Previlegiados:
Generais condenados por golpe continuam recebendo até R$ 39,8 mil por mês
Condenados
por organização criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e
golpe de Estado, os quatro generais de quatro estrelas -a mais alta patente no
serviço militar- em cumprimento de pena continuam recebendo seus salários como
oficiais da reserva. Os valores brutos oscilam entre R$ 38,5 mil e R$ 39,8 mil.
O
Exército -Força a que estão vinculados os generais Paulo Sérgio Nogueira,
Walter Braga Netto e Augusto Heleno- e a Marinha -já comandada pelo almirante
Almir Garnier- não interromperam os pagamentos a partir da condenação
definitiva, como mostram os dados das fichas de remuneração referentes a
janeiro a junho de 2026, disponíveis no Portal da Transparência, do governo
federal.
Os
quatro militares foram condenados pelo STF (Supremo Tribunal Federal) pela
tentativa de golpe de Estado liderada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL),
que recebeu a maior pena: 27 anos e três meses de prisão.
Agora,
a crise do Supremo, causada pela relação de ministros com Daniel Vorcaro,
ex-dono do Banco Master, é discutida por defesas de militares como artifício
para que eles não sejam expulsos das Forças Armadas. A crise do STF também
passou a ser discutida em gabinetes do STM (Superior Tribunal Militar), que
julgará as ações de perda de patentes e expulsão dos generais do golpe.
<><>
Bolsonaro recebe dinheiro
Bolsonaro
também segue recebendo seu salário como capitão reformado do Exército, uma
remuneração bruta de R$ 13,4 mil.
A
interpretação vigente é que os pagamentos só são interrompidos com a cassação
do posto e da patente, o que não é atribuição do STF, mas do STM. Com a
demissão, perde-se o direito à remuneração, conforme a lei do Estatuto dos
Militares, de 1980.
A
condenação dos militares, em processo relatado pelo ministro Alexandre de
Moraes, do STF, completou um ano no último dia 11. As penas começaram a ser
cumpridas no fim de novembro de 2025, pelo fato de a sentença ter transitado em
julgado, sem possibilidade de mais recursos no Supremo.
Bolsonaro
e Heleno estão em prisão domiciliar, por problemas de saúde; o general sofre de
Alzheimer. Paulo Sérgio, Braga Netto e Garnier estão em celas improvisadas e
individuais em unidades militares de Exército e Marinha.
<><>
Histórico
É a
primeira vez que a democracia brasileira pune e encarcera, por decisão da mais
alta corte da Justiça, generais que alcançaram as quatro estrelas na vida
militar e que optaram pela via golpista.
Um
próximo passo punitivo pode ser adotado no STM. Em fevereiro, o
procurador-geral da Justiça Militar, Clauro Roberto de Bortolli, apresentou
ações no STM para declaração de indignidade ao oficialato e consequente perda
de postos e patentes pelos militares condenados no STF.
Na
prática, uma condenação do tipo representa uma expulsão das Forças Armadas. A
crise do Supremo, em especial a possibilidade de Moraes ser formalmente
investigado por suas relações com Vorcaro, o que inclui um contrato do
escritório da mulher, Viviane Barci, no valor de R$ 131 milhões, passou a ser
cogitada como estratégia de defesa no STM.
“Se
eventual investigação no STF produzir elementos objetivos que revelem
irregularidades, com repercussão sobre o processo ou sobre a condenação do
almirante Garnier, a defesa poderá utilizá-los no julgamento no STM”, disse à
reportagem o advogado Marcelo Ferreira, que defende o ex-comandante da Marinha.
“Diante da gravidade das questões, a defesa acompanhará os desdobramentos e
avaliará medidas cabíveis.”
Caso a
expulsão seja concretizada, isso não significaria o bloqueio das remunerações
às famílias dos generais.
O
entendimento na Justiça Militar é de que ainda estão vigentes as previsões
legais que garantem a chamada “morte ficta”, em que “viúvas” ou outros
beneficiários de militares expulsos passam a receber as pensões equivalentes às
remunerações desses militares ainda vivos.
Em
agosto de 2025, o TCU (Tribunal de Contas da União) decidiu que a Casa Civil da
Presidência deve adotar providências para “alterar ou revogar” um trecho de um
decreto de 2021 – assinado por Bolsonaro e por Braga Netto, então ministro da
Defesa- que regulamenta as pensões militares.
O
trecho do decreto diz que o oficial que perder posto e patente deixará a pensão
militar aos beneficiários e que, para habilitação à pensão, a certidão de óbito
será substituída pela cópia do ato de demissão.
A lei
sobre as pensões militares, de 1960, também estabelece que a pensão
correspondente ao posto antes ocupado fica para os beneficiários; a redação
desse ponto foi atualizada por uma lei de dezembro de 2019.
No
entendimento do TCU, validado em plenário, a pensão não deveria ser paga antes
da morte do militar, mas tanto o decreto quanto a lei que preveem a “morte
ficta” seguem em vigor.
Em
nota, o Exército afirmou que a situação funcional e remuneratória dos militares
é regida pela Constituição Federal e pelas leis aplicáveis. “Nesse contexto, a
Força cumpre rigorosamente o arcabouço jurídico vigente.”
A
Marinha e as defesas dos outros três generais de quatro estrelas não
responderam aos questionamentos da reportagem.
Os
processos de indignidade ao oficialato têm diferentes relatores no STM. A média
de tempo para julgamento de processos do tipo é de 11 a 13 meses, segundo
integrantes do tribunal. As primeiras decisões podem ser tomadas entre o fim de
2026 e o início de 2027.
Os
generais já apresentaram suas defesas nos autos. Braga Netto afirmou que
dedicou a vida a honrar a farda e que tem uma trajetória “ilibada”. Segundo a
defesa do militar, não houve desonra às Forças Armadas. “Apenas a honra do
próprio STF foi maculada”, cita a peça apresentada ao STM.
A
defesa de Heleno enumerou elogios, condecorações e funções e disse que o
militar foi “injustamente condenado por crimes gravíssimos contra a Pátria”.
Paulo Sérgio “temia uma fissura nas Forças Armadas e que alguma liderança
militar ‘levantasse o braço’ e protagonizasse um rompimento”, conforme a defesa
apresentada. Ele era ministro da Defesa nessa ocasião.
Garnier,
por sua vez, teria um “histórico objetivo de conduta ilibada”. Oficiais e civis
o apoiam, segundo seus advogados.
Braga
Netto coordenou um “gabinete” golpista após a derrota na eleição e apoiou um
plano que incluía o assassinato do presidente Lula (PT) e do vice, Geraldo
Alckmin (PSB), segundo o julgamento do golpe no STF. Heleno chefiou um
“gabinete de crise” e orientou discurso contra as urnas eletrônicas.
Paulo
Sérgio pressionou comandantes a aderirem ao impedimento da posse de eleitos, e
Garnier colocou tropas da Marinha à disposição de um golpe, conforme as provas
colhidas no inquérito que tramitou no STF.
Para o
Ministério Público Militar, a condenação criminal imposta pelo Supremo e as
condutas descritas no processo devem resultar em perdas de posto e patente, por
estarem “na contramão do que se espera de um oficial das Forças Armadas”.
Fonte:
Folhapress

Nenhum comentário:
Postar um comentário