A
“onda cinzenta” na América Latina
Esta
análise parte de uma mudança dos rumos políticos da América Latina nos últimos
anos, tanto em função das ingerências do imperialismo na região, comandadas por
Donald Trump, como também em função das eleições de diversos governos afinados
ideologicamente com o neofascismo.
Em 3 de
janeiro de 2026, Nicolás Maduro, presidente venezuelano, foi sequestrado em
Caracas pelas forças militares estadunidenses e levado para Nova Iorque para
ser julgado pelos tribunais daquele país sob a acusação falaciosa de associação
com o narcotráfico. Na verdade, seu governo representava um obstáculo para a
pilhagem imperialista do petróleo da Venezuela.
Por
outro lado, diante da forma como tudo isso ocorreu, chama a atenção a
incapacidade de resistência política e militar das forças bolivarianas àquela
ação. Em decorrência, sob a presidência interina de Delcy Rodríguez, parece que
o saque ocorrerá sem grandes resistências internas, pelo menos por enquanto,
como se pode notar no acordo anunciado recentemente com Trump, no qual a
Venezuela fornecerá mais de 65 bilhões de barris aos EUA. Diferentemente do que
ocorreu com o Irã, a maior potência militar do mundo tornou o país caribenho
seu refém.
Dias
após o sequestro de Nicolás Maduro, Donald Trump passou a ameaçar Cuba: ou a
Ilha faz um acordo com os EUA ou não haverá mais petróleo e dinheiro. A
desfaçatez chegou ao ponto de ele compartilhar, em sua rede social, a ideia de
que Marco Rubio, seu secretário de Estado, será o próximo presidente de Cuba.
Miguel Díaz-Canel, presidente do país, rebateu essas declarações afirmando que
“Cuba é uma nação livre, independente e soberana. Ninguém dita o que fazemos.
Cuba não ataca; ela é atacada pelos EUA há 66 anos, e não ameaça; ela se
prepara, pronta para defender a pátria até a última gota de sangue”.
O
bloqueio a Cuba nunca lhe permitiu vida fácil, mas se agravou brutalmente a
partir do segundo mandato de Donald Trump. O país sofre com a falta de
medicamentos, combustíveis, alimentos e com apagões que duram em torno de 20
horas por dia. A falta de energia compromete desde o abastecimento de água, o
transporte, a conservação de alimentos até a realização de cirurgias
emergenciais ou eletivas.
Uma
eventual invasão imperialista provavelmente resultaria em um banho de sangue
sem precedentes na América Latina. Se ocorresse, esta não seria a primeira vez
que Cuba sofreria um ataque direto dos EUA. Basta lembrar a fracassada invasão
da Baía dos Porcos (Playa Girón), em 17 de abril de 1964. Com apoio de 1.200
mercenários treinados pela CIA, o objetivo era estimular uma revolta popular e
derrubar Fidel Castro. O plano fracassou rotundamente, deixando 100 mortos e
1.100 capturados pelo Exército cubano.
Se a
história se repete a primeira vez como farsa e a segunda como tragédia, como
disse Karl Marx, foi um presidente republicano, Dwight D. Eisenhower, em 1960,
que ordenou que a CIA treinasse e armasse aqueles mercenários. Já a invasão
propriamente dita se deu sob a presidência de um democrata, John F. Kennedy,
quando assumiu a Casa Branca, em 1961. A tragédia agora está nas mãos de Donald
Trump.
Nosso
objetivo não é discutir o conceito de imperialismo, mas somos tributários da
definição dada por Nicos Poulantzas, apoiado em Vladimir Lênin, de pensá-lo
como uma corrente constituída por elos fortes e fracos. Ou seja, se o seu elo
mais forte são os EUA, Venezuela e Cuba são os elos fracos que estavam se
desprendendo dele. Então, não se trata de perguntar que ameaça Cuba representa
para a segurança dos EUA.
A
questão é a intolerância a governos que, em algum grau, não se rendem pura e
simplesmente aos interesses do imperialismo; que oferecem resistências a
transformar seus países em protetorados estadunidenses. O sequestro de Maduro e
as ameaças a Cuba são o recado direto para os demais elos, como o Brasil e
México, que representam, grosso modo, tinturas progressistas e não bajulam o
trumpismo.
No
mesmo sentido, quando olhamos para a história recente da Bolívia, Peru e
Colômbia, só pelo fato de seus governos não aceitarem cabisbaixos as imposições
imperialistas e o neoliberalismo, eles foram derrubados por golpes de Estado
brandos (Evo Morales e Pedro Castillo) e/ou tiveram eleições suspeitas de
manipulação que deram vitória para a extrema-direita (Keiko Fujimori, Peru;
Abelardo de la Espriella, Colômbia).
Há mais
de 20 anos, a América Latina parecia sair do purgatório neoliberal com a posse
de governos progressistas sufragados pelo voto: Chávez (Venezuela), em 1999;
Jean-Bertrand Aristide (Haiti), em 2001; Lula da Silva (Brasil), em 2003;
Néstor Kirchner (Argentina), em 2003; Tabaré Vázquez (Uruguai), em 2005; Evo
Morales (Bolívia), em 2006; Manuel Zelaya (Honduras), em 2006; Cristina
Kirchner (Argentina), em 2007; Rafael Correa (Equador), em 2007; Daniel Ortega
(Nicarágua), em 2007; Fernando Lugo (Paraguai), em 2008; Mauricio Funes (El
Salvador), em 2009; Pepe Mujica (Uruguai), em 2010; Dilma Rousseff (Brasil), em
2011; Tabaré Vázquez (Uruguai), em 2015.
Esse
período ficou conhecido como a 1ª. “onda rosa”, pois, depois da deposição e/ou
condenação de diversos presidentes por meio de práticas de lawfare, mais ou
menos entre 2015/16 até 2020, somado ao avanço do neofascismo na região,
presenciamos um segundo momento de ascensão de governos progressistas (2ª.
“onda rosa”): alguns permaneceram desde a primeira (Daniel Ortega, Hugo Chávez
e Nicolás Maduro), enquanto outros entraram em cena: López Obrador (México), em
2018; Alberto Fernandez (Argentina), em 2019; Luis Arce (Bolívia), em 2020;
Pedro Castillo (Peru), em 2021; Xiomara Castro (Honduras), em 2022; Gabriel
Boric (Chile), em 2022; Gustavo Petro (Colômbia), em 2022; Lula da Silva
(Brasil), em 2023; Bernardo Arévalo (Guatemala), em 2024; Claudia Sheinbaum
(México), em 2024.
Em
relação aos golpes, tentativas de golpe e perseguição política de lideranças
latino-americanas, sob o artifício jurídico do lawfare, o quadro é o seguinte:
em 2009, Zelaya sofreu um golpe de Estado; em 2012, foi a vez de Lugo; em 2016,
Dilma Rousseff foi derrubada; em 2018, Lula foi condenado e preso; em 2019, Evo
Morales sofreu um golpe, foi condenado e exilado (México e Argentina); em 2020,
Rafael Correa foi condenado e encontra-se exilado (Bélgica); em 2022, Cristina
Kirchner foi condenada e cumpre prisão domiciliar desde 2025; também em 2022,
Pedro Castillo sofreu um golpe de Estado e permanece preso até hoje; em 2023.
Recém-eleito
para o terceiro mandato, Lula sofreu uma tentativa de golpe de Estado, em 8 de
janeiro, protagonizado pelo movimento bolsonarista, que, na época, não teve
apoio dos EUA. Se naquele momento o presidente do país fosse Donald Trump, é
muito provável que os militares brasileiros se sentiriam autorizados a
derrubá-lo. A permissividade dos generais com os acampamentos bolsonaristas em
frente aos quartéis era um sinal do alinhamento ideológico com a pauta
golpista, porém, Joe Biden não embarcou na aventura.
Esses
processos nos revelam que as democracias latino-americanas são deterioradas,
limitadas e instáveis, quando comparadas às dos países capitalistas avançados.
Ao mesmo tempo, precisamos levar em consideração que elas são tuteladas pelas
Forças Armadas da região, sempre serviçais aos interesses imperialistas. O
Brasil é rico em exemplos de tutela, como se observa nos tuítes do então
comandante do Exército, general Villas Bôas, ameaçadores ao STF, às vésperas da
votação do pedido de habeas corpus da defesa de Lula, em abril de 2018:
1.
“Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de
todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição”;
2.
“Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo
quem realmente está pensando no bem do País e das gerações futuras e quem está
preocupado apenas com interesses pessoais”. O pedido foi recusado por 6 votos a
5.
Outro
episódio de servilismo ocorreu no início de agosto de 2026: José Múcio
Monteiro, ministro da Defesa, afirmou que o Brasil não teria condições de
enfrentar militarmente os EUA em um cenário de invasão, restando-lhe a opção de
“abrir o portão” para aquele país. Por trás do tom jocoso, está a submissão da
caserna ao imperialismo.
Algo
que setores da esquerda e alas progressistas esquecem é que em países
capitalistas dependentes, como os nossos, as democracias são instáveis, sem
chances de consolidação. Numa conjuntura de avanço do neofascismo, governos
progressistas da primeira e da segunda “onda rosa” foram derrotados
eleitoralmente, em muitos casos com denúncias de fraudes e interferências do
imperialismo.
Entre
os países mais importantes da América Latina, permanecem na “onda rosa” o
Brasil, México, Nicarágua e Uruguai. Os demais estão emergindo numa “onda
cinzenta”, expressão do alinhamento ideológico com o imperialismo: em El
Salvador, Sánchez Cerén (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional) perdeu
a eleição para Nayib Bukele (Novas Ideias); na Argentina, Alberto Fernández
(peronista) foi substituído por Javier Milei (A Liberdade Avança); na Bolívia,
Luis Arce (MAS – Movimento ao Socialismo) foi substituído por Rodrigo Paz
(Partido Democrata Cristão); no Chile, Gabriel Boric (Convergência Social) por
José Antonio Kast (pinochetista); na Colômbia, Gustavo Petro (Pacto Histórico)
por Abelardo de la Espriella (Defensores da Pátria), conhecido como o “Bukele
colombiano”; em Honduras, Xiomara Castro (Partido Liberdade e Refundação) por
Nasry Asfura (Partido Nacional de Honduras); e no Peru, Keiko Fujimori (Força
Popular) venceu a eleição para Roberto Sánchez (Juntos pelo Peru), mesmo
partido de Pedro Castillo.
O ponto
central dessa discussão é que a emersão dessa “onda cinzenta” da extrema
direita tem ocorrido pelas vias eleitorais, ou seja, os países que passaram por
ditaduras militares “transitaram” para a democracia sem a depuração de boa
parte dos elementos comprometidos com os regimes autoritários, proporcionando
que participem livremente das democracias. Embora esse avanço neofascista não
se dê, portanto, com tanques nas ruas, como ocorreu nos anos 1960/70, eles
jogam o jogo democrático até certo ponto:
Bukele,
por exemplo, eleito pela primeira vez em 2019, conseguiu modificar uma cláusula
constitucional que impedia a reeleição e passou a ter o direito de ser reeleito
indefinidamente; Donald Trump, alegando fraude nas eleições que deram vitória a
Joe Biden, insuflou, em 6 de janeiro de 2021, uma tentativa de golpe ao
estimular seus seguidores a invadirem o Capitólio; Jair Bolsonaro, também
alegando fraude eleitoral, estimulou, em 8 de janeiro de 2023, a sua militância
acampada em frente aos quartéis do Exército a promover um quebra-quebra em
Brasília com o objetivo de desestabilizar o governo Lula, recém-eleito, e de
criar as condições para um golpe de Estado.
Não há
nenhum constrangimento na extrema direita em se apresentar como “democrata”
para, em seguida, derrubar a própria democracia e, quiçá, instalar uma ditadura
neofascista. Como dizia Carl Schmitt, a ditadura é um método de educação da
vontade do povo, um dos instrumentos da democracia, portanto, o fascismo pode
ser antiliberal, mas não necessariamente antidemocrático. Então, todos os
neofascistas são formalmente “democratas”.
Esses
“democratas”, comandados por Donald Trump, estão tentando nos empurrar para o
abismo.
• ‘Fonte de inspiração’: prefeito de Nova
York elogia Lula em encontro nos EUA
O
prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, afirmou que o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) é uma “fonte de inspiração” durante encontro entre os dois
nesta segunda-feira (21), nos Estados Unidos. A reunião ocorreu na residência
do representante brasileiro na Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova
York, às vésperas da abertura da Assembleia Geral.
Mamdani
destacou a trajetória de Lula na defesa dos trabalhadores e das parcelas mais
pobres da população.
“Presidente,
muito obrigado. O senhor tem sido uma fonte de inspiração para todos nós.
Então, eu queria lhe agradecer muito por isso, por ter essa oportunidade”,
afirmou o prefeito.
O custo
de vida e a pobreza estiveram entre os principais assuntos da conversa. Lula
afirmou ter perguntado ao prefeito quais eram os principais problemas sociais
enfrentados por Nova York. Mamdani respondeu que o custo de vida é uma das
principais preocupações da cidade.
“Vivemos
na cidade mais cara dos Estados Unidos, a terceira cidade mais cara do mundo. E
um em cada quatro nova-iorquinos vive na pobreza”, afirmou Mamdani.
<><>
Lula fala sobre combate à pobreza
Lula,
por sua vez, destacou a juventude de Mamdani, de 34 anos, e afirmou que o
prefeito não deveria abandonar as propostas apresentadas durante a campanha que
o levou à prefeitura de Nova York.
O
presidente brasileiro relacionou os problemas apresentados por Mamdani às
desigualdades encontradas em outras grandes cidades e defendeu maior atenção
dos governos às populações mais pobres.
Durante
a declaração após o encontro, Lula também criticou o crescimento dos gastos
militares ao redor do mundo enquanto problemas como fome e falta de acesso à
educação permanecem.
“O
mundo está gastando trilhões e trilhões de dólares em armamento. A Europa
voltou a se armar. O Japão voltou a se armar. Todos os países estão investindo
em armas. E quase nada na educação. Quase nada para combater a fome. Quase nada
para ajudar os povos pobres”, afirmou.
Lula
disse ainda esperar que Mamdani mantenha o combate à pobreza entre suas
prioridades.
“Eu
espero que ele esteja preparado para se transformar em um grande soldado para
colocar um fim ou diminuir a pobreza e a invisibilidade que o povo pobre
sofre”, disse.
<><>
Fim da escala 6×1 entrou na conversa
Durante
a reunião, Lula compartilhou experiências brasileiras em políticas públicas de
inclusão social, governo digital, educação, habitação, alimentação escolar e
saúde, segundo nota da assessoria da Presidência. O presidente também mencionou
experiências de orçamento participativo adotadas por administrações municipais
do PT.
Mamdani,
por sua vez, destacou a criação de supermercados populares em Nova York.
Os dois
também conversaram sobre a proposta de redução da jornada de trabalho em
discussão no Congresso brasileiro, com o objetivo de acabar com a escala 6×1 e
garantir dois dias livres por semana aos trabalhadores, de acordo com a
assessoria.
Segundo
o relato da Presidência, Lula e Mamdani concordaram sobre a importância de
priorizar as populações vulneráveis na formulação de políticas públicas. Defesa
da democracia e enfrentamento ao extremismo e à desinformação também estiveram
entre os assuntos discutidos.
Mamdani
foi convidado para visitar o Brasil, mas uma data para a viagem ainda não foi
definida.
<><>
Lula e Mamdani trocam camisas
Ao fim
do encontro, os dois trocaram presentes. Lula entregou a Mamdani uma camisa do
Corinthians, enquanto o prefeito presenteou o presidente brasileiro com uma
camisa personalizada do Nova York FC produzida especialmente para a Copa do
Mundo.
A
reunião durou cerca de uma hora e ocorreu durante a passagem de Lula por Nova
York para participar da Assembleia Geral da ONU. O encontro havia sido
solicitado pelo próprio Mamdani.
Após o
encontro dos dois, o assessor de Lula para política externa, Celso Amorim,
disse que a conversa foi como um diálogo de pai para filho. “Uma pessoa jovem
governando uma das cidades mais importantes do mundo e dando a visão dele”,
definiu o ex-chanceler.
O
presidente brasileiro será o primeiro chefe de Estado a discursar no Debate
Geral da Assembleia da ONU nesta terça-feira (22). O Brasil abre
tradicionalmente a sequência de pronunciamentos desde 1955, seguido pelos
Estados Unidos.
A
passagem de Lula pelos Estados Unidos inclui ainda encontros com outras
lideranças. Nesta segunda, o presidente também recebeu o presidente do Uruguai,
Yamandú Orsi, e tem encontro previsto com o senador norte-americano Bernie
Sanders.
Fonte:
Por Eliel Machado, em A Terra é Redonda/ICL Notícias

Nenhum comentário:
Postar um comentário