quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Tucídides nas Américas

“É imprescindível que os políticos cubanos tenham como estrela polar de sua conduta o princípio de nunca contrapor os interesses dos Estados Unidos aos de Cuba”. Para demonstrar essa tese, o diplomata cubano Rafael Martínez Ortiz publicou, em 1921, a tradução de um clássico do pensamento político grego: o diálogo de Melos, narrado pelo historiador Tucídides. Nele, os atenienses afirmam que “para os fortes o poder é a única regra, restando aos fracos a submissão”. A dominação do mais forte vale para todos, deuses e homens. É inútil revoltar-se, advertem, diante de interlocutores que pretendiam permanecer neutros no conflito entre Atenas e Esparta.

No século XX, a obra de Tucídides tornou-se um guia para a interpretação das relações internacionais, sendo frequentemente evocada quando se procura justificar a imposição da força nos conflitos de poder. Isso ocorreu sobretudo na Europa, onde os estudos clássicos constituíam a base da formação das elites, mas pode ser constatado também no continente americano, onde a mesma tradição de ensino, menos sólida, se afirmou à sombra do mais temível império de dimensões globais.

Uma leitura diferente era, no entanto, possível. Em vez de sustentar a invencibilidade dos mais fortes, o diálogo podia ilustrar o caráter efêmero do poderio de Atenas. Com efeito, pouco após a destruição de Melos, os atenienses sofreram sua mais clamorosa derrota ao tentarem dominar a Sicília. Posteriormente, a mesma cidade, então o maior império marítimo, seria humilhada por seus adversários, com a entrada triunfal do general espartano Lisandro em seu porto.

O significado do diálogo muda se o lermos antes ou depois da derrocada de Atenas. Ou, ainda, para leitores de Tucídides nas Américas, antes e depois de revoluções como a de Cuba, a pequena ilha que resistiu às ameaças dos vizinhos norte-americanos. O gênio do historiador grego consistiu em não esclarecer qual seria, a seu ver, a interpretação “correta”.

O panorama que Martínez Ortiz tinha diante de si parecia ineludível. Afastando de Cuba os colonizadores espanhóis no final de 1898, os Estados Unidos deram início à ocupação militar do país. Em 1906, os militares americanos o ocuparam novamente.

Nas primeiras décadas do século XX, os episódios de agressão direta por parte da maior potência militar do continente não se restringiram a Cuba. A ilha vizinha de Hispaniola sofreu ataques semelhantes no mesmo período. Em 1914, os fuzileiros navais enviados por Woodrow Wilson – o mesmo presidente que levaria o país à Grande Guerra –, desembarcaram no Haiti e confiscaram suas reservas de ouro.

Esse saque foi um desdobramento tardio da luta anticolonial. Anos após a independência, a França impusera compensações financeiras pelos prejuízos sofridos pelos antigos colonos. Do débito haitiano, que incluía em seu valor o preço dos seres humanos tratados como mercadorias pelos europeus, apropriou-se uma instituição financeira de Nova York, o Citibank (denominado então National City Bank). No ano seguinte, o Haiti sofreu uma invasão em larga escala dos marines, destinada, dessa vez, a perdurar por quase vinte anos.

Outro caso exemplar foi o da República Dominicana, na porção oriental de Hispaniola. Em 1905, os Estados Unidos assumiram o controle de suas alfândegas, confiscando suas receitas. Em 1916 ocuparam militarmente o território, preparando o caminho, anos mais tarde, para a ascensão do ditador Rafael Trujillo. Também nesse caso, a perspectiva de Martínez Ortiz, exposta por meio do diálogo de Melos, parecia incontestável, dada a avidez insaciável dos agressores.

Um dos casos mais emblemáticos de intervenção imperial nas Américas – em direta continuidade com o colonialismo europeu – ocorreu na Venezuela, ao menos quanto ao embate intelectual a que deu origem. A sombra desses acontecimentos se projeta até os dias atuais. Em 1902, potências europeias, Grã-Bretanha, Alemanha e Itália, impuseram um bloqueio naval para exigir que o governo venezuelano pagasse títulos públicos atrasados.

O jurista e político argentino Luis María Drago formulou a doutrina que leva seu nome, sustentando que nenhuma potência estrangeira poderia usar a força militar para cobrar dívidas financeiras. O princípio era ousado, introduzindo claras regras de justiça e visando estreitar a solidariedade entre as nações americanas. Os Estados Unidos recusaram-se a encampá-lo em sua forma original – e o Brasil seguiu a esteira do país mais forte.

A diplomacia brasileira, capitaneada pelo Barão de Rio Branco e por Rui Barbosa, alinhou-se a Washington. Na prática, agia em detrimento dos interesses de seus vizinhos. Rui Barbosa buscou se reposicionar mais tarde, lutando, na Conferência de Haia de 1907, para atribuir peso às “pequenas nações” nas disputas internacionais. Com essa guinada, o Brasil republicano projetava-se na cena europeia assumindo publicamente uma posição de inferioridade: colocava-se, por assim dizer, do lado de Melos, no campo dos mais vulneráveis. Tendo abandonado formalmente seu título imperial com o advento do regime republicano, inseria-se agora entre os pequenos Estados, a despeito de suas gigantescas dimensões territoriais.

Rui Barbosa parece não ter se lembrado de Tucídides durante os debates em Haia, mas o fez quase dez anos depois em Buenos Aires, ao se opor à neutralidade do Brasil na Guerra Europeia. Esse conflito logo passaria a ser denominado “Grande Guerra”. Mais tarde, com os eventos de 1939, consolidou-se a designação “Primeira Guerra Mundial”, na perspectiva que vê o movimento histórico irradiar do centro europeu para as periferias do mundo.

Também a Guerra do Peloponeso, narrada por Tucídides, consistiu em duas fases beligerantes separadas por um período de paz armada. Essas duas fases foram unificadas pelo historiador ateniense por meio de uma narrativa contínua, passando a ser vistas como momentos de um mesmo conflito. Menos clara é a possibilidade de agrupar a narrativa dos dois conflitos “mundiais”, mas a transformação longa e gradual da relação centro-periferia pode constituir um tema unificante.

Em seu discurso em Buenos Aires, Rui Barbosa equiparou a situação da Bélgica invadida pela Alemanha à de Melos, mas deixou de notar que, do ponto de vista colonial, o reino belga era uma “grande potência”. A pequena nação europeia exibira ao mundo um dos espetáculos mais cruéis de exploração das populações negras africanas. Nas entrelinhas da propaganda e nos usos dos textos clássicos, contudo, tanto na Europa quanto nas Américas, os povos não brancos jamais eram representados como uma das duas partes do diálogo de Tucídides. No teatro da dominação, os papéis eram distribuídos entre os ex-colonizadores europeus e a nova potência americana.

A revolução cubana – assim como, em tempos mais recentes, a experiência bolivariana – mostrou que a lógica ilustrada pelos atenienses no diálogo de Melos nem sempre consegue se impor. Não, pelo menos, quando exposta em leituras como a do cubano Martínez Ortiz, desmentido mais tarde por revolucionários que não temeram contrariar os interesses dos mais fortes.

Com efeito, segundo a outra interpretação possível do diálogo grego, o texto descreve a arrogância de Atenas às vésperas de sua derrota siciliana: mesmo impérios de grandes dimensões, cuja hegemonia parece sufocar toda resistência, encontram o seu declínio. Diante das transformações políticas atuais em todo o continente, percebemos, no entanto, que o jogo das referências a Tucídides nas Américas permanece aberto, o que explica a retomada cíclica das teorias antigas do poder.

As disputas eleitorais constituem um dos eixos centrais dos conflitos políticos que dividem hoje o continente de norte a sul. Esses momentos converteram-se em instrumentos pelos quais se exerce a violência externa em sua nova roupagem, a par de intervenções armadas, sanções econômicas e guerras de informação. Como ler então o processo político pelo qual passam as Américas? Pode-se continuar a compreender o continente à sombra de Tucídides?

À semelhança do que ocorreu na discussão da doutrina Drago, a postura brasileira nem sempre foi clara nos desdobramentos recentes da crise venezuelana. Ensaiar a equidistância, nesse e em outros casos, equivale, na prática, a sustentar interesses escusos. Agora, diante do espetáculo “à antiga” do cerco aos recursos venezuelanos, as elites se calam, sem reconhecer seu papel anterior como instrumento ideológico (bastaria acompanhar, na imprensa liberal, a cobertura tragicômica dos momentos de passagem do poder, quando o assim-chamado “ditador” foi institucionalmente sucedido pela “vice-presidente”). O mesmo ocorre com Cuba, onde a lógica predatória de certos lobbies (como os grupos de exilados na Flórida) é disfarçada pelo apelo recorrente, na imprensa e alhures, ao receituário das sociedades “abertas”.

Comentadores à esquerda também caem nessa armadilha quando reproduzem acriticamente o ideário do liberalismo no bojo da propaganda das potências ocidentais (e não apenas nas Américas, veja-se o caso das causas feministas instrumentalizadas na luta contra o Irã sob cerco internacional). A mesma ingenuidade impregna análises mais consistentes, como quando a política de intervenção americana nos países de língua espanhola é atribuída às origens do atual Secretário de Estado, Marco Rubio. Leitores afiados, conhecendo o diálogo de Tucídides, sabem resistir a semelhantes simplificações.

 Não basta, com efeito, se referir às veleidades de um político “hispânico” em Washington para explicar a continuidade centenária das intromissões do centro nos territórios periféricos. Fatores mais profundos distinguem os atuais conflitos de poder no continente daqueles que, um século atrás, levavam as elites das ex-colônias a evocar Tucídides. Não se trata apenas da alternância sem pudor – antes como agora – entre manipulação de pleitos e ameaças militares diretas. Trata-se da emergência de novos elementos, que nos impedem de pensar o cenário atual nos termos de Atenas contra Melos.

Se nos conflitos entre as cidades gregas antigas pairava a sombra de uma ameaça não grega – o reino dos persas –, no caso atual elementos de controle “externo” se insinuam no interior mesmo da potência dominante. Uma parcela consistente de analistas insiste em compreender as relações de dominação em termos duais. Buscam enxergar os interesses da nação hegemônica por detrás de suas ações nos cinco continentes, destacando as vantagens trazidas pela força militar e pela ingerência em pleitos eleitorais e em outros processos – econômicos, jurídicos ou mesmo religiosos.

Contudo, uma interpretação mais perspicaz revela que a oligarquia americana passou a adotar o enfoque nacional apenas como artifício de propaganda – os “interesses dos Estados Unidos” de que falava Martínez Ortiz, à luz do exemplo de Atenas. Mesmo as disputas que atravessam o continente americano não podem mais ser compreendidas sem que se levem em conta as preocupações das elites com projetos cujo centro permanece distante dos territórios nacionais – ou, para melhor dizer, dos temas clássicos do nacionalismo.

Esses projetos supranacionais concretizam-se de múltiplas formas, também por meio de interferências eleitorais, para além de agressões diretas, chantagens, guerras de informação e corrupção. As eleições – assim como o embate que se dá através dos aparatos judiciários, como no caso extremo do Brasil – integram esse novo percurso das relações de poder. Por isso, a atual dinâmica do processo político brasileiro, profundamente transfigurada por seu deslocamento para a esfera jurídica e para as disputas no interior dos tribunais superiores, não se restringe aos temas mais propalados no debate público.

Martínez Ortiz, preocupado com o destino de Cuba, concluiu sua tradução de Tucídides revelando o desfecho dos eventos relatados pelo historiador mais adiante na narrativa. Depois de os habitantes de Melos recusarem a submissão, “os atenienses tomaram por fim a cidade, passaram a fio de espada os homens em idade de portar armas que caíram em seu poder, e reduziram à escravidão mulheres e crianças. Mais tarde, estabeleceram-se eles mesmos no país e enviaram uma colônia numerosa para repovoá-lo”. Não foi essa a parábola de Cuba, graças à revolução.

O diplomata e tradutor também se esqueceu de mencionar a capitulação de Atenas, ocorrida nos anos que a narrativa de Tucídides, tal como a conhecemos hoje, não chega a cobrir. Já a derrota dos atenienses na Sicília, pouco após o diálogo de Melos, recebe uma descrição bem mais longa e dramática, revelando a percepção que o império agonizante adquiriu de seu declínio.

¨      Os vai-e-vens da história. Por Emir Sader

Quem, como eu, que nasceu ainda nos anos 1940, pôde viver avanços e retrocessos concentrados em poucas décadas, como nunca a humanidade havia vivido. Cresci em pleno boom do capitalismo, em seu pleno ciclo longo expansivo, no segundo pós-guerra, quando a industrialização e a urbanização prometiam um mundo melhor, mais confortável, com mais empregos e mais integração do planeta, em que o progresso parecia não ter limite.

A década iniciada com a Revolução Cubana, teve em sua continuidade a Revolução Argelina, as barricadas de Maio de 1968, a Revolução Cultural na China, a gesta de Che Guevara, os movimentos negros pelos direitos civis nos Estados Unidos, a vitória da Revolução no Vietnã, a vitória da Revolução Sandinista.

Parecia como se o mundo estivesse virando uma página sem volta de crise definitiva, de esgotamento do capitalismo e da hegemonia do imperialismo norte-americano, de esgotamento do modelo soviético de socialismo, da projeção do Sul do mundo como o futuro da humanidade.

Minha primeira tarefa como militante político foi a de distribuir um jornalzinho de esquerda, onde aparecia a foto de uns barbudos que haviam derrubado uma ditadura na América Central – naquela época ainda não existia o Caribe. De forma mais ou menos rápida, aquele movimento antiditatorial foi logo se transformando em uma revolução nacionalista, antimperialista e socialista, até se transformar no sentido mesmo de Revolução para a minha e para outras gerações, em plena América Latina.

Os movimentos guerrilheiros latino-americanos apareciam como a continuação da vitória cubana até que, entrem outras tentativas, se chegou, 10 anos depois, às guerrilhas tiveram uma nova vitória na Nicarágua.

O mesmo ano de 1979, da vitória sandinista, da Revolução iraniana, da instalação de um governo progressista em Granada, outro em Suriname, da eleição de Fidel Castro para presidente do Movimento dos Países Não-Alinhados, marcaria também de uma virada sem precedentes na história contemporânea.

Se, por um lado, foi o ano dos tantos avanços mencionados, simbolizados pela retirada desmoralizante dos Estados Unidos do Irã, por outro ocorreram dois grandes acontecimentos com consequências negativas: a guerra Iraque-Irã e a invasão soviética do Afeganistão.

A crise de 1973 tinha colocado os grandes países ocidentais, que eram os maiores consumidores de petróleo, a necessidade de buscar fontes de alternativas de energia, de mudar o estilo de circulação de veículos diante do enorme e brusco aumento do preço do petróleo. Falava-se de energia solar e de carros pequenos, que gastassem menos gasolina.

Mas a solução do bloco ocidental veio por outro lado: fomentar a guerra entre as duas maiores potências do Oriente Médio: o Iraque e o Irã. Uma guerra selvagem, que quebrou a unidade do mundo árabe, que tinha levado ao aumento do preço do petróleo em 1973 e à forte reivindicação dos direitos da Palestina, e que neutralizou o poder político de ambos os países. Essa ação foi complementada com a primeira guerra do Iraque, quando os Estados Unidos se instalaram definitivamente na região, garantindo o abastecimento de petróleo a preços baratos.

A invasão soviética do Afeganistão surgiu como outra questão polêmica, que dividiu o Movimento dos Países Não Alinhados, enfraquecendo a presidência de Fidel Castro.

Fracassou o governo mais brando de Jimmy Carter, depois da queda de Richard Nixon, para dar lugar a uma nova Guerra Fria, promovida por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, que levaram à vertiginosa ascensão do neoliberalismo no mundo.

Desde então, vivemos um começo de século XXI de reação latino-americana ao auge do neoliberalismo, na ultima década do século anterior. Com os governos antineoliberais na América Latina, que fizeram do continente o epicentro da luta contra o neoliberalismo e, portanto, o epicentro das grandes lutas deste século.

Pudemos conviver com o Brasil do Lula, com a Argentina dos Kirchner, da Venezuela de Hugo Chávez, do Equador de Rafael Correa, do México de Lopez Obrador, do Uruguai de Pepe Mujica, da Bolívia de Evo Morales, entre outros.

Voltava a sensação de que vivíamos uma época de avanços senão revolucionários, pelo menos antineoliberais. Mas tivemos também que viver com o fim da Uniao Soviética e do campo socialista, que parecia prenunciar um novo período de hegemonia imperial norte americana.

Porém, surgiram os Brics, o fenômeno mais importante deste começo de século XXI. Se restabelece a polarização mundial, tendo sempre os Estados Unidos como eixo do campo imperialista.

A sensação é que não se trata de que a roda da história não volta para trás. Já aprendemos que a história tem vai-e-vens, embora, com o declínio do império norte americano, a tendencia é favorável, contra a hegemonia que o campo imperialista teve no século passado.

Se pode projetar um século de maiores avanços do campo popular, ainda que sem um horizonte socialista. Mas de um horizonte antimperialista, nacionalista, popular. A história é sempre um processo aberto, com suas idas e vindas. Ela depende das lutas sociais, politicas e ideológicas.

Mas inquestionavelmente o século XX ficou para trás. Este é um século de transição. Resta saber como estará o mundo na metade do século XXI.

 

Fonte: Por Paulo Butti de Lima, em A Terra é Redonda

 

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