Os
matemáticos estarão extintos com a IA?
Nos
últimos dias, a comunidade matemática internacional foi tomada por uma
inquietação que há muito não se via na academia desde a derrubada do projeto
logicista no início do século XX. Entendemos isso como a perplexidade diante de
uma lacuna profunda no conhecimento científico: a fratura entre aquilo que é
verdadeiro e aquilo que pode ser conhecido. Se os teoremas de Gödeli já haviam
abalado consideravelmente a moral dos matemáticos naquele momento, o
desenvolvimento contínuo de sistemas artificiais, conhecidos como LLMs (large
language models), vem minando o que ainda restou da confiança matemática na
capacidade racional do pensamento humano.
Dessa
vez, o dilema não reside no que pode ser ou não decidido por algoritmos
mecânicos formalizados, mas na própria inteligibilidade do que foi formalizado
como verdadeiro por algum sistema artificial: a solução das equações de
Navier-Stokes é a mais recente evidência de que estamos passando por uma quebra
de paradigmas na matemática pura. No início dos anos 2000, o Clay Mathematics
Institute havia proposto uma lista de 7 problemas que valiam 1 milhão de
dólares para quem apresentasse uma prova correta de algum deles – e dentre
estes problemas, constavam as equações de Navier-Stokes.
Imediatamente,
surgiu a questão de quem levaria o prêmio por essa descoberta, visto que a
OpenAI afirmou que recusaria a premiação em dinheiro, até porque isso seria
ínfimo comparado aos lucros da empresa. Mas isso, por si só, não constitui a
totalidade do problema. Exatamente um dia antes da empresa de tecnologia
publicar seus resultados, o mais conhecido matemático da atualidade, Terence
Tao, publicou um artigo de opinião em que explicitava suas reflexões sobre as
polêmicas até então emergentes. Resumidamente, Tao acredita corretamente que os
teoremas matemáticos verdadeiros só possuem alguma validade prática se pudermos
entender suas provas e aplicações.
Ou
seja, a afirmação do matemático americano nos leva ao seguinte aspecto dessa
polêmica: nenhum acadêmico atual, em quaisquer níveis das ciências formais,
sabe dizer precisamente se a prova apresentada pela OpenAI é verdadeira,
sobretudo porque o artigo contém uma linguagem extremamente técnica e complexa,
até mesmo para a verificação de especialistas. No próprio website do Instituto
Clay vemos que se pode levar anos até que uma prova seja aceita e,
consequentemente, o prêmio seja concedido ao cientista que propôs a
demonstração.
No
entanto, a notícia de que um problema do milênio foi resolvido soou como uma
pena capital à profissão do matemático. Diversas empresas de tecnologia,
incluindo a própria OpenAI, usam desse fenômeno para vender a ideia de que o
mundo não precisa mais de matemáticos, uma vez que seus sistemas artificiais
conseguem ser muito mais produtivos e eficientes que um ser humano. E esse não
é um discurso novo, pois desde a primeira revolução industrial, os
trabalhadores se deparam constantemente com inovações tecnológicas que são
vendidas como benéficas, mas que na verdade servem de disfarce para alguma
regressão dos direitos sociais do trabalho.
O
ludismo foi um movimento característico que nos dá uma luz sobre esse assunto.
Nesse movimento britânico do século XIX, os trabalhadores protestaram
destruindo as máquinas que aos poucos os substituíam nas fábricas e nas
indústrias têxteis. Ora, não podemos fazer o mesmo com os sistemas artificiais
de larga linguagem, pois assim como no ludismo, destruí-las em nada ajudaria na
polêmica central. Analogamente, o discurso de que devemos restringir
maximamente o uso de IAs nas atividades acadêmicas parece sofrer do mesmo mal.
O
grande poder econômico (e também político) concentrado nas grandes Big Techs já
bloqueia automaticamente um tipo de revolta como essas. Essa ofensiva, contudo,
não se apoia apenas na força bruta dos capitais que sustentam os monopólios
digitais. Ela opera também no plano ideológico e epistemológico ao disputar os
próprios critérios do que consideramos válido. Desse modo, analisando a questão
sob um ponto de vista que articula a crítica da economia política à análise
gramatical, argumentamos que a afirmação sobre o ‘fim da matemática pura’
decorre de um estabelecimento normativo implícito do que significa o trabalho
do matemático.
Adotando
a leitura inferencialista e pragmatista mobilizada nos trabalhos recentes de
Marcos Silva (UFPE/CNPq), identificamos a presença de alguns elementos
gramaticais nessa crise da matemática. Para citar um exemplo, podemos mencionar
o problema de como definir um matemático: deveríamos dizer que a função
principal do matemático é a de provar teoremas, resolver raciocínios complexos
rapidamente ou pensar em soluções para contas complicadas? Independente da
pergunta que planejamos responder, com a ascensão dos sistemas artificiais de
linguagem, tudo fica mais eficiente e mais barato para alguma empresa que
anteriormente precisaria desses cientistas.
Se o
objetivo fulcral do matemático é provar teoremas, uma IA pode fazer isso com
muito menos custo. Se o objetivo do matemático é resolver raciocínios complexos
em um tempo reduzido, mais uma vez a IA pode resolver isso com menos custo e de
forma muito mais eficiente. Podemos adicionar e/ou multiplicar os exemplos
inferenciais indefinidamente, mas sempre vai parecer que as IAs conseguem dar
um jeito muito mais rápido e prático. Justamente por esse aspecto de moldar o
que imaginamos como possível é que dizemos que o fenômeno pode ser bem
analisado segundo um ponto de vista gramatical. A fase tardia do filósofo
Wittgenstein nos presenteou com alguns conceitos que ajudam a compreender
melhor essas questões. Segundo Wittgenstein, “a essência é expressa na gramática”,
e junto com uma gramática vem o conceito de “imagem de mundo” (welt-bild).
Noutros termos, a gramática é o conjunto de regras práticas que nos autorizam a
inferir sobre algum conceito nos demais jogos de linguagem, como no caso do
matemático, por exemplo. O ponto fulcral é que as regras determinam o que pode
entrar ou não no escopo de um conceito.
Aplicando
essa filosofia ao caso da recente crise matemática, vemos que, quando a OpenAI
e empresas similares declaram o fim da profissão em debate, elas nada mais
fazem do que inferir sobre a gramática de um conceito dado: a inteligência
artificial satisfaz as condições implícitas do fazer-matemático. Assim,
independentemente do argumento que os cientistas podem elaborar, parece que os
grandes monopólios de IA vão conseguir contornar esse problema. A esse pequeno
fenômeno de recusa argumentativa damos o nome de resistência normativa.
Por
mais elaborados que sejam os raciocínios contra o uso de IA e por mais
moralmente benéficos pareçam, eles podem não ser suficientes para derrubar uma
certeza gramatical. Por outro lado, não acreditamos que essa conclusão redunda
para um pessimismo absoluto no qual apenas deveríamos aceitar as revoluções
tecnológicas em silêncio. Pelo contrário, é bem possível modificar esse cenário
atual por meio de técnicas também gramaticais, as que damos o nome de
alavancas.
Portanto,
a recente controvérsia em torno da resolução das equações de Navier-Stokes não
representa uma superação espontânea do intelecto humano, mas uma consequência
prática nociva do modo como a gramática dos estudos matemáticos está
estabelecida. Se o estudo da gramática na concepção wittgensteiniana nos ensina
que o significado de um conceito está no seu uso regulado, o materialismo
histórico-dialético nos assegura que as condições materiais de produção
determinam quem possui a soberania para ditar tais regras. Com efeito, uma
gramática prejudicial pode e deve ser alterada.
As
declarações sensacionalistas dos monopólios tecnológicos parecem não decorrer
de um avanço científico imediato, mas sim de uma tentativa de impor uma
gramática estritamente capitalista ao saber teórico e formal. Assim, contra a
resistência normativa do capital, a tarefa dos matemáticos e cientistas não
deve ser a resignação nem a destruição impotente de ferramentas, mas a
mobilização dos fulcros gramaticais certos por meio das alavancas que surgem em
contextos de disputa gramatical.
Fonte:
Por Lucas Gutemberg, em Outras Palavras

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