quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O século XXI segundo Lula: soberania em tempos de guerra híbrida

Há momentos em que um discurso político vale menos pelas palavras escolhidas do que pela maneira como organiza o mundo. Foi isso que me chamou atenção ao ouvir Lula na ONU. Ele não usou a expressão guerra híbrida. Não precisava. Falou de tarifas como instrumento de coerção, interferência eleitoral, plataformas digitais, inteligência artificial, desinformação, sistemas de pagamento, minerais estratégicos, crime transnacional e presença militar estrangeira. Temas que a política costuma distribuir em gavetas diferentes, mas que já não funcionam separados.

Quem procura a guerra apenas onde há soldados, tanques e mísseis continua olhando o século XXI com os olhos do século XX. A força militar permanece como a expressão mais brutal do poder, mas deixou há muito tempo de ser sua única linguagem. Um Estado pode ser pressionado sem que um soldado atravesse a fronteira. Pode perder margem de decisão pela dependência financeira, tecnológica, informacional ou logística. Pode conservar intacto o mapa do país e, ainda assim, descobrir que boa parte das decisões fundamentais já não passa inteiramente por ele.

Por isso a fórmula “soberania ou subordinação” me pareceu a chave do discurso. Não como recurso de tribuna, mas como definição de um problema histórico. Soberania, hoje, não se mede apenas pela integridade do território. Mede-se pela capacidade concreta de decidir quando poder econômico, tecnológico, informacional e militar se cruzam. A guerra não abandonou o território. O território da guerra é que se expandiu.

É aí que a ideia de guerra híbrida recupera sentido. O termo foi banalizado a ponto de caber em quase tudo, e justamente por isso precisa ser usado com rigor. Uma sanção, uma tarifa ou uma campanha de desinformação, isoladamente, não bastam para definir uma guerra híbrida. O ponto está na combinação dos instrumentos e no objetivo político que os organiza. Finanças, informação, tecnologia, diplomacia, pressão econômica e força militar podem operar sobre a mesma vulnerabilidade. As próprias doutrinas contemporâneas de segurança tratam essa sobreposição como parte central das ameaças híbridas.

Nada disso significa que o algoritmo substituiu o míssil. Gaza e Ucrânia lembram todos os dias o contrário. O que mudou foi o tamanho do arsenal. Uma cadeia tecnológica pode produzir dependência. Uma plataforma pode alterar a circulação da informação. Uma infraestrutura crítica controlada de fora pode se converter em instrumento de pressão numa crise. Uma sociedade submetida continuamente à manipulação informacional pode ter sua capacidade de escolha corroída antes que qualquer fronteira física seja tocada.

É nesse mapa que Pix, Big Techs, minerais críticos e tarifas começam a fazer sentido juntos. Todos tocam o controle dos fluxos que sustentam a vida material de uma sociedade. Dinheiro, informação, tecnologia, energia, matéria-prima. Quem controla os nós decisivos desses circuitos ganha poder para impor custos e estreitar as escolhas do outro.

O caso do Pix tornou essa disputa visível. Em 2026, a investigação comercial dos Estados Unidos contra o Brasil reuniu comércio digital, decisões envolvendo plataformas, serviços eletrônicos de pagamento e política tarifária. O USTR sustentou que políticas brasileiras favoreciam um “campeão nacional” nos pagamentos eletrônicos. Quando Lula fala na ONU de tarifas usadas como coerção, defende o Pix e, na mesma arquitetura de discurso, enfrenta o poder das Big Techs, há uma disputa concreta por trás das palavras. Não se trata apenas de mercado. Trata-se de quem controla infraestruturas pelas quais circulam dinheiro, informação e poder.

Com os minerais críticos ocorre algo semelhante. Seis dias antes da Assembleia, o Brasil havia sancionado uma política nacional que trata dependência externa, riscos geopolíticos e gargalos tecnológicos como questões estratégicas. Na ONU, Lula afirmou que o acesso aos minerais brasileiros deveria vir acompanhado de geração de valor no país, transferência de tecnologia e atendimento a setores nacionais estratégicos. Possuir a reserva, sozinho, vale pouco se o conhecimento, o processamento industrial e a cadeia de valor permanecem sob controle de outros.

Durante muito tempo aprendemos a reconhecer soberania olhando para o mapa. Hoje é preciso olhar para a infraestrutura. Um país pode ter fronteiras intactas e depender de fora para processar dados, movimentar pagamentos, produzir tecnologias essenciais, organizar sua comunicação ou transformar os próprios recursos naturais. A bandeira continua no mastro. Formalmente, o Estado continua ali. Materialmente, porém, sua margem de decisão pode ter encolhido.

Isso não leva necessariamente ao fechamento. E esse cuidado aparece no próprio discurso. Lula fala em comércio, investimento, integração e cooperação internacional. O conflito não está entre isolamento e abertura. Está nas condições em que a interdependência é construída. Há uma diferença entre negociar com parceiros e entrar numa relação em que o resultado já vem condicionado pela assimetria de poder.

A passagem sobre o crime organizado resume bem essa diferença. Lula rejeita forças estrangeiras assumindo funções que pertencem ao Estado brasileiro e diz que o país não precisa de “porta-aviões vigiando nossas águas”. Pede cooperação para interromper fluxos de armas e dinheiro. A palavra importante é cooperação. Soberania não significa fazer tudo sozinho. Significa poder definir os termos da cooperação sem aceitar tutela.

Para os países do Sul Global, esse talvez seja o ponto mais sensível. A velha periferia fornecia matéria-prima, importava tecnologia, absorvia decisões tomadas nos centros de poder e chamava isso de integração. O século XXI acrescentou novas camadas a essa dependência. Dados, plataformas, sistemas financeiros, semicondutores, nuvem, inteligência artificial e minerais críticos passaram a compor a infraestrutura da soberania. A pergunta deixou de ser apenas quem possui o território. Passou a ser quem controla aquilo que faz o território funcionar.

Por isso o final do discurso importa. Lula começa diante de guerras abertas e termina falando de eleições, desinformação e interferência sobre a vontade popular. O percurso vai do campo de batalha à disputa pela percepção. Não vejo isso como acaso retórico. É uma leitura do poder contemporâneo. A defesa de um país passa pelo mar territorial e pelo ambiente digital, pela indústria e pela informação, pelas Forças Armadas e pelas infraestruturas invisíveis que organizam a vida cotidiana.

Foi essa a novidade política que encontrei no discurso. Soberania deixa de ser palavra de cerimônia e volta a significar capacidade material de decisão. No século XXI, o poder corre por cabos, plataformas, cadeias logísticas, sistemas financeiros, minerais e redes de informação muito antes de chegar ao campo de batalha. Do porta-aviões ao algoritmo, é nessa geografia que a soberania está sendo disputada.

•        A coragem de dizer o que muitos preferem calar. Por Pedro Benedito Maciel Neto

Há discursos que são feitos apenas para serem aplaudidos, contudo, há discursos que são feitos porque alguém entende que certas coisas precisam ser ditas, ainda que incomodem.

O discurso de Lula na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, nesta terça-feira, pertence, a meu ver, a essa segunda categoria.

Não porque seja um discurso perfeito. Não porque todos concordem com cada uma de suas afirmações. E muito menos porque um presidente deva ser poupado da crítica – democracia não funciona assim -, contudo, é preciso reconhecer uma coisa: Lula teve coragem de falar diante do mundo sobre aquilo que muitos líderes preferem contornar.

E fez isso diante do próprio centro do poder internacional.

Dirigiu-se, inclusive, ao secretário-geral António Guterres, que encerra sua passagem pela ONU depois de anos testemunhando o enfraquecimento do multilateralismo, a multiplicação das guerras e a dificuldade das Nações Unidas de impor limites à lógica do poder.

Lula não fez um discurso burocrático, muito pelo contrário.

Disse que a ONU está falhando em sua missão de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Criticou o imobilismo do Conselho de Segurança. Questionou o direito de veto das grandes potências e lembrou que o Brasil já alertava, desde 1946, para os riscos de entregar a poucos países o poder de bloquear decisões da maioria, um importante resgate histórico, foi uma afirmação dura.

Mas é também uma afirmação que está no centro do problema contemporâneo: como construir uma ordem internacional baseada em regras quando aqueles que deveriam fazer cumprir as regras também podem bloqueá-las?

Lula foi além, ele disse que as concessões à lei do mais forte passaram dos limites e produziu uma frase que merece ser lembrada: “A guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política.”

Pode-se concordar ou discordar da formulação. Mas não há como negar sua clareza.

Num mundo acostumado a transformar guerras em estatísticas, territórios em zonas de influência e vidas humanas em danos colaterais, Lula recolocou a política no seu lugar original: o lugar da negociação, da diplomacia e da tentativa de evitar que a força substitua a razão.

Também não se escondeu diante da tragédia do Oriente Médio.

Condenou os atos terroristas do Hamas contra civis israelenses e, ao mesmo tempo, denunciou o sofrimento dos palestinos em Gaza e defendeu a solução de dois Estados. Criticou os assentamentos na Cisjordânia, defendeu o Tribunal Penal Internacional e afirmou que seus integrantes não podem ser perseguidos por cumprir sua função.

Mais uma vez, escolheu um caminho que não é confortável, seria mais fácil escolher um lado absoluto do que reconhecer que há vidas humanas dos dois lados e é justamente aí que a diplomacia se torna difícil.

O mesmo aconteceu quando Lula falou da América Latina: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, a frase recebeu aplausos na Assembleia.

Mais importante do que a frase, porém, é o princípio que ela expressa: soberania não significa hostilidade, significa que países independentes têm o direito de construir seus próprios caminhos.

O Brasil pode e deve cooperar com os Estados Unidos, com a China, com a Europa, com nossos vizinhos latino-americanos e com qualquer país disposto ao diálogo, mas cooperação não é submissão, aliança não é tutela e, por fim, amizade entre nações não exige que uma delas aceite ocupar posição subalterna.

Lula também falou de crime organizado, inteligência artificial, clima, fome, desigualdade, regulação das grandes plataformas digitais, transição energética, trabalho e reforma da governança internacional.

Pode-se discutir cada uma dessas propostas – e devemos discuti-las -, mas há algo maior no conjunto do discurso: a tentativa de recolocar a política no comando da história.

Em tempos nos quais grandes corporações tecnológicas possuem poder extraordinário, guerras são decididas por governos que dispõem de arsenais capazes de destruir países inteiros e as redes sociais permitem que a mentira circule em velocidade superior à capacidade de investigação dos fatos, a política não pode simplesmente assistir, precisa regular, estabelecer limites e, sobretudo, recuperar a capacidade de imaginar um mundo diferente daquele que os poderosos dizem ser inevitável.

Talvez seja essa a maior coragem do discurso de Lula. Não a coragem de enfrentar este ou aquele governo, mas a coragem de dizer, diante dos donos do poder, que o mundo não precisa aceitar como natural aquilo que é apenas resultado de relações históricas de poder.

O Conselho de Segurança pode ser reformado; a governança internacional pode ser democratizada; a diplomacia pode voltar a ocupar o lugar que hoje é ocupado pelas armas; a pobreza não precisa ser aceita como destino; a fome não precisa existir em um planeta que produz alimentos suficientes; a tecnologia não precisa estar acima da sociedade e a soberania dos países do Sul Global não precisa ser tratada como concessão das grandes potências.

São posições políticas. E, justamente por serem políticas, podem e devem ser debatidas.

Mas há uma diferença entre discordar de uma ideia e fingir que ela não foi apresentada.

O discurso de Lula não fugiu do debate, ao contrário, ele colocou sobre a mesa questões que incomodam porque mexem com interesses concretos e talvez seja exatamente isso que se espera de um presidente quando sobe à tribuna mais importante da diplomacia mundial.

Não que agrade a todos, não que seja unanimidade, mas que tenha algo a dizer, que diga com clareza e que tenha disposição para dizer diante dos poderosos aquilo que diria diante dos seus.

Num tempo de guerras, unilateralismos, nacionalismos agressivos, desigualdade e descrença nas instituições multilaterais, talvez a primeira condição para reconstruir alguma esperança seja esta: não aceitar o silêncio como sinônimo de prudência.

Há momentos em que a prudência aconselha esperar e há momentos em que esperar é simplesmente permitir que o poder continue fazendo aquilo que sempre fez, na ONU, Lula escolheu falar e falou de frente.

Isso, por si só, merece ser compreendido e debatido.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

 

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