Decreto
de Romeu Zema beneficiou mineradora de Lucas Kallas, ligado a Vorcaro
Um
decreto publicado no início deste ano pelo então governador de Minas Gerais e
candidato à presidência, Romeu Zema (Novo), beneficiou a Cedro Mineração
Mariana, empresa que faz parte do grupo Cedro, fundado por Lucas Prado Kallas.
O empresário da mineração tem conexões com ministros do Supremo Tribunal
Federal (STF) e com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, envolvidos no escândalo do
Master.
O ato
de Zema, publicado em de 6 de fevereiro, determinou que duas fazendas na cidade
de Mariana podem ser usadas pela Cedro Mineração Mariana para atividades
minerárias. O então governador cita nominalmente a empresa ao dizer que a
medida é necessária “à expansão de atividades do empreendedor Cedro Mineração
Mariana S.A”.
O
decreto, porém, é alvo de ação na Justiça, segundo documentos obtidos pela
Agência Pública, pois na área em disputa já existe alvará de pesquisa mineral
em favor de outra empresa, a Rio Abaeté Minerais. Além disso, a ação judicial
diz que a região “alcança ou tangencia outros 14 títulos minerários, todos
submetidos ao regime federal da ANM [Agência Nacional de Mineração].”
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As ligações com André Mendonça e Daniel Vorcaro
Lucas
Kallas ganhou o noticiário nesta semana porque o grupo Cedro repassou, em 2024,
mais de R$ 5 milhões ao instituto educacional ligado ao ministro do STF André
Mendonça e contratou no início deste ano o escritório da mulher do também
ministro Alexandre de Moraes. As informações foram confirmadas pela assessoria
de imprensa do escritório Barci de Moraes à Pública e pelo CEO do instituto
Iter à Folha.
Kallas
também aparece mencionado em mensagens do grupo que atuava para proteger
Vorcaro de investigações, o “A Turma”, segundo apuração do Metrópoles. Nas
mensagens, Manoel Rodrigues, preso em maio por suspeita de ameaçar pessoas a
mando de Vorcaro, chama Kallas de “sócio” do ex-banqueiro.
O
megaempresário da mineração também tem conexões com Daniel Vorcaro. Em 2024,
investimentos de Kallas e do ex-banqueiro foram para a farmacêutica Biomm, que
disputa vender uma versão brasileira do Ozempic. Parte das ações da empresa
estava nas mãos do Fundo Cartago ligado ao Master e que foi liquidado após a
falência do banco. A Biomm admitiu, em comunicado no fim do ano passado, que o
Cartago, do Master, passou a deter ações da farmacêutica em 2024, alcançando
25,9% de participação em dezembro de 2025.
Após o
escalonamento das investigações sobre o Master e a rede de Vorcaro, o grupo
Cedro vendeu sua participação na farmacêutica Biomm em abril deste ano. Três
meses depois, Kallas também saiu da presidência do conselho de administração da
Cedro Participações apesar de permanecer como acionista majoritário do grupo,
que tem receita anual de R$ 2,5 bilhões. Depois de ter sido indiciado pela
Polícia Federal por extração irregular de minério na Serra do Curral, em Belo
Horizonte, Lucas Kallas anunciou sua mudança para os Estados Unidos para a
expansão internacional de seus negócios.
Antes
dessas reviravoltas, no entanto, o empresário da mineração tinha bom trânsito
entre autoridades e também no governo federal. Ele fez parte, por exemplo, do o
chamado “Conselhão” (Conselho de Desenvolvimento Econômico Sustentável da
Presidência da República) do governo Lula, e teve encontros com o presidente –
que chegou a elogiá-lo publicamente em 2025.
Procurada,
a Cedro disse que Lucas Kallas “não participou das negociações, não discutiu
valores e não assinou o instrumento” com o Instituto Iter, do ministro
Mendonça, e que o acordo foi celebrado entre duas pessoas jurídicas.
O grupo
disse ainda que Kallas “jamais foi sócio de Daniel Vorcaro”, como vem sendo
veiculado em algumas reportagens. “A aquisição de participações em companhias
de capital aberto diretamente no mercado secundário — das quais diversos fundos
e instituições, como BNDES e BDMG, também são acionistas – não configura
sociedade comercial”, conclui a nota. Leia a nota na íntegra aqui.
A
reportagem procurou a campanha de Zema e o governo de Minas Gerais para se
posicionarem sobre o decreto que beneficiou a Cedro, mas não houve resposta. O
espaço segue aberto.
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Mineradora quer triplicar capacidade de produção em Minas Gerais
Uma
publicidade do grupo de Kallas publicada na Folha de S.Paulo em abril afirma
que a Cedro Mineração tem capacidade de produzir atualmente cerca de 7 milhões
de toneladas de minério de ferro por ano, principalmente em Minas Gerais. Mas
que, “sob a liderança de Kallas, a meta é ambiciosa: saltar para 12 milhões de
toneladas em Nova Lima, atingir 3 milhões em Mariana e chegar a 20 milhões de
toneladas anuais até 2030”. O cenário também é repetido em comunicado da
própria empresa feito neste ano.
Dentro
desta meta de crescimento, a ampliação da área de atuação em Mariana,
respaldada por decreto de Zema, enfrenta questionamentos e sobreposições que
estão sendo debatidas na Justiça.
Ação
judicial com pedido de liminar ingressada pela Rio Abaeté Minerais, detentora
de alvará de pesquisa mineral na região em disputa, processa a Cedro, o governo
de Minas e a ANM. A advogada da empresa diz que “sem a preservação dessas
áreas, o título federal [da ANM] permanece formalmente existente, mas perde
utilidade prática”.
O
processo destaca ainda que “é importante registrar a desproporção material do
ato [de Zema]”. Isso porque, segundo o documento, a Cedro possui área de
exploração estimada em 47 hectares em Mariana, “mas o decreto coloca ao seu
alcance área mais de dez vezes maior, próxima de 300 hectares, sob a
justificativa formal de disposição de detritos, apoio operacional ou expansão”.
A
história se complica porque servidores da ANM da gerência regional de Minas
Gerais aprovaram, em maio, pedidos da Cedro para sua expansão sobre a região.
Entretanto, nos laudos, os servidores inseriram a ressalva de que a utilização
efetiva da área dependeria de acordo amigável ou judicial com os proprietários
do solo e com os titulares dos direitos minerários – o que não teria sido
cumprido, segundo a Rio Abaeté.
Por
conta disso, a mineradora Rio Abaeté acionou a ouvidoria da agência em Brasília
pedindo investigações de dois servidores da ANM em Minas Gerais. O Ministério
Público Federal também foi acionado e pediu, em junho, explicações formais à
ANM, bem como apurações sobre suposta ingerência indevida do estado de Minas
Gerais em direitos minerários que são da União.
O
pedido de liminar foi aceito, em 9 de julho deste ano, pelo juiz de primeira
instância, que estabeleceu multa de R$ 50 mil por dia em caso de
descumprimento. Determinou ainda que o estado de Minas Gerais e a Cedro
Mineração Mariana não tomem, nas áreas em disputa, nenhuma medida que impeça,
limite ou atrapalhe o uso do alvará de pesquisa, “como entrar no terreno,
instalar estruturas, desmatar, abrir acessos, registrar restrições no cartório
ou limitar a circulação”. O juiz pede também que a ANM seja notificada.
A Cedro
recorreu, pedindo segredo de Justiça no processo e também a suspensão da
liminar. Ambos foram negados pelo juiz em 13 de agosto.
Em
nota, a Cedro Participações disse que “o decreto está em consonância com o
posicionamento da ANM , que também concedeu a servidão minerária na mesma
área.” E que a declaração de utilidade pública pela administração estadual
seguiu “estritamente todos os ritos legais, regulatórios e ambientais,
fundamentada no interesse público e na relevância socioeconômica do
empreendimento para a região”. O grupo acrescentou que a companhia “respeita a
Justiça e cumpre toda decisão transitada em julgado.”
A
reportagem procurou a ANM, sem resposta até a publicação deste texto. A
mineradora Rio Abaeté não foi encontrada.
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As irregularidades na Serra do Curral
Neste
ano, a Polícia Federal pediu indiciamento do empresário da mineração Lucas
Kallas por irregularidades na extração de minério de ferro na Serra do Curral,
patrimônio histórico de Belo Horizonte, conforme revelou a Pública em abril,
informação depois confirmada por outros veículos. Deflagrada em março, a
Operação Parcours apura irregularidades nas atividades da Empresa de Mineração
Pau Branco (Empabra), ligada a Kallas.
À
época, o empresário disse que sua inclusão no inquérito era “completamente
descabida”. Ele ressaltou que a operação “tem como principais fundamentos fatos
relacionados aos anos de 2023-2025”, oito anos após ter encerrado sua relação
com o Grupo empresarial Green Metals/Empabra.
A PF
relatou que a Empabra, sob o subterfúgio de recuperação ambiental, retirou
minério da área sem autorização prévia, causando impactos irreversíveis ao meio
ambiente, com prejuízo estimado de R$ 832 milhões. Além disso, a empresa deixou
de arrecadar cerca de R$ 11 milhões em Compensação Financeira pela Exploração
Mineral (CFEM). O caso é descrito no relatório pela PF como uma “distopia
ambiental”.
Além do
empresário, a PF investigou dois servidores da ANM em Minas Gerais – mesma
superintendência envolvida no embate sobre a expansão da Cedro em Mariana.
Ambos foram exonerados do cargo.
Desde
que assumiu o governo de Minas em janeiro de 2019, Romeu Zema triplicou o uso
de dois instrumentos, os termos de ajustamento de conduta (TACs) e os termos de
compromisso (TCs), que permitem que mineradoras flagradas operando sem licença
ambiental continuem funcionando mediante acordo com o estado, em vez de serem
suspensas.
Conforme
revelou a Pública em abril deste ano, esses acordos favoreceram diretamente as
quatro mineradoras que atuavam irregularmente na Serra do Curral: Tamisa,
Empabra, Fleurs e Gute Sicht (todas com TACs ou TCs assinados entre 2020 e
2022).
Kallas
admitiu ter investido em empresas que fizeram negócios com a Empabra. Já a
Tamisa tinha ligações com o Banco Master de Vorcaro. A mineradora tinha entre
suas acionistas a WJ Consultoria, administrada pelo cunhado de Vorcaro, Fabiano
Zettel. Além disso, o Victoria Falls Fundo de Investimento, controlado pelo
Banco Master, é sócio majoritário da mineradora.
Fonte:
Por Ana Magalhães, da Agencia Pública

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