Se
o seu candidato só fala em matar e punir, então já falhou em cuidar de crianças
e adolescentes
Rute
Fiúza diz que costuma fazer uma mesma pergunta quando participa de rodas de
conversa com adolescentes, uma parte de sua rotina como ativista de direitos
humanos e integrante do Movimento Independente Mães de Maio nos últimos 12
anos: já se inscreveu no Enem?
Em um
dos mais recentes desses encontros, em um quilombo em Lauro Freitas (BA), na
região metropolitana de Salvador, se entristeceu, no entanto, com a resposta.
“Todas elas eram meninas de 17 e 18 anos que acabaram agora o ensino médio. E
elas me disseram: ‘Para quê? Tem um monte de gente aqui no quilombo com
faculdade e desempregada'”, conta.
Assim
como a pergunta, tem sido comum, segundo Rute, perceber os mais jovens
desanimados, principalmente nas periferias e em comunidades tradicionais. “Tem
a música que fala que os sonhos não envelhecem, mas tenho a sensação de que a
juventude não tem mais sonhos.”
Ela
atribui o desânimo, contudo, não a eles próprios, mas à falta de amparo do
Estado e de boas influências. “Acho que faltam políticas públicas para essa
juventude”, diz Rute.
A falta
de atenção com crianças e adolescentes também parece evidente, segundo ela, nas
eleições gerais de 2026, em que a segurança pública é colocada como prioridade
em pesquisas de opinião. Quando os mais jovens são lembrados nesse debate,
invariavelmente é para sustentar propostas que punem, como a de redução da
maioridade penal, em vez das que protegem e promovem direitos.
Mas
como falar de segurança sem dar absoluta prioridade para crianças e
adolescentes, como determina a Constituição Federal? Quais políticas deveriam
estar na agenda eleitoral para tornar segura e plena de direitos a vida de quem
vai às urnas pela primeira vez ou ainda sequer tem direito ao voto?
É o que
a Ponte discute nesta reportagem, a sexta e última da série especial Ponte nas
Eleições, que debate a segurança pública como a pauta central da disputa
eleitoral deste ano.
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Brasil tem piora de diferentes violências contra crianças e adolescentes
Nos
últimos anos, o Brasil tem tido aumentos expressivos de diferentes formas de
violência contra crianças e adolescentes. Em 2025, foram mais de 60 mil casos
de maus-tratos e de lesão corporal em contexto de violência doméstica contra os
mais jovens, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Em
relação a 2021, o número de casos de lesão corporal contra pessoas de até 17
anos subiu 15%. Já os episódios de maus-tratos contra esse grupo mais do que
dobraram (+106,1%), conforme consta na edição mais recente do Anuário
Brasileiro da Segurança Pública, consolidado pelo FBSP.
Os mais
jovens são ainda os alvos mais frequentes de violência sexual no país. Se
somados os casos de estupro e estupro de vulnerável do ano passado, cerca de
três em cada quatro vítimas tinham até 17 anos (76,6%). Ao todo, 61.076
crianças e adolescentes sofreram esses crimes, fortemente associados, segundo o
FBSP, ao ambiente doméstico e a agressores próximos às vítimas.
Em
2025, houve piora de outras modalidades de violência sexual contra os mais
vulneráveis, como casos de produção, posse ou distribuição de material de abuso
sexual infantil (+25,3%), de aliciamento de crianças para fins libidinosos
(+12,4%) e de exploração sexual (+14,3%).
Já o
número de mortes violentas intencionais (MVI) contra crianças e adolescentes
caiu no ano passado na comparação com 2024 (-10,8%). Ainda assim, foram 2.079
vidas perdidas precocemente. Além disso, no ano anterior, a quantidade de MVI
contra esse grupo chegou a crescer, na contramão de uma prolongada tendência de
queda da violência letal contra a população em geral.
Os
dados mais recentes do Anuário reforçam ainda um panorama já histórico: as
principais vítimas dessa violência letal são jovens negros. Em 2025, quase nove
em cada dez vítimas de até 17 anos eram adolescentes (88,5%), em casos
majoritariamente associados à violência urbana. Entre eles, 90,9% eram do sexo
masculino e 86,3% eram de pele preta ou parda.
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Impunidade acompanha letalidade dos mais jovens na Bahia
Em
2025, a pior taxa de MVI contra os mais jovens no país foi registrada na Bahia
(com 11,3 casos para cada 100 mil crianças e adolescentes). É o estado em que
Rute testemunha mais de perto uma juventude desamparada e também onde perdeu o
único filho, Davi Fiúza, de apenas 16 anos, em 2014.
Em 24
de outubro daquele ano, Davi foi sequestrado no bairro de São Cristóvão, na
periferia de Salvador, por 23 policiais militares, entre os quais 19 haviam
recém-ingressado na corporação. A captura do jovem foi tida como a conclusão de
um curso de formação deles, uma espécie de “batismo”, ao atribuírem
erroneamente à vítima a identidade de um outro adolescente supostamente ligado
a criminosos da região.
Levado
com pés e mãos amarrados, Davi foi torturado e morto, conforme concluiu a
Polícia Civil, que indiciou 17 dos agentes. O Ministério Público da Bahia
(MPBA) denunciou apenas sete deles, entendendo que não cometeram um homicídio,
mas somente os crimes de sequestro e cárcere privado. Em maio deste ano, a
Justiça concluiu as audiências de instrução do caso, sem decidir se os
policiais acusados deverão ser julgados ou não perante um júri popular.
Além de
não ver justiça mesmo passada mais de uma década, Rute não pôde velar o corpo
do filho, que não foi encontrado. De lá para cá, a mãe de Davi ainda viu a
Bahia se tornar o estado com o pior número de mortes decorrentes de intervenção
policial (MDIP) no país, o que mantém desde 2022.
“Acredito
que seja uma questão política voltada para o extermínio da raça preta, dos
pardos, das pessoas pobres. É uma questão também de território, de CEP”, diz
Rute, sobre a Bahia chegar a esse patamar.
“E
enquanto os algozes têm certeza da impunidade, eles não têm medo de cometer
violência. É muito difícil haver uma medida mais rígida contra policiais, como
serem afastados ou até exonerados. O Ministério Público em todo o Brasil é
muito moroso. Esperar três, quatro, cinco, dez anos para levar um caso a
julgamento? O Estado é blindado, é uma máquina mortífera.”
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Amapá mata juventude enquanto morte vira sinônimo de eficiência
Nos
últimos anos, a conduta das polícias, principalmente a militar, tem
impulsionado a violência letal contra os mais jovens. Em 2025, praticamente uma
de cada quatro mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes foi
cometida por ações policiais (23,1%).
Na
Bahia, a taxa de MDIP contra crianças e adolescentes chegou a 7,4 casos para
cada 100 mil habitantes em 2023, conforme mostrou o Panorama da violência letal
e sexual contra crianças e adolescentes no Brasil, um estudo produzido pelo
FBSP em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Naquele ano, a taxa de MDIP contra a população em geral ficou em 3,1 — ou seja,
menos da metade do que a letalidade policial contra os mais novos.
O
estudo também identificou que somente um estado teve taxa ainda pior que a
Bahia: o Amapá (10,9), que há sete anos consecutivos tem a polícia mais letal
do país em termos relativos à população, e não em números absolutos.
Para
chegar a isso, o estado tem contado com uma opinião pública que associa
letalidade policial a eficiência na segurança pública, segundo explica o
antropólogo Marcus Cardoso. Ele é professor da Universidade Federal do Amapá
(Unifap) e pesquisador da violência do Estado.
“O que
explica isso é um descontrole absoluto sobre o trabalho policial por parte dos
governos do estado e do Ministério Público. No caso do Ministério Público,
existe um alinhamento ideológico de segurança pública com o que essa polícia
expressa. E no caso dos políticos, é um impacto de votos, porque o lugar
simbólico da polícia no estado é de muito prestígio”, afirma.
“Se
você mapear as redes sociais após a notícia de alguma morte cometida por
policiais, vai ler comentários com a expressão ‘melhor polícia do Brasil’. É um
comentário recorrente no estado: a melhor polícia do Brasil. E por que é a
melhor? Porque mata muito e não morre.”
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Desumanização de vítimas é usada para justificar letalidade policial
Marcus
diz ainda que o prestígio de uma polícia cada vez mais letal é estimulado,
inclusive, junto a crianças e adolescentes. É comum ver aniversários infantis
no Amapá terem como tema o Batalhão de Operações Especiais (Bope), uma unidade
de elite da Polícia Militar local (PMAP). Em um estado empobrecido, com alguns
dos piores índices socioeconômicos do país, ingressar na PMAP, com concursos
públicos frequentes, é tido ainda como um dos poucos caminhos de ascensão
social.
A
reverência pela polícia no Amapá não é maculada, segundo o pesquisador, nem
mesmo quando as vítimas das forças estatais são crianças e adolescentes. Isso
porque, ainda para Marcus, as mortes são colocadas em um lugar de
desumanização, tidas como uma consequência natural do combate às facções
criminosas que surgiram no Sudeste e avançaram pela Amazônia Legal nos últimos
anos.
“Existe
um discurso corrente de que estamos em uma guerra. Eu tive uma professora que
chamava isso de ‘metáfora da guerra’. E o que vem junto dessa metáfora? Se
existe uma guerra, ações extraordinárias são necessárias, por isso a polícia
precisa ser mais truculenta, porque é guerra. É um discurso de medo, de um medo
que muitas vezes ultrapassa os dados concretos de violência. E isso é bom para
essa segurança pública, porque gera mais dinheiro, mais polícia. E é bom também
para os políticos”, diz ele.
“Da
perspectiva da população que adere ao discurso de guerra às drogas, não tem o
menor problema de haver criança morrendo, porque existe todo um processo de
desumanização. Esse individuo que é morto é tratado como um ser essencialmente
perigoso e mal. Então, se ele é essencialmente bandido, não importa se tem 35
ou 15 anos, essa pessoa tem que morrer, porque não é possível transformá-la.”
Para
além de justificar a morte, essa lógica de desumanização de crianças e
adolescentes é usada também para legitimar um modelo de segurança pública que
compreende um sistema prisional cada vez mais lotado e insalubre como outro
indicador de eficiência, segundo diz a pedagoga Alessandra Félix.
Para
ela, é daí que vem a discussão cíclica sobre reduzir a maioridade penal no
país, embora não haja qualquer evidência científica que vincule essa proposta à
melhora de indicadores criminais. “Essa pauta sempre ressurge nas eleições. E a
gente sabe que isso não passa de propaganda de populismo penal. Quando se trata
de juventude, parece muito mais fácil apreender um menino do que trabalhar a
cidadania dele. Então, esse debate sempre vem em um contexto de oportunismo”,
diz.
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Socioeducativo chega onde o Estado não leva políticas públicas
Em
agosto de 2025, o Brasil tinha 12.203 adolescentes em cumprimento de medidas
socioeducativas, segundo um levantamento mais recente do Sistema Nacional de
Atendimento Socioeducativo (Sinase). O perfil mais comum entre eles era
semelhante ao das vítimas recorrentes de violência letal: meninos (93,4%) e
negros (73,7%). Na maioria das vezes, foram apreendidos pelo cometimento de
atos infracionais para obtenção de renda, como os análogos a roubo (29,1%) e
tráfico de drogas (27,9%).
Segundo
Alessandra, a apreensão de adolescentes costuma ser tratada como sinônimo de
castigo, e não de reinserção social de uma pessoa em desenvolvimento. E as
famílias vivem a pena junto dos filhos. Ela própria sofreu isso ao ter o filho
apreendido no sistema socioeducativo do Ceará.
Desde
então, atua junto de outras mães pelo Coletivo Vozes, uma iniciativa
abolicionista em apoio umas às outras e a pessoas presas ou apreendidas. A
pedagoga também compartilha essa luta com movimentos sociais de outros estados
nordestinos, com realidades parecidas, que compõem o Fórum Popular de Segurança
Pública do Nordeste (FPSPNE).
“A
gente comunga de que, se os meninos erraram, eles têm que ser
responsabilizados, mas não punidos. Aqui no Ceará e em outros estados, a agenda
da tortura ainda é muito presente. Como se educa e se reinsere na sociedade um
adolescente que já foi cooptado pela violência?”, questiona.
“Os
meninos são apreendidos, vão para dentro de unidades, e quem passa por esses
espaços são as mães. Quando eles retornam, temos outra camada, que é
recebê-los, tentar dar uma base para que não reincidam, para que não sejam
cooptados novamente pela violência. E a família toda é afetada por isso, seja a
mãe, responsável por tudo, ou outras crianças pequenas da família.”
Alessandra
diz ainda que o discurso punitivista contra os mais jovens isenta o Estado de
suas próprias responsabilidades na formação de cada criança e adolescente que
acaba apreendido ou morto. “A gente só tem socioeducativo porque as políticas
de infância e adolescência falharam, e eu falo de políticas de educação,
esporte, lazer e cultura, que são ferramentas fantásticas de controle social e
humanização.”
“Eu
queria que as políticas públicas chegassem antes das balas e das algemas. E se
a gente combate as algemas, não precisamos nem chegar nas mortes”, afirma ainda
a pedagoga.
A
percepção dela vai ao encontro das conclusões de um estudo publicado com apoio
do Unicef em 2024 sobre mortes violentas de adolescentes ocorridas no estado de
São Paulo: 90% viviam em situação de pobreza, dois terços tinham abandonado a
escola e metade morreu menos de um ano depois de sair do sistema
socioeducativo. Ou seja, a morte foi o último estágio de uma série de violações
contra essas vítimas.
Uma
outra publicação do Unicef, deste último mês de agosto, mostrou ainda que,
entre os planos de governo dos presidenciáveis desta eleição, há mais propostas
sobre políticas de resposta do que prevenção contra as violências que atingem
crianças e adolescentes.
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Jovens propõem segurança baseada em garantia de direitos
Entre
quem é alvo dessa negligência do Estado, a discussão sobre segurança pública
deveria justamente inverter esse eixo: antes de sustentar uma guerra, falar em
garantia de direitos fundamentais.
É o que
dizem os ativistas Thaís Hellen, de 19 anos, e Renan Rosélio, 18, ambos
integrantes do Conselho Consultivo de Adolescentes e Jovens do Unicef. Os dois
contam ser de territórios em que a violência do próprio Estado condiciona o
debate sobre segurança pública: Thaís é indígena do povo Pitaguary, do Ceará, e
Renan é morador da periferia da zona sul da cidade de São Paulo.
“Quando
você é indígena, ou negro, quilombola, o tema da segurança nunca sai de linha.
Só que, em época de eleição, ela é usada como porta de entrada nos territórios
pelos políticos. E eles usam isso porque é o ponto mais sensível para crianças
e adolescentes, para mulheres indígenas, quilombolas, negras. É o ponto mais
sensível porque a gente está nas margens da violência. A gente está em
territórios perigosos, em que as políticas públicas não chegam”, diz Thaís.
“Eu sou
um exemplo disso. A minha mãe, por ser ativista climática, do direito das
mulheres, uma liderança do território em que moro, foi muito ameaçada,
perseguida, teve que sair do país para não ser morta. E isso me afetou também
na infância”, conta ainda a jovem, que é estudante de Direito, articuladora da
Coordenação dos Jovens Indígenas do Estado do Ceará (Cojice) e também ativista
por justiça climática.
“Aqui
no Jardim São Luís, nós temos o cemitério com mais jovens enterrados na América
do Sul. É um país que nasce na cultura da violência. A nossa república foi
fundada nisso”, afirma Renan, que, além de ser educador popular, atua como
vice-secretário do Instituto Pedro Macambira e diretor cultural da Casa dos
Meninos, organizações comunitárias da região em que vive.
“E a
violência está presente desde o momento em que seu pai e sua mãe pedem a você,
por ser uma pessoa preta, para andar com o RG no bolso, a decorar o CPF. É uma
questão estrutural”, diz o jovem.
Para os
dois, uma segurança pública de fato preocupada com crianças e adolescentes
passa longe do modelo já exaurido de ter mais cadeias e mortes. “O que traria
segurança para a gente seria realmente garantir os nossos direitos básicos,
porque, quando a gente fala de segurança, a gente fala de segurança alimentar,
de saúde mental, educação e violências físicas também”, diz Thaís.
“Tentando
idealizar para o meu território, o que seria segurança? Seria ter o poste com
luz de madrugada, de noite. Isso seria segurança. Segurança para mim seria ter,
de fato, educação de qualidade, os alunos terem o acompanhamento de um
psicólogo na escola, ter a carteira de vacinação em dia, termos os nossos
remédios dentro das UBSs”, acrescenta Renan.
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Não aceitação da violência e incentivo à educação são prioridades
Alessandra,
do Coletivo Vozes, concorda com os dois: “Para nós, segurança pública é uma
praça iluminada, é saneamento básico, é ter crianças brincando na rua. Nunca
foi sobre polícia, sobre armas. Para nós, é uma outra perspectiva, é,
inclusive, ver os meninos transitando na cidade, podendo ir e retornar sem que
a gente tenha medo de que a polícia aborde de alguma forma violenta.”
Ela diz
também que candidatos que, de fato, priorizem os mais jovens devem trabalhar
por políticas de promoção do bem-viver, com especial atenção aos egressos do
sistema socioeducativo. “Se a gente pega esse menino e dá direções para ele, dá
perpectivas, a gente tem uma outra rota para a vida dele”, diz.
Já
Marcus, da Unifap, diz que o debate eleitoral deveria ter como premissa a não
aceitação de mortes violentas de crianças e adolescentes em hipótese alguma,
embora não acredite que candidatos, mesmo os que se dizem progressistas,
assumirão publicamente esse compromisso no Amapá.
“A
letalidade não é eficácia na segurança pública, é justamente um indicativo de
fracasso”, diz. “E a gente tem que desconstruir essa metáfora de guerra, tirar
essa palavra ‘guerra’ do discurso.”
Renan e
Thaís, por sua vez, dizem que a agenda eleitoral deveria ter uma outra
prioridade: a educação. “Acho que conhecimento é poder. E se a gente consegue
ter uma educação de qualidade, com conteúdo de qualidade para as pessoas, a
gente consegue mudar as coisas e a segurança também”, diz o jovem.
“Também
acredito que o ponto principal seria a educação. Mas não uma educação medíocre,
usada como moeda de troca em eleição. Seria uma educação realmente
diferenciada, como nas nossas escolas indígenas, que traga educação financeira,
educação política, o aprofundamento da sociologia, da filosofia e da história,
o que há muito tempo vem sendo tirado”, diz Thaís.
“E essa
educação tem que chegar para as pessoas que estão em vulnerabilidade social. Às
vezes [as pessoas] até perdem a esperança. Eu já ouvi falarem: ‘Ah, mas os
adolescentes de tal lugar não querem saber de nada’. Mas será que a informação
chegou a eles? Será que já não estão tão desacreditados do poder público que já
não querem mais?”, questiona ainda a ativista indígena.
Assim
como os dois jovens, Rute concorda que a educação deveria ser a prioridade. “O
Enem é muito válido, mas existe uma nota de corte que impede alguns jovens de
acessarem a universidade. Acho que isso poderia ser revisto, entender a
localidade em que aquela pessoa mora, dar um incentivo financeiro para estudar,
ajudá-la a ter um emprego na própria universidade”, argumenta.
A mãe
de Davi diz ainda que o incentivo deve vir não só do Estado, mas de cada um.
Por conta disso, ela própria pretende se inscrever na próxima edição do Enem.
“Quem faz por nós somos nós mesmos, porque, se a gente for depender da
branquitude, não vai haver nada”, diz.
“Quero
estudar história ou filosofia. É aquela coisa de querer se reencontrar. E eu
acho que o exemplo vale mais do que a palavra. Eu quero poder voltar [no
quilombo em Lauro Freitas] e dizer: ‘Ano passado eu estive aqui e falei do
Enem, e agora estou lá na universidade. Cadê vocês? Vamos, vamos!’. A gente
precisa disso, de exemplos.”
Fonte:
Por Paulo Batistella, da Ponte Jornalismo

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