O
sufrágio feminino se transformou no fenômeno das eleições brasileiras
de 2026?
Não há
candidato ou Instituto de Pesquisa nessas eleições que não esteja se ocupando e
preocupando com a votação das mulheres. Desde defender a ideia estapafúrdia de
que as mulheres não deveriam mais votar, existindo inclusive redes de
influencers atacando o voto feminino no país até insistir e buscar dar atenção
para o fato delas serem “maioria entre indecisos e cobrarem propostas ligadas
ao cotidiano”, a gente quase chega a ficar surpresa com tamanha atenção.
É
verdadeiramente um fenômeno político destacável como o voto das mulheres se
tornou decisivo em 2026, ganhando proeminência pública, midiática e nas
próprias campanhas político-eleitorais. Não há um único meio de comunicação que
não esteja chamando atenção para o fato. E toda essa mobilização se deve
basicamente a indicadores relativamente simples: segundo o Datafolha, 29% das
eleitoras ainda não definiu o voto, contra 16% dos homens. Elas representam
quase 53% das pessoas aptas a votar no país e ainda, segundo a mesma fonte (em
pesquisa de julho de 2026), seriam menos influenciadas do que homens pelas
opiniões de amigos, filhos, líderes religiosos e companheiros. Assim, a decisão
de voto delas tenderia a depender mais da avaliação individual a respeito das
candidaturas e propostas apresentadas e essa decisão, de uma forma geral,
costuma não ser tomada cedo, mas apenas próximo do dia da votação. E vamos ver,
ao que tudo indica, essa atenção escalar ainda mais nesses últimos dias de
campanha.
Historicamente
já sabíamos que as mulheres levam mais tempo para decidir seu voto, pois elas
esperam por propostas, costumam aguardar a apresentação detalhada dos projetos
e planos de governo antes de definir e, questões práticas como economia,
segurança pública, saúde e políticas sociais, pesam bastante na escolha final
delas. Além do mais, são elas que estão dragadas pelas múltiplas jornadas,
demandas materiais e concretas da vida e dos cuidados, estudos, trabalho (que
nunca termina quando se chega em casa), pelo tempo extenso gasto nos
transportes e por aí vai.
É
preciso olhar de forma mais séria para esse fenômeno porque algo que a
princípio poderia sinalizar visibilidade positiva para os direitos políticos
das mulheres pode se transformar numa espécie de cilada ou de armadilha. Nas
“redes sociais, circulam programas inteiros e ‘cortes’ de vídeos e podcasts que
acumulam milhares de curtidas e comentários ao exibir frases como ‘o voto
feminino é o erro da democracia ocidental’. Outros trechos responsabilizam o
sufrágio feminino por problemas da sociedade e pelas dificuldades da vida do
homem moderno” (Reportagem da BBC, 14 setembro de 2026).
Para
compreendermos melhor o que se passa hoje, acho que precisamos dar alguns
passos históricos para trás e entender que o nosso impasse democrático (senão
corrosão e declínio) começou com um ataque violento e misógino a uma mulher. Na
perspectiva institucional e da cultura política do golpe contra a democracia
brasileira é preciso sempre relembrar a figura emblemática de Dilma Rousseff.
Entre
2014 e 2015, o “impeachment” começou a parecer, especialmente para os
insatisfeitos das elites capitalistas e políticas do país que não mais ganhavam
as nossas eleições, uma solução plausível para encerrar o governo recém
reeleito de Dilma Rousseff e expurgar o PT da arena governamental. Findo o
exercício das muitas alternativas de se vencer “no tapetão”, seja pela a)
tentativa de impugnação da eleição por fraude, seja pela b) tentativa de
cassação da chapa por abuso de poder econômico e, é claro, estelionato
eleitoral; o inconformado então candidato derrotado Aécio Neves (o
“insatisfeito” e/ou o “ungido”, que almejava a presidência da República, a
posição que lhe havia sido “prometida” pelos padrinhos), e que perdeu as
eleições em outubro de 2014, sobreveio afinal a ideia do impeachment.
Esta “saída” revestiria de alguma institucionalidade a intervenção abrupta no
sistema político, com o único objetivo de encerrar o ciclo de vitórias
eleitorais do PT.
Se o/a
eleitor/a não parecia querer desistir de eleger o PT, a “saída” formulada foi a
de substituir o/a eleitor/a pelo Congresso Nacional. Não qualquer Congresso,
mas o mais conservador desde 1964 (segundo o DIAPP) e ainda, principalmente,
constituído por uma maioria de homens, muitos deles indiciados e acusados de
toda a sorte de crimes. Havia institucionalidade suficiente para realizá-lo com
o verniz de contestação do argumento da ilegitimidade.
O STF,
esse mesmo que hoje “se desmancha no ar”, desempenhou o seu papel de testemunha
e de atribuição da legitimidade, com a sua adesão à farsa e com festejo dos
meios de comunicação, que após campanhas importantes de rodadas de (de)formação
e (des)informação, consolidaram o apoio da maioria da opinião pública. Ao mesmo
tempo, passou-se a dar visibilidade máxima à Operação Lava Jato (o braço
jurídico-midiático do restante das reiteradas tentativas de aniquilamento do PT
e de Lula). Durante algum tempo, a grande maioria dos brasileiros saudou o
surgimento da operação Lava Jato como instrumento para fortalecer a democracia
brasileira; mas as irregularidades processuais e a seletividade das
investigações e dos próprios investigadores começaram a demonstrar que, de
fato, não se tratava de combater “a” corrupção, mas de esforços de tentar
liquidar, agora pela via judicial e através de lawfare (e não apenas
pela via política), as conquistas sociais das últimas décadas no país.
A
destituição ilegítima de Dilma Rousseff, a primeira e a única mulher Presidenta
da nossa história, foi o primeiro decisivo ato do golpe contra a nossa
democracia, aquele golpe que pôs fim à Nova República brasileira, iniciando a
organização de uma espécie de estado de exceção no Brasil e abrindo as portas
para o ataque autocrático do país.
O
famigerado “impeachment” foi ademais permeado de misoginia, ataques
violentamente sexistas, revelando a dimensão recolonizadora, neoconservadora e
moralmente autoritária e de uma espécie – ainda tímida naqueles tempos – de
ofensiva antifeminista e antigênero – de matiz cisheteropatriarcal branco e
golpista. Escrevi/relatei sobre isso, juntamente com conjunto extenso de
pesquisadoras e ativistas entrevistadas no livro “Mídia, Misoginia e Golpe”,
ainda no ano de 2016.
Ao
longo de 2015 e 2016, estiveram nas ruas contra o neogolpe basicamente: os
próprios petistas (uma parcela deles pelo menos), alguns formalistas
políticos/defensores das regras do jogo (acadêmicos/as do direito
constitucional e cientistas políticos e/ou sociólogos/as políticos/as com
apreço às regras e aos procedimentos democráticos e do Estado de Direito) e, ao
lado destes, uma extensa e fundamental rede de mulheres que foi, afinal, a
contenção e o amparo para Rousseff quando ela, solitária e abandonada (inclusive
pelo próprio PT), sofreu o golpe.
Antes e
durante o golpe, no espaço público das classes médias, em efetivo momento de
catarse nacional, as mega-manifestações designadas como “coxinhas”, vestidas
com camiseta verde amarela da Seleção brasileira e bradando pelo retorno da
ditadura militar foi se promovendo o necessário ajuste da opinião pública.
Parte das classes médias ressentidas, finalmente, se tornou visível,
abertamente apoiada (senão instrumentalizada) pela espetacularização midiática
da Lava Jato. Segmentos de classes médias urbanas e metropolitanas, fortemente
“mobilizados” pelas panelas e pelas ruas, passaram a se sentir “agentes da
transformação” e da “limpeza” ética da política no país, tendo ido “às ruas”
para, emblematicamente, “punir” o PT, espumando o seu atávico ódio de classe,
bem como o seu temor coletivo (talvez ainda não consciente) de mais “perdas”
com a nova redistribuição econômica e do poder político.
E na
sequência foram, mais uma vez, as mulheres brasileiras que protagonizaram
importante e massiva manifestação pública e política contra a possibilidade, no
pós-Temer e da “Bela, Recatada e do Lar”, da ascensão ao poder presidencial do
pior dos líderes, gritando a plenos pulmões que “Ele Não!”. E tivemos que
escutar, eu cientista política pelo menos (já que um dos escritores a trazerem
a público essa “hipótese”, publicando-a em um jornal de circulação nacional,
foi colega de meu Departamento), que as mulheres teriam sido “responsáveis”
pela eleição de Bolsonaro pois estavam “desfilando sua nudez radical” em
momentos inoportunos civicamente. Lembro que já era prenunciado os
ataques sistêmicos de fakenews nas colagens de outras manifestações
(como a Marcha das Vadias) como se tivessem sido do #EleNão. E é sempre bom
lembrar da presença de uma máquina de ódio bem financiada e promovendo ainda
intensos ataques de violência política contra a então candidata à
vice-Presidência, Manuela D’Ávila. Foram sequenciados e ininterruptos ataques
recheados de mentiras, ameaças de estupro e de morte nas redes sociais durante
toda a campanha. Recorrentes as imagens disseminadas pelas plataformas com
fotomontagens e dezenas de notícias falsas, quando circulou uma imagem manipulada
digitalmente em que Manuela vestida com camiseta preta com a frase “Jesus é
travesti” (a foto original exibia, na verdade, a palavra “Rebele-se”).
Ao
mesmo tempo, as conexões do novo governo ilegítimo pós-golpe se rearticularam e
o processo do golpe, iniciado com o impeachment, se aprofundou para as
ações de verdadeiro “estelionato eleitoral” da dupla de governo ilegítimo
Temer-Meirelles, que passou (de forma vertiginosamente célere) a lutar para
implantar políticas públicas anti-sociais (que rapidamente se transformaram em
antigênero), de austeridade fiscal e contendo reformas pró-mercado, com foco na
diminuição do Estado. Quase todas elas, não coincidentemente, sucessivamente
rejeitadas pelo voto popular nas últimas quatro eleições presidenciais
anteriores. Como o mandato presidencial de Temer – o “vampiro
ultraneoliberalista”, desfilado pela Paraíso do Tuiuti em 2018 – rigorosamente
era sem compromisso com a soberania popular, houve pressa no desmonte estatal,
que veio, de fato, de forma galopante contra os direitos e conquistas de uma
população já agora aturdida, desorientada e exaurida pela “doutrina do choque”.
E foi nesse contexto que emergiu o “mito”.
Os
articuladores do golpe, entretanto, subestimaram os cenários políticos
possíveis ao pós-golpe contra a democracia. Imaginaram, parece-me, que em 2018
– dois anos depois do golpe – teriam já o cenário eleitoral mais favorável: ou
dominado por Aécio, ou por Alckmin, ou por alguma candidatura do MDB de Temer,
ou ainda por alguma candidatura do DEM. Mas não foi assim… Com o golpe
consumado, o cenário eleitoral de 2018 se abriu em todo o seu potencial
desestabilizador da democracia brasileira. O sentimento anti-política, as ações
abertas de necropolítica do governo de exceção, fragmentou e polarizou
emocionalmente a oferta de representação política, além de despertar as forças
fantasmagóricas dos conservadorismos/fascismos da extrema-direita à brasileira.
Foi assim que o “mito” chegou à presidência do país – um parlamentar medíocre
do baixo clero do Congresso nacional, misógino, truculento que declaradamente
“odiava as mulheres”– e governou emplacando uma agenda anti-direitos e
antifeminista de dar inveja a líderes autoritários da direita global. O próprio
IPEA reconheceu essa face e narrou em Textos de Discussão/TD a construção
acelerada das retóricas da ofensiva antigênero e do anti-feminismo de Estado
bolsonarista, declarando seu governo como uma fase de “deslegitimação da agenda
e desmonte das políticas” (IPEA, TD 2866, Tokarski, Matias, Pinheiro e Correa,
2023). E, mais uma vez, foram as mulheres as atacadas. E os anos de pandemia
trouxeram mais terror para o país: trancadas em casa, muitas delas com os próprios
agressores, precisavam conseguir sobreviver e fazer sobreviver os seus.
Mas
também foram elas resilientes. Especialmente a partir do feminicídio político
de Marielle Franco (março de 2018) e das eleições daquele ano, seis fenômenos
interconectados afetaram sobremaneira as intenções de voto, a elegibilidade e
os ativismos recentes de mulheres no Brasil: metade para enterrá-los e a outra
metade revelando a face mais objetiva das formas de resistência feminista. O
primeiro deles foi a escalada da violência política, com o especial aumento da
violência política contra as mulheres e o agravamento dos casos quando se tem
nem perspectiva as dimensões interseccionais. Esse foi e continua sendo o
cenário e o pano de fundo de praticamente todas as candidaturas e de todos os
mandatos de mulheres neste país (principalmente à esquerda, mas também à
direita), pelo menos desde 2016. Essa moldura ganhou contornos inimagináveis
com o crescimento da “nova” direita no país – o segundo fenômeno
interconectado-, que vem sistematicamente recrutando corpos, inclusive de
mulheres, para as suas fileiras: o que tenho chamado de feminização do
autoritarismo. Soma-se a esse caldo de horrores, a disseminação e o ativismo
publicamente reconhecidos (senão valorizado) dos atores masculinos tóxicos da
“machosfera”. Esse terceiro fenômeno tornou possível a articulação e
transformação do ódio misógino em lucro do capitalismo de vigilância, que
passou a ser promovido, sem freios, pelas plataformas digitais e sua rede de coaches.
Violência política em nova escala e magnitude se conecta de forma quase
umbilical ao crescimento da nova direita e à aceleração e disseminação da
misoginia a partir da “machosfera”.
As
resistências das mulheres se apresentaram principalmente a partir da forte
presença de estratégias de ação oriundas do que chamo de ativismo
interseccional feminista (onde principalmente os movimentos feministas
conseguiram aglutinar pautas e ações): sendo este o quarto evento
interconectado. Esse formato de ativismo novo para os feminismos brasileiros,
teve no assassinato de Marielle Franco uma ancoragem singular: as “sementes de
Marielle”. A partir de um renovado movimento feminista negro, por exemplo,
ativistas, lideranças sociais e políticas negras, periféricas, todas feministas
e defensoras dos direitos humanos, se inspiraram no legado de Marielle para
ocupar espaços de poder e continuar a luta de transformação da realidade em
suas comunidades. Claramente o termo faz referência simbólica à frase “não nos
mataram, plantaram sementes”, usada após o crime bárbaro para indicar que essa
morte multiplicaria as lutas das mulheres brasileiras por justiça e igualdade.
Inclusive, o Instituto que leva o nome da vereadora, criou em 2021, a Rede de
Sementes de Marielle Franco como um espaço de articulação que conecta
ativistas, educadoras, mães e juventudes em todo o Brasil.
Mas
esse formato de ativismo feminista veio com e foi além de Marielle, conectando
lutas de mulheres negras e brancas, cis e trans, periféricas, pobres e de
classe média, alta e baixamente escolarizadas, indígenas, quilombolas, ciganas
de diferentes regiões do país (e mesmo fora dele). O quinto evento
interconectado refere-se ao fato de ter se renovado na ocupação das redes
(Blogueiras Feministas, Blogueiras negras etc.), a partir de uma juventude
feminista antirracista que transbordou para a ocupação massiva das ruas,
através de protestos e grandes manifestações coordenadas por mulheres. Esse
fenômeno tornou-se evidente através das ocupações das escolas no Brasil que
ocorreram em duas grandes ondas principais entre 2015 e 2016, no movimento que
ficou conhecido como Primavera Secundarista. Em que pese tenha sido um
movimento misto, foram as jovens estudantes a linha de frente do movimento,
coordenando assembleias, a segurança e a rotina diária das escolas ocupadas.
Elas eram ademais a porta-vozes e a face pública da visibilidade: meninas como
Ana Júlia (estudante curitibana cujo discurso na Assembleia Legislativa do
Paraná ganhou projeção nacional) tornaram-se símbolos da resistência estudantil
e foram elas que promoveram estratégias de gestão comunitária e cuidado
coletivo, organizando uma radical e inovadora forma de divisão sexual de
tarefas cotidianas dentro dos prédios, como limpeza, vigília, segurança contra
invasões e na preparação de refeições coletivas. Foram elas também que
conduziram círculos de estudo, debates sobre política, gênero e sociedade,
desafiando a estrutura hierárquica tradicional das escolas e da própria
sociedade brasileira.
O sexto
e último evento interconectado refere-se ao fenômeno de presença inédita de
propostas e de eleição concreta de mandatos/mandatas coletivos/as, quase sempre
capitaneados por mulheres negras, periféricas e feministas, que incluíam outras
minorias tais como LGBTs, indígenas etc. Estas mandatas foram laboratório vivos
de inovação democrática. O modelo ganhou grande visibilidade a partir de 2018 e
se multiplicou nas eleições municipais de 2020 por todo o país, desafiando o
formato tradicionalmente individualista das campanhas, dos mandatos e da
própria política brasileira, quando se passa a dividir o poder e as decisões
com um grupo de co-vereadoras ou co-deputadas, – por meio de renovados pactos
políticos. Além do mais, houve impulsionamento inédito no país de candidaturas
de mulheres negras, jovens, trans, lésbicas e indígenas, pavimentando os
esforços de renovação (para além da inovação) democrática.
Os seis
eventos descritos brevemente acima se interconectam justamente em função das
próprias mulheres que, ora são tratadas como alvos e, exatamente por isso,
reagem como agentes da sua própria transformação. Ficando apenas na cena
contemporânea política mais recente, que começou com o golpe contra Dilma (em
2016) e chegou até a criação das mandatas coletivas, a política brasileira
contemporânea se viu totalmente atravessada pelo protagonismo das mulheres em
sua diversidade constitutiva e pelo seu correlato maléfico inverso reativo: o
ódio contra elas, os seus direitos, os avanços e as suas pautas.
Não é
nem um pouco verdadeiro, portanto, afirmar que é apenas nas eleições de 2026
que a participação, a representação e o voto das mulheres importam neste país.
Respondendo à indagação que dá título a este ensaio: para esta autora, o maior
fenômeno das eleições brasileiras de 2026 é, justamente, reconhecer a
trajetória e o legado recente de pura e necessária resistência democrática
feminina neste país. A depender apenas dos homens, o Brasil já teria se
transformado numa republiqueta de fachada, a serviço dos interesses do
neoimperalismo das direitas globais, a um só tempo rentistas, fundamentalistas
e fascistas.
O voto
das mulheres importa, as candidaturas das mulheres importam, as mulheres que
elegemos importam, as mulheres que continuam ativas e agentes transformadoras
da vida importam, são elas que continuam sustentando a vida e a renovação
democráticas num cenário de pura desolação cívica, seja nas redes, nas ruas,
nas escolas, nas universidades, nas periferias, no campo, nas aldeias, no
Estado e em todos os lugares desse país.
Mas
igualmente é verdade que não são todas as mulheres, por certo, comprometidas
com a sustentação da ainda frágil democracia brasileira e há sim mulheres que
participam, votam e lideram movimentos de direita radical por aqui. Mas somos
em número suficiente ativas protagonistas da resistência e estrategicamente
posicionadas para a urgência política do papel que nos coube no atual cenário
da política brasileira: o de continuar a produzir os nossos melhores esforços
para retirar o país das garras do autoritarismo, especialmente quando esse
avanço autoritário vem acompanhado de pautas antigênero, antifeministas e de
restrição de direitos. Assim, quanto mais o gênero (sempre em perspectiva
interseccional) é politizado como ameaça pela nova direita, mais os feminismos
se tornam espaços centrais de organização e resistência políticas. E os
Institutos de Pesquisa, os e as jornalistas, os e as pesquisadoras de Ciência
Política que estão nos meios de comunicação de massa fazendo esse debate
parecem, nitidamente, que ainda não compreenderam isso.
Se em
mais de 25 países europeus já se encontrou associação entre determinadas
dimensões da promoção política e socioeconômica das mulheres e mudanças no
hiato de gênero relacionado à direita radical (Path, 2022), discutindo
justamente mecanismos de backlash de gênero, aqui não é diferente.
Estamos em um ciclo de avanços e de reação a eles: e são as mulheres que mais
empurram para os resultados políticos de conservação das democracias (aqui e em
todo mundo). Esses “analistas” se esquecem que as mulheres já possuíam redes de
organização construídas muito antes da atual reação neoconservadora e contam
com elas hoje, agora! Essa parte é muito importante. Os feminismos não
começaram a se organizar quando a nova direita chegou ao poder. Estamos nesse
enfrentamento desde o alvorecer da modernidade, e é esse legado que nos fornece
as condições morais e a infraestrutura de habilidades e capacidades necessárias
para a resistência. Os detratores dos direitos das mulheres (os antigos e os
novos) não podem apagar o que já fomos e tudo de centralmente importante que já
fizemos (apenas poderão destruir o que poderemos ser e fazer adiante).
Somos hoje, cada mulher com consciência crítica do momento liminar que estamos
vivendo, centrais na luta pelo futuro e pelo futuro das democracias em todo o
mundo.
Em que
pese como cientista política e acadêmica feminista ainda seja importante
estudar e compreender melhor como simultaneamente a participação das mulheres
na direita radical e o caráter generificado da própria direita radical vêm
colaborando – via feminização do autoritarismo – para os processos de backlash
antigênero contemporâneo, esta parcela de mulheres é uma minoria no Brasil.
Além do mais elas também são, frequentemente, alvo de violência política contra
as mulheres que pode e deve ser analisada não apenas como uma consequência
individual de conflitos políticos atuais, mas como parte de uma disputa mais
ampla sobre quem pode ocupar o espaço público, falar, representar e exercer, de
fato, o poder. E antes, certamente antes de serem políticas de direita, elas
são mulheres. E serão tratadas pelos homens de direita desta forma: como
mulheres. Há muitas evidências de que mulheres defensoras de direitos humanos
enfrentam justamente uma combinação de ameaças físicas, violência online,
criminalização e restrição do espaço cívico, incluindo nesse bojo, as próprias
mulheres de direita (os casos de Joyce Hasselmann e de Michele Bolsonaro são
emblemáticos).
Assim,
as mulheres aparecem como as frentes de resistência ao avanço da direita não
por uma suposta predisposição feminina à resistência, mas porque a disputa
contemporânea em torno da ordem social, dos direitos e da democracia passa
indiscutivelmente e fortemente pelo gênero e suas dinâmicas interseccionais. E
nem vou repetir aqui o meu rechaço à enxurrada de baboseiras que temos de
escutar inclusive dos homens progressistas, que ainda tentam encaixotar e
tratar as nossas lutas, profundamente democráticas, como “identitárias”.
Resistimos a estes também, sem alianças portanto. Se recusam a compreender que
os movimentos feministas (em todos os seus matizes) foram protagonistas de
transformações que alteraram relações de poder, e também não conseguem identificar
o backlash contra essas transformações como o motor que produz as
condições para a mobilização e a resistência feministas. E sempre é bom
declarar: não nos interessa, como feministas interseccionais, eliminar a
participação feminina no campo da direita. Elas mesmas vão se encontrar, e com
a dor inerente, as próprias grades, é apenas uma questão de tempo.
Mas eu
acharia bom que os analistas políticos atuais passassem a compreender os
feminismos, finalmente, como uma espécie de “infraestrutura social de
resistência política” e isso não apenas nos períodos eleitorais e em relação ao
voto feminino. Somos uma transformação em movimento, imparável.
Fonte: Por
Marlise Matos, no Blog da Boitempo

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