo procedimentos nos quais seu
próprio comportamento passou a integrar a controvérsia. Serrano afirmou que não
estava equiparando os elementos envolvendo Mendonça aos relacionados a
Alexandre de Moraes, mas argumentou que diferenças de gravidade não afastam a
necessidade de apuração quando existem indícios.
“Eu não
estou querendo dizer que o que tem de indícios contra ele é mais pesado do que
o que tem contra o ministro Alexandre. Talvez ao contrário. Mas, se você tem um
cara que fez o homicídio e outro que fez uma lesão corporal, você investiga os
dois. Lesão corporal é mais leve que homicídio, mas os dois são ilícitos”,
comparou.
A
partir desse raciocínio, Serrano afirmou que as novas informações envolvendo
Mendonça precisam passar pelo mesmo escrutínio aplicado aos demais ministros
citados nos materiais relacionados ao caso. “O que existe hoje contra ele, com
essas novas conversas reveladas, são indícios que precisam ser apurados. Então
ele não pode ser relator do caso, ele tem que ser afastado.”
A
crítica do professor não se limita às referências ao ministro. Serrano
questionou a maneira como Mendonça tornou públicos documentos preliminares
relacionados a Moraes. Na avaliação dele, a divulgação produziu uma exposição
que antecedeu a existência de uma apuração criminal formal e contribuiu para
transformar um procedimento jurídico em uma disputa pública dentro do Supremo.
Serrano
argumentou que o relatório utilizado no episódio tinha caráter preliminar e não
poderia ser tratado como prova. Segundo ele, parte das conclusões teria sido
construída a partir de inferências sobre anotações e mensagens, sem comprovação
suficiente de que determinadas comunicações efetivamente ocorreram.
“O
relatório não é uma perícia técnica, não tem assistente técnico, não tem
contraprova”, afirmou. Para o jurista, o documento poderia servir como material
inicial para orientar verificações, mas não deveria ter sido divulgado como se
suas conclusões já estivessem demonstradas.
Foi
nesse contexto que Serrano vinculou sua defesa do afastamento de Mendonça da
relatoria também à atuação do ministro no decorrer da crise. “Ele teve uma
condução parcial, divulgou indevidamente documentos que não podiam ser
divulgados e agora está citado mais longamente em conversas”, disse.
A
posição apresentada pelo jurista parte de um princípio que atravessou toda a
entrevista: os integrantes do STF precisam ser submetidos aos mesmos critérios.
Serrano criticou tanto uma eventual blindagem de Moraes quanto a possibilidade
de concentrar as apurações apenas nele, enquanto referências a outros
magistrados permanecem sem exame.
“Não dá
para você levar assim: o que as gravações do ministro Moraes são gravíssimas e
as dele tudo bem. Tudo bem, não. Realmente as do ministro Moraes parecem mais
graves, até agora, mas, de qualquer forma, ele está envolvido ali, precisa
investigar”, afirmou.
Serrano
também defendeu que a Polícia Federal apresente ao Supremo a relação de
integrantes do Judiciário mencionados no material apreendido nas investigações
do Banco Master. Caberia então à Corte, segundo ele, avaliar individualmente se
existem elementos suficientes para justificar uma investigação preliminar.
O
jurista ressaltou que isso não significa defender automaticamente a abertura de
inquérito contra qualquer magistrado cujo nome apareça em uma conversa. Uma
referência isolada, explicou, pode não constituir indício. A questão, em sua
avaliação, é impedir que critérios distintos sejam utilizados conforme o
ministro envolvido.
“Eu não
estou dizendo que todo mundo ali tem que ser investigado. Eu estou dizendo que
todo mundo tem que ter julgada a questão de se há indício suficiente para
investigar ou não, de uma forma isonômica, usando o mesmo critério, a mesma
régua para todo mundo”, afirmou.
Essa
preocupação com a isonomia levou Serrano a criticar o tratamento dado aos
diferentes casos dentro do próprio Supremo. Ele lembrou que procedimentos
envolvendo outros ministros foram analisados sob sigilo, enquanto as questões
relacionadas a Moraes chegaram ao plenário em sessão pública. Para ele, uma
Corte não pode estabelecer regimes diferentes sem justificativa jurídica.
Serrano
considera que o modelo inicialmente adotado deveria ter sido outro: reunir as
informações relacionadas aos diferentes magistrados, estabelecer previamente um
rito e submeter todos os casos ao mesmo procedimento. Na visão do professor, o
presidente do STF, Edson Fachin, deveria ter organizado o tratamento conjunto
das informações antes de levar a controvérsia ao plenário.
O
jurista reconheceu, porém, que a publicidade já conferida ao caso de Moraes
criou um novo problema. Depois de realizar publicamente a análise de um
ministro, sustentou, o Supremo encontrará dificuldade para justificar que casos
semelhantes envolvendo outros integrantes sejam tratados exclusivamente em
sigilo.
“Começou
com o ministro Alexandre de forma pública, vai ter que terminar com o último
citado nas conversas de forma pública também”, afirmou. Ainda assim, Serrano
disse considerar preferível que a Corte encontre uma maneira de restabelecer um
procedimento uniforme, com análise conjunta e preservação das garantias dos
envolvidos.
No caso
específico de Mendonça, entretanto, Serrano não condicionou o afastamento da
relatoria à eventual abertura de uma investigação formal. Questionado sobre o
que aconteceria caso o Supremo autorizasse uma apuração contra o ministro,
respondeu que sua saída seria inevitável. “Ele sai com certeza. Como é que ele
vai ser relator do caso em que ele está sendo investigado? Não tem como.”
Mas,
para o professor, a questão antecede esse cenário. Mesmo sem uma decisão sobre
investigação, as referências ao próprio Mendonça e as dúvidas sobre sua atuação
seriam suficientes para que o Supremo examinasse sua permanência à frente do
caso.
Serrano
também rejeitou a ideia de que partidos políticos ou cidadãos possam
simplesmente ingressar no processo penal para determinar o afastamento do
relator. Segundo ele, a questão precisa obedecer aos mecanismos processuais
internos do Supremo e ser levantada por quem tenha legitimidade para fazê-lo.
Essa
defesa do devido processo legal é central na posição apresentada pelo jurista.
Serrano criticou a decisão anterior de Mendonça que acolheu pedido de partido
político para adotar medidas cautelares relacionadas à Polícia Federal. Na
avaliação dele, partidos não são partes de processos penais e não podem receber
uma legitimidade processual que a legislação não lhes concede.
Ao
defender a retirada de Mendonça da relatoria, portanto, Serrano argumenta que a
resposta à crise não deve ser a substituição de uma atuação seletiva por outra.
O caminho, segundo ele, passa por restabelecer critérios processuais comuns
para Moraes, Mendonça e qualquer outro integrante do Judiciário sobre quem
existam elementos concretos que mereçam análise.
“Não
tem que proteger mais ninguém”, resumiu.
Para
Serrano, a preservação institucional do STF depende justamente da capacidade da
Corte de demonstrar que divergências políticas, relações pessoais ou posições
internas não determinam quem será ou não submetido a escrutínio. Nesse cenário,
a permanência de André Mendonça na condução de investigações nas quais ele
próprio passou a ser mencionado representaria, em sua avaliação, um conflito
que precisa ser resolvido antes da continuidade das apurações.
“Ele
precisa ser afastado. Ponto. Isso eu não tenho dúvida”, afirmou.
• Alfredo Attié: “Gilmar Mendes acusou
Mendonça de cometer crime e isso tem que ser apurado”
Em
entrevista à TV 247, o jurista Alfredo Attié fez uma análise contundente dos
desdobramentos da tensa sessão do Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF)
realizada na última terça-feira (15). O centro da controvérsia girou em torno
do julgamento envolvendo pedidos de apuração e procedimentos relacionados ao
ministro Alexandre de Moraes, evidenciando graves atritos entre integrantes da
Corte e o impacto das narrativas políticas sobre a estabilidade das
instituições republicanas.
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O nó jurídico do empate em matéria penal
Durante
a entrevista ao jornalista Joaquim de Carvalho, o jurista examinou a questão de
ordem levantada durante o julgamento de terça-feira sobre o processamento das
matérias envolvendo os ministros. Diante de uma votação empatada em 4 a 4 em
plenário, Attié defendeu categoricamente a aplicação dos princípios
fundamentais do Direito Processual Penal.
“Tratando-se
de um procedimento de natureza criminal ou que busque autorizar investigação
criminal contra um ministro, o empate resolve a questão em favor de quem está
sendo acusado. Não pode haver voto de qualidade ou voto de Minerva do
presidente do tribunal nesse caso. Tudo o que der empate tem de ser
interpretado em favor do acusado.” — Alfredo Attié, em entrevista à TV 247
Attié
destacou que qualquer tentativa de buscar votos de desempate ou reinterpretar o
regimento interno da Corte em processos de índole penal viola o princípio
constitucional do in dubio pro reo, reiterando que, juridicamente, o impasse na
votação de terça-feira invalida o prosseguimento de medidas desfavoráveis ao
acusado.
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Gilmar Mendes vs. André Mendonça: Acusações gravíssimas em plenário
Um dos
pontos mais dramáticos da sessão de terça-feira (15) e abordados na entrevista
diz respeito à troca direta de acusações entre os ministros Gilmar Mendes e
André Mendonça. Para o jurista, a fala de Gilmar Mendes — que imputou a
Mendonça uma conduta motivada por interesses de um grupo político-eleitoral —
ultrapassa o mero debate doutrinário.
Attié
pontuou que acusações desse calibre dentro da mais alta Corte do país não podem
passar sem a devida apuração institucional, uma vez que comprometem a
imparcialidade do STF e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
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A armadilha política contra Moraes e o papel da imprensa
Outro
aspecto central ressaltado pelo jurista e por Joaquim de Carvalho foi o modo
como o julgamento de terça-feira (15) em torno do ministro Alexandre de Moraes
foi capturado por setores da grande mídia e instrumentalizado pela
extrema-direita.
Segundo
Attié, a forma como a sessão foi conduzida criou um “nó institucional”:
independentemente do resultado formal sobre abrir ou não investigações contra o
ministro Moraes, a narrativa de desgaste do STF já vinha sendo alimentada e
amplificada ostensivamente por veículos de comunicação tradicionais.
Attié
argumenta que a exposição do ministro Alexandre de Moraes e a transformação de
ritos processuais internos em espetáculos midiáticos fragilizam o papel
garantidor da Constituição desempenhado pelo Supremo, afetando diretamente o
ambiente político às vésperas de disputas eleitorais decisivas.
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Paixão política e a defesa do Estado Democrático de Direito
Apesar
da gravidade do confronto visto na terça-feira, o jurista lembrou que debates
inflamados e choques de posicionamento sempre fizeram parte da história do STF
e do próprio jogo democrático.
“A
política é feita de paixão e emoção. O Supremo está decidindo questões
fundamentais para o destino do Brasil e da democracia, então é natural que haja
embates acalorados. O que não se pode tolerar é a violência física ou a
instrumentalização de órgãos judiciais para golpismo.”
Por
fim, Attié ressaltou que a preservação do Estado Democrático de Direito exige
rigor na aplicação das leis eleitorais e firmeza das lideranças democráticas
diante de tentativas de desestabilização institucional orquestradas por grupos
extremistas.
• Mendonça atrasa decisão sobre delação de
ex-dono da Reag em meio à crise no STF
O
ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), ainda não decidiu
sobre a homologação da delação premiada de João Carlos Mansur, ex-dono da
gestora Reag, no caso Master. Segundo a coluna de Igor Gadelha, do Metrópoles,
a crise interna da Corte tem contribuído para retardar a decisão sobre o
acordo.
A
proposta de colaboração foi assinada pelo empresário com a Procuradoria-Geral
da República (PGR) e encaminhada ao gabinete do ministro no final de agosto.
Até a publicação da reportagem, neste domingo (20), Mendonça não havia decidido
se homologaria o documento.
De
acordo com auxiliares ouvidos pela coluna, o ministro teria concentrado sua
atenção, nas últimas duas semanas, nos conflitos dentro do Supremo. A
reportagem descreve uma disputa nos bastidores entre Mendonça e o grupo do
ministro Alexandre de Moraes como parte desse cenário.
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Tramitação contrasta com a delação de Mineiro
Mansur
já passou pela audiência de voluntariedade, realizada em 3 de setembro por um
juiz auxiliar do gabinete de Mendonça. O procedimento busca verificar se o
empresário decidiu colaborar espontaneamente. Mesmo após essa etapa, a proposta
permanece sem homologação.
O
intervalo entre a audiência e a decisão foi menor no caso de Antônio Carlos
Freixo Júnior, conhecido como Mineiro. Mendonça homologou a colaboração do
empresário em 9 de setembro, apenas um dia depois da audiência de
espontaneidade, também conduzida por um juiz auxiliar de seu gabinete.
Interlocutores
do ministro atribuem a diferença de ritmo à complexidade dos acordos. Na
avaliação dessas fontes, a delação de Mineiro seria mais simples, enquanto a de
Mansur contém um número maior de anexos e, por isso, exigiria um exame mais
detalhado antes da decisão.
Fonte:
Brasil 247

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