Miguel
do Rosário: Medo, delírio e mulheres
Na
campanha americana de 1972, o jornalista Hunter S. Thompson escreveu que os
Estados Unidos pareciam apenas uma nação de vendedores de carros usados, com
dinheiro de sobra para armas e “sem escrúpulo em matar qualquer um no mundo”. A
frase está em Fear and Loathing: On the Campaign Trail ’72, um clássico da
cobertura política.
O medo
do título refletia a consciência de que aquela eleição decidia muito mais do
que apenas o governo interno. Em 8 de junho de 1972, durante as primárias
daquele ano, Kim Phuc, de nove anos, correu nua por uma estrada perto de Trang
Bang, no Vietnã do Sul, com as costas queimadas por napalm, marcando para
sempre o cenário geopolítico.
A
fotografia correu o mundo, mas a guerra prosseguiu implacável. Os jornalistas
que cobriam a campanha sabiam que cada voto contado em Ohio caía como uma bomba
sobre uma aldeia do outro lado do planeta.
Richard
Nixon venceu com folga em quase todos os estados americanos. Poucas semanas
depois, seus bombardeiros despejaram mais de 20 mil toneladas de explosivos
sobre o Vietnã, dizimando milhares de civis em poucos dias.
Hospitais
ficaram em ruínas e a destruição não se limitou ao exterior. O próprio desmonte
do Estado de bem-estar americano começou a ganhar força nos anos seguintes,
culminando na era Ronald Reagan.
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A mesma tensão, outro hemisfério
Meio
século depois, o mapa mudou, mas a lógica cruel permaneceu a mesma. Uma eleição
em um país de dimensões continentais afeta nações inteiras, e o pleito de 2026
no Brasil carrega exatamente esse peso.
Quem
acompanha a política internacional entende perfeitamente o que o Brasil
representa hoje para o Sul Global. Da África do Sul à Colômbia, líderes do
mundo inteiro olham para a nossa disputa eleitoral com imensa ansiedade.
O
desespero de parte do campo democrático é compreensível, mas precisa de
perspectiva histórica. Ao observar a rodada mais recente do Datafolha, o
governo registra 34% de avaliação positiva e uma aprovação de trabalho de 48%,
índices quase idênticos aos de Bolsonaro no mesmo período de seu mandato.
Apesar
dessa divisão demográfica semelhante, o cenário econômico é muito diferente. O
grande contraste é que este governo entrega inflação controlada, forte
crescimento econômico, desemprego em queda e obras estruturantes por todo o
país.
As
eleições modernas possuem uma dinâmica muito mais complexa do que a simples
soma das entregas administrativas. Ficar buscando explicações inatingíveis não
ajuda, sendo necessário focar na melhoria da comunicação e na organização
política.
Existem
pautas concretas que falam direto ao bolso da população, como a mobilidade
urbana e a energia solar residencial. Elas barateiam a vida das famílias e
merecem o mesmo destaque que a campanha dedica atualmente à regulação das casas
de apostas.
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As mulheres no centro
A
campanha americana de 1972 também foi marcada por um forte protagonismo
feminino nas bases partidárias. As mulheres multiplicaram sua presença nas
convenções democratas e abriram espaço para candidaturas históricas de
minorias.
No
Brasil de hoje, elas formam 52,8% do eleitorado, sendo a grande força decisiva
do pleito. O presidente Lula consolida expressivos 41% das intenções de voto
entre as mulheres, abrindo uma dianteira considerável sobre os 32% de Flávio
Bolsonaro no primeiro turno.
Entre
os homens a disputa é acirrada, com o senador marcando 39% contra 37% de Lula.
Já na contagem geral do Datafolha divulgado em 17 de setembro, Lula tem 39% e
Flávio Bolsonaro, 36% no primeiro turno, diferença dentro da margem de erro de
dois pontos; no confronto direto entre os dois, o placar é de 46% a 44%, também
empate técnico.
Embora
os recortes detalhados de segundo turno ainda estejam sendo processados, a
tendência se mostra inabalável. O voto maciço das mulheres em Lula segue firme,
garantindo o principal porto seguro e base de sustentação para a campanha
governista.
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As bets e o voto feminino
A
campanha petista acertou em cheio ao eleger o combate às plataformas de apostas
como tema central da reta final. O vilão é evidente, pois destrói a renda das
famílias mais vulneráveis e gera indignação popular genuína.
A ruína
financeira das apostas atinge fortemente os homens, mas as consequências
devastam lares inteiros. Acaba recaindo sobre as mulheres o fardo de
administrar a crise doméstica e o aumento da violência familiar gerada pelas
dívidas.
Apesar
disso, o governo federal poderia ser ainda mais audacioso em sua oferta
econômica. Seria o momento ideal para propor a maior edição do programa
Desenrola da história, focada no socorro emergencial aos superendividados.
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Duas semanas para abrir margem
Quem
rejeitava o apelo contra o bolsonarismo agora precisa encarar a dura realidade
do cenário acirrado. O momento exige deixar pequenas diferenças de lado e
adotar um pragmatismo radical na reta final.
Se o
presidente conseguir abrir uma margem de segurança de cerca de 4 a 5 pontos
percentuais no primeiro turno, uma virada da oposição se tornará
matematicamente improvável. Os 48% de eleitores que aprovam o governo precisam
ser urgentemente convertidos em votos consolidados nas urnas.
O
cenário exige mobilização popular intensa, não havendo espaço para derrotismo
ou narrativas apocalípticas. O segundo turno trará uma repolarização brutal,
exigindo a reconstrução imediata da frente ampla democrática de 2022.
O
candidato de Thompson e a esquerda americana perderam aquela eleição histórica
em 1972. Como consequência, o mundo assistiu a mais massacres no exterior,
enquanto internamente a oligarquia cresceu e direitos democráticos foram
perdidos.
O sonho
de estabelecer um sistema de saúde público universal, por exemplo, morreu por
tempo indeterminado nos Estados Unidos. O Brasil vive hoje um momento
semelhante, onde a sua própria história como nação soberana está em jogo.
Pessoas
de todos os continentes sofrerão os impactos de nossa eleição, e o futuro das
próximas gerações depende disso. O campo democrático brasileiro tem exatas duas
semanas para garantir a vitória.
Fonte:
O Cafezinho

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