O
BRICS entre pequenos ganhos e grandes obras
Em seu
discurso na 18ª Cúpula do BRICS em Nova Délhi, o presidente Xi Jinping ousou
propor o princípio dos “quatro pioneiros”: em sua visão, o grupo deve ser
pioneiro na inovação para o desenvolvimento, na defesa da paz e da
estabilidade, na promoção do aprendizado mútuo entre civilizações e na reforma
e melhoria da governança global. Uma tarefa ambiciosa para um grupo cuja única
iniciativa significativa até o momento tenha sido o Novo Banco de
Desenvolvimento, fundado em Xangai em 2015.
No
entanto, esse era o espírito que prevalecia entre os chefes de Estado. O
anfitrião, Narendra Modi, abriu a cúpula propondo transformar “a pirâmide de
privilégios [da atual ordem mundial] em uma plataforma de parceria” e fazer com
que o bloco deixe de ser um “seguidor de regras” para se tornar um “formador
de regras”. O presidente russo, Vladimir Putin, por sua vez, foi mais
categórico: o sistema unipolar é “coisa do passado”, e a vantagem decisiva do
grupo não reside em ocupar um terço da superfície terrestre ou em produzir 40%
do PIB global, mas no “enorme e poderoso potencial intelectual e tecnológico
concentrado em nossos países”. Os discursos estavam em sintonia, mas o grupo
ainda tem dificuldade para funcionar como uma orquestra bem ensaiada.
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O BRICS é um “copo meio vazio” ou um “copo meio cheio”?
Os
resultados da presidência indiana de 2026 podem ser interpretados sob duas
perspectivas: o “copo meio vazio” ou o “copo meio cheio”. Dialeticamente
falando, ambas podem estar corretas. Aqueles que o veem “meio vazio” têm
argumentos válidos quando comparam a Declaração de Nova Délhi com o que foi
alcançado em Kazan (2024) e no Rio de Janeiro (2025), particularmente no que
tem sido a principal agenda do bloco: criar alternativas à arquitetura
financeira e monetária que o Ocidente controla – e que transformou em arma.
Comecemos
pelo sistema de pagamentos internacionais. Na semana anterior à cúpula, foi
divulgado que o banco central da Índia apresentaria a proposta de interconexão
das moedas digitais de bancos centrais (CBDCs), e a presidência parecia
disposta a defendê-la. Uma alternativa seria a interconexão dos sistemas de
pagamentos domésticos — UPI (Índia), PIX (Brasil), SBP (Rússia), QRIS
(Indonésia) e os sistemas chineses. As expectativas de avanços concretos eram
altas. Não se chegou a um consenso, e a Declaração nem mesmo menciona a sigla
CBDC. Esse retrocesso fica evidente na redação dos documentos: em Kazan, os
líderes instruíram seus ministros da Fazenda a tratar da questão e
apresentar um relatório na próxima presidência, nomeando a instituição a ser
criada, a BRICS Clear; no Rio, eles mantiveram essa instrução e concordaram com
um produto a ser entregue, o Relatório Técnico sobre pagamentos. Agora, o
verbo, o prazo, a instituição e o relatório desapareceram, restando apenas o
reconhecimento de que a força-tarefa “estudou” e “discutiu” o assunto, e a
ressalva de que “não existe uma abordagem única que sirva para todos”.
Quanto
ao Acordo de Reserva Contingente (CRA, na sigla em inglês), a frustração é
maior, porque havia sido feito um progresso real. Criado na Cúpula de Fortaleza
em 2014 como um fundo de emergência de 100 bilhões de dólares e apresentado
como a alternativa do Sul Global ao FMI, o acordo nunca foi utilizado,
principalmente porque os cinco fundadores possuem amplas reservas em dólares.
Dois novos membros, a Etiópia e o Egito, tiveram que recorrer ao FMI em 2024 e
sofrer as condições draconianas que são a marca registrada do fundo sediado em
Washington.
Sob a
presidência brasileira em 2025, o Tratado do CRA revisado foi submetido às
capitais – etapa que antecede a assinatura – com o compromisso de incluir
“moedas elegíveis para pagamento”, ou seja, moedas diferentes do dólar. Também
foi discutida a possibilidade de permitir o acesso de novos membros, o que
aliviaria a Etiópia e o Egito. No entanto, apenas 30% de qualquer saque pode
ser autorizado pelo próprio BRICS; os 70% restantes exigem um acordo com o FMI.
Um fundo concebido como alternativa ao FMI ainda precisa da autorização deste
para operar. 14 meses depois, a Declaração de Nova Délhi afirma que as emendas
“ajudarão”, e a cláusula sobre moedas desapareceu. O CRA está paralisado — e o
BRICS está perdendo a chance de ir além da crítica consensual às “armadilhas da
dívida” para chegar a uma solução concreta para seus próprios membros.
Enquanto
isso, a Bolsa de Grãos — uma proposta russa para uma alternativa às bolsas de
Chicago e Paris, sustentada pelo fato de que os países do BRICS produzem cerca
de metade dos principais grãos do mundo — daria ao grupo maior controle sobre a
formação de preços, um passo à frente na soberania alimentar e, eventualmente,
a possibilidade de negociar em moedas diferentes do dólar. Hoje, 80% a 90% das
commodities básicas de alimentos e energia são negociadas em dólares — um dos
principais pilares da hegemonia da moeda norte-americana.
Acolhida
em Kazan como uma iniciativa russa e negociada em 2025, ela passou apenas de
“continuar a ser desenvolvida” para “discutir as modalidades de seu
funcionamento”: em dois anos, a única mudança foi reconhecer que ainda não está
definido como ela funcionaria. Putin observou diplomaticamente a falta de
progresso: “Gostaria também de relembrar uma série de iniciativas russas que, a
meu ver, são úteis: a construção, com base no BRICS, de uma infraestrutura de
pagamentos, liquidação e custódia; a criação de uma nova plataforma de
investimentos, um mecanismo de resseguro e uma bolsa de grãos.” A plataforma,
baseada no NDB (Novo Banco de Desenvolvimento), facilitaria o investimento
entre países do Sul Global sem a intermediação de instituições em Nova York ou
Londres. O mecanismo de resseguro desafiaria as resseguradoras europeias, hoje
as “executoras” das sanções ocidentais, que fixam o preço da cobertura para um
petroleiro indiano transportando petróleo russo, por exemplo, de acordo com
“tetos” estabelecidos por Washington e Bruxelas. A plataforma desapareceu da
declaração, enquanto o mecanismo de resseguro foi reduzido.
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O BRICS avança como se come mingau quente: pelas beiradas
Mas o
desempenho do bloco também pode ser interpretado como um “copo meio cheio”.
Algumas propostas avançaram este ano. As Garantias Multilaterais do BRICS,
ausentes em Kazan e lançadas apenas no Rio, chegaram a Nova Délhi com
diretrizes acordadas, incubação no Novo Banco de Desenvolvimento sem capital
adicional e transações-piloto autorizadas – um instrumento que mobiliza capital
privado e reduz os custos de financiamento para infraestrutura. O segundo
avanço está no espaço: a Constelação de Satélites de Sensoriamento Remoto,
proposta pela agência espacial chinesa em 2015 e assinada em 2021 sob o modelo
“seis satélites, cinco estações terrestres”, levou a emenda de adesão para
novos membros à redação final, com os termos de referência para um Conselho Espacial
já delineados.
Mas o
principal argumento para ver o “copo meio cheio” está em outro lugar: os
maiores avanços do bloco não foram acordos coletivos – praticamente
inexistentes –, mas o aprofundamento dos laços bilaterais e trilaterais entre
seus membros. As cúpulas estão começando a servir como fórum para amenizar
tensões diplomáticas. Em outubro de 2024, em Kazan, Xi Jinping e Narendra Modi
conversaram pela primeira vez em cinco anos, quatro dos quais foram ofuscados
pelo confronto militar na fronteira, que resultou na morte de inúmeros soldados
de ambos os lados. Esse encontro deu início a uma sequência que passou por
Tianjin, na cúpula da Organização de Cooperação de Xangai de 2025, e culminou
na visita desta semana – Xi não visitava a Índia há sete anos. Os resultados
são significativos: eles encerraram a 25ª rodada de negociações sobre a
fronteira com oito pontos de consenso, retomaram voos diretos e antigas rotas
comerciais; a China retomou as exportações de terras raras e máquinas de
perfuração de túneis para a Índia, que flexibilizou as regras sobre
investimentos chineses em vigor desde 2020, enquanto o comércio bilateral
atingiu 151,1 bilhões de dólares, tornando a China o maior parceiro comercial
da Índia.
O mesmo
mecanismo entrou em ação durante o episódio mais delicado do fim de semana: o
presidente iraniano Masoud Pezeshkian e o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, xeque
Khaled bin Mohamed bin Zayed, que estão em lados opostos de uma guerra desde 28
de fevereiro, se reuniram pela primeira vez desde o início do conflito e
endossaram o mesmo apelo à máxima moderação na declaração. O conflito havia
prejudicado a reunião dos sherpas em abril, que terminou sem um
comunicado conjunto e gerou temores de que um impasse pudesse impedir a
unanimidade em Nova Délhi. A declaração foi divulgada, e um primeiro passo pode
ter sido dado para amenizar o mais grave conflito até agora entre dois membros
do BRICS.
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Quando os líderes se encontram, montanhas se movem: comércio, moedas locais e
novas rotas comerciais
Nos
círculos diplomáticos, é quase de conhecimento geral que nada impulsiona as
relações entre dois países como um encontro de seus líderes, o que faz com que
a burocracia se mova com velocidade incomparável. Além das tensões, outras
dimensões estratégicas também estão se aprofundando.
O
comércio entre os cinco membros fundadores – Brasil, China, Índia, Rússia e
África do Sul – dobrou entre 2020 e 2025 (de 340 bilhões para 678 bilhões de
dólares), segundo dados da Comtrade (ONU) e do FMI. O Brasil e a China bateram
um recorde em 2025 ( 171 bilhões de dólares); a Rússia e a China atingiram 228
bilhões, um aumento de 26% nos primeiros sete meses de 2026. A tendência também
não se limita à China: o comércio entre Brasil e Índia cresceu 25% em 2025,
para 15,2 bilhões de dólares, enquanto o comércio entre Egito e Rússia bateu um
recorde de 10,5 bilhões de dólares. O aumento mais espetacular, no entanto, foi
o do comércio entre a Rússia e a Índia, que cresceu quase oito vezes desde 2020
(de 8,4 bilhões para 66 bilhões de dólares), impulsionado pelo petróleo.
Enquanto
isso, o comércio em moedas locais vem ganhando espaço em vários casos, apesar
da falta de um acordo coletivo dentro do grupo: a Rússia e a China liquidam
99,1% de seu comércio em moedas nacionais, e a Rússia e a Índia, cerca de 96%.
A China já possui acordos de compensação (contornando o dólar) com mais de 20
países, seis dos quais são membros do BRICS (Rússia, Brasil, Indonésia,
Emirados Árabes Unidos, África do Sul, Egito) e quatro são parceiros (Malásia,
Tailândia, Cazaquistão, Bielorrússia). O modelo com maior probabilidade de
sucesso – a interligação de sistemas de pagamentos domésticos – já está sendo
promovido por membros e parceiros asiáticos: Indonésia, Tailândia, Vietnã e
China formam uma rede entre seus sistemas, enquanto a Índia negocia com alguns
deles. Nas últimas semanas, o Brasil conectou o PIX aos sistemas russo e
chinês, permitindo, em uma primeira fase, que cidadãos desses países utilizem
suas contas em solo brasileiro. Tudo isso torna as transações mais rápidas e
baratas, sem a intervenção de bancos de Wall Street. Falta apenas uma decisão
política para que os sistemas do BRICS se conectem entre si, criando uma
alternativa ao SWIFT – hoje uma arma política de Washington e Bruxelas, como a
Rússia, o Irã e Cuba sabem bem.
Assim
como é necessário criar alternativas ao sistema do dólar, os países do BRICS
vêm formando parcerias para construir rotas comerciais que ofereçam uma
alternativa às controladas pelo Ocidente – não apenas para se proteger contra
intervenções militares, cujos riscos aumentaram, mas porque as novas rotas são,
em média, 30% a 40% mais curtas e mais baratas. O Corredor Internacional de
Transporte Norte-Sul, que liga a Rússia, o Irã e a Índia contornando o Canal de
Suez, aumentou o tráfego de 7.2 mil para 11 mil contêineres em 2025. Em 7 de
setembro, um comboio de 55 contêineres partiu da estação de Chengxiang, em
Chengdu, no primeiro trem dedicado à rota China–Irã: mais de 6 mil quilômetros
em duas semanas, passando pelo Cazaquistão, Uzbequistão (ambos parceiros do
BRICS) e Turcomenistão até Sarakhs, na fronteira com o Irã, sem passar por
Malaca. A Rota Marítima do Norte (ou a Rota da Seda Polar, como os chineses a
chamam), aberta por quebra-gelos russos movidos a energia nuclear, movimentou
37 milhões de toneladas em 2025 e deve ultrapassar 40 milhões este ano,
reduzindo a travessia Ásia–Europa para 18 a 20 dias, contra mais de 40 via
Suez; os portos russos e chineses já respondem por 15% do total. Em julho,
Moscou autorizou a Rosatom a assinar um memorando com Nova Délhi sobre o
transporte de carga pelo corredor ártico. E o Brasil e a China estão negociando
uma ligação ferroviária com o Porto de Chancay, no Peru, conectando o país à
China através do Pacífico. Enquanto o Ocidente aposta no renascimento de uma de
suas tradições históricas – a pirataria –, apreendendo navios sujeitos às suas
sanções ilegais (como os da Rússia, do Irã e da Venezuela), os países do BRICS
estão investindo em rotas terrestres ou marítimas sob seu próprio controle (com
exceção da ligação Brasil–Peru–China).
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É possível dobrar o número de membros sem alterar as regras do jogo? Repensando
a regra do consenso
Há
evidências abundantes de que as relações entre os membros do grupo estão
avançando lentamente, de forma gradual e constante — e, sem esse
aprofundamento, a unidade exigida pelas propostas ousadas em seus discursos não
será forjada. Mas como explicar a discrepância entre a ambição desses discursos
e a ausência de acordos coletivos decisivos desde que o Novo Banco de
Desenvolvimento foi fundado em 2015?
A
explicação pode não estar na falta de vontade política, mas no método de tomada
de decisão. Qualquer proposta ainda exige consenso, uma regra que funcionava
razoavelmente – não sem atritos – quando havia cinco membros com trajetórias
comparáveis, mas que se tornou quase inoperante com dez países de realidades e
interesses tão diversos. Hoje, basta um único país para vetar o que os outros
nove desejam. Por que não introduzir alguma flexibilidade, permitindo que uma
iniciativa seja aprovada por maioria simples ou qualificada, sujeita a revisão
coletiva após um período determinado? Novos participantes poderiam aderir;
membros poderiam sair. Cada vez mais, alguns importantes especialistas em
BRICS, como o economista brasileiro Paulo Nogueira Batista e o economista russo
Yaroslav Lissovolik, defendem essa ideia. O primeiro foi vice-presidente do
Novo Banco de Desenvolvimento (o Banco dos BRICS) e diretor executivo do FMI; o
segundo é o fundador da BRICS+ Analytics, que propôs pela primeira vez um
debate sobre uma moeda de reserva dos BRICS, o R5, que esteve nas manchetes em
2023, mas agora está adiada.
O
potencial do BRICS, ou sua capacidade de ser um “pioneiro”, como propõe Xi
Jinping, reside sobretudo na escala: ele reúne cinco das oito maiores economias
do mundo, 40% do PIB em paridade de poder de compra, e é uma superpotência em
energia, alimentos e minerais essenciais (incluindo terras raras). Agindo em
uníssono, o grupo teria poder real para intervir e dissuadir os ataques
ocidentais, moldando uma nova ordem. Apesar dos avanços bilaterais,
somente essa escala proporcionará o salto qualitativo de que o Sul Global
precisa.
Como a
China deve assumir a presidência do BRICS em 2027, talvez agora seja o momento
de aprender uma lição sábia com o maior dos mestres chineses:
“Confúcio,
aconselhando um discípulo que havia sido recentemente nomeado administrador,
advertiu-o para que não tivesse pressa e não se apegasse a pequenos ganhos:
‘Quem tem pressa não terá sucesso; quem se apega a pequenos ganhos não
realizará grandes obras.’
Dois
milênios depois, o bloco reunido em Nova Délhi aprendeu bem a primeira lição. É
a segunda que ainda lhes falta.
¨ Frei Betto: BRICS
mostra que o Sul Global pode manter unidade mesmo diante de guerras e pressão
dos EUA
A 18ª Cúpula de
Líderes do Brics,
em Nova Delhi, ocorrida nos dias 12 e 13 de setembro, foi a mais complexa e
talvez a mais importante desde a criação do bloco. Presidida pela Índia sob o
lema “Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade”, a reunião encerrou
um ciclo que transformou o Brics de um acrônimo econômico em um ator político
central.
Hoje, o
bloco ampliado — Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia,
Indonésia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita — representa 45% da
população mundial, 40% do PIB em paridade de poder de compra e 25% do comércio
global.
Somados
os parceiros e convidados do “segmento ampliado”, no qual se inclui Cuba, foram
mais de 30 países reunidos em Nova Delhi.
Os
membros do Brics chegaram à Índia divididos. A guerra iniciada pelos EUA e
Israel contra o Irã, há seis meses, fechou virtualmente o Estreito de Ormuz e
levou o petróleo a mais de US$ 100.
Dois
membros do bloco estão em lados opostos: o Irã, membro desde 2024, e os
Emirados Árabes, que suspenderam transações com Teerã após serem atingidos por
mísseis.
Encontrar
uma linguagem comum sobre o conflito na declaração final seria o grande teste
de maturidade. Isso foi alcançado. O evento terminou com o consenso em torno de
quatro pontos fundamentais:
- Preocupação com
a escalada das tensões no Oriente Médio provocada pela cumplicidade entre
EUA e Israel e defesa da integridade e soberania dos Estados;
- Os líderes
condenaram a imposição de sanções unilaterais e medidas coercitivas que
contrariam o Direito Internacional, inclusive sanções econômicas e
secundárias que afetam populações vulneráveis;
- Defesa de Cuba:
a pedido da diplomacia brasileira, representada pelo chanceler Mauro
Vieira, o Brics manifestou preocupação com o endurecimento do criminoso
bloqueio imposto pela Casa Branca. E exigiu o fim das restrições
econômicas e financeiras em conformidade com resoluções da Organização das
Nações Unidas (ONU);
- Governança
global: forte defesa da reforma da ordem mundial e da ampliação do
Conselho de Segurança das Nações Unidas, em reforço do papel do
multilateralismo.
Em um
mundo marcado por sanções ocidentais, tarifas e uso do dólar como arma
política, a pauta econômica deixou de ser técnica. O presidente do Banco
Central da Índia, Sanjay Malhotra, colocou na mesa a interligação dos sistemas
de pagamentos rápidos e das moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) dos
membros. A ideia é reduzir custos, facilitar o comércio em moedas locais e
diminuir a dependência do dólar. É uma agenda que irrita Washington — Donald
Trump já chamou o Brics de “antiamericano” —, mas interessa diretamente ao
Brasil, maior exportador de soja e carnes, e à Índia, grande importadora de
energia.
Xi
Jinping fez sua primeira visita à Índia em sete anos. Narendra Modi e Xi
negociaram normalizar relações após anos de tensão na fronteira do Himalaia. Ao
mesmo tempo, Modi se encontrou com Vladimir Putin para reafirmar a compra de
petróleo russo, mesmo sob pressão estadunidense. A Índia, que mantém bom
trânsito com Rússia, Irã, Golfo, EUA e Israel, se coloca como a única ponte
possível dentro do bloco e fora dele.
O
Brasil teve papel semelhante ao defender “Governança Global Inclusiva e
Fortalecimento do Multilateralismo”.
Com a
ONU enfraquecida e o G20 paralisado por vetos, os países do Sul Global olham
para o Brics como espaço de estabilidade. A presença do secretário-geral
António Guterres em Nova Delhi não foi protocolar. O bloco discutiu a reforma
do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial, da Organização
Mundial do Comércio (OMC) e regras para comércio agrícola, transição energética
e inteligência artificial.
A
reunião da Índia não criará uma nova ordem mundial em dois dias. Mas pode
consolidar três mensagens: que é possível manter unidade mesmo com divergências
internas graves, que existe alternativa técnica ao sistema financeiro
dolarizado e que o centro de gravidade econômico e político do mundo já se
deslocou.
Em um
cenário de guerras simultâneas na Ucrânia e no Oriente Médio, crise climática e
fragmentação comercial, o Brics deixa de ser apenas um clube de emergentes. Em
Nova Delhi, se apresentou como laboratório do multilateralismo que vem aí.
Fonte:
Por Marco Fernandes, em Opera Mundi/Diálogos do Sul Global

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