Do
voto feminino à habitação popular: quem foi Carmen Portinho, pioneira do
feminismo no Brasil
Em
tempos de estupefatos olhares para a novidade da aviação, ela viu nos ares um
canal para propagandear o ideal do voto feminino. Foi uma das maneiras que a
engenheira Carmen Velasco Portinho (1903-2001), uma das pioneiras da luta
feminista no país e a primeira brasileira a obter o título de urbanista,
encontrou para divulgar a urgente pauta.
"Chegou
a sobrevoar o Rio soltando panfletos em defesa do sufrágio feminino, em uma
época em que nem avião decente existia", conta a historiadora Mary Del
Priore, autora do livro Sobreviventes e Guerreiras: Uma Breve História da
Mulher no Brasil de 1500 a 2000.
Portinho
viveu praticamente todo o século 20 e foi protagonista nas transformações
vividas no Brasil ao longo desse período.
Ao lado
de nomes como o da ativista, bióloga e educadora Bertha Lutz (1894-1976), ela
lutou pelo direito ao voto das mulheres no país.
Desde
cedo, Portinho defendeu a importância de que as carreiras profissionais das
mulheres fossem valorizadas. Como urbanista, passou a pensar a infraestrutura
da cidade sob uma perspectiva do cuidado, em uma visão muito mais realista
acerca dos desafios enfrentados pela mulher que precisava — e ainda precisa —
se desdobrar entre trabalho, responsabilidades como mãe e tarefas domésticas.
Seu
engajamento começou na adolescência. Nascida em Corumbá, hoje Mato Grosso do
Sul, ela se mudou com os pais e irmãos para o Rio em 1911, ainda criança. Na
então capital do país ela acabou se envolvendo com um ideário feminista
preocupado em conferir cidadania plena às mulheres — a prioridade da pauta era
o sufrágio, que só viria a ser conquistado pelas mulheres brasileiras em 1932.
Para a
a economista Regina Madalozzo, autora do livro Iguais e Diferentes - Uma
Jornada Pela Economia Feminista, a luta dessas pioneiras pelo voto hoje ainda é
pertinente quando se fala na necessidade de mais mulheres em cargos de decisão,
em espaços de poder.
Autora
do livro O Voto Feminino no Brasil e professora na Universidade de Brasília
(UnB), a historiadora Teresa Cristina de Novaes Marques situa Portinho entre as
figuras históricas "autênticas, que viveram de modo feminista e buscando
autonomia". "Fizeram política apoiando a democracia, votando sempre e
vivendo vidas autênticas e produtivas nos seus ofícios", comenta.
Sobretudo
nos anos 1920 e 1930, Portinho passou a incluir entre suas preocupações um
espectro de maior cidadania para as mulheres, com cobrança por igualdade de
direitos frente aos homens, acesso igualitário à educação e valorização do
trabalho fora do âmbito doméstico.
"Carmen
Portinho pertence à geração que fundou a cidadania política das mulheres no
Brasil", pontua a socióloga e cientista política Mayra Goulart, professora
na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). "A luta de Portinho e de
sua geração foi pela primeira grande estratégia, o direito de votar e ser
votada, conquistado em 1932. E ela esteve na linha de frente, ao lado de Bertha
Lutz."
"Mas
a grandeza dela está em não reduzir a pauta ao voto. Portinho é um símbolo
muito importante para o movimento feminista exatamente por que articulava três
das suas mais caras frentes: votar, estudar e trabalhar fora de casa em
igualdade com os homens", contextualiza Goulart.
"Para
ela, cidadania nunca foi depositar um voto na urna. Era ocupar plenamente a
vida pública, inclusive na dinâmica econômica."
Estudiosa
da obra de Portinho, a arquiteta e historiadora Flávia Brito do Nascimento,
autora de Entre a Estética e o Hábito: O Departamento de Habitação Popular (Rio
de Janeiro, 1946-1960), entre outros livros, lembra que Portinho foi
"protagonista no momento histórico da estruturação do feminismo no
Brasil".
"Juntas
[com Lutz] elas passam a organizar, com outras colegas, a perspectiva do
direito feminino, uma perspectiva que inicialmente se dava com foco no voto e
logo depois se expande para o direito ao trabalho e ao ensino superior",
salienta Nascimento.
Em
1925, Portinho se formou em engenharia na antiga Universidade do Brasil, hoje
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tornou-se uma minoria absoluta em um
mundo dominado por homens — foi a terceira mulher brasileira a se formar
engenheira.
Vista
como competente e talentosa, no ano seguinte ingressou no quadro de engenheiros
da Diretoria de Obras e Viação da prefeitura do Rio. Na mesma época, passou a
atuar como professora no tradicional Colégio Dom Pedro 2º — foi um escândalo
social, já que a escola era um internato masculino e o corpo docente era
completamente formado por homens.
No
exercício profissional, não era raro que fosse colocada à prova por puro
machismo. "Uma vez, desafiada, ela subiu em um telhado dizendo que era
sopa, só para confrontar um engenheiro [homem] que tinha desconfiança da
competência feminina para instalar um para-raios", relata Del Priore.
Pesquisadora
do feminismo, a comunicóloga Rosilene Marcelino, professora na Escola Superior
de Propaganda e Marketing (ESPM) diz que Portinho, com sua trajetória, se
tornou "inspiração às mulheres de sua época em termos de acesso a
profissões, defesa de direitos profissionais e busca pelo reconhecimento por
competências técnicas acima de qualquer questão de gênero".
<><>Feminismo
e urbanismo
Seu
primeiro casamento, no início dos anos 1930, foi com o irmão da amiga e
companheira de ativismo Bertha Lutz, o médico Gualter Adolpho Lutz (1903-1969).
O matrimônio durou pouco. Em um movimento ousado para a época, Portinho se
separou e passou a viver um novo relacionamento com o arquiteto Affonso Eduardo
Reidy (1909-1964) — no Brasil, a lei do divórcio só seria aprovada em 1977.
A esta
altura ela já era uma liderança feminista consolidada. Havia fundado, em 1922,
a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, com a amiga Bertha Lutz. Em
1930, criou a União Universitária Feminina, com o objetivo de fomentar a
inserção da mulher nas profissões liberais.
Em 1936
cursou a pós-graduação em urbanismo na então Universidade do Distrito Federal —
a especialização era requisito, à época, para o título de urbanista. "É o
título do qual ela mais tinha orgulho", ressalta Nascimento. "E ela
tem um papel superimportante, inclusive no processo de refletir sobre a
cidade."
"Sobre
o papel dela como urbanista, como primeira urbanista, demonstra como as
mulheres muitas vezes precisam criar o próprio modelo para conseguir ocupar
certos espaços", avalia a economista Madalozzo.
Para a
obtenção do título, ela apresentou um anteprojeto para a construção da futura
capital federal, Brasília. Para especialistas, esta foi a primeira proposta
para a cidade do Planalto Central com base em conceitos do urbanismo moderno.
Seu plano tinha formato de um transatlântico e previa uma metrópole de 2
milhões de pessoas. Quando, duas décadas mais tarde, houve um concurso público
para a escolha do projeto de Brasília, Portinho não participou.
Em
1937, Portinho criaria ainda a Associação Brasileira de Engenheiras e
Arquitetas, um caso raro de representatividade de gênero no âmbito
profissional.
Mas uma
bolsa do Conselho Britânico contribuiria para sedimentar sua visão sobre o
impacto do urbanismo no dia a dia. Graças ao programa, em 1945 ela passou uma
temporada na Europa onde acompanhou e estagiou junto a equipes de construção
civil que recuperavam e remodelavam cidades destroçadas pela Segunda Guerra.
<><>
Moradia popular
Voltou
ao Brasil imbuída de ideias. Passou a acreditar no urbanismo e na arquitetura
como instrumentos de transformação social. Criou e foi a primeira diretora do
Departamento de Habitação Popular da Prefeitura do Distrito Federal e colaborou
diretamente com o arquiteto Reidy, seu companheiro de vida, no projeto de
construção do Conjunto Habitacional Prefeito Mendes de Morais - Pedregulho. A
ideia do complexo de moradia popular foi dela, aliás.
Coordenadora
na escola Panamericana ESPM de arte e design, a arquiteta Beth Ferraz acredita
que a extraordinariedade de Portinho é "subdimensionada" pela
história brasileira. "Ela redefiniu a função social do espaço urbano,
ligando diretamente o planejamento das cidades à emancipação humana",
define, destacando a "invenção da habitação social de interesse
humano".
Segundo
Ferraz, antes de Portinho, habitação popular no Brasil era vista como
"casa barata". "Ela mudou o paradigma, defendendo que o
trabalhador merecia arquitetura moderna, de alta qualidade técnica e com
integração social", explica.
Professor
na Universidade de São Paulo (USP), o arquiteto Lucio Gomes Machado vê o
"programa de Pedregulho" como consequência direta da temporada
inglesa. "O governo trabalhista (britânico) do pós-guerra implantou um
enorme projeto de reconstrução, com conceitos de arquitetura e urbanismo,
pensando conjuntamente os edifícios e demais funções a serem atendidas",
analisa.
"Portinho
foi uma das responsáveis pela introdução do conceito de habitação popular no
Brasil. Isso é sensacional", afirma a historiadora Del Priore.
Nascimento
destaca que o Pedregulho se tornou "um dos conjuntos residenciais
populares mais importantes da história do Brasil", não só pelo conceito
mas pela proposta de "sociabilidade" advinda do urbanismo. O projeto
trazia seus princípios para conjuntos populares. "Um local onde haveria
escola, posto de saúde, um conjunto de serviços num espaço único", explica
ela.
Para
Ferraz a concepção de Portinho indica um "urbanismo feminino".
"As cidades tendem a serem planejadas a partir da rotina do 'homem
provedor', com os trajetos pendulares trabalho-casa. Ela começou a desenhar o
espaço pensando na economia do cuidado, de quem precisa trabalhar mas também
cuidar dos filhos, da roupa, da comida. Era uma visão muito avançada",
comenta.
"Ela
foi muito lembrada por isso [pelo papel como urbanista]", diz Marques.
"O pós-Guerra foi uma época de arrojo e de crença no futuro do país. Muita
gente se apresentou como reformador de cidades e de espaços de morar.
Destacar-se nesse ambiente competitivo e machista não há de ter sido fácil.
Ponto para a Carmen."
"Engenharia
e urbanismo eram profissões técnicas e científicas, o coração daquilo que a
sociedade da época reservava aos homens", explica Goulart. "Ao se
formar engenheira e depois se tornar a primeira urbanista, Portinho rompeu
frontalmente com a divisão sexual do trabalho que confinava a mulher ao espaço
doméstico."
Segundo
a arquiteta e urbanista Pérola Felipette Brocaneli, professora da Universidad
Científica del Sur, de Lima, no Peru, o conjunto Pedregulho comprovou a
"competência e destreza profissional" de Portinho.
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Valorização da mulher
"Seu
trabalho e representação feminina foram pioneiros na valorização da mulher em
profissões técnicas. Foi uma desbravadora, abrindo caminho para outras
profissionais", salienta Brocaneli.
A
professora Goulart ainda acrescenta que urbanismo é "poder sobre o
espaço", é "decidir como as pessoas vão morar, circular e
viver". "E Portinho não ocupou esse lugar apenas para provar que uma
mulher era capaz; ela usou esse poder com um projeto social, à frente do
Departamento de Habitação Popular, em obras como o Pedregulho, aqui no
Rio", diz Goulart. "Não à toa enfrentou o machismo dos colegas o
tempo todo."
"A
habitação popular que Portinho ajudou a inventar não é patrimônio do passado, é
agenda de futuro", acrescenta Goulart.
Sua
carreira no funcionalismo público municipal foi abreviada em 1962. Por
divergências políticas com o comando da prefeitura do Rio, ela decidiu
antecipar sua aposentadoria.
Portinho
ainda seria a responsável pela construção do Museu de Arte Moderna do Rio de
Janeiro, projeto de Reidy, e diretora da Escola Superior de Desenho Industrial,
primeira escola de design da América Latina. Foram 20 anos à frente da
instituição.
"Ela
foi pioneira tanto do ponto de vista da produção quanto da aplicação do
conhecimento", enaltece o arquiteto e urbanista Valter Caldana, professor
na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
"Vejo
nela a militância completa: alguém que fez com sua atuação profissional e
técnica, a partir da compreensão de seu momento histórico, uma opção clara pela
cidadania plena", afirma Caldana.
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Legado
Coautora
do Dicionário Mulheres do Brasil, a ativista feminista Schuma Schumaher escreve
que "o legado de Carmen Portinho não se restringe à engenharia e à
arquitetura, alcançando também a educação e defesa dos direitos das
mulheres".
"Carmen
Portinho não apenas pavimentou o caminho para futuras gerações de mulheres
engenheiras e arquitetas, mas também deixou um legado duradouro de coragem,
inovação e luta pela igualdade", pontua a ativista.
"Hoje,
ao lembrar de sua vida e realizações, celebramos não apenas o impacto que ela
teve em sua profissão, mas também o espírito indomável que inspirou e
continuará a inspirar todos aquelas/es que buscam um mundo mais justo e
igualitário."
Schumaher
recorda que, em 1987, conheceu Portinho pessoalmente "durante o processo
de feitura da nova Constituição Brasileira". Na época, a urbanista foi uma
das convidadas a entregar a Carta das Mulheres aos Constituintes, um documento
com propostas para a Carta Magna de 1988.
"Ela,
apesar da idade, sabia que estava ali representando tantas outras sufragistas,
no processo de conquista dos nossos direitos", destaca.
Em
2022, Carmen Portinho foi declarada oficialmente patrona do urbanismo no
Brasil.
Fonte:
BBC News Brasil

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