Futebol:
os trabalhadores precarizados das bets
A
indústria de bets tornou-se um dos principais financiadores da cadeia produtiva
que transforma partidas de futebol em dados. Duas das maiores empresas globais
do setor, a Sportradar e a Genius Sports têm respectivamente 81% e 70% de sua
receita concentrados em segmentos voltados ao mercado de bets. Em contraste, na
Genius, por exemplo, o segmento voltado a clubes, ligas e outras organizações
esportivas responde por apenas 8% do faturamento e cresceu, em 2025, cerca de
seis vezes mais devagar que o segmento de bets.
Tenho
pesquisado essa cadeia no projeto Trabalhadores de Tecnologia do Futebol. Há
estimativas de que um clube profissional de elite gere atualmente entre 18 e 22
milhões de pontos de dados por semana. Mas esses dados não são produzidos nem
circulam espontaneamente. O futebol depende de uma cadeia de dados que envolve
empresas fornecedoras, como as citadas acima, e um exército de anotadores e
coletores de dados que trabalham remotamente e em campo, em países como Índia,
Egito, Madagascar e Filipinas, além do Brasil.
Os
tipos de dados são diversos, sendo os dados de eventos e de tracking
(rastreamento) os mais comuns. Os dados de eventos classificam o que aconteceu,
como falta, escanteio, chute a gol, e em geral são produzidos por pessoas que
assistem às partidas e etiquetam as ações, seja remota ou presencialmente. O
rastreamento óptico, por sua vez, mede as posições dos jogadores e da bola por
meio de câmeras, a 25 quadros por segundo ou mais. Os dados ao vivo para bets
constituem um subconjunto dos dados de eventos e são priorizados pela
velocidade: se há um cartão amarelo, há uma pressão para registrá-lo no mesmo
segundo. Todos esses circuitos são comercializados como serviços de dados por
empresas como as já citadas, além de outras, como Hudl e SkillCorner.
O
principal comprador desses dados ao vivo são as empresas de bets. A Genius
Sports informa a seus investidores que pode ser remunerada de duas maneiras. No
modelo fixo, a empresa de bets se compromete a pagar um valor mínimo pelo
acesso aos dados e serviços da Genius e, se usar mais jogos ou eventos do que o
volume coberto por esse mínimo, paga valores adicionais por evento. No modelo
variável, a receita da Genius fica ligada ao desempenho econômico da própria
operadora: a empresa recebe uma porcentagem da receita bruta ou líquida de
jogo. Nos primeiros nove meses de 2025, a Genius reconheceu US$ 69,5 milhões em
receitas desse tipo de contrato. A Sportradar descreve em seu relatório anual
um arranjo semelhante, com “acordos de participação na receita com nossos
clientes, nos quais dividimos uma parte da renda gerada por um produto ou
serviço”. Em determinados contratos de bets, a empresa recebe uma parcela da
receita gerada pelas próprias apostas e reconhece essa receita quando a
operadora ganha dinheiro com elas. Na prática, as empresas de dados não recebem
apenas uma taxa fixa por seus serviços. Em parte dos contratos, quanto mais a
casa de bets ganha, mais a fornecedora de dados também ganha.
Esse
dinheiro volta ao futebol organizado pela compra de direitos. Em 2025, a
Sportradar registrou € 404,3 milhões em despesas com direitos esportivos,
incluindo a amortização de contratos de longo prazo. Para ter uma ideia da
escala, a Catapult, uma das maiores empresas de tecnologia de desempenho,
faturou US$ 140,7 milhões no mesmo período, atendendo mais de 5.500 equipes no
mundo.
Em
algumas ligas, a Genius Sports fornece tecnologias e soluções de software em
troca dos direitos oficiais sobre os dados das competições. A empresa explica
que esse tipo de acordo é comum em algumas competições: em vez de receber
pagamento integral em dinheiro, a liga obtém tecnologia para sua própria
operação e cede à Genius o direito de coletar e comercializar os dados de suas
partidas, além de, em alguns casos, receber pequenos valores em dinheiro. A
Genius transforma então esses direitos em receita ao vender os dados a casas de
bets e outros clientes.
No
Brasil, essas empresas aparecem em dois contratos com a CBF. O primeiro, com a
Sportradar, é de monitoramento de integridade: um serviço que acompanha as
movimentações do mercado de bets em busca de padrões suspeitos de manipulação
de resultados. Segundo a própria Sportradar, o acordo cobre “mais de 8.200
partidas masculinas e femininas organizadas anualmente pela CBF”, e, somado ao
monitoramento feito pela FIFA, alcança mais de dez mil jogos brasileiros por
temporada. A amplitude dessa vigilância acompanha a amplitude do universo de
competições em que as bets estão envolvidas. O segundo contrato, com a Genius
Sports, entrou em operação no Brasileirão em 25 de julho de 2026. Além do
impedimento semiautomático, ele inclui rastreamento de jogadores, árbitros e
bola, uma plataforma de análise tática e de desempenho, e entre 28 e 32 câmeras
instaladas em cada estádio. Os termos financeiros não são públicos. O que se
pode observar é que a mesma empresa está presente na arbitragem, na análise de
desempenho e no mercado de bets, por meio de relações diferentes com
instituições diferentes. Por isso essas empresas têm tanto poder na cadeia de
valor de dados no futebol.
E em
relação aos trabalhadores que coletam e anotam esses dados? Ao descrever seu
produto de dados ao vivo, a Sportradar afirma que “nossos 12.600 scouts vêm
coletando mais dados ao vivo do que qualquer outra empresa do ramo”, em mais de
900 mil eventos de 32 esportes por ano. A Genius Sports é mais explícita em seu
relatório anual de 2025: “atualmente dependemos de scouts de dados na maioria
de nossos contratos com ligas para comparecer aos eventos e coletar dados”. A
empresa reconhece que esse trabalho presencial pode envolver riscos físicos, e
relata casos de intimidação e ameaças contra seus anotadores de dados com o
objetivo de interromper ou atrasar a coleta de dados em tempo real nos
estádios.
Esse
trabalho é pago por partida, e o valor varia conforme o país. A Genius anuncia
pagamento fixo por jogo entre € 70 e € 80 em vagas na Inglaterra, com contrato
de prestador independente, e mantém uma rede global de trabalhadores com vagas
semelhantes em Manila, Santiago, Bogotá e Joanesburgo. Uma investigação do Play
the Game, publicada em dezembro de 2025, encontrou vagas da Genius para futebol
nas Ilhas Salomão a € 50 por jogo e recrutamento em Burundi, Malawi, Libéria,
Tanzânia e Curaçao. No arquipélago de Seicheles, no Oceano Índico, um scout que
trabalha para a Stats Perform anunciou no Facebook vagas para coletar dados de
futebol, futsal, basquete, vôlei e handebol, a € 30 ou € 40 por jogo, conforme
o esporte e a liga. Segundo a reportagem, as ligas em que esses scouts atuam em
geral não venderam seus direitos de dados e não parecem saber que há coletores
em seus jogos.
No
Brasil, segundo o pesquisador Julio Souto Salom, um scout de dados ganha cerca
de R$ 300 por partida, por quatro a cinco horas de trabalho incluindo o
deslocamento. Souto Salom descreve também como essa força de trabalho é gerida.
Depois de cada jogo, o scout recebe uma nota de 1 a 5, que fica registrada em
seu perfil na plataforma da empresa. Notas negativas “podem implicar o não
pagamento da partida ou até o desligamento da plataforma”. Em seus anúncios de
vaga, a Genius Sports oferece pagamento fixo por jogo e “a chance de um aumento
com base na experiência, por meio do nosso sistema de ranking gamificado”.
Um
coletor de dados do Rio de Janeiro que trabalha para uma empresa estrangeira de
dados esportivos recebe cerca de € 60 por partida, além do transporte, segundo
reportagem da Rest of World. Ele cobre jogos menores, muitos deles sem
transmissão, anotando gols, escanteios, cartões e pênaltis no aplicativo da
contratante. Os dados precisam ser enviados em tempo real, sob pena de
desconto: “Eles precisam de dados em tempo real para ajustar as odds ao longo
da partida, sem esperar pela súmula oficial, que às vezes demora dias”.
Parte
dos custos desse trabalho recai sobre o próprio trabalhador. Um anúncio de vaga
na Inglaterra da FeedConstruct, empresa que fornece dados a casas de bets,
exige que o coletor de dados tenha dois celulares para usar durante as
partidas: um aparelho Android, dedicado a inserir os dados no aplicativo da
empresa, e outro para falar em tempo real com a equipe de suporte. O pagamento,
como nos outros casos, é por partida.
O
trabalho humano de registrar partidas também existe fora do mercado de bets,
voltado a torcedores, clubes e jogos eletrônicos. Em 2017, a Footstats, de São
Paulo, descrevia uma operação em que uma equipe de profissionais da empresa
acompanhava pela televisão todos os jogos dos principais campeonatos estaduais
e nacionais e inseria os dados em tempo real. A E-Scout, de Belo Horizonte,
avalia as categorias de base para clubes e informa ter mais de 20 analistas
treinados, que assistem em vídeo a mais de 200 jogos por mês, com mais de 20
mil atletas avaliados e cobertura ativa em 15 estados. O acesso é vendido por
usuário, com assinaturas mensais entre R$ 1.875 e R$ 2.500.
Nesses
circuitos, a remuneração pode ser ainda menor, e chegar a zero. A Sports
Interactive, estúdio do grupo Sega responsável pelo jogo Football Manager,
mantém uma das bases de jogadores mais consultadas do mundo com uma rede de
mais de 1.600 avaliadores, e avisa na própria página de recrutamento que “ser
pesquisador assistente não é uma função remunerada, mas pode ser incrivelmente
gratificante”. A Soccerdonna, criada pelo Transfermarkt em 2010 e apresentada
como a maior base de dados de futebol feminino, reunia em março de 2025 cerca
de 103 mil registros de jogadoras e 81 mil súmulas, compilados por voluntários.
No
mercado de bets, o movimento é o de levar a coleta a cada vez mais jogos,
especialmente fora dos grandes campeonatos. Uma reportagem anterior do Play the
Game, de 2023, apontou que mais da metade dos jogos oferecidos para aposta ao
vivo vinha de ligas semiprofissionais, amadoras, juvenis e regionais. Quando
nem essas partidas bastam, o mercado cria as suas. A SIS, empresa que fornece
conteúdo para casas de apostas britânicas 24 horas por dia, contrata pessoas
por evento, incluindo fins de semana e madrugadas, para disputar torneios de
videogames FIFA e PES transmitidos como eventos de aposta. O anúncio paga £
12,71 por hora, com adicional de £ 3,11 nos turnos entre 23h e 6h.
Ao
mesmo tempo, as empresas calculam por quanto tempo ainda vão precisar dessas
pessoas. No mesmo relatório anual de 2025 em que admite depender de anotadores
e coletdores de dados, a Genius Sports diz a seus investidores que pretende
instalar nos estádios sistemas para “substituir a coleta manual de dados por
coleta automatizada”. Em 5 de setembro de 2025, numa conferência do banco Citi,
o diretor financeiro da empresa, Nick Taylor, foi mais direto: “A gente gasta,
sei lá, US$ 15 milhões mandando gente aos jogos para coletar dados. Isso vai
ser substituído rapidamente por IA. Olha, eu sou o diretor financeiro. Fico
feliz em pôr US$ 15 milhões a mais no meu EBITDA e no meu fluxo de caixa livre
a qualquer dia da semana”. Há empresas que já vendem essa substituição. A
Mettle Data, de Londres, promete “substituir a marcação manual por anotação de
partidas totalmente automatizada e de alta precisão”, com dados “gerados sem
intervenção humana”, justamente “nas competições que ninguém transmite, nos
mercados que os outros deixaram em branco”.
Quando
se discute a relação entre bets e futebol, a atenção costuma ficar no
patrocínio estampado nas camisas, na publicidade, nos podcasts e nos
influenciadores. Mas as bets dependem também de uma imensa cadeia de dados que
faz parte da indústria do futebol. Ela envolve direitos sobre dados, câmeras,
sistemas de rastreamento, plataformas de análise de dados e uma força de
trabalho de dados espalhada pelo mundo. Essa cadeia produtiva também serve aos
clubes, que usam dados para analisar desempenho, contratar jogadores e tomar
decisões sobre saúde e tática. Mas os maiores fluxos de receita das principais
empresas que a controlam vêm das bets. Há, portanto, uma assimetria importante
nessa cadeia. O futebol produz a matéria-prima, clubes e jogadores geram os eventos
que se transformam em dados, e milhares de trabalhadores os coletam, anotam e
verificam. Mas uma parcela central do valor econômico dessa cadeia é capturada
num mercado construído para transformar esses dados em apostas. Para falar de
bets no futebol, é preciso também falar de quem produz e anota os dados, quem
controla sua circulação e quem ganha dinheiro com eles.
Fonte:
Por Rafael Grohmann, em Outras Palavras

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