Gustavo
Tapioca: Zero Um promete um governo pior que o Zero Zero
Faltam
15 dias para a eleição presidencial. O Datafolha divulgado no dia 17 mostra
Lula com 39% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro com 36%.
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No
segundo turno, Lula tem 46% e o Zero Um de Jair, 44%. Há empate técnico nos
dois cenários. Os candidatos também estão empatados na rejeição: 47%.
Flávio
Bolsonaro pode ganhar a eleição.
Essa
frase deveria alarmar todo democrata, independentemente de sua posição sobre
Lula.
O
Brasil pode devolver o Planalto à família que atacou as urnas, conspirou contra
a posse do vencedor, Lula — a quem ameaçou matar como consta no projeto Punhal
Verde Amarelo –, e tentou destruir o Estado democrático de direito.
Já
mostramos neste espaço como a extrema direita pretende desmontar a democracia
se ganhar ou perder a eleição. A pergunta agora é outra: que governo começaria
em 1º de janeiro se o Zero Um vencer?
A
resposta está nas propostas e alianças do próprio candidato.
Na
segurança, Flávio oferece as prisões de Nayib Bukele. Na economia, a motosserra
de Javier Milei. Na política externa, subordina-se a Donald Trump e Marco
Rubio. Para libertar o pai e proteger o novo governo, promete indicar até seis
ministros para o Supremo.
Não
seria apenas a continuação do Zero Zero. Seria um bolsonarismo mais organizado,
internacionalizado e perigoso.
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O país já conhece o governo de um Bolsonaro
A
covid-19 matou mais de 700 mil brasileiros.
Jair
Bolsonaro não criou o vírus, e não se pode atribuir pessoalmente a ele cada
morte. Mas ele poderia, sim, ter evitado pelo menos 400 mil mortes, segundo
estudos do epidemiologista Pedro Hallal.
As
escolhas do governo de Jair Zero Zero estão documentadas.
Bolsonaro
chamou a doença de “gripezinha”, promoveu aglomerações, combateu máscaras e
isolamento e transformou a vacinação numa batalha ideológica.
O
Ministério da Saúde promoveu cloroquina e ivermectina, medicamentos sem
eficácia comprovada contra a doença.
A Pfizer ofereceu vacinas; o governo retardou
a contratação. Enquanto famílias choravam e enterravam seus mortos, o
presidente respondia com “E daí?” “Não
sou coveiro”.
A CPI
da Pandemia descreveu uma estratégia de disseminação da doença e pediu o
indiciamento de Jair Bolsonaro por nove crimes, entre eles epidemia com
resultado morte, charlatanismo, prevaricação e crimes contra a humanidade.
O vírus
matou. A política do governo ajudou o vírus a matar. Flávio Zero Um esteve ao
lado do pai e agora pretende receber os votos sem carregar os mortos do Zero
Zero.
O
desastre não terminou na pandemia. Foram muitos outros.
Ricardo
Salles, por exemplo, enfraqueceu o Ibama e o ICMBio e propôs aproveitar a crise
sanitária da Covid para “passar a boiada”.
Em
2021, o desmatamento da Amazônia cresceu 22% e chegou ao maior nível desde
2006. A crise dos Yanomami revelou crianças desnutridas, malária, invasão
garimpeira e rios contaminados por mercúrio.
A
inflação dos alimentos corroeu a renda e, em 2022, 33,1 milhões de brasileiros
conviviam com a fome. As cenas das filas do osso se espalharam pelo Brasil e
pelo mundo.
O
governo que prometera combater a corrupção terminou cercado pela Covaxin, pelo
balcão de negócios dos pastores no Ministério da Educação, pelas joias
estrangeiras tratadas como patrimônio particular da família Bolsonaro e pelo
orçamento secreto, que movimentou R$ 16,5 bilhões somente em 2022.
E
terminou como sempre ameaçou terminar: atacando a democracia.
Jair
exaltou a ditadura, homenageou o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra,
participou de atos que pediam intervenção militar, desacreditou as urnas e
ameaçou o Supremo.
Perdeu
a eleição, tentou impedir a posse do vencedor e acabou condenado a 27 anos de
prisão por liderar a organização criminosa que atacou o Estado democrático de
direito em vários momentos de 2022, que culminou com o 8 de janeiro 2023 com a
invasão de uma multidão organizada às sedes dos Três Poderes.
O
Brasil sobreviveu ao Zero Zero. Agora corre o risco de eleger o Zero Um.
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Megaprisões para os pobres
O
programa de Flávio prevê cinco penitenciárias federais inspiradas em El
Salvador de Nayib Bukele, 500 mil novas vagas, redução da maioridade penal,
reconhecimento facial, vigilância em massa e classificação das facções como
organizações narcoterroristas, como determinam Trump e Rubio.
O
Brasil já mantém 727 mil pessoas em celas físicas. Flávio acha pouco.
Combater
o PCC e o Comando Vermelho é obrigação de qualquer governo. Mas encarcerar em
massa não destruiu as facções brasileiras. As maiores organizações criminosas
do país nasceram e cresceram dentro das prisões.
O
Estado que o bolsonarismo pretende reduzir quando oferece saúde, educação,
aposentadoria e direitos reaparece armado nas periferias. É mínimo para
proteger o trabalhador e máximo para vigiar, prender e punir o pobre.
Bukele
oferece mais que prisões. Em El Salvador, conquistou maioria parlamentar,
substituiu os integrantes da Suprema Corte por aliados e abriu caminho para
permanecer no poder por prazo indeterminado.
Seu ministro da Justiça, Gustavo Villatoro,
aconselhou Flávio a eleger o maior número possível de aliados no Congresso
brasileiro. O conselho ganha sentido diante do que Flávio anunciou sobre o
Supremo.
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Até seis ministros no Supremo
No 7 de
Setembro, Flávio prometeu indicar cinco ministros para o STF e declarou que
Alexandre de Moraes “vai cair”. Dez dias depois, elevou o número para seis e
acrescentou Flávio Dino à lista dos que, segundo ele, não poderiam permanecer
no tribunal.
Um
presidente não pode demitir ministros do Supremo. Para abrir essas vagas,
Flávio precisaria de um Senado disposto a aprovar impeachments.
Sua
promessa pressupõe uma maioria parlamentar preparada para afastar magistrados e
permitir que a família Bolsonaro escolha a maioria da Corte encarregada de
controlar seu governo.
Não se
trata de defender Moraes ou qualquer ministro do STF de investigações e
críticas. Ministros do Supremo não estão acima da lei.
Trata-se
de impedir que acusações sejam usadas como pretexto para entregar o tribunal ao
grupo político que tentou um golpe e agora precisa anular suas consequências.
Jair
tentou intimidar o Supremo. Flávio anuncia que pretende remodelá-lo.
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A motosserra contra os trabalhadores
Se
Bukele fornece as prisões, Milei fornece a política econômica.
Daniella
Marques, coordenadora do programa de Flávio, chamou o governo argentino de “um
ótimo exemplo”. A campanha já mapeou mais de mil normas para revogar.
Normas
não são papéis inúteis. Muitas protegem salários, aposentadorias, consumidores,
o meio ambiente, a saúde, a segurança no trabalho e o patrimônio público.
Quando
a extrema direita promete libertar o mercado, quase sempre pretende libertar os
mais ricos de suas obrigações com a sociedade.
Para o
capital, liberdade. Para os trabalhadores, sacrifícios. Para os pobres, pretos
e pardos, polícia e prisão.
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Trump acima do Brasil
Na
política externa, Flávio já escolheu seu presidente. Na reunião da CPAC, em
Washington, apresentou os minerais críticos e as terras raras brasileiras como
solução para “reduzir a dependência dos Estados Unidos em relação à China” e
sustentar a superioridade tecnológica e militar americana.
Um
candidato à Presidência deveria explicar como petróleo, água, minerais,
biodiversidade e Amazônia produzirão desenvolvimento, empregos e tecnologia no
Brasil. Flávio prefere explicar como servirão a Washington.
Seu
projeto se encaixa na Doutrina Monroe, com a qual Trump e Rubio pretendem
restabelecer a predominância dos Estados Unidos na América Latina, conter a
China e fortalecer governos aliados.
Bukele
na segurança. Milei na economia. Trump na política externa. Não é um projeto
nacional. É uma coleção de modelos estrangeiros colocada a serviço do poder de
uma família que pretende se perpetuar no poder.
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Prisões para os pobres, liberdade para Jair
O
governo de Flávio teria uma missão anterior a todas as outras: libertar o pai,
condenado e cumprindo pena de 27 anos de prisão.
Jair
Bolsonaro, militares de alta patente e os demais condenados pela tentativa de
golpe esperam anistia. Para aprová-la e impedir que seja derrubada pelo
Supremo, o Zero Um precisaria controlar o Congresso e alterar a composição da
Corte.
As
peças se encaixam: conquistar o Congresso, controlar o Senado, afastar Moraes e
Dino, indicar até seis ministros, formar maioria no Supremo, libertar Jair e
anistiar os golpistas.
As mega
prisões seriam destinadas aos pobres, pretos e pardos. Para o pai condenado,
haveria liberdade. O rigor penal terminaria na porta da família Bolsonaro.
Isso
não é apenas uma agenda conservadora. É um projeto de poder familiar construído
para neutralizar os controles da democracia e submeter o Estado ao clã.
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O Brasil não poderá alegar surpresa
O
governo do Zero Um já pode ser visto antes da eleição.
Para os
pobres, vigilância e cadeia. Para os trabalhadores, cortes e perda de direitos.
Para os Estados Unidos, minerais e submissão. Para Jair e os golpistas,
liberdade e anistia. Para o próprio governo, um Congresso dominado e um Supremo
remodelado.
“Deus,
Pátria e Família” serviu de cobertura moral para um governo que zombou dos
mortos, devastou a pátria e transformou a família num projeto de poder.
Mais de
700 mil mortos deveriam bastar para que o Brasil jamais esquecesse o Zero Zero
Jair Bolsonaro. A tentativa de golpe deveria bastar para que ninguém entregasse
ao Zero Um Flávio Bolsonaro os instrumentos necessários para terminar o
serviço.
Faltam
15 dias. O Zero Um pode ganhar a eleição. Se ganhar, o eleitor não poderá dizer
que não foi avisado.
Na
eleição presidencial, estarão em disputa projetos políticos distintos. Caberá
ao eleitor examinar propostas, biografias, trajetórias e compromissos públicos
— e decidir, pelo voto, que governo deseja para o Brasil.
• Brasil virar a Argentina, como promete
Daniella Marques, porta voz de Flávio Bolsonaro, interessa ao Brasil? Por Marco
Damiani
Porta-voz
econômica de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques mostrou a chave que pode abrir
a porta da vitória em primeiro turno para o presidente Lula. Alguém aí quer que
o Brasil vire a Argentina? Essa é a pergunta a ser feita ao eleitorado pela
campanha de reeleição. Trata-se de uma questão suprapartidária, acima também da
polarização política que tem dividido a sociedade brasileira desde o surgimento
do bolsonarismo. A reflexão sobre essa interrogação pode ajudar no
convencimento dos eleitores independentes sobre os riscos econômicos embutidos
na candidatura Bolsonaro. E, nessa medida, atrair os votos que estão faltando
para o presidente escalar para os 50% mais 1 dos votos válidos.
Implantar
no Brasil o modelo argentino que produz degradação social em grande escala no
Brasil é não apenas o que Daniella deseja, mas, de modo temerário, o que ela
jura que irá trabalhar para que aconteça se a extrema-direita, com ela no
camarote, vencer a eleição. “Milei é um ótimo exemplo”, saudou a economista no
começo da semana.
A
política econômica de Milei é cruel e rasteira. Enquanto o governo brasileiro
pauta o estímulo à demanda interna, a expansão do crédito e o fortalecimento do
mercado de trabalho, a Argentina aplica um modelo ultraliberal focado no choque
fiscal, superávit imediato e cortes de programas sociais. Todos os indicadores
apontam a redução da pobreza aqui e o aumento lá.
Entre
outros resultados, o confronto dos dois modelos gera, no Brasil, o menor
desemprego da história e a saída do mapa da fome da ONU, com crescimento do PIB
e inflação sob controle. Na Argentina, a pobreza extrema chega a atingir 40% da
população da grande Buenos Aires, no coração do país, com a taxa nacional de
desocupação entre jovens de até 29 anos chegando a 15%.
Daniella
Marques é uma mulher com um perfil à la Margareth Thatcher (1925-2013), a dama
de ferro do liberalismo global que derrubou direitos trabalhistas, cortou
benefícios sociais e combateu qualquer vestígio de estado de promoção do bem
estar da população. A economista escalada por Flávio Bolsonaro para falar em
seu nome não terá pudor em sacrificar duramente a população mais vulnerável e a
classe média, como faz Milei e Thatcher fez, se chegar ao poder.
Fonte:
Brasil 247

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