Preso,
Vorcaro ameaça e intimida ministros do STF em recados levados à imprensa
Preso
preventivamente, Daniel Vorcaro passou a fazer chegar à imprensa recados de que
pode expor ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e outras autoridades. As
ameaças atribuídas ao ex-banqueiro aparecem justamente enquanto ele tenta
deixar a prisão e seu pai, Henrique Vorcaro, busca obter prisão domiciliar.
O ponto
mais grave dos relatos é a associação entre uma coisa e outra. Interlocutores
atribuem a Vorcaro a disposição de revelar informações sobre autoridades caso o
pai permaneça preso. O ex-banqueiro alegaria possuir fotos, recibos de
pagamentos e outros documentos capazes de comprovar relações com integrantes do
STF, da Procuradoria-Geral da República (PGR) e da Polícia Federal (PF).
Até
agora, esse suposto conjunto de provas não foi apresentado publicamente. O que
veio a público foi o recado sobre sua existência — e a possibilidade de
revelá-lo em meio à disputa pela liberdade de integrantes da família.
A
situação coloca no centro da crise do caso Master uma questão institucional
delicada: um investigado preso e com interesses sendo decididos pelo Judiciário
passa a anunciar, por meio de interlocutores e da imprensa, que detém
informações potencialmente comprometedoras sobre autoridades.
A
revista Veja revelou nesta sexta-feira (18) que Vorcaro enviou recentemente um
recado ao STF. Segundo a publicação, se Henrique não for colocado em liberdade
para tratar problemas de saúde, o ex-banqueiro revelará fatos sobre pessoas
poderosas.
A
informação é atribuída pela revista a um interlocutor da defesa. De acordo com
esse relato, Vorcaro estaria convencido de que foi abandonado na prisão e
desconfiaria da independência das próprias instituições às quais poderia
recorrer para negociar uma colaboração premiada.
O mesmo
interlocutor afirmou que o ex-banqueiro teria fotos, recibos e outros papéis
capazes de detalhar relações com figuras do STF, da PGR e da PF. “Daniel não
tem nada a perder”, afirmou à revista. Horas depois, outra apuração reforçou o
quadro de irritação.
O UOL
informou que Vorcaro está “muito irritado, nervoso, ansioso” e “revoltado” com
o período que passa preso e com a situação de pessoas próximas que também estão
atrás das grades. Além do pai, estão presos seu primo, seu cunhado e um
advogado.
Segundo
a apuração, esse estado de espírito tem alimentado nos bastidores a
possibilidade de Vorcaro decidir falar sobre o caso Master e envolver
autoridades, inclusive ministros do STF.
A
Gazeta do Povo também afirmou, com base em fontes a par da investigação, que os
recados não seriam um episódio isolado. Segundo o jornal, ameaças de detalhar
relações com autoridades têm sido frequentes durante o período em que Vorcaro
está preso.
A
aposta em outros caminhos para deixar a prisão é tamanha que uma nova tentativa
de colaboração premiada ficou em segundo plano na estratégia de defesa. As
tratativas para retomar uma negociação de delação estão escanteadas, enquanto
os advogados concentram esforços na revogação da prisão de Daniel Vorcaro e na
tentativa de retirar seu pai, Henrique, da cadeia.
Desde
que a crise no STF escalou entre os ministros, a prioridade imediata da defesa
do ex-banqueiro passou a ser obter decisões favoráveis no STF para os dois
atrás de questionamentos referentes ao processo e a cadeia de custódia de
provas.
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Recados aparecem em meio à tentativa de deixar a prisão
O
momento em que as ameaças atribuídas a Vorcaro chegam à imprensa é parte
central da história.
Nesta
mesma sexta-feira, a defesa do ex-banqueiro apresentou ao presidente do STF,
Edson Fachin, um novo pedido para revogar sua prisão preventiva.
Vorcaro
está preso desde 4 de março no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito
Federal, conhecido como Papudinha. Seus advogados sustentam que a preventiva
completou dois ciclos de 90 dias sem a reavaliação exigida pela legislação e
afirmam que a crise instalada no próprio Supremo não pode manter o empresário
indefinidamente atrás das grades.
O
pedido também explora o impasse criado dentro da Corte em torno do caso Master.
Na
terça-feira (15), Flávio Dino pediu vista durante a sessão que discutia os
desdobramentos das investigações envolvendo Alexandre de Moraes. Processos
relacionados à Operação Compliance Zero haviam sido enviados ao gabinete da
Presidência do STF em meio à disputa sobre a condução das apurações.
A
defesa argumenta que Vorcaro não pode permanecer preso enquanto o Supremo
resolve internamente quem deve conduzir e decidir questões relacionadas ao
caso. Os advogados pedem a liberdade ou, alternativamente, a substituição da
prisão por medidas cautelares. Ao mesmo tempo, Henrique Vorcaro também tenta
sair da prisão.
O pai
do ex-banqueiro pediu que seu caso seja destravado para que seja analisado um
pedido de prisão domiciliar humanitária. A defesa alega problemas de saúde e
reclama que recursos contra a prisão ainda não foram julgados.
É
justamente a situação de Henrique que aparece como condição nos recados
atribuídos ao filho: se o pai continuar preso, Vorcaro poderá revelar o que
afirma saber sobre autoridades.
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Diz que pode falar, mas depoimentos foram adiados
Há uma
contradição importante entre os recados que chegam à imprensa e o caminho
adotado até agora pela defesa. Enquanto interlocutores descrevem Vorcaro como
alguém cada vez mais disposto a revelar informações, depoimentos nos quais ele
poderia formalmente apresentar fatos e provas às autoridades foram adiados.
A
defesa alegou que não tinha acesso integral aos autos e, por isso, não haveria
condições adequadas para os interrogatórios.
A
Polícia Federal agora marcou para 30 de setembro novos depoimentos de Daniel e
Henrique Vorcaro no inquérito que investiga a atuação de grupos que teriam sido
utilizados para obter informações sigilosas, invadir sistemas e intimidar
adversários da família.
As
oitivas serão realizadas às 14h e às 16h e constituem o último ato previsto
antes do encerramento desta fase da investigação.
É
justamente nesse depoimento que Vorcaro terá uma oportunidade formal de
apresentar às autoridades o que diz saber e entregar eventuais documentos que
afirma possuir. A diferença é relevante.
Uma
coisa é apresentar às autoridades elementos capazes de demonstrar a prática de
crimes ou irregularidades. Outra é fazer circular a informação de que esses
elementos existem enquanto decisões de interesse direto do investigado e de sua
família aguardam análise.
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Inquérito apura estrutura de intimidação
O
contexto ganha peso adicional porque o depoimento de Vorcaro ocorrerá
justamente em uma investigação sobre suspeitas de intimidação.
A PF
investiga dois grupos conhecidos como “A Turma” e “Os Meninos”. Segundo a
investigação, eles teriam atuado na obtenção ilegal de informações, invasão de
sistemas e intimidação de pessoas consideradas adversárias dos interesses de
Vorcaro.
Investigações
da PF apontam que “A Turma” operava de forma organizada e recebia recursos de
empresas ligadas ao grupo empresarial do ex-banqueiro. O grupo teria acesso a
sistemas oficiais restritos e seria empregado para levantar informações
pessoais e processuais, além de realizar ações de intimidação.
Henrique
Vorcaro é investigado por suspeita de participação no chamado “núcleo violento”
dessa estrutura. As responsabilidades individuais ainda são objeto da
investigação, e cabe à Justiça decidir sobre as acusações.
Daniel
Vorcaro foi preso novamente em março depois que a PF encontrou mensagens que,
segundo os investigadores, indicariam planos de ataques contra adversários. A
defesa contesta as acusações e sustenta que sua prisão se baseia em
interpretações e suposições.
O fato
de os novos recados surgirem enquanto está em andamento um inquérito que apura
justamente métodos de intimidação torna ainda mais sensível a estratégia de
anunciar publicamente a existência de informações sobre autoridades.
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Relações com ministros já provocaram crise no Supremo
A
ameaça de Vorcaro de revelar informações também não ocorre no vazio.
As
relações mantidas pelo ex-banqueiro com ministros, familiares de magistrados e
integrantes de outras instituições estão no centro da crise aberta no Supremo
nas últimas semanas.
Mensagens,
documentos e outros materiais obtidos pela Polícia Federal colocaram sob
escrutínio contatos envolvendo diferentes integrantes da Corte.
Nesta
sexta-feira, a Folha de S.Paulo revelou que Vorcaro se reuniu em abril de 2024
com Gilmar Mendes no STF e pediu apoio em uma discussão bilionária envolvendo
indenizações a usinas do setor sucroalcooleiro. O Banco Master possuía créditos
relacionados a essas empresas. Segundo a reportagem, Gilmar posteriormente
votou contra interesses defendidos pelo ex-banqueiro em casos semelhantes.
O
gabinete do ministro afirmou que a audiência ocorreu em ambiente institucional
e que Gilmar desconhecia tratativas privadas envolvendo Vorcaro.
Também
nesta sexta, Kassio Nunes Marques pediu à PF acesso à íntegra dos dados
extraídos do celular do ex-banqueiro. O material já havia sido disponibilizado
a outros ministros do Supremo.
A
investigação também encontrou mensagens relacionadas ao filho de Kassio, Kevin
Marques. Ele nega ter recebido dinheiro de Vorcaro e afirma que prestou
serviços para uma consultoria tributária, por R$ 281,6 mil.
Outros
episódios envolvendo Alexandre de Moraes, André Mendonça, Dias Toffoli e
parentes de ministros já provocaram questionamentos, pedidos de investigação e
declarações de impedimento. Cada caso possui circunstâncias próprias e versões
apresentadas pelos envolvidos.
Não há,
portanto, dúvida de que Vorcaro circulou por ambientes de poder e manteve
contatos relevantes.
Isso
não comprova, porém, a alegação agora atribuída a seus interlocutores de que
existiriam documentos comprometedores contra integrantes dessas instituições.
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Se existem provas, elas podem ser entregues
É
justamente essa distinção que torna os recados levados à imprensa relevantes.
Vorcaro tem o direito de colaborar com investigações, prestar depoimento,
entregar documentos e relatar eventuais crimes de que tenha conhecimento. Se
possuir provas de irregularidades cometidas por ministros, procuradores,
policiais ou qualquer outra autoridade, esse material pode ser apresentado
formalmente e submetido à investigação.
O que
ocorre agora é diferente. Segundo os relatos publicados nesta sexta-feira, a
possibilidade de revelação aparece associada à permanência de seu pai na prisão
e em um momento no qual o próprio Vorcaro também pede ao Supremo para ser
libertado.
A
ameaça, portanto, não é apresentada apenas como disposição genérica de
colaborar com as investigações. Ela chega acompanhada de uma circunstância
concreta: a situação carcerária da família.
E
ocorre enquanto o Supremo atravessa uma crise provocada justamente pelas
relações entre o ex-banqueiro e integrantes da Corte. Agora, Daniel e Henrique
Vorcaro têm data marcada para falar oficialmente.
No dia
30, diante da Polícia Federal, o ex-banqueiro terá a oportunidade de
transformar os recados que vêm chegando à imprensa em fatos, documentos e
provas submetidos formalmente às autoridades.
Até lá,
permanece uma situação incomum: preso e tentando deixar a cadeia, Vorcaro diz,
por meio de interlocutores, possuir informações capazes de atingir integrantes
das mesmas instituições que têm nas mãos decisões importantes sobre seu futuro
e o de sua família.
• Ministro do STJ disse estar ‘sempre à
disposição de Vorcaro’, indicam mensagens
Conversas entre Daniel Vorcaro e um número de
telefone de propriedade do ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça)
Benedito Gonçalves, extraídas de celular do ex-banqueiro, indicam uma possível
relação próxima entre os dois.
Benedito
atualmente ocupa o cargo de corregedor do CNJ (Conselho Nacional de Justiça). O
material obtido pela Folha mostra que ele e Vorcaro se tratavam como amigos,
trocavam mensagens cordiais e combinavam encontros em Brasília.
A
reportagem procurou o ministro por meio das assessorias do STJ e do CNJ às
13h15 de terça (15), por WhatsApp, mas ele não se pronunciou até a publicação
este texto. No primeiro semestre deste ano, ele se declarou impedido de julgar
causas relacionadas ao Banco Master no STJ.
Em 17
de maio de 2024, Benedito escreveu a Vorcaro após um encontro entre os dois:
“Boa noite feliz em rever o amigo. Festa bonita! Parabéns! Ab Benedito”.
Vorcaro respondeu: “Caro amigo” e “Obrigado pelo carinho”. Em seguida, ele
sugeriu um novo encontro: “Vamos marcar o charuto em Brasília”.
Em 2 de
julho do mesmo ano, eles voltaram a trocar mensagens. Vorcaro chamou Benedito
de “grande amigo” e propôs que se encontrassem na capital federal quando o
ministro retornasse do Rio de Janeiro.
“Grande
amigo tudo bem? Vamos marcar encontro em Brasília no seu retorno do Rio!”,
escreveu o ex-banqueiro. Benedito respondeu que chegaria no dia 29 e ligaria em
seguida. “E aqui sempre à disposição”, acrescentou.
No
mesmo dia, Benedito enviou a Vorcaro uma figurinha com a imagem de um aperto de
mãos e a frase “Tamo junto sempre”.
Benedito
participou de evento bancado por Vorcaro, em Londres, em abril de 2024. Ele
também estava na degustação de uísque Macallan para autoridades, na mesma
época, promovida pelo ex-banqueiro.
Na
sessão do STF (Supremo Tribunal Federal) de terça-feira (15), que tratou da
possibilidade de abrir investigação sobre o ministro Alexandre de Moraes por
suas trocas de mensagens com Daniel Vorcaro, o ministro Flávio Dino sugeriu
notificar todos os magistrados de todos os tribunais superiores citados em
algum documento relativo ao Banco Master.
Benedito
Gonçalves ficará à frente da Corregedoria até 2028. Ele substituiu Mauro
Campbell Marques, que tomou posse como vice-presidente do STJ no mês passado.
O órgão
no CNJ é responsável, por exemplo, por receber reclamações e denúncias de
irregularidades por parte de juízes e também realizar sindicâncias, inspeções e
correições, quando houver suspeitas de infrações graves.
Como
mostrou o Painel, em seu discurso de posse Benedito Gonçalves evitou abordar
temas considerados espinhosos para o Poder Judiciário, como desvios de condutas
na magistratura, o pagamento de supersalários ou a proposta de criar regras
para a participação de juízes em eventos.
Ele
defendeu que “orientar antes de sancionar” e “prevenir antes de reprimir” não
significa tolerar o descumprimento das regras da magistratura e afirmou que, no
cargo, pretende unir rigor técnico com diálogo.
“Nosso
CNJ foi criado após muitos debates sobre um controle de gestão do Judiciário. O
exercício desta Corregedoria também deve estar orientado pela clareza e pela
atenção à realidade concreta. Mais do que fiscalizar procedimentos, cabe à
Corregedoria contribuir para que a Justiça seja acessível, eficiente e
verdadeiramente comprometida com a sociedade”, disse.
Mensagens
extraídas pela Polícia Federal e publicadas pela Folha na terça revelam
contatos de Daniel Vorcaro também com o instituto fundado pelo ministro André
Mendonça e com filhos dos ministros Kassio Nunes Marques e Luiz Fux.
Os três
magistrados atuam em conjunto em oposição à ala da corte que reúne Alexandre de
Moraes, Cristiano Zanin, Flávio Dino e Gilmar Mendes. Dino e Zanin foram
indicados ao Supremo pelo presidente Lula (PT) após terem sido ministro da
Justiça e advogado pessoal do petista, respectivamente.
O
conteúdo integral do celular de Vorcaro foi entregue nesta segunda (14) pela PF
aos gabinetes de Zanin, Gilmar e Moraes. Eles pediram o conteúdo sob a
justificativa de que era necessário para a análise que ocorre nesta terça (15)
sobre a relação de Moraes com o ex-banqueiro.
Fonte:
ICL Notícias

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