quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Miguel do Rosário: Medo, delírio e mulheres

Na campanha americana de 1972, o jornalista Hunter S. Thompson escreveu que os Estados Unidos pareciam apenas uma nação de vendedores de carros usados, com dinheiro de sobra para armas e “sem escrúpulo em matar qualquer um no mundo”. A frase está em Fear and Loathing: On the Campaign Trail ’72, um clássico da cobertura política.

O medo do título refletia a consciência de que aquela eleição decidia muito mais do que apenas o governo interno. Em 8 de junho de 1972, durante as primárias daquele ano, Kim Phuc, de nove anos, correu nua por uma estrada perto de Trang Bang, no Vietnã do Sul, com as costas queimadas por napalm, marcando para sempre o cenário geopolítico.

A fotografia correu o mundo, mas a guerra prosseguiu implacável. Os jornalistas que cobriam a campanha sabiam que cada voto contado em Ohio caía como uma bomba sobre uma aldeia do outro lado do planeta.

Richard Nixon venceu com folga em quase todos os estados americanos. Poucas semanas depois, seus bombardeiros despejaram mais de 20 mil toneladas de explosivos sobre o Vietnã, dizimando milhares de civis em poucos dias.

Hospitais ficaram em ruínas e a destruição não se limitou ao exterior. O próprio desmonte do Estado de bem-estar americano começou a ganhar força nos anos seguintes, culminando na era Ronald Reagan.

<><> A mesma tensão, outro hemisfério

Meio século depois, o mapa mudou, mas a lógica cruel permaneceu a mesma. Uma eleição em um país de dimensões continentais afeta nações inteiras, e o pleito de 2026 no Brasil carrega exatamente esse peso.

Quem acompanha a política internacional entende perfeitamente o que o Brasil representa hoje para o Sul Global. Da África do Sul à Colômbia, líderes do mundo inteiro olham para a nossa disputa eleitoral com imensa ansiedade.

O desespero de parte do campo democrático é compreensível, mas precisa de perspectiva histórica. Ao observar a rodada mais recente do Datafolha, o governo registra 34% de avaliação positiva e uma aprovação de trabalho de 48%, índices quase idênticos aos de Bolsonaro no mesmo período de seu mandato.

Apesar dessa divisão demográfica semelhante, o cenário econômico é muito diferente. O grande contraste é que este governo entrega inflação controlada, forte crescimento econômico, desemprego em queda e obras estruturantes por todo o país.

As eleições modernas possuem uma dinâmica muito mais complexa do que a simples soma das entregas administrativas. Ficar buscando explicações inatingíveis não ajuda, sendo necessário focar na melhoria da comunicação e na organização política.

Existem pautas concretas que falam direto ao bolso da população, como a mobilidade urbana e a energia solar residencial. Elas barateiam a vida das famílias e merecem o mesmo destaque que a campanha dedica atualmente à regulação das casas de apostas.

<><> As mulheres no centro

A campanha americana de 1972 também foi marcada por um forte protagonismo feminino nas bases partidárias. As mulheres multiplicaram sua presença nas convenções democratas e abriram espaço para candidaturas históricas de minorias.

No Brasil de hoje, elas formam 52,8% do eleitorado, sendo a grande força decisiva do pleito. O presidente Lula consolida expressivos 41% das intenções de voto entre as mulheres, abrindo uma dianteira considerável sobre os 32% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno.

Entre os homens a disputa é acirrada, com o senador marcando 39% contra 37% de Lula. Já na contagem geral do Datafolha divulgado em 17 de setembro, Lula tem 39% e Flávio Bolsonaro, 36% no primeiro turno, diferença dentro da margem de erro de dois pontos; no confronto direto entre os dois, o placar é de 46% a 44%, também empate técnico.

Embora os recortes detalhados de segundo turno ainda estejam sendo processados, a tendência se mostra inabalável. O voto maciço das mulheres em Lula segue firme, garantindo o principal porto seguro e base de sustentação para a campanha governista.

<><> As bets e o voto feminino

A campanha petista acertou em cheio ao eleger o combate às plataformas de apostas como tema central da reta final. O vilão é evidente, pois destrói a renda das famílias mais vulneráveis e gera indignação popular genuína.

A ruína financeira das apostas atinge fortemente os homens, mas as consequências devastam lares inteiros. Acaba recaindo sobre as mulheres o fardo de administrar a crise doméstica e o aumento da violência familiar gerada pelas dívidas.

Apesar disso, o governo federal poderia ser ainda mais audacioso em sua oferta econômica. Seria o momento ideal para propor a maior edição do programa Desenrola da história, focada no socorro emergencial aos superendividados.

<><> Duas semanas para abrir margem

Quem rejeitava o apelo contra o bolsonarismo agora precisa encarar a dura realidade do cenário acirrado. O momento exige deixar pequenas diferenças de lado e adotar um pragmatismo radical na reta final.

Se o presidente conseguir abrir uma margem de segurança de cerca de 4 a 5 pontos percentuais no primeiro turno, uma virada da oposição se tornará matematicamente improvável. Os 48% de eleitores que aprovam o governo precisam ser urgentemente convertidos em votos consolidados nas urnas.

O cenário exige mobilização popular intensa, não havendo espaço para derrotismo ou narrativas apocalípticas. O segundo turno trará uma repolarização brutal, exigindo a reconstrução imediata da frente ampla democrática de 2022.

O candidato de Thompson e a esquerda americana perderam aquela eleição histórica em 1972. Como consequência, o mundo assistiu a mais massacres no exterior, enquanto internamente a oligarquia cresceu e direitos democráticos foram perdidos.

O sonho de estabelecer um sistema de saúde público universal, por exemplo, morreu por tempo indeterminado nos Estados Unidos. O Brasil vive hoje um momento semelhante, onde a sua própria história como nação soberana está em jogo.

Pessoas de todos os continentes sofrerão os impactos de nossa eleição, e o futuro das próximas gerações depende disso. O campo democrático brasileiro tem exatas duas semanas para garantir a vitória.

 

Fonte: O Cafezinho

 

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