Pedalar
mais nem sempre significa ter mais saúde, alertam pesquisadores
Pedalar
durante horas todos os dias pode parecer, à primeira vista, uma rotina
favorável à saúde. Mas, quando essa atividade ocorre em jornadas prolongadas,
sob pressão por produtividade, exposição ao trânsito, poluição, calor e pouco
tempo para descanso, seus efeitos podem ser bastante diferentes daqueles
associados ao exercício realizado no tempo livre.
Essa é
a discussão proposta por pesquisadores brasileiros em um comentário publicado
no Journal of Physical Activity and Health. O texto, liderado por Claudio Andre
Barbosa de Lira, da Faculdade de Educação Física (FEF) da Universidade Federal
de Goiás (UFG), utiliza o trabalho de entregadores de bicicleta por aplicativo
para discutir o chamado paradoxo da atividade física.
O
conceito descreve uma constatação que pode parecer contraditória: enquanto a
atividade física praticada no lazer está fortemente associada a benefícios
cardiovasculares e à longevidade, a atividade física ocupacional pode não
produzir os mesmos efeitos e, em algumas circunstâncias, ser prejudicial.
Segundo
o comentário, a diferença não está apenas no gasto de energia, mas sobretudo no
contexto em que o esforço físico ocorre. No lazer, a pessoa normalmente pode
escolher a intensidade e a duração da atividade, interrompê-la, hidratar-se e
prever períodos de recuperação. No trabalho, o esforço tende a ser mais
prolongado, repetitivo e imposto por exigências externas. “Seus contextos
fisiológicos e psicossociais diferem profundamente”, afirmam os pesquisadores
ao comparar os dois tipos de atividade.
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A bicicleta como instrumento de trabalho
Para os
autores, os cicloentregadores representam um exemplo claro desse contraste.
Embora andar de bicicleta seja geralmente associado a uma prática saudável,
esses trabalhadores podem passar longos períodos pedalando em ambientes urbanos
congestionados, submetidos ao calor, à poluição do ar, ao risco do trânsito, à
restrição de sono e a pressões psicológicas e financeiras.
A
rotina inclui fatores que vão além do esforço de pedalar. Os pesquisadores
destacam períodos prolongados de espera, incerteza sobre a renda, vigilância
algorítmica e pressão para maximizar a produtividade.
“Até
mesmo períodos sem ciclismo ativo podem representar tensão ocupacional devido à
constante pressão psicológica e econômica”, esclarecem.
Do
ponto de vista fisiológico, o texto argumenta que a atividade ocupacional
prolongada pode impor uma carga cardiovascular e autonômica persistente,
especialmente quando não há recuperação adequada. As evidências científicas têm
relacionado esse tipo de exposição prolongada a inflamação, hiperativação do
sistema nervoso simpático, acúmulo de fadiga, sobrecarga cardiovascular e
lesões musculoesqueléticas.
A
exposição ambiental acrescenta outros riscos. Ciclistas urbanos ficam sujeitos
à poluição relacionada ao tráfego, associada a doenças cardiovasculares e
respiratórias, enquanto altas temperaturas podem agravar a desidratação e o
estresse cardiovascular e térmico. Esses efeitos podem ser ampliados quando há
pouco acesso a água, alimentação adequada e locais de descanso durante as
jornadas.
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Nem todo movimento é igual
A
discussão também levanta uma questão para as políticas públicas de saúde.
Recomendações internacionais costumam incentivar as pessoas a “se movimentarem
mais” e partem de uma definição ampla de atividade física. Para os autores,
porém, isso pode favorecer uma interpretação simplificada de que qualquer
movimento corporal produz necessariamente os mesmos efeitos benéficos.
“O
contexto em que a atividade física ocorre modifica substancialmente seus
efeitos sobre a saúde”, alertam os pesquisadores. Por isso, trabalhos
fisicamente exigentes não deveriam ser automaticamente contabilizados como
equivalentes ao exercício realizado no tempo livre.
Nesse
sentido, um cicloentregador que passa várias horas por dia pedalando em
condições estressantes não deveria necessariamente ser considerado
fisiologicamente equivalente a um indivíduo que pratica ciclismo recreativo com
recuperação adequada, autonomia e controle ambiental.
Os
autores defendem, assim, que recomendações e sistemas de vigilância em saúde
levem em conta não apenas quanto uma pessoa se movimenta, mas também onde, por
que e em quais condições esse movimento ocorre. Isso inclui fatores como
autonomia, oportunidades de recuperação, condições de trabalho, estresse
psicossocial e exposição ambiental.
• Ciclismo: por que andar de bicicleta
ajuda o planeta?
O
ciclismo é uma atividade física efetuada com o uso de bicicleta, triciclos ou
quadriciclos, caracterizada por um movimento rítmico e cíclico. Ele é praticado
como lazer ou um esporte que engloba
várias modalidades.
Entre
as modalidades mais populares de ciclismo, estão o ciclismo de estrada (corrida
de longa distância em estradas pavimentadas), o ciclismo de pista (atividade de
velocidade realizada em velódromos), o mountain bike (disputado em trilhas e
terrenos bem acidentados, com muitas subidas e descidas) e o BMX (também
conhecido como bicicross, corrida de curta distância com obstáculos, que
utiliza bicicletas com rodas de aro 20’’).
Para
algumas pessoas, o ciclismo se tornou também um estilo de vida. Seja por
necessidade ou escolha, pedalar tem se apresentado como uma alternativa valiosa
para a mobilidade urbana. Além disso, é a principal ferramenta de trabalho e
também o meio de transporte de muita gente.
Um
estudo, publicado na revista Geousp, revelou como as plataformas digitais de
delivery contribuíram para o aumento de entregadores ciclistas, de 2020 a 2022.
O estudo, que foi baseado na cidade de São Paulo, também mostra a precarização
das condições de trabalho e traça o perfil desses trabalhadores. Esses
trabalhadores geralmente moram nas periferias e atuam nas regiões centrais.
Além
disso, o Laboratório de Mobilidade Sustentável da UFRJ, em parceria com a ONG
Transporte Ativo, realizou uma pesquisa com o intuito de estabelecer o perfil
do ciclista brasileiro. Em 2021, 35,5% da população brasileira utilizava a
bicicleta como meio de transporte durante os 7 dias da semana. Dessas pessoas,
75,4% utilizavam a bicicleta para chegar ao trabalho, em trajetos que variavam
de 15 minutos até mais de 1 hora.
Dados
da Associação Brasileira do Setor de Bicicletas, Aliança Bike, mostram que
durante o primeiro ano da pandemia de Covid-19, em 2020, cerca de 6 milhões de
bicicletas foram vendidas, um crescimento de 50%, em relação a 2019. Esse
aumento não foi apenas no Brasil, seguiu uma tendência mundial.
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Quais são os benefícios do ciclismo para a saúde?
Segundo
a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 2030 meio milhão de pessoas irão
desenvolver doenças diretamente relacionadas ao estilo de vida sedentário, tais
como diabetes, obesidade e consequentes problemas cardíacos.
De
acordo com um artigo publicado pela Universidade de Toronto, praticar ciclismo
traz benefícios diretos para a saúde. Segundo os pesquisadores do estudo, andar
de bicicleta aumenta o bem-estar e previne o desenvolvimento de diabetes,
doença arterial coronária e depressão. A prática ainda permite o prolongamento da autonomia,
conforme envelhecemos.
Tendo
em vista todos os benefícios do ciclismo para a saúde, não é surpresa que a OMS
recomende essa prática como uma forma eficaz de combater o sedentarismo e suas
consequências.
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Por que a bicicleta é um meio de transporte ecológico e sustentável?
Com
maior gravidade em grandes centros urbanos e cidades metropolitanas, por
consequência das emissões de gases de efeito estufa (que são nocivos e
contribuem para o aquecimento global), a poluição atmosférica é, em grande
parte, gerada pela queima de combustíveis fósseis em veículos automotores.
Segundo
o relatório publicado pelo Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de
Gases de Efeito Estufa (SEEG), em 2023 o setor de transportes foi responsável
por 44% de emissões, dentro do setor de energia, representando 216,9 mega
toneladas de dióxido de carbono na atmosfera.
O
agravante é que essas emissões têm aumentado, conforme mostra o relatório sobre
mudança do clima, de 2023, do Painel Intergovernamental sobre Mudanças
Climáticas (IPCC).
Nesse
quesito, mais uma vez o ciclismo demonstra uma grande vantagem: pedalar é uma
maneira de se locomover com zero emissões de gases poluentes.
Não à
toa, os 193 países membros da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovaram, no
1º trimestre de 2022, uma resolução que propõe a criação de políticas públicas
que promovam as bicicletas como meios de transporte público, abrangendo centros
urbanos e rurais, garantindo também a segurança dos ciclistas.
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Quais são os problemas enfrentados pelos ciclistas?
Mais um
ponto importante destacado também pela OMS, é a qualidade do ar que respiramos.
Segundo Maria Neira, diretora do Departamento de Meio Ambiente, Mudanças
Climáticas e Saúde da OMS, nos últimos dez anos, cerca de 7 milhões de pessoas
já morreram por problemas respiratórios causados pela poluição do ar ou em
consequência dela, o que Neira classifica como “mortes evitáveis e incontáveis
anos perdidos de boa saúde, devido à poluição do ar”.
Um
outro estudo realizado pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) reforçou a
gravidade das emissões de poluentes nas grandes cidades, evidenciando o efeito
causado diretamente na saúde dos ciclistas. Devido à proximidade do fluxo de
carros às ciclofaixas, os ciclistas ficam expostos e inalam grandes cargas de
material particulado e monóxido de carbono.
Essa
proximidade, entre veículos automotores e bicicletas, também é a grande
responsável pelo alto índice de acidentes e mortes de ciclistas. Uma pesquisa
realizada pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV) em conjunto com
a Universidade Federal do Paraná (UFPR), aponta para a fragilidade e falta de
segurança dos usuários. Ainda é baixo o número de ciclovias e ciclofaixas nos
grandes centros, o que leva ao compartilhamento das vias por carros, ônibus,
motos e bicicletas.
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Quais são os equipamentos necessários para a prática do ciclismo?
O uso
de roupas para ciclismo, apesar de adequadas e mais confortáveis, são usadas
comumente por atletas da modalidade em corridas de rua ou jogos olímpicos. No
entanto, quem trabalha ou se locomove com a bicicleta no dia a dia não faz uso.
Ainda assim, equipamentos próprios e itens de segurança devem ser usados por
todos os que pedalam.
Tecidos
utilizados na confecção de bermudas de ciclismo, por exemplo, contam com
tecnologia que promete reduzir a fadiga muscular, evitando lesões. As roupas de
ciclismo de modo geral, são desenvolvidas com tecidos que facilitam a
transpiração, regulando a temperatura corporal, além de contarem com proteção
contra os raios ultravioleta.
A boa
notícia é que já existem empresas que fornecem roupas de ciclismo mais
sustentáveis, utilizando em sua produção materiais como o poliéster reciclado,
o algodão orgânico e ainda, fibras de bambu.
Outro
item que para muitas pessoas pode parecer banal, é a luva de ciclismo. As luvas
são importantes e devem ser consideradas itens de segurança, já que aumentam a
aderência das mãos ao guidão, evitando que escorreguem.
Óculos
de ciclismo também são itens que protegem os olhos da incidência de raios UV.
Eles evitam que poeira, insetos, objetos estranhos ou qualquer partícula que
esteja no ar atinjam os olhos.
Seja
por esporte, lazer ou trabalho, um item que deve ser indispensável para quem
pratica ciclismo é o capacete. Segundo o ONSV, 93% das mortes de ciclistas,
envolvidos em acidentes, podem ser evitadas com o uso do capacete de ciclismo.
De
acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, os equipamentos de segurança
obrigatórios para a bicicleta são buzina, sinalização noturna (na traseira,
dianteira, lateral e nos pedais), além do espelho retrovisor no lado esquerdo.
Itens
importantes que, se usados corretamente, podem salvar vidas. Então, pedale em
segurança! Sua saúde e o planeta agradecem!
Fonte:
Por Luiz Felipe Fernandes – Jornal UFG/eCycle

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