Críticas
de torcedores inundam redes dos clubes que são contra restrição a bets
Diante
das propostas do governo Lula para aumentar as restrições às apostas online,
clubes e federações de futebol se uniram para defender o mercado de bets. Em
resposta, receberam uma enxurrada de críticas de torcedores nas redes sociais.
Times como Flamengo, Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Santos, Botafogo,
Vasco, Fluminense, Cruzeiro e Grêmio aderiram a um manifesto que fala em “golpe
fatal” e chega a projetar o “fim do futebol brasileiro” caso avancem novas
medidas.
Torcedores
das principais equipes do país lembraram que os clubes existem há décadas —
alguns há mais de um século — sem o dinheiro das bets, questionaram a
dependência financeira criada em torno do setor e contrapuseram a preocupação
dos dirigentes com receitas em contraste com o descaso quanto aos problemas de
vício, endividamento e perdas financeiras associados aos jogos.
“O
futebol existia antes das apostas e vai continuar existindo”, escreveu um
torcedor em reação ao posicionamento do Flamengo.
Uma
flamenguista classificou a mobilização como “um mico” e “vergonha nacional”.
“Olha
que sou flamenguista, mas que acabem com tudo então, pego meu vôlei e vou
embora”, escreveu.
No
Vasco, outro torcedor foi mais duro: “Nem os 4 rebaixamentos foram tão
vergonhosos”.
Um
botafoguense classificou o posicionamento como “vergonhoso”, afirmou que ele
estaria desconectado da história do clube e encerrou: “Pelo fim das bets!”.
No
Corinthians, um perfil ligado à torcida também atacou a adesão: “Dizer que
acabar com as bets seria o fim do futebol brasileiro é muita canalhice por
parte dos clubes. E o Corinthians ainda assinou essa nota ridícula”.
Antes
mesmo da adesão, outro torcedor já cobrava que o clube ficasse fora da
mobilização: “Espero, de verdade, que o Corinthians não se junte a esses clubes
e divulgue essa nota ridícula sobre bets”.
A
crítica também chegou ao Palmeiras. Um torcedor citou o clube e o Flamengo ao
ironizar diretamente a previsão feita no manifesto:
“‘Ain,
sem as Bets veremos o Fim do Futebol Brasileiro’. Jura? Podem morrer, então,
Flamengo, Palmeiras e outros tantos clubes de futebol. Fechem esse quiosque!”
Entre
cruzeirenses, a própria história do clube virou argumento contra a tese da
dependência. Um torcedor lembrou que o Cruzeiro já era bicampeão da
Libertadores, tetracampeão brasileiro e hexacampeão da Copa do Brasil muito
antes de as casas de apostas assumirem o espaço que ocupam hoje no futebol.
Em
outra manifestação que ganhou repercussão, um torcedor classificou a
mobilização como “a campanha mais VAGABUNDA da história do futebol” e
questionou o modelo financeiro defendido pelas equipes.
“Se o
futebol depender de endividar família pobre, destruir o pouco de patrimônio de
gente vulnerável e normalizar vício pra se sustentar, então a gente falhou como
Paixão Nacional”, escreveu.
A
mobilização não ficou restrita aos grandes centros. A Federação Bahiana de
Futebol (FBF) também aderiu ao movimento e publicou a íntegra do manifesto em
seus canais oficiais. A entidade reconhece no texto os impactos sociais das
apostas, especialmente sobre pessoas vulneráveis, mas defende que a resposta
seja baseada em fiscalização, educação, prevenção e manutenção do mercado
regulamentado.
As
críticas atravessaram rivalidades e regiões do país, mas repetiram
essencialmente três questionamentos: por que clubes centenários passaram a
tratar o dinheiro das bets como indispensável à própria sobrevivência; se a
preservação dessa receita justifica os impactos sociais relacionados aos jogos;
e por que eventuais restrições ao setor foram apresentadas como uma ameaça ao
próprio futebol.
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Levantamento aponta 88% de críticas
A
dimensão dessa resistência aparece em levantamento do Portal 91, perfil
especializado em ciência de dados, estatísticas e análise de sentimentos de
torcidas no futebol brasileiro.
O
perfil analisou 90.123 interações no X e Instagram sobre o posicionamento dos
clubes. Em 31.761 delas, segundo o levantamento, foi possível identificar uma
posição clara sobre o discurso adotado pelas equipes.
Desse
universo, 88% criticaram o posicionamento dos clubes, 6,9% adotaram uma posição
intermediária e apenas 5,1% manifestaram apoio.
Os
dados também ajudam a explicar o motivo da reação. Segundo o Portal 91, 19,6%
das respostas mencionaram a dependência financeira ou o interesse econômico dos
clubes.
Outras
13,5% fizeram referência aos impactos sociais das apostas, como vício,
endividamento e efeitos sobre famílias. Mais 10,5% recorreram ao argumento
histórico que se repetiu entre torcedores de diferentes clubes: o futebol
brasileiro existia antes da expansão das bets.
A
própria expressão “fim do futebol brasileiro”, escolhida pelos clubes para
dimensionar os possíveis impactos econômicos das restrições, acabou apropriada
de forma irônica nas redes.
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Clubes falam em “golpe fatal”
As
empresas de apostas se tornaram uma das principais fontes de patrocínio do
futebol brasileiro, e dirigentes calculam que cerca de R$ 1 bilhão em receitas
do esporte estejam diretamente ligados ao setor.
No
manifesto, clubes e federações sustentam que as consequências de novas
restrições não ficariam limitadas aos grandes times. A perda de recursos,
segundo a nota, poderia atingir divisões inferiores, categorias de base,
futebol feminino, empregos, transmissões e competições.
“Se
acabar o mercado regulado, as apostas não acabam. O futebol é que acaba”,
afirma o texto.
A nota
também argumenta que restrições excessivas poderiam favorecer o mercado
clandestino e defende fiscalização, prevenção ao vício e combate às plataformas
ilegais.
“O
torcedor não pode pagar essa conta”, diz o manifesto.
A frase
acabou servindo de combustível para parte das críticas. Nas redes, torcedores
inverteram o argumento e questionaram quem já paga a conta das apostas diante
dos casos de vício, endividamento e perdas financeiras das famílias.
O
contraste aparece nos próprios dados do Portal 91: 13,5% das manifestações
classificadas pelo levantamento mencionaram impactos sociais das apostas.
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Governo discute restrições
O
manifesto surgiu depois de o governo federal avançar nas discussões sobre novas
restrições ao setor. Uma das possibilidades em estudo é retirar jogos virtuais,
como cassinos on-line, da regulamentação atual. O governo também discute
limitações à publicidade.
Os
clubes argumentam que uma redução no faturamento das operadoras atingiria
diretamente sua capacidade de manter contratos milionários de patrocínio. As
casas de apostas, por sua vez, sustentam que restrições podem fortalecer
plataformas clandestinas.
A
reação dos torcedores, entretanto, colocou outro problema na mesa: a velocidade
com que uma fonte relativamente recente de dinheiro passou a ser apresentada
por clubes centenários como indispensável à própria existência do futebol.
Foi
justamente aí que a retórica do “fim do futebol brasileiro” encontrou sua maior
resistência. Em vez de mobilizar torcedores em defesa dos contratos das
equipes, a campanha levou parte deles a questionar como Flamengo, Corinthians,
Palmeiras, Vasco, Botafogo, São Paulo, Santos, Cruzeiro, Grêmio e tantos outros
construíram suas histórias, conquistaram títulos e formaram milhões de
torcedores muito antes de as bets dominarem camisas, placas de publicidade e
transmissões.
• Edu Moreira apoia fim das bets: ‘Brasil
cansou dessa porcaria’
O
fundador do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), Eduardo Moreira, manifestou
apoio, neste sábado (19), à posição defendida pelo presidente Luiz Inácio Lula
da Silva (PT) de acabar com as casas de apostas online no Brasil. Em vídeo
publicado nas redes sociais, Moreira incentivou Lula a avançar na proposta e
afirmou que não deveria haver espaço para uma solução intermediária.
“Quer o
meu incentivo, presidente? Duvido! Duvido! Vamos pra cima! Todo mundo aqui te
apoia”, declarou. Em seguida, reforçou sua posição: “Não tem negociação. Não
tem ‘vamos deixar só isso e fingir que vai proibir’. É pra proibir! O Brasil
inteiro cansou dessa porcaria”.
A
manifestação ocorre um dia depois de Lula voltar a criticar as bets durante ato
de sua campanha à reeleição em Guarulhos, na Grande São Paulo. O presidente
classificou as apostas online como uma “doença” e afirmou que, se depender de
sua vontade, pretende acabar com a atividade.
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Moreira questiona veículos e contratos com bets
No
vídeo, Eduardo Moreira também direcionou críticas a veículos e empresas de
comunicação que mantêm relações comerciais com casas de apostas. Ele citou
canais esportivos e grupos de mídia e questionou os valores recebidos por meio
de publicidade do setor.
“Abram
quanto vocês ganham das bets. Folha de S.Paulo, Estadão, TNT, ESPN, Disney,
Globo, abram quanto vocês ganham. Para todo mundo saber”, disse.
Moreira
também criticou o espaço dado pela imprensa à reação de clubes de futebol
contrários às restrições às apostas. Segundo ele, a cobertura deveria
apresentar também relatos de pessoas e famílias afetadas por problemas
relacionados ao jogo.
“Mostrem
a reação das pessoas que estão tendo as famílias destruídas e querem acabar com
essa merda. Vamos pra cima, presidente! Proibição das bets!”, concluiu.
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Lula rebate clubes de futebol
A
discussão ganhou força depois que clubes brasileiros se posicionaram contra
possíveis restrições ao setor, argumentando que a proibição teria forte impacto
financeiro sobre o futebol. Empresas de apostas ocupam atualmente espaço
relevante nos patrocínios dos times brasileiros.
No ato
em Guarulhos, Lula rebateu esse argumento lembrando que grandes conquistas de
clubes brasileiros ocorreram antes da expansão das casas de apostas.
“Os
times de futebol, liderados pelo Corinthians e Flamengo, disseram que, se
acabarem as bets, vai acabar o futebol”, afirmou Lula, antes de citar títulos
mundiais conquistados por São Paulo, Santos, Flamengo e Corinthians sem
patrocínios do setor.
O
presidente também associou as apostas ao endividamento e ao jogo compulsivo.
“Essa jogatina na internet não é jogo de aposta, é uma doença”, afirmou. Lula
disse ainda que pretende enfrentar irregularidades e lavagem de dinheiro
relacionadas ao setor.
Fonte:
ICL Notícias

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