Quando
a forte chuva chega aos territórios tradicionais
As
chuvas fortes que atingem o Paraná desde a semana passada já afetaram quase 34
mil pessoas em 84 municípios, segundo o boletim da Defesa Civil Estadual,
atualizado na quarta-feira (16). São 33.989 pessoas atingidas, 3.453 que
precisaram deixar suas casas e 3.694 residências danificadas. Ao menos 11
municípios já decretaram situação de emergência. Entre eles estão Adrianópolis,
Cerro Azul, Dois Vizinhos, Palmeira, Prudentópolis e União da Vitória,
municípios que concentram diferentes comunidades rurais e tradicionais.
E a
chuva ainda não deu trégua. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu
novos alertas para o Paraná entre sexta-feira (18) e domingo (20). O sábado
deve concentrar as condições mais severas, com alerta laranja, possibilidade de
chuvas de até 100 milímetros, ventos de até 100 km/h e ocorrência de granizo.
Para
quem vive em territórios indígenas, quilombolas e de povos e comunidades
tradicionais os impactos de uma chuva extrema não começam quando o rio
transborda ou terminam quando a água baixa. Em territórios onde o acesso a
serviços públicos e infraestrutura já é historicamente limitado, um temporal
pode significar ficar sem estrada, energia, comunicação, alimentação,
transporte e acesso a serviços básicos por muitos mais dias do que a duração da
chuva.
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“Não consegue sair nem chegar”
Na
região de Castro, comunidades quilombolas relatam que as chuvas interromperam o
transporte e o acesso às escolas. Estradas e pontes foram afetadas e as aulas
precisaram ser suspensas. “As comunidades todas estão sem aulas devido à
impossibilidade de transporte, pontes, estradas, vias de acesso”, relata a
liderança quilombola, Rozilda Cardoso. Os impactos atingem os quilombos de
Mamãs, Limitão e Serra do Apon. “Não consegue sair nem chegar”, resume.
A
dificuldade de acesso também altera a própria capacidade de resposta diante da
emergência. Enquanto a Defesa Civil consegue atuar com maior presença nas áreas
urbanas, nas comunidades rurais a chegada de máquinas e equipes depende das
condições das estradas.
Para as
comunidades e povos tradicionais a obstrução de vias – muitas vezes, uma única
via de acesso às comunidades (como em Adrianópolis), não afeta apenas a
mobilidade. Para quem vive em territórios afastados dos centros urbanos, a
estrada pode ser a única ligação com escola, posto de saúde, mercado, serviços
públicos e redes de apoio. Com isso, a obstrução coloca o território em
situação de total isolamento.
Em João
Surá, comunidade quilombola localizadas em Adrianópolis, no Vale do Ribeira, a
elevação do rio e as condições das estradas também foram impactadas. “Nós
ficamos impactados por causa da estrada e do rio, que subiu bastante. E estamos
sem energia até esse momento”, relata a liderança da comunidade, Joaquim
Andrade Pereira. A presidente da Associação Quilombola, Cassiane Matos, relata
que a disponibilização de um gerador a diesel tem garantido, ao menos, o acesso
por algumas horas o acesso à internet e o funcionamento dos freezers da escola.
A
região de Adrianópolis foi uma das mais afetadas com as chuvas. De acordo com
boletim da Defesa Civil, 6 mil pessoas afetadas, 140 desalojadas e nove
desabrigadas.
Os
boletins estaduais informam número de municípios, pessoas, casas danificadas,
desalojados etc., mas isso não necessariamente permite saber quantas pessoas
indígenas, quilombolas ou de comunidades tradicionais foram atingidas.
Adrianópolis, por exemplo, é o município do Paraná com maior número de
comunidades quilombolas no Estado, com 16 territórios mapeados pelo IBGE.
Mesmo o
registro de impactos pelos próprios quilombolas tem sido afetado “A gente não
consegue fazer levantamento de dados, porque estamos sem luz, sem acesso a
estradas, sem acesso a dados”, relata Gedielson Ramos, da comunidade quilombola
de Córrego das Moças, de Adrianópolis.
A
comunidade sugeriu contar com geradores para garantir, ao menos, condições para
pedir ajuda, comunicar os problemas e dar retorno sobre a situação das
famílias. Até aquele momento, segundo o relato, a principal atuação registrada
era da brigada do Ibama.
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Quando a chuva leva também a comida e o abrigo
No
Oeste do Paraná, os impactos chegam de outra maneira. No Tekoha Arakoe, em
Terra Roxa, há ao menos duas aldeias enfrentando dificuldades após as chuvas.
“Tenho duas aldeias que estão precisando muito de alimentação”, relata uma
liderança indígena. Segundo ele, parte da alimentação foi perdida. Em outra
aldeia, a necessidade é de materiais para proteger as moradias, como telhas de
fibra ou lona.
A
situação mostra que os danos provocados por uma emergência climática não se
resumem às casas atingidas. A perda de alimentos, a dificuldade de
abastecimento e os danos às moradias podem comprometer diretamente a segurança
alimentar e as condições de permanência das famílias no território.
Em
comunidades onde a produção de alimentos, a criação de animais e o cultivo
estão diretamente ligados ao território, a perda provocada por uma chuva
intensa pode permanecer por muito mais tempo do que o período de duração do
temporal.
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Os povos tradicionais estão nos planos clima?
O
Paraná é um dos poucos estados que possuem um plano de adaptação às mudanças
climáticas. Publicado em 2023, o Plano Estadual de Ação Climática (PAC) tem
como objetivo orientar as políticas públicas para enfrentamento dos desafios da
mudança do clima. Coordenado pelo Governo do Estado e coassinado por um
conjunto de órgãos como a Secretaria de Desenvolvimento Sustentável e Diretoria
de Políticas Ambientais, o documento tem vigência até 2050.
Ainda
que seja consenso entre especialistas do clima dos impactos específicos da
crise para povos e comunidades tradicionais, o plano do Paraná não traz ações
especificas para amenizar os efeitos da crise ou adaptar as comunidades ao novo
momento.
O
documento aponta que “para a adaptação define-se uma outra abordagem, a partir
de planos de adaptação baseados na paisagem, denominados com Planos de Paisagem
Regional. Esses deverão ser elaborados considerando a diversidade local,
integrando a biodiversidade, a cultura e a comunidade, com características
ambientais e 18 econômicas, existentes no limite das bacias hidrográficas, que
serão as unidades de referências para elaboração dos planos”. O plano também prevê a elaboração de Planos
de Paisagem Regional para mapear vulnerabilidades e problemas provocados por
eventos climáticos extremos.
Apesar
disso, o plano não traz menções específicas a povos indígenas, comunidades
quilombolas ou povos e comunidades tradicionais. “Povos indígenas, quilombolas
e comunidades tradicionais não sofrem com a crise climática de mesmo modo que
outras pessoas. Seus territórios já são atravessados por processos históricos
de desmatamento, degradação ambiental, expulsão dos seus territoriais, falta de
infraestrutura e dificuldades de acesso a políticas públicas. Eventos extremos,
como as chuvas, se sobrepõem a essas desigualdades e podem aprofundá-las”,
destaca a assessoria jurídica da Terra de Direitos.
O
próprio PAC-PR reconhece que populações com menos recursos têm menor capacidade
de se deslocar ou se adaptar e podem estar mais expostas a desastres. “Os povos
e comunidades tradicionais são os que mais protegem a biodiversidade, e seus
territórios apresentam grandes índices de preservação ambiental. Ou seja, são
os que menos causam o colapso ecológico, mas os que mais são atingidos pelos
desastres”, destaca ainda Daniel.
Por
serem afetados de modos distintos e conheceram, em profundidade, caminhos para
proteção do clima, os povos tradicionais têm destacado a importância de
participarem das decisões sobre a política climática.
Fonte:
Terra de Direitos

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