O
século XXI segundo Lula: soberania em tempos de guerra híbrida
Há
momentos em que um discurso político vale menos pelas palavras escolhidas do
que pela maneira como organiza o mundo. Foi isso que me chamou atenção ao ouvir
Lula na ONU. Ele não usou a expressão guerra híbrida. Não precisava. Falou de
tarifas como instrumento de coerção, interferência eleitoral, plataformas
digitais, inteligência artificial, desinformação, sistemas de pagamento,
minerais estratégicos, crime transnacional e presença militar estrangeira.
Temas que a política costuma distribuir em gavetas diferentes, mas que já não
funcionam separados.
Quem
procura a guerra apenas onde há soldados, tanques e mísseis continua olhando o
século XXI com os olhos do século XX. A força militar permanece como a
expressão mais brutal do poder, mas deixou há muito tempo de ser sua única
linguagem. Um Estado pode ser pressionado sem que um soldado atravesse a
fronteira. Pode perder margem de decisão pela dependência financeira,
tecnológica, informacional ou logística. Pode conservar intacto o mapa do país
e, ainda assim, descobrir que boa parte das decisões fundamentais já não passa
inteiramente por ele.
Por
isso a fórmula “soberania ou subordinação” me pareceu a chave do discurso. Não
como recurso de tribuna, mas como definição de um problema histórico.
Soberania, hoje, não se mede apenas pela integridade do território. Mede-se
pela capacidade concreta de decidir quando poder econômico, tecnológico,
informacional e militar se cruzam. A guerra não abandonou o território. O
território da guerra é que se expandiu.
É aí
que a ideia de guerra híbrida recupera sentido. O termo foi banalizado a ponto
de caber em quase tudo, e justamente por isso precisa ser usado com rigor. Uma
sanção, uma tarifa ou uma campanha de desinformação, isoladamente, não bastam
para definir uma guerra híbrida. O ponto está na combinação dos instrumentos e
no objetivo político que os organiza. Finanças, informação, tecnologia,
diplomacia, pressão econômica e força militar podem operar sobre a mesma
vulnerabilidade. As próprias doutrinas contemporâneas de segurança tratam essa
sobreposição como parte central das ameaças híbridas.
Nada
disso significa que o algoritmo substituiu o míssil. Gaza e Ucrânia lembram
todos os dias o contrário. O que mudou foi o tamanho do arsenal. Uma cadeia
tecnológica pode produzir dependência. Uma plataforma pode alterar a circulação
da informação. Uma infraestrutura crítica controlada de fora pode se converter
em instrumento de pressão numa crise. Uma sociedade submetida continuamente à
manipulação informacional pode ter sua capacidade de escolha corroída antes que
qualquer fronteira física seja tocada.
É nesse
mapa que Pix, Big Techs, minerais críticos e tarifas começam a fazer sentido
juntos. Todos tocam o controle dos fluxos que sustentam a vida material de uma
sociedade. Dinheiro, informação, tecnologia, energia, matéria-prima. Quem
controla os nós decisivos desses circuitos ganha poder para impor custos e
estreitar as escolhas do outro.
O caso
do Pix tornou essa disputa visível. Em 2026, a investigação comercial dos
Estados Unidos contra o Brasil reuniu comércio digital, decisões envolvendo
plataformas, serviços eletrônicos de pagamento e política tarifária. O USTR
sustentou que políticas brasileiras favoreciam um “campeão nacional” nos
pagamentos eletrônicos. Quando Lula fala na ONU de tarifas usadas como coerção,
defende o Pix e, na mesma arquitetura de discurso, enfrenta o poder das Big
Techs, há uma disputa concreta por trás das palavras. Não se trata apenas de
mercado. Trata-se de quem controla infraestruturas pelas quais circulam
dinheiro, informação e poder.
Com os
minerais críticos ocorre algo semelhante. Seis dias antes da Assembleia, o
Brasil havia sancionado uma política nacional que trata dependência externa,
riscos geopolíticos e gargalos tecnológicos como questões estratégicas. Na ONU,
Lula afirmou que o acesso aos minerais brasileiros deveria vir acompanhado de
geração de valor no país, transferência de tecnologia e atendimento a setores
nacionais estratégicos. Possuir a reserva, sozinho, vale pouco se o
conhecimento, o processamento industrial e a cadeia de valor permanecem sob
controle de outros.
Durante
muito tempo aprendemos a reconhecer soberania olhando para o mapa. Hoje é
preciso olhar para a infraestrutura. Um país pode ter fronteiras intactas e
depender de fora para processar dados, movimentar pagamentos, produzir
tecnologias essenciais, organizar sua comunicação ou transformar os próprios
recursos naturais. A bandeira continua no mastro. Formalmente, o Estado
continua ali. Materialmente, porém, sua margem de decisão pode ter encolhido.
Isso
não leva necessariamente ao fechamento. E esse cuidado aparece no próprio
discurso. Lula fala em comércio, investimento, integração e cooperação
internacional. O conflito não está entre isolamento e abertura. Está nas
condições em que a interdependência é construída. Há uma diferença entre
negociar com parceiros e entrar numa relação em que o resultado já vem
condicionado pela assimetria de poder.
A
passagem sobre o crime organizado resume bem essa diferença. Lula rejeita
forças estrangeiras assumindo funções que pertencem ao Estado brasileiro e diz
que o país não precisa de “porta-aviões vigiando nossas águas”. Pede cooperação
para interromper fluxos de armas e dinheiro. A palavra importante é cooperação.
Soberania não significa fazer tudo sozinho. Significa poder definir os termos
da cooperação sem aceitar tutela.
Para os
países do Sul Global, esse talvez seja o ponto mais sensível. A velha periferia
fornecia matéria-prima, importava tecnologia, absorvia decisões tomadas nos
centros de poder e chamava isso de integração. O século XXI acrescentou novas
camadas a essa dependência. Dados, plataformas, sistemas financeiros,
semicondutores, nuvem, inteligência artificial e minerais críticos passaram a
compor a infraestrutura da soberania. A pergunta deixou de ser apenas quem
possui o território. Passou a ser quem controla aquilo que faz o território
funcionar.
Por
isso o final do discurso importa. Lula começa diante de guerras abertas e
termina falando de eleições, desinformação e interferência sobre a vontade
popular. O percurso vai do campo de batalha à disputa pela percepção. Não vejo
isso como acaso retórico. É uma leitura do poder contemporâneo. A defesa de um
país passa pelo mar territorial e pelo ambiente digital, pela indústria e pela
informação, pelas Forças Armadas e pelas infraestruturas invisíveis que
organizam a vida cotidiana.
Foi
essa a novidade política que encontrei no discurso. Soberania deixa de ser
palavra de cerimônia e volta a significar capacidade material de decisão. No
século XXI, o poder corre por cabos, plataformas, cadeias logísticas, sistemas
financeiros, minerais e redes de informação muito antes de chegar ao campo de
batalha. Do porta-aviões ao algoritmo, é nessa geografia que a soberania está
sendo disputada.
• A coragem de dizer o que muitos preferem
calar. Por Pedro Benedito Maciel Neto
Há
discursos que são feitos apenas para serem aplaudidos, contudo, há discursos
que são feitos porque alguém entende que certas coisas precisam ser ditas,
ainda que incomodem.
O
discurso de Lula na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, nesta
terça-feira, pertence, a meu ver, a essa segunda categoria.
Não
porque seja um discurso perfeito. Não porque todos concordem com cada uma de
suas afirmações. E muito menos porque um presidente deva ser poupado da crítica
– democracia não funciona assim -, contudo, é preciso reconhecer uma coisa:
Lula teve coragem de falar diante do mundo sobre aquilo que muitos líderes
preferem contornar.
E fez
isso diante do próprio centro do poder internacional.
Dirigiu-se,
inclusive, ao secretário-geral António Guterres, que encerra sua passagem pela
ONU depois de anos testemunhando o enfraquecimento do multilateralismo, a
multiplicação das guerras e a dificuldade das Nações Unidas de impor limites à
lógica do poder.
Lula
não fez um discurso burocrático, muito pelo contrário.
Disse
que a ONU está falhando em sua missão de livrar a humanidade do flagelo da
guerra. Criticou o imobilismo do Conselho de Segurança. Questionou o direito de
veto das grandes potências e lembrou que o Brasil já alertava, desde 1946, para
os riscos de entregar a poucos países o poder de bloquear decisões da maioria,
um importante resgate histórico, foi uma afirmação dura.
Mas é
também uma afirmação que está no centro do problema contemporâneo: como
construir uma ordem internacional baseada em regras quando aqueles que deveriam
fazer cumprir as regras também podem bloqueá-las?
Lula
foi além, ele disse que as concessões à lei do mais forte passaram dos limites
e produziu uma frase que merece ser lembrada: “A guerra não é a continuação da
política por outros meios. É a falência total da política.”
Pode-se
concordar ou discordar da formulação. Mas não há como negar sua clareza.
Num
mundo acostumado a transformar guerras em estatísticas, territórios em zonas de
influência e vidas humanas em danos colaterais, Lula recolocou a política no
seu lugar original: o lugar da negociação, da diplomacia e da tentativa de
evitar que a força substitua a razão.
Também
não se escondeu diante da tragédia do Oriente Médio.
Condenou
os atos terroristas do Hamas contra civis israelenses e, ao mesmo tempo,
denunciou o sofrimento dos palestinos em Gaza e defendeu a solução de dois
Estados. Criticou os assentamentos na Cisjordânia, defendeu o Tribunal Penal
Internacional e afirmou que seus integrantes não podem ser perseguidos por
cumprir sua função.
Mais
uma vez, escolheu um caminho que não é confortável, seria mais fácil escolher
um lado absoluto do que reconhecer que há vidas humanas dos dois lados e é
justamente aí que a diplomacia se torna difícil.
O mesmo
aconteceu quando Lula falou da América Latina: “O Brasil não cabe no quintal de
ninguém”, a frase recebeu aplausos na Assembleia.
Mais
importante do que a frase, porém, é o princípio que ela expressa: soberania não
significa hostilidade, significa que países independentes têm o direito de
construir seus próprios caminhos.
O
Brasil pode e deve cooperar com os Estados Unidos, com a China, com a Europa,
com nossos vizinhos latino-americanos e com qualquer país disposto ao diálogo,
mas cooperação não é submissão, aliança não é tutela e, por fim, amizade entre
nações não exige que uma delas aceite ocupar posição subalterna.
Lula
também falou de crime organizado, inteligência artificial, clima, fome,
desigualdade, regulação das grandes plataformas digitais, transição energética,
trabalho e reforma da governança internacional.
Pode-se
discutir cada uma dessas propostas – e devemos discuti-las -, mas há algo maior
no conjunto do discurso: a tentativa de recolocar a política no comando da
história.
Em
tempos nos quais grandes corporações tecnológicas possuem poder extraordinário,
guerras são decididas por governos que dispõem de arsenais capazes de destruir
países inteiros e as redes sociais permitem que a mentira circule em velocidade
superior à capacidade de investigação dos fatos, a política não pode
simplesmente assistir, precisa regular, estabelecer limites e, sobretudo,
recuperar a capacidade de imaginar um mundo diferente daquele que os poderosos
dizem ser inevitável.
Talvez
seja essa a maior coragem do discurso de Lula. Não a coragem de enfrentar este
ou aquele governo, mas a coragem de dizer, diante dos donos do poder, que o
mundo não precisa aceitar como natural aquilo que é apenas resultado de
relações históricas de poder.
O
Conselho de Segurança pode ser reformado; a governança internacional pode ser
democratizada; a diplomacia pode voltar a ocupar o lugar que hoje é ocupado
pelas armas; a pobreza não precisa ser aceita como destino; a fome não precisa
existir em um planeta que produz alimentos suficientes; a tecnologia não
precisa estar acima da sociedade e a soberania dos países do Sul Global não
precisa ser tratada como concessão das grandes potências.
São
posições políticas. E, justamente por serem políticas, podem e devem ser
debatidas.
Mas há
uma diferença entre discordar de uma ideia e fingir que ela não foi
apresentada.
O
discurso de Lula não fugiu do debate, ao contrário, ele colocou sobre a mesa
questões que incomodam porque mexem com interesses concretos e talvez seja
exatamente isso que se espera de um presidente quando sobe à tribuna mais
importante da diplomacia mundial.
Não que
agrade a todos, não que seja unanimidade, mas que tenha algo a dizer, que diga
com clareza e que tenha disposição para dizer diante dos poderosos aquilo que
diria diante dos seus.
Num
tempo de guerras, unilateralismos, nacionalismos agressivos, desigualdade e
descrença nas instituições multilaterais, talvez a primeira condição para
reconstruir alguma esperança seja esta: não aceitar o silêncio como sinônimo de
prudência.
Há
momentos em que a prudência aconselha esperar e há momentos em que esperar é
simplesmente permitir que o poder continue fazendo aquilo que sempre fez, na
ONU, Lula escolheu falar e falou de frente.
Isso,
por si só, merece ser compreendido e debatido.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

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