segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Pedalar mais nem sempre significa ter mais saúde, alertam pesquisadores

Pedalar durante horas todos os dias pode parecer, à primeira vista, uma rotina favorável à saúde. Mas, quando essa atividade ocorre em jornadas prolongadas, sob pressão por produtividade, exposição ao trânsito, poluição, calor e pouco tempo para descanso, seus efeitos podem ser bastante diferentes daqueles associados ao exercício realizado no tempo livre.

Essa é a discussão proposta por pesquisadores brasileiros em um comentário publicado no Journal of Physical Activity and Health. O texto, liderado por Claudio Andre Barbosa de Lira, da Faculdade de Educação Física (FEF) da Universidade Federal de Goiás (UFG), utiliza o trabalho de entregadores de bicicleta por aplicativo para discutir o chamado paradoxo da atividade física.

O conceito descreve uma constatação que pode parecer contraditória: enquanto a atividade física praticada no lazer está fortemente associada a benefícios cardiovasculares e à longevidade, a atividade física ocupacional pode não produzir os mesmos efeitos e, em algumas circunstâncias, ser prejudicial.

Segundo o comentário, a diferença não está apenas no gasto de energia, mas sobretudo no contexto em que o esforço físico ocorre. No lazer, a pessoa normalmente pode escolher a intensidade e a duração da atividade, interrompê-la, hidratar-se e prever períodos de recuperação. No trabalho, o esforço tende a ser mais prolongado, repetitivo e imposto por exigências externas. “Seus contextos fisiológicos e psicossociais diferem profundamente”, afirmam os pesquisadores ao comparar os dois tipos de atividade.

<><> A bicicleta como instrumento de trabalho

Para os autores, os cicloentregadores representam um exemplo claro desse contraste. Embora andar de bicicleta seja geralmente associado a uma prática saudável, esses trabalhadores podem passar longos períodos pedalando em ambientes urbanos congestionados, submetidos ao calor, à poluição do ar, ao risco do trânsito, à restrição de sono e a pressões psicológicas e financeiras.

A rotina inclui fatores que vão além do esforço de pedalar. Os pesquisadores destacam períodos prolongados de espera, incerteza sobre a renda, vigilância algorítmica e pressão para maximizar a produtividade.

“Até mesmo períodos sem ciclismo ativo podem representar tensão ocupacional devido à constante pressão psicológica e econômica”, esclarecem.

Do ponto de vista fisiológico, o texto argumenta que a atividade ocupacional prolongada pode impor uma carga cardiovascular e autonômica persistente, especialmente quando não há recuperação adequada. As evidências científicas têm relacionado esse tipo de exposição prolongada a inflamação, hiperativação do sistema nervoso simpático, acúmulo de fadiga, sobrecarga cardiovascular e lesões musculoesqueléticas.

A exposição ambiental acrescenta outros riscos. Ciclistas urbanos ficam sujeitos à poluição relacionada ao tráfego, associada a doenças cardiovasculares e respiratórias, enquanto altas temperaturas podem agravar a desidratação e o estresse cardiovascular e térmico. Esses efeitos podem ser ampliados quando há pouco acesso a água, alimentação adequada e locais de descanso durante as jornadas.

<><> Nem todo movimento é igual

A discussão também levanta uma questão para as políticas públicas de saúde. Recomendações internacionais costumam incentivar as pessoas a “se movimentarem mais” e partem de uma definição ampla de atividade física. Para os autores, porém, isso pode favorecer uma interpretação simplificada de que qualquer movimento corporal produz necessariamente os mesmos efeitos benéficos.

“O contexto em que a atividade física ocorre modifica substancialmente seus efeitos sobre a saúde”, alertam os pesquisadores. Por isso, trabalhos fisicamente exigentes não deveriam ser automaticamente contabilizados como equivalentes ao exercício realizado no tempo livre.

Nesse sentido, um cicloentregador que passa várias horas por dia pedalando em condições estressantes não deveria necessariamente ser considerado fisiologicamente equivalente a um indivíduo que pratica ciclismo recreativo com recuperação adequada, autonomia e controle ambiental.

Os autores defendem, assim, que recomendações e sistemas de vigilância em saúde levem em conta não apenas quanto uma pessoa se movimenta, mas também onde, por que e em quais condições esse movimento ocorre. Isso inclui fatores como autonomia, oportunidades de recuperação, condições de trabalho, estresse psicossocial e exposição ambiental.

•        Ciclismo: por que andar de bicicleta ajuda o planeta?

O ciclismo é uma atividade física efetuada com o uso de bicicleta, triciclos ou quadriciclos, caracterizada por um movimento rítmico e cíclico. Ele é praticado como lazer ou  um esporte que engloba várias modalidades.

Entre as modalidades mais populares de ciclismo, estão o ciclismo de estrada (corrida de longa distância em estradas pavimentadas), o ciclismo de pista (atividade de velocidade realizada em velódromos), o mountain bike (disputado em trilhas e terrenos bem acidentados, com muitas subidas e descidas) e o BMX (também conhecido como bicicross, corrida de curta distância com obstáculos, que utiliza bicicletas com rodas de aro 20’’).

Para algumas pessoas, o ciclismo se tornou também um estilo de vida. Seja por necessidade ou escolha, pedalar tem se apresentado como uma alternativa valiosa para a mobilidade urbana. Além disso, é a principal ferramenta de trabalho e também o meio de transporte de muita gente.

Um estudo, publicado na revista Geousp, revelou como as plataformas digitais de delivery contribuíram para o aumento de entregadores ciclistas, de 2020 a 2022. O estudo, que foi baseado na cidade de São Paulo, também mostra a precarização das condições de trabalho e traça o perfil desses trabalhadores. Esses trabalhadores geralmente moram nas periferias e atuam nas regiões centrais.

Além disso, o Laboratório de Mobilidade Sustentável da UFRJ, em parceria com a ONG Transporte Ativo, realizou uma pesquisa com o intuito de estabelecer o perfil do ciclista brasileiro. Em 2021, 35,5% da população brasileira utilizava a bicicleta como meio de transporte durante os 7 dias da semana. Dessas pessoas, 75,4% utilizavam a bicicleta para chegar ao trabalho, em trajetos que variavam de 15 minutos até mais de 1 hora.

Dados da Associação Brasileira do Setor de Bicicletas, Aliança Bike, mostram que durante o primeiro ano da pandemia de Covid-19, em 2020, cerca de 6 milhões de bicicletas foram vendidas, um crescimento de 50%, em relação a 2019. Esse aumento não foi apenas no Brasil, seguiu uma tendência mundial.

<><> Quais são os benefícios do ciclismo para a saúde?

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 2030 meio milhão de pessoas irão desenvolver doenças diretamente relacionadas ao estilo de vida sedentário, tais como diabetes, obesidade e consequentes problemas cardíacos.

De acordo com um artigo publicado pela Universidade de Toronto, praticar ciclismo traz benefícios diretos para a saúde. Segundo os pesquisadores do estudo, andar de bicicleta aumenta o bem-estar e previne o desenvolvimento de diabetes, doença arterial coronária e depressão. A prática  ainda permite o prolongamento da autonomia, conforme envelhecemos.

Tendo em vista todos os benefícios do ciclismo para a saúde, não é surpresa que a OMS recomende essa prática como uma forma eficaz de combater o sedentarismo e suas consequências.

<><> Por que a bicicleta é um meio de transporte ecológico e sustentável?

Com maior gravidade em grandes centros urbanos e cidades metropolitanas, por consequência das emissões de gases de efeito estufa (que são nocivos e contribuem para o aquecimento global), a poluição atmosférica é, em grande parte, gerada pela queima de combustíveis fósseis em veículos automotores.

Segundo o relatório publicado pelo Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), em 2023 o setor de transportes foi responsável por 44% de emissões, dentro do setor de energia, representando 216,9 mega toneladas de dióxido de carbono na atmosfera.

O agravante é que essas emissões têm aumentado, conforme mostra o relatório sobre mudança do clima, de 2023, do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Nesse quesito, mais uma vez o ciclismo demonstra uma grande vantagem: pedalar é uma maneira de se locomover com zero emissões de gases poluentes. 

Não à toa, os 193 países membros da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovaram, no 1º trimestre de 2022, uma resolução que propõe a criação de políticas públicas que promovam as bicicletas como meios de transporte público, abrangendo centros urbanos e rurais, garantindo também a segurança dos ciclistas.

<><> Quais são os problemas enfrentados pelos ciclistas?

Mais um ponto importante destacado também pela OMS, é a qualidade do ar que respiramos. Segundo Maria Neira, diretora do Departamento de Meio Ambiente, Mudanças Climáticas e Saúde da OMS, nos últimos dez anos, cerca de 7 milhões de pessoas já morreram por problemas respiratórios causados pela poluição do ar ou em consequência dela, o que Neira classifica como “mortes evitáveis e incontáveis anos perdidos de boa saúde, devido à poluição do ar”.

Um outro estudo realizado pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) reforçou a gravidade das emissões de poluentes nas grandes cidades, evidenciando o efeito causado diretamente na saúde dos ciclistas. Devido à proximidade do fluxo de carros às ciclofaixas, os ciclistas ficam expostos e inalam grandes cargas de material particulado e monóxido de carbono.

Essa proximidade, entre veículos automotores e bicicletas, também é a grande responsável pelo alto índice de acidentes e mortes de ciclistas. Uma pesquisa realizada pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV) em conjunto com a Universidade Federal do Paraná (UFPR), aponta para a fragilidade e falta de segurança dos usuários. Ainda é baixo o número de ciclovias e ciclofaixas nos grandes centros, o que leva ao compartilhamento das vias por carros, ônibus, motos e bicicletas.

<><> Quais são os equipamentos necessários para a prática do ciclismo?

O uso de roupas para ciclismo, apesar de adequadas e mais confortáveis, são usadas comumente por atletas da modalidade em corridas de rua ou jogos olímpicos. No entanto, quem trabalha ou se locomove com a bicicleta no dia a dia não faz uso. Ainda assim, equipamentos próprios e itens de segurança devem ser usados por todos os que pedalam.

Tecidos utilizados na confecção de bermudas de ciclismo, por exemplo, contam com tecnologia que promete reduzir a fadiga muscular, evitando lesões. As roupas de ciclismo de modo geral, são desenvolvidas com tecidos que facilitam a transpiração, regulando a temperatura corporal, além de contarem com proteção contra os raios ultravioleta.

A boa notícia é que já existem empresas que fornecem roupas de ciclismo mais sustentáveis, utilizando em sua produção materiais como o poliéster reciclado, o algodão orgânico e ainda, fibras de bambu.

Outro item que para muitas pessoas pode parecer banal, é a luva de ciclismo. As luvas são importantes e devem ser consideradas itens de segurança, já que aumentam a aderência das mãos ao guidão, evitando que escorreguem.

Óculos de ciclismo também são itens que protegem os olhos da incidência de raios UV. Eles evitam que poeira, insetos, objetos estranhos ou qualquer partícula que esteja no ar atinjam os olhos.

Seja por esporte, lazer ou trabalho, um item que deve ser indispensável para quem pratica ciclismo é o capacete. Segundo o ONSV, 93% das mortes de ciclistas, envolvidos em acidentes, podem ser evitadas com o uso do capacete de ciclismo.

De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, os equipamentos de segurança obrigatórios para a bicicleta são buzina, sinalização noturna (na traseira, dianteira, lateral e nos pedais), além do espelho retrovisor no lado esquerdo. 

Itens importantes que, se usados corretamente, podem salvar vidas. Então, pedale em segurança! Sua saúde e o planeta agradecem!

 

Fonte: Por Luiz Felipe Fernandes – Jornal UFG/eCycle

 

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