Marcelo
Zero: Lula x Trump - É a geopolítica, estúpido!
Flávio
Bolsonaro é apenas um proxy do seu pai, Jair Bolsonaro. Tivesse outra
ascendência e sobrenome, não seria candidato nem a síndico de barracos
controlados pela milícia do Rio de Janeiro. Na Kopenhagen, não passaria de
vendedor. Esse sujeito, devido às suas conhecidas (des) qualificações
intelectuais, éticas e políticas, não tem a menor condição de ser presidente do
Brasil.
Sua
eventual vitória significaria, portanto, a volta ao poder de Jair Bolsonaro, um
condenado por tentativa de golpe de Estado, um admirador de ditaduras, um
aliado das milícias e o grande responsável pela morte de 700 mil brasileiros na
pandemia. Significaria eleger, de novo, o pior presidente da história do país.
Jair só
se destacou, na política nacional, a partir do lavajatismo e da onda da
antipolítica, do antipetismo e do antiesquerdismo que tomou de roldão o país
depois do golpe contra a presidente Dilma, com o apoio da extrema-direita dos
EUA. Não fosse isso, seu brilho opaco teria ficado restrito, ad aeternum, aos
meandros corruptos do baixo clero do Congresso e às ligações perigosas com as
milícias do Rio de Janeiro. Essa é a sua real dimensão. A dimensão do mau
militar, como definida por Geisel, e a envergadura nanica do pior tipo possível
de político.
Mas
Jair, por sua vez, é apenas, nas atuais circunstâncias, um proxy de Trump.
Temos, assim, dois proxies do real candidato ao poder no Brasil: Donald Trump.
Candidato a imperador, diga-se. E a um imperador draconiano, à moda antiga, bem
longe da moderação de um Pedro II, por exemplo. Está mais próximo de figuras
como Nero ou Calígula, que deixaram marcas indeléveis na história da infâmia
mundial.
As
revelações, trazidas ao público recentemente, sobre as exigências que Trump
apresentou ao governo brasileiro, em outubro de 2025, para negociar o
abrandamento das tarifas políticas impostas injustamente ao país, por sugestão
do clã Bolsonaro, mostram a extensão e a profundidade da agenda de vassalagem
que o candidato a Imperador do Brasil pretende impor ao país.
Destacamos,
na tabela a seguir, as principais.
1. O
Brasil compromete-se a não adotar nem manter quaisquer restrições à importação
de bens remanufaturados.”
É uma
demanda simplesmente inacreditável. A norma brasileira, em conformidade com as
regras da OMC, proíbe a importação de bens remanufaturados para bens de
consumo. Permite apenas, em certas condições, a importação de bens de capital
remanufaturados. Saliente-se que cerca de 25% da produção de bens
remanufaturados dos EUA vai para o exterior, principalmente para o Canadá e o
México, em razão do USMCA (o acordo de livre comércio da América do Norte).
Entre
esses bens, destacam-se as autopeças, bens eletrônicos, maquinárias pesadas
etc. Obviamente, a abertura do mercado brasileiro para esses bens
remanufaturados dos EUA (mais baratos) poderia causar um dano extenso à
indústria brasileira.
2. O
Brasil deverá eliminar as tarifas sobre etanol, produtos químicos, máquinas,
produtos automotivos e bens de alta tecnologia dos EUA.
Trata-se
de outra exigência dos EUA que, se atendida, causaria forte dano econômico à
indústria brasileira e setores importantes da agroindústria, como o do etanol.
Saliente-se que, no documento que veio a público, os EUA não se comprometem, em
nenhum momento, com o princípio da reciprocidade. Apenas prometem reduzir as
sobretarifas em produtos brasileiros a serem especificados.
Os
Estados Unidos e o Brasil concordam que os impostos sobre serviços digitais são
contraproducentes para o potencial transformador do comércio digital, no
aprofundamento da cooperação econômica, no aumento da competitividade e na
promoção do crescimento econômico em ambas as economias. O Brasil deverá
abster-se de impor impostos sobre serviços digitais, ou impostos semelhantes,
que discriminem empresas dos EUA. O Brasil deverá comprometer-se a reconhecer
os Estados Unidos como um país ou jurisdição que proporciona proteção adequada
de dados nos termos da legislação brasileira.
Ora, as
regras brasileiras impõem impostos sobre o chamado e-commerce de bens e também
sobre serviços digitais. No caso desses últimos itens, os impostos de
importação podem chegar a 50% do valor. Os EUA são muito competitivos na
exportação de serviços digitais, os quais respondem por cerca de US$ 700
bilhões das exportações estadunidenses. Obviamente, é do interesse das Big
Techs dos EUA que o Brasil abra completamente esse mercado.
3. O
Brasil deverá aderir ao princípio da neutralidade competitiva no que diz
respeito ao papel do banco central tanto como regulador e supervisor dos
arranjos de pagamento quanto como operador do sistema de pagamentos doméstico.
Trata-se,
é claro, de uma cláusula anti-Pix. O Pix, como é amplamente sabido, desagrada
profundamente as grandes companhias de cartões de crédito dos EUA e os sistemas
digitais de pagamentos estadunidenses, como o PayPal, por exemplo.
4. O
Brasil deverá abster-se de impor direitos aduaneiros sobre transmissões
eletrônicas, inclusive sobre conteúdo transmitido eletronicamente, e deverá
apoiar a adoção multilateral de uma moratória permanente sobre direitos
aduaneiros incidentes sobre transmissões eletrônicas na Organização Mundial do
Comércio, imediatamente e sem condições.
Trata-se
de exigência que vai na mesma direção da demanda 3, já comentada acima. Dessa
vez, no entanto, exige-se que o Brasil apoie os interesses específicos dos EUA
em âmbito multilateral (OMC). É uma demanda vergonhosamente cínica, pois os EUA
praticamente destruíram a OMC e as regras multilaterais do comércio.
5. O
Brasil deverá comprometer-se com uma eleição presidencial livre e justa em 2026
e não deverá deter, prender arbitrariamente ou de outra forma limitar a
participação no processo eleitoral de dissidentes políticos.
Trata-se
de uma exigência política destinada a atender aos interesses do clã Bolsonaro e
que representa forte afronta à soberania nacional e à justiça do Brasil. O
Brasil não tem dissidentes políticos. Tem criminosos que foram presos por terem
atentado contra as instituições democráticas do país. O clã Bolsonaro e seus
apoiadores continuam, no entanto, a demandar que Trump defina o que é justo ou
não em nosso próprio território.
6. O
Brasil não deverá, de forma extraterritorial, aplicar multas, impor
congelamentos de ativos, deter, prender ou de outra forma punir cidadãos dos
EUA, residentes legais dos EUA ou empresas dos EUA por condutas protegidas pela
Primeira Emenda da Constituição dos EUA.
Trata-se,
de novo, de exigência política com endereço certo: blindar, contra decisões
soberanas da justiça brasileira, membros do bolsonarismo que residem nos EUA e
que vivem atentando contra a soberania nacional. Pode chamar de cláusula
Eduardo Bolsonaro.
8. O
Brasil deverá informar aos Estados Unidos, antecipadamente, sobre potenciais
transferências de ativos antes de uma venda no setor de mineração/minerais
críticos e deverá proporcionar às empresas dos EUA a oportunidade de participar
de um processo de licitação justo antes da concessão de aprovação regulatória
brasileira.
Esta
exigência e a que se segue (9) têm por objetivos óbvios conceder aos EUA o
livre acesso aos minerais críticos e às terras raras brasileiras (o Brasil
possui as segundas maiores jazidas do mundo) e, ao mesmo tempo, impedir o
acesso de “entidades preocupantes” (leia-se: empresas chinesas, russas etc.) a
esses recursos estratégicos, vitais para a indústria do futuro. Observe-se que,
no Acordo Mercosul-UE, o Brasil se comprometeu a desenvolver uma parceria
tecnológica, nesse aspecto, com os países desse bloco. Ademais, de forma
soberana, o Brasil já desenvolveu uma política sobre minerais críticos e terras
raras, que coloca a ênfase adequada no processamento interno desses materiais e
na sua utilização para o desenvolvimento da indústria nacional.
9. O
Brasil deverá adotar medidas efetivas para limitar investimentos de entidades
estrangeiras consideradas preocupantes em seus setores de mineração e outros
setores industriais.
Vide
comentário anterior.
10. O
Brasil deverá comprometer-se a proporcionar aos provedores de serviços digitais
dos EUA aviso prévio adequado e oportunidade de comentar ou recorrer de
decisões, penalidades ou multas propostas ou definitivas relacionadas a
publicações em redes sociais, bem como desenvolver regras claras para remoção
de conteúdo e responsabilidade civil.
É uma
exigência que reforça a ideia absurda de que as normas da justiça dos EUA devem
prevalecer sobre as normas e as leis nacionais sobre a imprescindível regulação
das redes sociais.
11.
Companhias aéreas brasileiras comprometeram-se a adquirir aeronaves comerciais
fabricadas nos EUA, incluindo anúncios de intenção de comprar aeronaves Boeing.
Essa
exigência aplica-se tanto a jatos comerciais quanto a jatos executivos
fabricados pela Boeing. Trump e Bolsonaro querem que as companhias brasileiras
comprem apenas jatos da estadunidense Boeing, que anda em crise grave depois
dos desastres com a versão Max do Boeing 737 e os problemas recorrentes com o
atual péssimo controle da qualidade de seus produtos. No Brasil, apenas a Gol
usa mais os aviões da Boeing. A Latam usa preferencialmente aviões da Airbus. E
a Azul usa os Embraer para voos internos e os Airbus para voos de longo curso.
Obviamente, o governo brasileiro não pode obrigar suas empresas a adquirir os
aviões da Boeing.
12. O
Brasil alinhará suas normas às normas internacionais nos setores de modo a
facilitar o comércio e permitirá a entrada no Brasil, sem requisitos adicionais
de avaliação de conformidade, de bens dos EUA que cumpram as normas aplicáveis
dos EUA ou internacionais, os regulamentos técnicos dos EUA ou os procedimentos
de avaliação de conformidade dos EUA ou internacionais.
Mais
uma exigência descabida destinada a impor as normas técnicas, sanitárias e
fitossanitárias prevalentes nos EUA, em detrimento das regras que vigoram no
Brasil. Nosso país, desse modo, teria de aceitar os certificados emitidos nos
EUA sem submeter produtos e bens de origem estadunidense a um controle nacional
e soberano. Isso seria tornar letra morta a defesa técnica comercial do Brasil,
um perigo gravíssimo.
O
governo Lula, obviamente, rejeitou essas exigências dos EUA porque elas
atentavam, tanto no âmbito político como no econômico, contra a soberania
nacional. O governo Lula persistiu, frise-se, na defesa dos interesses
nacionais mesmo depois que algumas dessas exigências estapafúrdias foram
relativamente abrandadas.
Afinal,
não existe meia soberania. Ou se é soberano ou não se é. Não há dúvida
possível: Trump e Marco Rubio querem transformar o Brasil “na bola da vez”
geopolítica, com o prestimoso e sabujo auxílio do clã Bolsonaro e dos seus
aliados, espalhados pela mídia, por outros partidos e por setores de
oligarquias entreguistas e reacionárias.
Querem
transformar o Brasil em um estado vassalo, em uma espécie de protetorado. Eles
sabem que a submissão geopolítica do país é vital para que os EUA possam impor
a chamada Doutrina Donroe em todo o continente. Nosso país pesa muito nessa
estratégia neoimperial.
Até a
Abin já sabe que o imperador Trump está intervindo no processo eleitoral
brasileiro, com o intuito de beneficiar seus proxies, Jair e Flávio Bolsonaro.
Alguém
duvida?
Trump
tem à sua disposição, entre outros vastos recursos, a NSA, a CIA e as grandes
Big Techs. É um arsenal político e comunicacional de extremo poder, já testado
em inúmeras ocasiões pelo mundo todo em “câmbios de regimes”.
Será
que a recente virada política da América do Sul praticamente toda para o campo
da direita e da vassalagem geopolítica se deu de maneira realmente espontânea?
Ocorreu somente devido a fatores internos?
Será
que a crise do nosso Supremo, tão oportuna para certos interesses eleitorais,
ocorreu de forma automática e natural, como fungos que crescem depois da chuva?
Será
que a decisão de trazer sofisticados drones de ataque para a América do Sul
destina-se somente à cândida intenção de combater “criminosos”?
Todo o
mundo possui o direito de acreditar no que quiser, mas ninguém tem o direito,
em um momento crucial como este, de ser estúpido ou ingênuo.
Nem na
Groenlândia há mais esse direito. Todos têm o dever de proteger o Brasil, sua
soberania, sua democracia e seu povo.
Às
vezes não é a economia, ou a percepção da economia, ou a comunicação falha ou a
suposta falta de propostas.
O
buraco pode ser mais embaixo. É a geopolítica, estúpido!
Fonte:
Brasil 247

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