quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Futebol: os trabalhadores precarizados das bets

A indústria de bets tornou-se um dos principais financiadores da cadeia produtiva que transforma partidas de futebol em dados. Duas das maiores empresas globais do setor, a Sportradar e a Genius Sports têm respectivamente 81% e 70% de sua receita concentrados em segmentos voltados ao mercado de bets. Em contraste, na Genius, por exemplo, o segmento voltado a clubes, ligas e outras organizações esportivas responde por apenas 8% do faturamento e cresceu, em 2025, cerca de seis vezes mais devagar que o segmento de bets.

Tenho pesquisado essa cadeia no projeto Trabalhadores de Tecnologia do Futebol. Há estimativas de que um clube profissional de elite gere atualmente entre 18 e 22 milhões de pontos de dados por semana. Mas esses dados não são produzidos nem circulam espontaneamente. O futebol depende de uma cadeia de dados que envolve empresas fornecedoras, como as citadas acima, e um exército de anotadores e coletores de dados que trabalham remotamente e em campo, em países como Índia, Egito, Madagascar e Filipinas, além do Brasil.

Os tipos de dados são diversos, sendo os dados de eventos e de tracking (rastreamento) os mais comuns. Os dados de eventos classificam o que aconteceu, como falta, escanteio, chute a gol, e em geral são produzidos por pessoas que assistem às partidas e etiquetam as ações, seja remota ou presencialmente. O rastreamento óptico, por sua vez, mede as posições dos jogadores e da bola por meio de câmeras, a 25 quadros por segundo ou mais. Os dados ao vivo para bets constituem um subconjunto dos dados de eventos e são priorizados pela velocidade: se há um cartão amarelo, há uma pressão para registrá-lo no mesmo segundo. Todos esses circuitos são comercializados como serviços de dados por empresas como as já citadas, além de outras, como Hudl e SkillCorner.

O principal comprador desses dados ao vivo são as empresas de bets. A Genius Sports informa a seus investidores que pode ser remunerada de duas maneiras. No modelo fixo, a empresa de bets se compromete a pagar um valor mínimo pelo acesso aos dados e serviços da Genius e, se usar mais jogos ou eventos do que o volume coberto por esse mínimo, paga valores adicionais por evento. No modelo variável, a receita da Genius fica ligada ao desempenho econômico da própria operadora: a empresa recebe uma porcentagem da receita bruta ou líquida de jogo. Nos primeiros nove meses de 2025, a Genius reconheceu US$ 69,5 milhões em receitas desse tipo de contrato. A Sportradar descreve em seu relatório anual um arranjo semelhante, com “acordos de participação na receita com nossos clientes, nos quais dividimos uma parte da renda gerada por um produto ou serviço”. Em determinados contratos de bets, a empresa recebe uma parcela da receita gerada pelas próprias apostas e reconhece essa receita quando a operadora ganha dinheiro com elas. Na prática, as empresas de dados não recebem apenas uma taxa fixa por seus serviços. Em parte dos contratos, quanto mais a casa de bets ganha, mais a fornecedora de dados também ganha.

Esse dinheiro volta ao futebol organizado pela compra de direitos. Em 2025, a Sportradar registrou € 404,3 milhões em despesas com direitos esportivos, incluindo a amortização de contratos de longo prazo. Para ter uma ideia da escala, a Catapult, uma das maiores empresas de tecnologia de desempenho, faturou US$ 140,7 milhões no mesmo período, atendendo mais de 5.500 equipes no mundo.

Em algumas ligas, a Genius Sports fornece tecnologias e soluções de software em troca dos direitos oficiais sobre os dados das competições. A empresa explica que esse tipo de acordo é comum em algumas competições: em vez de receber pagamento integral em dinheiro, a liga obtém tecnologia para sua própria operação e cede à Genius o direito de coletar e comercializar os dados de suas partidas, além de, em alguns casos, receber pequenos valores em dinheiro. A Genius transforma então esses direitos em receita ao vender os dados a casas de bets e outros clientes.

No Brasil, essas empresas aparecem em dois contratos com a CBF. O primeiro, com a Sportradar, é de monitoramento de integridade: um serviço que acompanha as movimentações do mercado de bets em busca de padrões suspeitos de manipulação de resultados. Segundo a própria Sportradar, o acordo cobre “mais de 8.200 partidas masculinas e femininas organizadas anualmente pela CBF”, e, somado ao monitoramento feito pela FIFA, alcança mais de dez mil jogos brasileiros por temporada. A amplitude dessa vigilância acompanha a amplitude do universo de competições em que as bets estão envolvidas. O segundo contrato, com a Genius Sports, entrou em operação no Brasileirão em 25 de julho de 2026. Além do impedimento semiautomático, ele inclui rastreamento de jogadores, árbitros e bola, uma plataforma de análise tática e de desempenho, e entre 28 e 32 câmeras instaladas em cada estádio. Os termos financeiros não são públicos. O que se pode observar é que a mesma empresa está presente na arbitragem, na análise de desempenho e no mercado de bets, por meio de relações diferentes com instituições diferentes. Por isso essas empresas têm tanto poder na cadeia de valor de dados no futebol.

E em relação aos trabalhadores que coletam e anotam esses dados? Ao descrever seu produto de dados ao vivo, a Sportradar afirma que “nossos 12.600 scouts vêm coletando mais dados ao vivo do que qualquer outra empresa do ramo”, em mais de 900 mil eventos de 32 esportes por ano. A Genius Sports é mais explícita em seu relatório anual de 2025: “atualmente dependemos de scouts de dados na maioria de nossos contratos com ligas para comparecer aos eventos e coletar dados”. A empresa reconhece que esse trabalho presencial pode envolver riscos físicos, e relata casos de intimidação e ameaças contra seus anotadores de dados com o objetivo de interromper ou atrasar a coleta de dados em tempo real nos estádios.

Esse trabalho é pago por partida, e o valor varia conforme o país. A Genius anuncia pagamento fixo por jogo entre € 70 e € 80 em vagas na Inglaterra, com contrato de prestador independente, e mantém uma rede global de trabalhadores com vagas semelhantes em Manila, Santiago, Bogotá e Joanesburgo. Uma investigação do Play the Game, publicada em dezembro de 2025, encontrou vagas da Genius para futebol nas Ilhas Salomão a € 50 por jogo e recrutamento em Burundi, Malawi, Libéria, Tanzânia e Curaçao. No arquipélago de Seicheles, no Oceano Índico, um scout que trabalha para a Stats Perform anunciou no Facebook vagas para coletar dados de futebol, futsal, basquete, vôlei e handebol, a € 30 ou € 40 por jogo, conforme o esporte e a liga. Segundo a reportagem, as ligas em que esses scouts atuam em geral não venderam seus direitos de dados e não parecem saber que há coletores em seus jogos.

No Brasil, segundo o pesquisador Julio Souto Salom, um scout de dados ganha cerca de R$ 300 por partida, por quatro a cinco horas de trabalho incluindo o deslocamento. Souto Salom descreve também como essa força de trabalho é gerida. Depois de cada jogo, o scout recebe uma nota de 1 a 5, que fica registrada em seu perfil na plataforma da empresa. Notas negativas “podem implicar o não pagamento da partida ou até o desligamento da plataforma”. Em seus anúncios de vaga, a Genius Sports oferece pagamento fixo por jogo e “a chance de um aumento com base na experiência, por meio do nosso sistema de ranking gamificado”.

Um coletor de dados do Rio de Janeiro que trabalha para uma empresa estrangeira de dados esportivos recebe cerca de € 60 por partida, além do transporte, segundo reportagem da Rest of World. Ele cobre jogos menores, muitos deles sem transmissão, anotando gols, escanteios, cartões e pênaltis no aplicativo da contratante. Os dados precisam ser enviados em tempo real, sob pena de desconto: “Eles precisam de dados em tempo real para ajustar as odds ao longo da partida, sem esperar pela súmula oficial, que às vezes demora dias”.

Parte dos custos desse trabalho recai sobre o próprio trabalhador. Um anúncio de vaga na Inglaterra da FeedConstruct, empresa que fornece dados a casas de bets, exige que o coletor de dados tenha dois celulares para usar durante as partidas: um aparelho Android, dedicado a inserir os dados no aplicativo da empresa, e outro para falar em tempo real com a equipe de suporte. O pagamento, como nos outros casos, é por partida.

O trabalho humano de registrar partidas também existe fora do mercado de bets, voltado a torcedores, clubes e jogos eletrônicos. Em 2017, a Footstats, de São Paulo, descrevia uma operação em que uma equipe de profissionais da empresa acompanhava pela televisão todos os jogos dos principais campeonatos estaduais e nacionais e inseria os dados em tempo real. A E-Scout, de Belo Horizonte, avalia as categorias de base para clubes e informa ter mais de 20 analistas treinados, que assistem em vídeo a mais de 200 jogos por mês, com mais de 20 mil atletas avaliados e cobertura ativa em 15 estados. O acesso é vendido por usuário, com assinaturas mensais entre R$ 1.875 e R$ 2.500.

Nesses circuitos, a remuneração pode ser ainda menor, e chegar a zero. A Sports Interactive, estúdio do grupo Sega responsável pelo jogo Football Manager, mantém uma das bases de jogadores mais consultadas do mundo com uma rede de mais de 1.600 avaliadores, e avisa na própria página de recrutamento que “ser pesquisador assistente não é uma função remunerada, mas pode ser incrivelmente gratificante”. A Soccerdonna, criada pelo Transfermarkt em 2010 e apresentada como a maior base de dados de futebol feminino, reunia em março de 2025 cerca de 103 mil registros de jogadoras e 81 mil súmulas, compilados por voluntários.

No mercado de bets, o movimento é o de levar a coleta a cada vez mais jogos, especialmente fora dos grandes campeonatos. Uma reportagem anterior do Play the Game, de 2023, apontou que mais da metade dos jogos oferecidos para aposta ao vivo vinha de ligas semiprofissionais, amadoras, juvenis e regionais. Quando nem essas partidas bastam, o mercado cria as suas. A SIS, empresa que fornece conteúdo para casas de apostas britânicas 24 horas por dia, contrata pessoas por evento, incluindo fins de semana e madrugadas, para disputar torneios de videogames FIFA e PES transmitidos como eventos de aposta. O anúncio paga £ 12,71 por hora, com adicional de £ 3,11 nos turnos entre 23h e 6h.

Ao mesmo tempo, as empresas calculam por quanto tempo ainda vão precisar dessas pessoas. No mesmo relatório anual de 2025 em que admite depender de anotadores e coletdores de dados, a Genius Sports diz a seus investidores que pretende instalar nos estádios sistemas para “substituir a coleta manual de dados por coleta automatizada”. Em 5 de setembro de 2025, numa conferência do banco Citi, o diretor financeiro da empresa, Nick Taylor, foi mais direto: “A gente gasta, sei lá, US$ 15 milhões mandando gente aos jogos para coletar dados. Isso vai ser substituído rapidamente por IA. Olha, eu sou o diretor financeiro. Fico feliz em pôr US$ 15 milhões a mais no meu EBITDA e no meu fluxo de caixa livre a qualquer dia da semana”. Há empresas que já vendem essa substituição. A Mettle Data, de Londres, promete “substituir a marcação manual por anotação de partidas totalmente automatizada e de alta precisão”, com dados “gerados sem intervenção humana”, justamente “nas competições que ninguém transmite, nos mercados que os outros deixaram em branco”.

Quando se discute a relação entre bets e futebol, a atenção costuma ficar no patrocínio estampado nas camisas, na publicidade, nos podcasts e nos influenciadores. Mas as bets dependem também de uma imensa cadeia de dados que faz parte da indústria do futebol. Ela envolve direitos sobre dados, câmeras, sistemas de rastreamento, plataformas de análise de dados e uma força de trabalho de dados espalhada pelo mundo. Essa cadeia produtiva também serve aos clubes, que usam dados para analisar desempenho, contratar jogadores e tomar decisões sobre saúde e tática. Mas os maiores fluxos de receita das principais empresas que a controlam vêm das bets. Há, portanto, uma assimetria importante nessa cadeia. O futebol produz a matéria-prima, clubes e jogadores geram os eventos que se transformam em dados, e milhares de trabalhadores os coletam, anotam e verificam. Mas uma parcela central do valor econômico dessa cadeia é capturada num mercado construído para transformar esses dados em apostas. Para falar de bets no futebol, é preciso também falar de quem produz e anota os dados, quem controla sua circulação e quem ganha dinheiro com eles.

 

Fonte: Por Rafael Grohmann, em Outras Palavras

 

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