Para
resolver a crise do STF, é preciso estabelecer regras claras contra o populismo
A
sessão do Supremo Tribunal Federal, o STF, do último dia 15 de setembro
frustrou quem esperava uma solução para o impasse na Corte. O conflito se
acentuou desde que André Mendonça,
relator dos processos ligados ao Banco Master, passou a pressionar pela
abertura de uma investigação contra seu colega de plenário Alexandre de Moraes.
Na verdade, em vez de resolver o problema, o Tribunal ampliou os contornos da
crise.
A
gravidade da situação de Moraes continua impossível de ignorar. Ao mesmo tempo,
concentrar nele toda a responsabilidade por relações que parecem atravessar
todo o Tribunal começa a adquirir a aparência de um sacrifício seletivo.
Permitir
que a exposição dessas relações se converta numa condenação indiscriminada do
Supremo ofereceria combustível a uma nova campanha de purificação antipolítica.
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O papel de André Mendonça e a ‘Caixa de Pandora’ do STF
Comecemos
por Moraes. O contrato de aproximadamente R$ 131 milhões celebrado entre o
Banco Master e o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, – do qual
cerca de R$ 80 milhões teriam sido pagos –
já exigia esclarecimentos convincentes. As informações reveladas
posteriormente sobre seus contatos com Daniel Vorcaro tornaram essa necessidade
ainda mais urgente.
Reconhecer
a gravidade do caso não obriga, entretanto, a aceitar a narrativa de que André
Mendonça teria apenas levantado o véu sobre fatos que outros desejavam
esconder.
A
retirada do sigilo e a forma como determinadas informações vieram a público não
ocorreram fora do jogo político.A
posição de Mendonça no Tribunal, suas afinidades e o contexto eleitoral tornam
legítimo perguntar: por que certas informações foram divulgadas, em que momento
e segundo quais critérios?
‘Investigar
apenas Alexandre de Moraes, sem critérios capazes de distinguir sua situação
das demais, significaria oferecer ao Tribunal uma redenção barata:’.
A
tentativa de administrar a crise acabou tornando essa distinção ainda mais
crucial. Ao questionarem a condução do caso, ampliarem o acesso às informações
e trazerem ao debate nomes e relações que haviam permanecido fora do foco, o
ministro Flávio Dino e outros integrantes da Corte acabaram abrindo a caixa de
Pandora.
Mensagens
e suspeitas envolvendo parentes ou pessoas próximas de outros ministros
passaram a integrar o debate público. Com isso, a crise deixou de dizer
respeito exclusivamente a um magistrado e passou a alcançar os mecanismos pelos
quais a Corte administra conflitos de interesse, impedimentos, relações
familiares e contatos com atores poderosos.
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O efeito Geni e o moralismo à la Jânio Quadros
A
partir daí, investigar apenas Alexandre de Moraes, sem critérios capazes de
distinguir sua situação das demais, significaria oferecer ao Tribunal uma
redenção barata: constrange-se um de seus integrantes, declara-se restaurada a
moralidade e preservam-se intactas as práticas que produziram o escândalo.
Trata-se
de um enredo semelhante ao da canção “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque, na
qual uma comunidade nada virtuosa
encontra em um corpo conveniente o lugar onde depositar pecados compartilhados.
Por
outro lado, a crise oferece terreno fértil para a tese de que “todos são iguais”, todas as
instituições estão podres e apenas alguém vindo de fora poderia “limpar” o
sistema.
Esse
roteiro, conhecido no Brasil pelo menos desde a eleição de Jânio Quadros e sua
emblemática vassoura, condensa uma das fantasias mais persistentes da vida
pública nacional: a de que é possível purificar o país eliminando de uma só vez
seus vícios, seus intermediários e, no limite, a própria política.
Foi
assim que o moralismo da Operação Lava Jato ajudou a preparar o terreno para a
ascensão do bolsonarismo. E é assim que a crise do Supremo pode ser
instrumentalizada pela extrema direita,
inclusive por personagens que participaram ativamente da degradação
institucional dos últimos anos.
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A saída democrática: regras claras contra o populismo
O
caminho verdadeiramente democrático é menos catártico e muito mais exigente:
#
Integralidade das provas:
-
Começa por preservar e examinar a integralidade do material apurado, em vez de
administrar seletivamente trechos e vazamentos.
#
Isonomia de critérios:
- Exige
que situações comparáveis sejam submetidas aos mesmos parâmetros, alcançando
ministros, familiares e escritórios quando houver fatos que justifiquem a
apuração.
#
Suspeição e transparência:
-
Requer que os envolvidos não participem de decisões sobre casos que lhes digam
respeito e que procedimentos, competências e prazos sejam definidos
publicamente.
#
Reformas institucionais:
- Deve
produzir regras claras sobre conflitos de interesse, atuação profissional de
parentes, contatos extraprocessuais e transparência no Supremo.
O
Brasil não está condenado a escolher entre impunidade e destruição
institucional. Pode investigar Moraes sem transformá-lo na Geni da vez; ampliar
as apurações sem declarar culpado todo o Tribunal; e reformar o STF sem aderir
à fantasia de que uma vassoura providencial limpará a República.
Para
isso, a sociedade terá de trocar o prazer pelo apedrejamento e a promessa da
varrição por algo bem menos sedutor, porém duradouro: regras iguais,
procedimentos confiáveis, responsabilidade individual e compromisso com
reformas estruturais.
A
democracia não será protegida escondendo o que ocorreu. Tampouco será salva por
aqueles que desejam usar a crise para destruí-la. Entre o Zepelim e a vassoura
existe uma saída: a do Estado de Direito e da institucionalidade democrática.
• O ministro do STF que recusou degustação
de uísque de Vorcaro em Londres
ministro
Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi convidado para uma
degustação de uísque organizada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro em Londres, em
2024, mas recusou tanto o convite para o evento quanto a viagem à capital
britânica. A informação consta de mensagens extraídas pela Polícia Federal do
celular de Vorcaro.
Segundo
os registros, os organizadores comunicaram a Vorcaro que Zanin havia declinado
da proposta. As mensagens também indicam que o ministro não chegou a ter agenda
ou encontro com o então dono do Banco Master. As informações são da coluna de
Bela Megale, no Globo.
O
evento foi realizado em abril de 2024, durante um fórum jurídico promovido em
Londres com patrocínio de Vorcaro. Como parte da programação, o ex-banqueiro
ofereceu uma degustação de uísque para um grupo de autoridades brasileiras.
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Os participantes
Entre
os participantes estavam os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, ambos
do STF; o procurador-geral da República, Paulo Gonet; o diretor-geral da
Polícia Federal, Andrei Rodrigues; o então ministro da Justiça e Segurança
Pública, Ricardo Lewandowski; e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
A
degustação teve custo estimado em R$ 3,3 milhões.
As
mensagens sobre o convite a Zanin fazem parte do material apreendido pela PF no
celular de Vorcaro e passaram a ser analisadas no contexto das investigações
envolvendo o Banco Master e os contatos mantidos pelo banqueiro com
autoridades.
• André Mendonça usou helicóptero de
ex-sócio de Vorcaro para participar de evento em Itabira
ministro
do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça utilizou, em agosto de 2025,
uma aeronave vinculada ao Grupo Cedro, do empresário mineiro Lucas Kallas, para
participar de um evento jurídico em Itabira (MG). A informação foi publicada
nesta terça-feira (22) pela colunista Daniela Lima, do UOL, e confirmada pela
apuração do Fórum Investiga, o núcleo de jornalismo investigativo da Fórum, que
buscava o outro lado, do ministro, quando a reportagem foi publicada.
Kallas
é apontado como ex-parceiro de negócios de Daniel Vorcaro, dono do Banco
Master. O Grupo Cedro também realizou um aporte de R$ 5,2 milhões no Instituto
Iter, entidade fundada por André Mendonça.
A
viagem ocorreu nos dias 4 e 5 de agosto de 2025, quando Mendonça participou da
I Jornada Jurídica de Itabira e Região, organizada pela subseção local da Ordem
dos Advogados do Brasil (OAB) em parceria com o Sindicato Metabase.
Documentos
do Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF-6), aos quais o Fórum teve
acesso, registram a atuação de servidores na operação de transporte e segurança
do ministro durante o deslocamento entre Belo Horizonte e Itabira. A missão
oficial foi descrita como “Transporte e segurança do Ministro do STF André
Mendonça, durante a viagem à Itabira/MG”. O compromisso do ministro não consta
na agenda oficial do STF.
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Aviso sobre operação especial no aeroporto
Segundo
informações obtidas pelo UOL e confirmadas pela apuração do Fórum, uma conta
vinculada à empresa Cedro Aviação enviou, em 3 de agosto de 2025, uma
comunicação às autoridades do Aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte.
A
mensagem informava que, no dia seguinte, haveria o desembarque de uma
autoridade e solicitava procedimentos especiais de vistoria e escolta, sob a
justificativa de que o passageiro seria uma pessoa de “relevância pública”.
O
comunicado foi encaminhado à Polícia Federal. A corporação não identificou
pedido formal de apoio ao aeroporto e determinou que fosse aplicado o
procedimento padrão, sem exceções para os passageiros da aeronave. No dia 4 de
agosto, a operação teria sido identificada como relacionada ao deslocamento de
André Mendonça.
O
helicóptero utilizado tinha o prefixo PS-RLK, modelo Airbus H130, e estava
vinculado à Extrativa Mineral S/A, empresa adquirida pelo Grupo Cedro em 2020.
A apuração do Fórum já havia identificado a aeronave e sua associação
empresarial.
De
acordo com o relato obtido pela reportagem, houve ainda uma solicitação para
que os veículos da escolta tivessem acesso liberado ao aeroporto sem parada na
guarita. Também teria sido pedido que os vidros das viaturas não fossem
abaixados, sob a justificativa de que o passageiro possuía “relevância
pública”. Segundo relatos obtidos pela Fórum, Mendonça teria se recusado a
passar pela revista padrão.
A
aeronave teria levado Mendonça do Aeroporto da Pampulha até Itabira, onde o
ministro participou da jornada jurídica.
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Deslocamento organizado pelo Grupo Cedro
Além do
voo, a reportagem do UOL confirmou que todo o trajeto de Mendonça entre Belo
Horizonte e Itabira foi organizado pelo Grupo Cedro, incluindo a logística
terrestre.
A
assessoria do ministro afirmou que o deslocamento foi coordenado pela
organização do evento e que Mendonça não participou da escolha ou contratação
dos fornecedores.
“Toda a
logística de deslocamento ficou a cargo da organização do evento. O ministro
não participou da definição, da escolha ou da contratação dos fornecedores
envolvidos”, afirmou o gabinete.
A
assessoria também declarou que a participação do ministro foi de natureza
“estritamente acadêmica e institucional”, sem remuneração, cachê ou pagamento
de honorários.
A
organização do evento foi atribuída à OAB de Itabira e ao Sindicato Metabase. A
programação divulgada na época previa a participação de Mendonça em atividades
relacionadas ao Judiciário, à liderança e ao trabalho decente.
Fonte:
Por Fabio de Sa e Silva, em The Intercept/Fórum

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