quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O petrodólar em crise: como os Houthis estão pondo Trump em xeque

O pró-iraniano Ansar Allah, mais conhecido como Movimento Houthi – em razão da família que os lidera – obteve uma vitória importante ao tomar das forças pró-sauditas a estratégica e histórica cidade de Moca (Mokha ou Mocha, a depender da grafia), no mar Vermelho. Com o estreito de Ormuz bloqueado pelo Irã, essa medida pode marcar o travamento do mar Vermelho. Enquanto isso, o Estoque Estratégico de Petróleo dos Estados Unidos segue ladeira abaixo.

Junto disso, o oleoduto Leste-Oeste (ou Petroline) da Arábia Saudita foi atingido possivelmente por um ataque oriundo do Iraque, também ligado aos braços internacionais da resistência iraniana. Tudo isso levou a um impacto brutal sobre o mercado global de petróleo, com o preço do barril chegando a mais de 100 dólares, com severos impactos sobre o abastecimento europeu, em particular.

Os dois movimentos produziram uma pressão poderosa sobre Donald Trump, que em um dado momento lançou advertências – não ouvidas – para os ucranianos cessarem ataques às refinarias russas – o que contribui para o aumento do preço de derivados do petróleo em escala mundial –, mas também fez tudo que a atual administração americana menos queria presenciar: um cenário que obrigava seu banco central a subir os juros.

Estamos testemunhando, em tempo real, a realidade estratégica se impor, afetando variáveis econômicas centrais com desdobramentos imediatos: o petróleo, como sabemos, não é apenas a principal fonte energética global, é também a base financeira do mundo. Não é exagero ou anedota falar em petrodólar. Com esse sistema atingido, o pilar econômico mundial desde o fim do padrão-ouro em 1971 está em xeque.

<><> A alquimia do petrodólar

O poder dólar repousa no fato de que ele era a moeda capaz de comprar petróleo. Por outro lado, as elites árabes usavam seus imensos superávits comerciais para comprar títulos da dívida americana, ativando o mecanismo que o economista grego Yanis Varoufakis chamou de Minotauro Global – uma engrenagem do que se chama, tecnicamente, de reciclagem de capitais, e que estruturou o dólar como o conhecemos.

Dessa forma, os Estados Unidos transformaram uma fraqueza, os déficits comerciais, em uma força, ao usar isso para estruturar seu mercado da dívida – passando assim a poder sustentar e ampliar déficits gêmeos, um deles nas contas públicas, enquanto jorrava internacionalmente dólares que serviam, mais e mais como moeda franca. Anos mais tarde, outros países passaram a entrar nesse sistema, que funcionou bem até a crise financeira de 2008.

Convenhamos que se a crise de 2008 fez o mundo perceber as fragilidades do duvidoso equilíbrio global; por outro lado, foi justamente essa estrutura que permitiu uma recuperação rápida dos Estados Unidos e da economia global – ainda que com um aumento da exploração dos mais pobres e das classes trabalhadoras. Os problemas vieram depois, talvez em parte pelos efeitos da crise, o que conduziu a uma ruptura entre americanos e chineses.

Importante dizer que a China, ao ser assimilada pelos Estados Unidos no sistema global, se tornou uma peça tão central quanto as petromonarquias. Aquele movimento foi parecido ao que tinha ocorrido entre americanos e iugoslavos décadas antes – uma cisão do bloco socialista em desfavor da União Soviética –, mas a dimensão titânica desse novo encontro produziu um novo circuito nesse sistema.

A China Popular recebeu inúmeras empresas ocidentais, muitas vezes em regime de parceria, instaladas no país com o objetivo de exportar bens industriais para os países-sede. Os chineses reciclavam seus superávits comerciais igualmente em títulos do tesouro americano, usando isso para navegar no mercado mundial e, inclusive, obter petróleo – não desejavam juros altos, mas acesso a um mercado americano aquecido a juros baixos.

Tudo muda com o avanço chinês se movendo para além de uma grande instalação industrial estrangeira para, no fim, construir suas próprias empresas, tecnologias, marcas e projetos capazes de competir no mercado mundial – o que ensejou uma reação política das direitas internacionais, mais radicais e renascidas como no fenômeno da ascensão do trumpismo nos Estados Unidos em 2015-16.

<><> O dólar em seu ocaso: de solvente universal a arma

O sistema do dólar construiu uma fórmula que assegurou, de vez, a hegemonia americana no bloco capitalista, mas também fez com que o país se tornasse um polo de atração também em relação aos países do antigo Terceiro Mundo e, além do mais, exercesse influência sobre os países socialistas – muitos dos quais foram lenta e gradualmente se afastando da União Soviética por meio do comércio global.

O peso que teve a chegada do dólar ao antigo Segundo Mundo, o bloco socialista, persiste menosprezado, mas muitos países do Leste Europeu possuíam dívidas e endividamento em dólar – ao passo que, cada vez mais, buscavam exportar para um Ocidente que se tornaria plenamente dolarizado a partir dos anos 1970. Os subsequentes ajustes no dólar, com o choque de juros dos anos 1980, produziram, por tal razão, uma crise generalizada.

No entanto, as elites do bloco socialista não abandonaram o dólar no início dos anos 1980, mas usaram o choque dos juros e a crise das dívidas para se livrar do socialismo real – e suas “amarras” aos negócios – em um processo em que o velho regime era culpado. A União Soviética, em crise, não parecia ser capaz de ser alternativa, e ela própria seguiu o mesmo caminho de iugoslavos, poloneses e quetais.

O movimento chinês, contudo, foi numa direção oposta: isso foi marcado pelo ingresso no mercado global de forma soberana, mas com uma cautela acentuada em não se endividar – e um empenho em, na verdade, se tornar credor mesmo dispondo de padrões modestos. Todo esse movimento ajuda a explicar o fenômeno da globalização nos anos 1990.

Contudo, a crise de 2008 e a ascensão de ex-rivais da Guerra Fria, aparentemente domesticados pela globalização, produziram uma mudança nos ânimos de Washington em usar o dólar como arma – e uma força disciplinar para determinar quem manda, o que funcionou no passado com japoneses e europeus, mas não pareceu ter o mesmo efeito contra potências militares como Rússia e China. 

As sanções antichinesas de 2017 em diante, que se seguiram às sanções antirrussas em razão da Ucrânia de 2014, produziram um sonoro abalo nesse sistema – inclusive com Pequim e Moscou usando de suas economias ampliadas e modernizadas para produzir um sistema global paralelo; se os Estados Unidos usavam do dólar como arma, em reação à ascensão dos emergentes, eles o fizeram quando eles já eram grandes demais para se dobrarem.

O pior é que russos e chineses já haviam sido inseridos no mesmíssimo mercado global capitalista, o que produziu um efeito inimaginável para os estrategistas de Washington: sanções contra Moscou ou Pequim não seriam reproduzidas fora do mercado americano, uma vez que os fluxos de comércio de ambos com o mundo afetaria, direta ou indiretamente, todo mercado global.

<><> De volta ao Oriente Médio

Mas ainda havia uma fronteira final: embora a Rússia seja uma enorme produtora – e exportadora – de gás e petróleo que poderia negociar diretamente com a China, por outro lado, ainda restava de pé o circuito árabe de petróleo – do qual a indústria chinesa não poderia prescindir por completo. Mas a recíproca, igualmente, era verdadeira: os sauditas em particular não poderiam ignorar o peso do papel chinês. 

Quando Joe Biden resolveu expandir a Otan para a Ucrânia, uma missão cujo único objetivo seria levar a uma mudança de regime na Rússia, ele errou o cálculo: ignorou a resiliência russa, não apenas pela ancoragem chinesa, mas também pela dependência do mercado global do petróleo e gás russo – que se fosse realmente tirado do mercado, levaria a um colapso internacional dos preços.

Trump compreendeu isso em algum grau, assim como os republicanos, mas talvez não com  urgência suficiente ou, simplesmente, desconhecendo os meios técnicos necessários. Por outro lado, ele se viu arrastado para um conflito que Israel iniciou contra o Irã, ignorando a capacidade de Teerã travar e gerir o estreito de Ormuz, além de mover os seus aliados no Eixo da Resistência para atacar as petromonarquias e colapsar o mercado global de petróleo.

Anos antes, os sauditas se inclinaram para os chineses, inclusive transigindo com um acordo de paz com os iranianos, o que nada interessava aos americanos, mas era muito bom para ambos. Recentemente, em vez de tomar o lado dos palestinos e confrontar Israel, os sauditas preferiram se chocar com os iranianos ou transigir com os ataques contra eles.

O Irã mostrou ao mundo que era mais poderoso do que parecia, principalmente quando saia da defensiva. Os sauditas não esperavam por isso. E o resultado é uma queda brutal dos Estoque Estratégico de Petróleo dos Estados Unidos, em seu menor nível desde 1982; quase uma data cabalística. O poder americano não reside apenas em usar sua moeda de forma exclusiva para comprar a fonte global de energia, mas em estocá-la em larga escala.

Enquanto isso, os chineses ampliaram seu Estoque Estratégico e diminuíram o consumo de petróleo, além de se afastar dos títulos americanos – cada vez mais absorvidos pelas bancas ocidental e japonesa, ciosas por ganhos financeiros garantidos somente por juros altos. A saída chinesa vai em direção ao ouro, que não por acaso superou os títulos do tesouro americano como principal reserva internacional. 

Nos últimos dias, contra todas advertências e gritarias de Trump, o seu presidente do banco central recém-empossado não teve escolha senão subir os juros – em uma alta precificada, mas que pode não ser a primeira e antever mais altas que, aí sim, podem afetar o mercado de capitais inflado pelas corporações de Inteligência Artificial (IA). Mesmo que a bolha não estoure logo, essa variável cheira à recessão ou a uma desaceleração para lá de incômoda..

Verdade seja dita, enquanto trabalha com dureza para mudar os destinos do Brasil, Trump parece só conseguir vitórias na América Latina, uma vez que resta favorecido por uma crise das forças progressistas da nossa região – além da deriva da esquerda europeia, que sempre lhes serviu de guarda-chuvas. De resto, só más notícias para ele e para quem, porventura, vier a ser o novo residente da Casa Branca.

¨      EUA alertam cidadãos no Oriente Médio sobre risco por escalada entre Arábia Saudita e houthis

Os serviços consulares dos Estados Unidos nos países do Oriente Médio emitiram um alerta neste sábado para seus cidadãos que moram na região após nova ofensiva do Ansar Allah, movimento iemenita também conhecido como houthi, na Arábia Saudita.

Um alerta deste tipo, emitido pelo Departamento de Estado, costuma anteceder possíveis movimentações militares. No documento, as autoridades norte-americanas destacam que os houthis têm o apoio de países como o Irã, que vive tensões militares contínuas com os Estados Unidos desde fevereiro.

Alex Plitsas, analista de segurança da CNN, publicou no X que fontes declaram que o presidente Donald Trump teve uma reunião nas últimas horas na casa de campo de Camp David para "deliberar e revisar opções de ataques ao Iêmen".

As Forças Armadas do Ansar Allah, que controlam o norte do Iêmen, informaram no sábado que realizaram duas operações militares contra alvos em Riad e instalações da companhia petrolífera Saudi Aramco, no oeste da Arábia Saudita.

"A primeira operação militar teve como alvo instalações estrategicamente importantes na capital do inimigo saudita, Riad, e a segunda visou instalações da Aramco em Yanbu", disse Yahya Saree, porta-voz militar do movimento, no Telegram.

Mais cedo, o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan, afirmou que Ancara cumprirá sua promessa de defender a Arábia Saudita contra agressões, em um tratado elaborado no âmbito do Acordo de Defesa Conjunta de Meca, assinado pelos dois países e pelo Paquistão.

<><> Busca pela paz

O chefe do Conselho de Segurança do Irã, Mohsen Rezaei, afirmou que Teerã quer o fim da guerra entre a Arábia Saudita e o movimento Ansar Allah, que já dura mais de 11 anos.

"Queremos que a guerra entre a Arábia Saudita e o Iêmen termine. Acredito que os iemenitas também buscam uma solução com a Arábia Saudita", afirmou Rezaei em entrevista à Al Jazeera.

Trump disse na sexta-feira (18) que os EUA estavam em negociações com os houthis e que o grupo estava interessado ​​em um acordo. A emissora libanesa Al Mayadeen noticiou na quinta-feira (17) que a Arábia Saudita havia procurado Omã para solicitar a mediação de uma trégua de duas semanas.

¨      Trump diz avaliar 'explodir o Irã inteiro', mas admite possibilidade de acordo com Teerã

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse neste domingo (20) que está avaliando o que fazer em relação ao Irã e citou três possibilidades para o conflito: destruir o país, atingir sua economia ou buscar um acordo. A guerra no Oriente Médio já dura mais de sete meses, entre idas e vindas constantes nas declarações do líder estadunidense.

Em entrevista à emissora Fox News, Trump também afirmou que está disposto a se reunir com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, durante a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.

"Estou em processo de tomada de decisões", afirmou Trump, acrescentando que "acontecimentos muito importantes" ocorrerão em um futuro próximo. Questionado sobre a possibilidade de uma ação extrema contra o país, o presidente disse estar decidindo "se explode o Irã inteiro ou não".

Segundo um jornalista da emissora, as opções consideradas pelo governo são "eliminar" o Irã, "deixar eles apodrecerem economicamente" ou fechar um acordo. Trump não estabeleceu um prazo para definir qual caminho pretende seguir.

As declarações ocorrem em meio aos temores de uma retomada dos bombardeios em larga escala contra o Irã. Diante disso, Teerã afirmou que responderá "sem qualquer limitação" contra bases dos Estados Unidos caso o país volte a ser atacado e que também responsabilizará países do Oriente Médio que permitirem operações estadunidenses.

Sobre uma eventual negociação, Trump afirmou que algumas autoridades iranianas que poderiam participar das tratativas "estão se escondendo como ratos". O Irã, por sua vez, informou no sábado (19) que enviou aos Estados Unidos novas exigências para o encerramento do conflito.

Apesar das ameaças, Trump afirmou que "provavelmente estaria aberto" a um encontro com Pezeshkian à margem da assembleia geral, que reunirá líderes mundiais na sede da ONU em Nova York.

<><> Erros de inteligência e a confiança na IA levaram ao ataque dos EUA à escola iraniana de Minab, diz mídia

Informações de inteligência incorretas, imagens de satélite desatualizadas e confiança excessiva na inteligência artificial foram a causa do ataque dos EUA à escola em Minab, no Irã, segundo a Bloomberg, com base em fontes envolvidas na investigação interna do Pentágono.

O principal banco de dados militar continuou definindo as instalações como pertencentes ao Corpo de Guardiães da Revolução Islâmica, embora a escola já estivesse lá há alguns anos.

Alguns membros do Comando Central das Forças Armadas dos Estados Unidos confiaram excessivamente no Maven Smart System e esperavam que ele identificasse dados desatualizados ou contraditórios nas informações sobre os objetivos.

A escola de Minab foi atingida no primeiro dia das agressões conjuntas de Estados Unidos e Israel ao Irã. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, afirmou que pelo menos 171 alunas morreram. A Organização das Nações Unidas exigiu responsabilização pelo ataque mortal.

Em 28 de fevereiro, os Estados Unidos e Israel começaram a atacar alvos no Irã, incluindo Teerã. Há relatos de destruição e mortes de civis. O Irã está realizando ataques retaliatórios em território israelense, bem como em instalações militares dos EUA no Oriente Médio.

¨      Irã alerta EUA que responderá com 'ataques dolorosos' caso Washington retome ataques

O Quartel-General Khatam al-Anbiya declarou neste domingo (20) que o Irã atacará todas as bases americanas no Oriente Médio se os Estados Unidos decidirem agredir novamente o território iraniano.

"Alertamos: se os EUA cometerem um erro contra o Irã islâmico, todos os centros de posicionamento e os interesses desse país na região se tornarão, sem limitações ou considerações, alvos de ataques contínuos, sensíveis e dolorosos", diz o comunicado, citado pela mídia local.

O órgão também emitiu um alerta aos países do Oriente Médio, ressaltando que, caso se alinhem à agressão americana, não poderão "esperar moderação ou contenção" por parte das Forças Armadas do Irã.

Segundo o Comando Central militar iraniano, Washington — com o aval de alguns países da região e após uma reunião conjunta realizada na Europa — teria decidido retomar as ações bélicas contra o Irã.

Em 18 de junho, Teerã e Washington assinaram um memorando de entendimento para tentar encerrar a guerra iniciada pelos EUA e por Israel em 28 de fevereiro. No entanto, forças americanas têm atacado o território iraniano desde 8 de julho, em resposta a supostas ações do Estado iraniano contra navios mercantes que cruzavam o estreito de Ormuz. Teerã afirmou, em todo momento, que não foi o país persa quem violou a trégua. Por enquanto, a situação permanece sem solução.

Devido à escalada do conflito, o tráfego marítimo pelo estreito de Ormuz praticamente paralisou. Trata-se de uma rota fundamental para o abastecimento do mercado mundial de petróleo, derivados de petróleo e gás natural liquefeito. Como resultado, os preços dos combustíveis subiram na maioria dos países do mundo.

 

Fonte: Por Hugo Albuquerque, em Opera Mundi/Sputnik Brasil

 

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